quarta-feira, dezembro 30, 2009

ALÔ 2010,
TE QUIERO CON LIMÓN Y SAL!

Feliz ano novo para mim. Para vocês, não.

segunda-feira, dezembro 28, 2009


Shia LaBeouf me ganhou cem vezes, há muito tempo eu não assistia a uma atuação tão delicada; debulho-me em lágrimas por aqueles olhinhos ternos. Um filme fluído, soltinho, gostoso. Poucos os que deram bola fora, os que decepcionaram. Uma fofura. Bem melhor que "Paris, Eu te amo", sim senhor. Andy Garcia continua um homem lindo, apesar dos anos, sim senhor.

sábado, dezembro 26, 2009

25/06/09

é que eu sempre fui muito derramada

22/04/09

V

- O que você vai comer?
- Nada, estou sem fome.
- Então o que você veio fazer aqui?
- Pode fumar aqui dentro, não pode?
- Não.
- O que você vai comer?
- Você.
- Eu não estou no cardápio.
- Está sim, olha aqui: galinha.
- Galinha é a sua mãe.
- Você é a minha mãe. Uma noite você abriu as pernas e, paf!, eu nasci.
- Sério?
- Aí noutra noite você disse que não me queria mais.
- Que coisa horrível!
- É, não sei o que eu vim fazer aqui.
- Você veio me dizer que eu sou uma péssima mãe.
- Vamos falar sério.
- Não estamos falando?
- Eu não quis te magoar, desculpe, foi uma comparação infeliz. Quer que eu pergunte ao garçom se você pode fumar aqui dentro? Quero ser seu amigo, vamos ser amigos?
- Quer dizer que não estávamos falando sério?
- Como assim? Por que você está chorando?
- Porque eu tinha acreditado.
- Acreditado em quê?
- Naquilo que você falou. Que eu te pari.
- Puta merda! Você quer me enlouquecer! Você não vai conseguir, você não vai conseguir me enlouquecer, entendeu bem?
- Por que você mentiu pra mim?
- Pára de chorar, todo mundo está olhando pra cá!
- Eu nunca pensei. Eu nunca pensei que você fosse capaz de mentir pra mim.
Mas sou daquelas que tudo sentem e para quais tudo custa.

segunda-feira, dezembro 21, 2009

- Meus demônios estão de férias. - eu me respondo quando questiono o fato de não escrever há um mês. - Em Ibiza. - aí sorrio.

quinta-feira, dezembro 17, 2009

Eu não aguento os que resolvem sofrer pelo mesmo motivo ad eternum. Não tenho saco. Bateu o reloginho, chega. Cessou. Já deu. - Do que você é feita, mulher? - pergunto ao te ver desmanchando-se pela quadragésima vez no mês. Quer sofrer? Tá legal então, mas sofra direito. Fica aí sofrendo toda troncha. Postura! Se melecar é coisa de amador. O principiante, explico e rio, não o que ama. Você pode até quebrar tudo, encostar na parede e ir descendo assim com a mão no peito, aos prantos. Chico Buarque cantando que se arrastou, e arranhou, e se agarrou nos cabelos, nos pêlos, no pijama. Acho bonito, acho válido. Em casa. E uma vez a cada quinze dias. Todo dia vira palhaçada. Na rua, então, nem se fala. Abaixe os óculos escuros e responda que não tem nada quando te perguntarem. Quer fazer cena, faça direito. Ficar se lamuriando é um enjôo. Não se trata de sofrimento falso, eu te explico quando você me acusa de fazer teatro com a vida, só estou te aconselhando a sofrer em outro tom. Mas se você quer ser cafona, problema é seu: liga Mariah Carey cantando I'd give my all to have just one more night with you e deixa o catarro escorrer, vá lá.

domingo, dezembro 13, 2009

Eu tenho nojo de quem mastiga chiclete. Não consigo achar normal um indivíduo colocar uma massa de borracha na boca e dar dentadas consecutivas enquanto fala com você. A borracha, que vai perdendo a cor, banhada de saliva. Passeia pelos cantos da boca. Eis que surge uma bola. Ploc. "E cospe esse chiclete, por favor."

segunda-feira, dezembro 07, 2009

"— E você aceita tudo isso assim quieto? Não reage? Por que não lhe dá uma boa sova, não lhe chuta com mala e tudo no meio da rua? Se fosse comigo, pomba, eu já tinha rachado ela pelo meio! Me desculpe estar me metendo, mas quer dizer que você não faz nada?
— Eu toco saxofone."

Lygia Fagundes Telles que eu lembro em horas como estas.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Só quero dizer que estou toda boba. É o que têm dito e eu assino embaixo. Estou mesmo. Boba. Toda.

quarta-feira, dezembro 02, 2009

"Vela inteira não me ilumina,
Cotoco de vela quer me iluminar?
Chuva grossa não me molha,
Sereno quer me molhar, meu senhor?"

segunda-feira, novembro 30, 2009

"O que quer dizer 'pensar em alguém'? Quer dizer: esquecê-lo (sem esquecimento a vida é impossível) e despertar freqüentemente desse esquecimento. Por associação, muitas coisas te trazem para o meu discurso. 'Pensar em você' não quer dizer nada mais que essa metonímia. Porque, em si, esse pensamento é vazio: eu não te penso; simplesmente te faço voltar (na mesma proporção que te esqueço)."

Roland Barthes é uma delícia com seus Fragmentos de um Discurso Amoroso. (Alguém leu o livro que hoje tenho em mãos antes do meu nascimento. Colocou a data. Eu ainda não existia e alguém estava lendo um livro que acabaria na minha prateleira. Isso me chocou mais que qualquer fragmento. Tenho como costume chocar-me.)

mudando de idéia - parte II

(descartar também calorzinhos - porque têm fome, crescem rapidamente e transformam-se no calor progenitor, o mesmo que você sabiamente descartou. somente preservar a espécie calor-anão, que não cresce e tem filhotes da mesma condição genética.)

sexta-feira, novembro 27, 2009

Longe do berço: às vezes é muito difícil.
E por que não volta pro aconchego?
Porque às vezes não.
"De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo."
Adélia Prado

quarta-feira, novembro 18, 2009

Estante Virtual é um site muitíssimo engraçado. "Livro comido de traça da pág 231 até a 236, alguns pontos amarelados, capa em brochura com certa sujidade". No final da descrição, a seguinte frase: livro em bom estado. Aham.

Quando eu clico em algum escrito "estado razoável" imagino que o livro não conseguirá chegar até minha casa, corre sério risco de deteriorar-se pelo caminho. Receberei um saquinho de pó, talvez.

Acesse já e compre seu livrinho em estado de putrefação custando menos que uma pastilha de hortelã Garoto. Eu acesso. E me sinto fazendo um bem para a humanidade, é quase como adotar uma criança em estado vegetativo. (Pausa para que você responda: mimimi ai que humor negro mimimimi.) Acho digno. E altruísta.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Amar é perceber. Desamar é desperceber. E ponto final.

Desmistificando:

César tocou meu ombro nu para avisar que a hora havia chegado. Terminei de mastigar alguma coisa que eu não lembro o que era, talvez uma ausência. Eu, Aurora, quarenta e dois anos mastigando ausência nas entrehoras do dia, um coque pomposo no alto da cabeça e duas pérolas nas orelhas. Eu, Aurora, cem anos de sono. E viveram felizes para sempre. É mesmo? Não. E o príncipe? Que príncipe, meu bem, que príncipe? Filipe! Aurora, dois anos de olhos fixos na parede, duas vezes abriu a boca para responder, fechou. Apagou o resto do cigarro e finalmente cortou o longo silêncio, ora, eu não sei de Filipe, você está vendo algum Filipe aqui? Perdoem, ela está muito magoada com o divórcio, vocês sabem, é muito difícil. Não estou magoada, César, estou mesmo é puta da vida porque tenho que pagar um advogado para tirar com muito esforço daquele babaca o que é meu por direito. Dizem as más línguas que pegou o príncipe com uma das empregadas do castelo. Não pergunta isso, pega mal. Tá bem, tá bem. César, meu martini. Acabou. A senhora tem enfrentado dificuldades financeiras? Ora, por favor, senhora não! Toque na minha coxa para ver como continua firme, pode tocar, não precisa ter medo, o que você vai fazer mais tarde?



Aurora, 42 anos, depois do THE END divorciou-se do príncipe Filipe e trabalha numa casa noturna. Atende pelo nome de guerra A Bela Adormecida.

quinta-feira, novembro 12, 2009

Eu acho todos nós muito corajosos andando por aí diariamente expostos a todo tipo de amor, assalto, competição, raio ultravioleta, egoísmo, carinho, barata, paixão, possibilidade, grito, rejeição, gripe.

terça-feira, novembro 10, 2009


Um filme essencialmente poético sobre desconstrução. Admiro quem conhece a beleza e sabe como conduzi-la. Admiro quem sabe do que eu estou falando. A única dúvida é o que Cauã Reymond está fazendo ali, fica uma vontade doida de perguntar: você está perdido?

segunda-feira, novembro 09, 2009

Eu me senti num daqueles programas de auditório, surda, numa cabine:
- Alô Natasha, você quer trocar tudo que você tem por uma bala de tamarindo?
- SIM! - eu respondia sorridente.
A platéia ia ao delírio, obviamente.

quinta-feira, novembro 05, 2009

- Vocês são indiscutivelmente mais inteligentes que a média. Estou tão tocada com essa conversa que desconfio que vocês sejam seres de outro planeta enviados à Terra somente para transmitir sabedoria. Olha só, estou toda arrepiada! Eu gostaria mesmo de ficar, o papo está realmente muito bom mas lembrei que preciso ir embora. É uma pena. De toda forma, muito obrigada pela oportunidade de dividir uma mesa de bar com vocês. É sempre uma honra discutir o que é arte, um assunto assim super astral. Eu nem mereço tanto. Bom, vou logo antes que eu comece a chorar.

quarta-feira, novembro 04, 2009

mudando de idéia

(preservar apenas calorzinhos, filhotes do calor destrutivo que já experimentei na pele e descartei para não morrer)

TOP 10 pavorzinho - pessoas

1) Casal que fala com voz de bebê. Ou qualquer outro retardamento do tipo. Sou super a favor mimos e nhemnhemnhens de casal. Sou super contra virar um débil mental. Existe - juro! - uma mulher que diz "né, mô?" ao final de cada frase, seja ela qual for.
- A Bovespa fechou em alta, né mô? - aí coloca a mão no joelho do namorado. O mô (!!!) responde "é, mô". Imagine isso durante uma noite inteira, por favor.

2) Inconvenientes. Se você liga quinze vezes seguidas para alguém que não te atende, você é inconveniente e eu quero que você morra.

3) Gente que não tem solução. O dito cujo te apresenta um caso a ser resolvido e imediatamente começa a minar todas as cento e vinte possibilidades que você sugere como solução. Tenho vontade de responder: então se joga da ponte Rio-Niterói. Certamente ele responderia que nhemnhemnhem não vai dar porque estou desempregado e sem dinheiro para o combustível nhemnhemnhem é muito longe nhemnhem. Então cala a boca e vai me fazer um café.

4) Amebianos. Coloque um amebiano sentado no Central Park no outono. Depois coloque-o no meio de uma guerra no Iraque. Depois tranque-o dentro da geladeira. Depois jogue-o do terceiro andar de um prédio. Depois dê quinhentos mil dólares a ele. Depois. Enfim, certamente ele responderá para todas as opções: legal. E não perguntará por que você está fazendo aquilo. Juro. Amebianos faltaram aquela aulinha de física, toda ação tem uma reação e blá-blá-blá. Alguns babam.

5) Gente que quer ir embora antes de chegar. Sempre tem aquele que, se por exemplo salta de um ônibus, anuncia: para voltar temos que pegar naquela rua de trás. A minha vontade é ir voltando de costas, engatar a marcha ré até a porta da minha casa. Broxante. Geralmente é o mesmo que, num outro dia, anuncia que só vai poder ficar três horas e meia porque tem que alimentar a lhama ou algo assim. Minha educação não permite que eu diga: então vai logo.

6) Gente perfeita. Há uns anos eu tinha uma amiga perfeita. Lembro que ela tinha um jeito especial de pegar uma caneta no seu estojo para não desorganizar as outras. Naquela época ela queria fazer psicologia na UFRJ. E faz. Estudou, passou. Arrumou um namorado bonitinho que parece muito com ela, fisicamente. Combinam. Não duvido nada que tenha escolhido pensando nas características genéticas dos filhos. Juntam dinheiro para viajar todas as férias. E viajam. Conseguem juntar dinheiro conforme planejaram. Nunca comete um impulso, nunca sai da linha, nunca se exalta, nunca perde a razão, nunca desmarca um compromisso - e ai de você se desmarcar! É muito difícil discutir com ela porque ela está sempre certa e te apresenta um estudo minucioso de tudo que você disse às três horas da manhã do dia nove de dezembro de mil novecentos e sei lá o quê. Vai casar. O casal está juntando dinheiro para comprar um apartamento. E vai comprar, óbvio. Provavelmente terão um cachorro labrador. As últimas notícias eu tenho através de terceiros, não falo mais com ela porque minha paciência tem limites.

7) Gente que tem vergonha de tudo. "Compra meu anticoncepcional? Eu tenho vergonha." Fato real.

8) Gente que não tem vergonha de nada. Aquela que acha normal colocar o peito para fora e alimentar o bebê no meio do shopping.

9) Espíritos evoluídos. Você acerta um tapa no sujeito e ele te dá uma flor. Depois deseja que você seja feliz. Acho um saco essa gente que está fazendo cursinho pra Dalai Lama. E acho "olho por olho, dente por dente" muito fraquinho. Se você furar meu olho, provavelmente eu vou querer furar os seus dois, depois perfurar seus tímpanos e comer seu fígado no jantar. Ou outro órgão da minha preferência, não sei. Depende do meu apetite.

10) I wanna be Natasha Pinto. Nunca serão.

sábado, outubro 31, 2009

(só estaremos completamente livres quando matarmos todas as nossas ilusões ou o homem livre não passa de um homem excessivamente iludido?)

janeiro ou fevereiro:

Eu passei todos os anos pensando, pensando - eu não achava nada disso, mas me veio o Estalo. Eu sou. Vou desistir das palavras, digo muitas vezes, não consigo mais. Impossível: abdicar da sua única paixão verdadeira. A língua portuguesa é a minha mãe e eu sou uma criança que se recusa a crescer - são os seios mais bonitos que eu já vi, quero mamar eternamente. Tenho medo que tudo seque um dia, o que farei? Do que me alimentarei? - Como isso é assustador, meu deus, como eu temo, como... - me alimento do temor. O temor é a antecipação de todas as coisas; me alimento do que ainda está por vir e os meus enjôos diários são por conta do passado, vomito o que passou (todos os dias, todos os dias). Sou uma mulher incompleta porque me falta o instante - que deve ser o instante eterno, o agora. Eu escrevo para preencher o presente. Não é assim que deveria ser, me nego, me nego. Vou me arrastar até o Momento, sedenta, aflita, vou encontrá-lo (sussurro: ele não sabe da minha necessidade, não quero dizer para não assustá-lo. Vou aparentar normalidade quando chegar aos seus braços, vou esconder minha angústia, minha aflição. Penso: quando eu der as mãos ao Momento não mostrarei minha face para que ele não fuja, para que ele não escape entre meus dedos). Aí viverei o instante-inventado, concluo; estou decepcionada, só por assim dizer.

Simplesmente Eu, Clarice Lispector


Ontem Beth Goulart despediu-se temporariamente dos cariocas numa curta temporada no teatro da UERJ. É muito bonito assistir ao reconhecimento de um bom trabalho, a atriz foi incessantemente aplaudida de pé por mais de mil pessoas, a impressão que fica é que os espectadores não querem parar de aplaudir nunca mais. Beth Goulart consegue criar uma atmosfera Lispector que não deixa ninguém impune - já assisti à peça com pessoas que entraram sem saber quem era Clarice e saíram do teatro completamente apaixonadas. Para quem ainda não assistiu, em janeiro o espetáculo volta ao Rio em cartaz no teatro SESI.

quarta-feira, outubro 28, 2009

"quem é você e o que faz por aqui?"
(sublinhar com marca texto amarelo as conexões self-mundo-natureza-divino-self para não perdê-las posteriormente; ancorá-las.)

por via das dúvidas

Todas as manhãs colava um post-it na geladeira para o homem que ainda dormia: "Bom dia! Não esqueça de me amar hoje."

Depois terminava o suco e passava o resto do dia despreocupada.

terça-feira, outubro 27, 2009

VIII

- Alô.
- Alô? Está me ouvindo?
- Quem está falando?
- Você está me ouvindo?
- Ah... sim....
- Estranho, eu sempre tive a impressão que você não me ouvia!
- Eu estou te ouvindo, Marcelo. São quatro horas da manhã.
- É que eu estava aqui sem sono pensando que, porra, talvez você realmente tenha um problema de audição, imagina só! Fiquei com a consciência pesada, nosso relacionamento terminou justamente porque eu tinha a impressão de estar falando sozinho, sabe, eu ficava impaciente e...
- Marcelo...
- Não! Me escuta, por favor, me escuta só desta vez! Eu estava aqui pensando que se você realmente tiver um problema de surdez e isso for constatado, quero dizer, eu posso te levar ao médico coisa e tal, pagar todos os exames necessários, aí quem sabe, Tereza, quem sabe a gente possa sair, beber alguma coisa, conversar, não sei. Seria muito diferente, Tereza, eu teria consciência que você realmente tem um problema auditivo, que não se trata de egoísmo, de descaso, você está me ouvindo?
- Estou.
- Então fala alguma coisa.
- Marcelo...
- Tá vendo? Tá vendo só? Você sabe que tem problema! Você não consegue emitir nenhuma opinião concreta sobre nada porque você simplesmente não escuta! Amanhã nós vamos resolver isso, meu bem, fique tranqüila, tudo vai entrar no eixo, viu?
- Porra, Marcelo, eu não tenho problema de audição nenhum, você enlouqueceu?
- Você conhece algum médico?
- Que médico, Marcelo, que médico? Do que você está falando?
- Se você tivesse algum médico na família você poderia pedir a ele algum laudo forjado, um atestado mesmo, sabe? Como as pessoas fazem para faltar o emprego, enganar o patrão, eu ficaria achando que você tem um problema auditivo e nós poderíamos retomar de onde paramos...
- Se eu tiver algum médico na família pedirei que te encaminhe ao manicômio.
- Alô, Tereza? Alô? Está me ouvindo? ALÔ? ALÔ, TEREZA?
- Estou. Não grita.
- Foi só um teste. Diga: você ouviu só os dois últimos alôs?

Com os Meus Olhos de Cão

"Aparentemente estava tudo bem. Os olhos apagaram-se por um instante assim como se eu e você não estivéssemos mais ali, como se ele mesmo fosse outro, a boca aberta como se lhe faltasse o ar e disse num arranco: que esforço para tentar não compreender, só assim se fica vivo, tentando não compreender."
Hilda Hilst

Lentamente concluo que, para mim, não existe nada tão grandioso como Hilda Hilst - literariamente falando.

Mas não quero fazer outro post mimimi hilda hilst mimimi. Está ficando cansativo. Só quero dizer que A Obscena Senhora D não é leitura obrigatória para Com os Meus Olhos de Cão. Não acredite caso digam.

segunda-feira, outubro 26, 2009

"espero que este libro no sea leído jamás"

"Un dios que quiere que yo viva te ha ordenado que dejes de amarme. No soporto bien la felicidad. Falta de costumbre."

Esbarrei em Marguerite Yourcenar por um acaso - como sempre, pois tenho costume de acasos - e instantaneamente sorri sabendo que ela tinha aparecido para ficar. "Te deseo con horror una traición de Camilo, un fracaso junto a Claudio y un escándalo que te aleje de Hipólito. No me importa cuál sea el paso en falso que te haga caer sobre mi cuerpo" - depois de gargalhar concluí que era das minhas, aí dei boas vindas e mandei que sentasse do lado das outras. Escolho as mulheres para a vida literária e os homens para a vida real: o equilíbrio perfeito.

Imediatamente, naquela mesma madrugada, apelei para o Google e fiz o download de Fuegos, um livro curtinho que devorei em pouco tempo. Depois do ato consumado, depois que já estávamos irremediavelmente apaixonadas - "yo te amo como una loca", dizíamos - descobri que eu fui enganada: li uma tradução, Marguerite escrevia em francês.

O meu cérebro demorou muito tempo para conseguir processar a informação, é como passar uma noite maravilhosa ao lado de um homem que pela manhã te mostra as fotos da mulher, dos filhos e do cachorro labrador. Ou te diz "olha, na realidade eu sou homossexual". Ou até mesmo "uma pena a gente ter esquecido a camisinha, eu tenho aids". Um balde de água fria diretamente na face até então sorridente e satisfeita.

Mas falo sério, então: Marguerite Yourcenar escrevia na língua errada. (E minha síndrome de Deus anda tão grande que quero determinar, agora, a língua em que as pessoas deveriam escrever. So funny.) Acho o francês muito tímidozinho, muito contido - o que está longe de ser uma crítica, sempre tive uma quedinha pelos tímidos - para a crueza das palavras de Marguerite. O espanhol é cru por natureza, é aberto, escancarado, indiscutivelmente assemelha-se muito mais à essência daquelas frases.

Hoje tenho nas mãos um Memórias de Adriano devidamente traduzido para o português que terá que aguardar eu me recuperar do choque da traição. Marguerite Yourcenar não vale nada, não se deixem levar por esse sorriso de boa velhinha.

"Soledad... Yo no creo como ellos creen, no vivo como ellos viven, no amo como ellos aman... Moriré como ellos mueren."

lixinho perdido de agosto ou setembro:

Eva estava lendo um livro que não era seu e só por isso amava-o – era amor o que sentia? Primeiro uma raiva ao esbarrar numa frase descuidadamente sublinhada com lápis, depois o horror, um susto: não era ela que havia sublinhado! Aquilo que estava em suas mãos, portanto, não era seu, pertencia a outrem, carregava a marca de outrem, como um território já marcado anteriormente por outro cão. Eva havia pagado caro pelo livro - já fora de catálogo há muitos anos, uma raridade - encontrara-o empoeirado num sebo, entretanto nunca seria seu. “Não é a mim que ele pertence!” – pensava involuntariamente cada vez que virava a página. E então, a dor. Se ela estava ali, tão pronta para ele, por que não? Se ela dedicava todas as noites, se ela estava tão perfumada (pois acabara de tomar banho e perfumar-se com lavanda, como fazia todas as noites antes de deitar-se cedo), se ela o amava tanto a ponto de tê-lo buscado incansavelmente por todos os sebos da cidade, se ela o admirava tanto que pronunciava seu nome a todos os amigos próximos, se ela o queria - pois se ela o queria! - se ela o queria, por que não querê-la? Por fim, o amor nascendo no meio de uma infinidade de nãos, na mais cruel rejeição, como uma flor nascendo na lama – e esta, apesar de ridícula, era a comparação mais perfeita. O livro amaria, então, quem o marcou descuidadamente e depois o rejeitou? O livro amaria quem o iludiu - marcando certas frases como se houvesse suma importância em suas linhas para depois vendê-lo por algum trocado? O amor cultiva o hábito de nascer frente aos nãos? Era mesmo amor o que sentia? Quem te fez isso? – pensou enquanto passava ternamente os dedos pelas marcas.

Antigos e Soltos


"Te deixo meus textos póstumos. Só te peço isto: não permitas que digam que são produtos de uma mente doentia! Posso tolerar tudo menos esse obscurantismo biografílico. Ratazanas esse psicólogos da literatura - roem o que encontram com o fio e o ranço de suas analogias baratas. Já basta o que fizeram ao Pessoa. É preciso mais uma vez uma nova geração que saiba escutar o palrar os signos." Ana Cristina César

Meu tesourinho.
(deveria eu responder-te à altura? altura? dei mais um gole, reformulei: deveria eu responder-te à baixeza? fitei minha própria imagem no espelho em frente, só então notei meus olhos apertados numa expressão rara, não falo da míope costumeira, trata-se de uma expressão muitíssimo mais funda - não devo, ainda, preocupar-me com rugas, fico muito à vontade para. e, cortando o silêncio, deveria eu responder-te à baixeza? mas tantas vezes desci que passei a me supor embaixo! é perigoso descer toda hora, sabia? é muito perigoso - pensei enquanto te segurava pelo rabo, camundongo, para te observar de pertinho - a gente acaba se sentindo um pouco rato de tanto conviver com eles. rato se mata com pancadas. ou senta-se na poltrona, acende-se um cigarro para observar a ratoeira pega-lo pelo rabo. hoje eu fico com a segunda opção.)
- É melhor pedirmos a conta, querido.

domingo, outubro 25, 2009

A Baía dos Anjos:

"- Sonhei que você tinha ido embora, acordei e você não estava mais, fiquei sem saber se era um sonho ou realidade...
- E o que você sentiu?
- Nada."

dois pontos

e um dia de tanto viver de sede

hei de morrer da mesma causa

terça-feira, outubro 20, 2009

"cut me a rose make my tea with the petals"

Entretantos

(O que mais me chamou atenção neste conto, depois de pronto, é uma inocência quase infantil. Eu poderia perfeitamente tê-lo escrito há uns cinco anos. É puro. Desenvolvi, por isso, um carinho especial por ele. Quando termino de ler acho mal escrito, primitivo, quase bobo - e uma gracinha que me dá vontade de me colocar no colo.)

I

- Agora será que você pode me ouvir?
- Posso.
- Então me ouça.
- Te ouço. - Fernando respondeu sarcasticamente, repousando então a colher sobre a mesa como quem desiste de comer.
- Eu não estou conseguindo.
- Você está tentando?
- Sim.
- Todos os dias?
- Sim.
- Eu vou perguntar novamente: todos os dias?
- Não, mas é que... - e desistiu da frase quando fitou as mãos daquele homem alcançarem novamente a colher que mergulhava no cereal, depois na boca.



II

Laura e Fernando moram juntos há quatro anos num apartamento na Tijuca. Na varanda, Laura passa os dias observando os que vêm, os que vão. Acha muito movimentada aquela rua, aquele bairro, aquela cidade. Não gosta de morar ali. - Agora é a hora em que eles descem para comprar pão porque já sabem que esta é a hora do pão quente. - Laura, de cima, acompanha a rua com os olhos - Todos os dias, no mesmo horário, eles descem para comprar pão. - Com o olhar fixo no portão do prédio em frente, espera o primeiro sair. Um sujeito gordo e careca, hoje sem camisa porque faz muito calor. - E ele não sabe... Ele não sabe que está gordo demais para comer pão todos os dias. - concluiu enquanto esperava o segundo sujeito sair do prédio. Laura é uma tartaruga.



III

- Fernando, é você? - perguntou quando ouviu o barulho da chave na porta.
- E quem mais seria?
- Como foi a entrevista?
- Havia mais uns quarenta candidatos. - Fernando ligou a torneira da cozinha para lavar as folhas frescas de alface que comprou para o jantar. - Todos muito bem preparados, você sabe, é muito complicado. Eu nunca deveria ter recusado aquela vaga em Vitória, se você soubesse como eu me arrependo!
- Eu não estou te ouvindo, vou até aí...
- É mais fácil que eu vá! Espere um minuto. - terminou de preparar a salada de alface e cruzou o corredor enxugando as mãos num pano de prato. - Ah, Laura, você está aí! Você é tão bonita, Laura, você é tão bonita!
- Fernando, eu não consigo.
- Você vai conseguir, meu bem, você vai conseguir.




IV

Laura está tendo um pesadelo, durante os últimos meses seu sono está muito agitado, acorda no meio da madrugada suando, inquieta, aí não contém um grito:
- Fernando, eu não consigo!
O homem abre lentamente os olhos, vira-se para o outro lado depois de responder:
- Mas Laura, você é só uma tartaruga.




V

- É isso mesmo que você quer? - perguntou tristemente enquanto acendia o cigarro da manhã. - Nós somos tão felizes...
- É isso mesmo que eu quero.
Fernando colocou a tartaruga debaixo do braço, enquanto esperava o elevador acariciou-a pela última vez. Sentiram um nó na garganta, os dois.
- Adeus, Laura. - murmurou ao colocá-la na calçada.



VI

Laura demorou algumas horas para alcançar o outro lado da extensa rua. Quase foi atropelada cinco vezes. Estava em pânico. Parou em frente à vitrine de uma loja para admirar um vestido estampado, mas os pés que iam e vinham quase a pisotearam. Era preciso ser safa.
- Ei, olha por onde anda! - gritava em vão.
Ninguém a ouvia. Ao cruzar a esquina, Laura deparou-se com uma poça e, então, o grande susto ao observar sua própria imagem refletida: eu sou apenas uma tartaruga! Já anoitece, Laura desconfia que é tarde demais para voltar para casa.

quinta-feira, outubro 15, 2009

Parte I:

"O Nunca Mais é a fera." Hilda Hilst

"Acalmo a ferinha? Deixo passar? Valeu a importância gasta?" Ana C.

"Levántate y anda, pobre bestia, y sin llorar." Pizarnik

Parte II:

"O Nunca Mais não é verdade." Hilda Hilst

"A fera dá preguiça, coração alhures." Ana C.

"¿no es verdad que yo existo y no soy la pesadilla de una bestia?" Pizarnik

terça-feira, outubro 13, 2009

Clive Wearing sofre do caso de amnésia mais cruel já registrado. Depois de sofrer um acidente, sua memória dura apenas alguns segundos, se você disser "olha, Clive, vai chover!" e instantes depois perguntar se vai chover ou não, ele responderá que não sabe. Clive cumprimenta sua mulher centenas de vezes por dia, como se não a visse há muito tempo. Lembra de sua mulher, lembra que era músico. E só. Durante anos manteve um diário pois acreditava que anotar cada minuto o ajudaria na recuperação da memória - desistiu depois de inúmeros acessos de raiva, repetia incansavelmente "não fui eu que escrevi isso, não fui eu". Okay, tá legal. O que está me incomodando brutalmente é uma frase da sua mulher, Deborah Wearing, "o mais incrível é que Clive não mudou nada, continua a ser ele mesmo" ou algo do tipo. ELE MESMO QUEM? Pois se ele não lembra nem a profissão do filho, pois se um ser humano é - sim! - um acúmulo de horas com braços e pernas, ele mesmo quem? Deborah Wearing escreveu um livro chamado Forever Today, contando detalhes do caso do marido, quero muito ler somente porque preciso que Deborah me responda - ele mesmo como? Ele mesmo o quê? Ele mesmo quem?

segunda-feira, outubro 12, 2009

este é apenas mais um conselho: quando alguma coisa boba grudar na sua cabeça e resolver te perturbar durante todas as horas, não tente fugir. enfrente-a. olhe seriamente para ela - para a coisa - e diga: e daí? fique atento, depois, ao silêncio - a ausência de resposta confirmará a falta de justificativa da perturbação. repita o procedimento até concluir que o que está tomando seus pensamentos é algo completamente vazio, depois descarte.

domingo, outubro 11, 2009

Sartre por ele mesmo

Eu não aconselho absolutamente ninguém a ficar durante três horas com a bunda sentada assistindo Sartre falar sobre política. Eu escolhi fazer porque o acho muito engraçado, então daria no mesmo de assistir a uma comédia com o Adam Sandler.
"Tudo é gratuito: este jardim, este cidade e eu próprio. Quando a gente se dá conta disso, o coração fica pesado e tudo começa a rodar. Fiquei no banco, perplexo, achatado por essa profusão de seres sem origem. Por toda parte, desabrochamentos. Minhas orelhas fervilhavam de existência. Minha própria carne palpitava, pulsava e se abandonava à germinação universal. Era repugnante." Jean-Paul Sartre, em A Náusea.
"Era repugnante." É de um pessimismo hilário. Eu juro que não entendo como as pessoas podem estranhar quando eu digo que Sartre era engraçado. Talvez seja um problema meu mesmo - porque, por exemplo, já dei gargalhadas lendo Virginia Woolf. Notei que acho engraçado quase tudo que considero genial. O que não é uma via de mão dupla, porque não acho genial quase tudo que acho engraçado. Acho raríssimas as coisas geniais - e considero Sartre genial, sim, apesar de contestar praticamente tudo que ele falava.

É sempre necessário procurar entender, antes de tudo, a época. Já ouvi muita gente critica-lo pelo fato de fazer "arte política", etc e tal. Se eu tivesse sido prisioneira na segunda guerra mundial, certamente não escreveria sobre o que eu escrevo hoje. Provavelmente seria ativista, militante, e toda aquela parafernalha. Isso vale para toda a turminha da ditadura militar, que também é alvo fácil dos mimimi mas arte não deve carregar ideologia política mimimimi.
Muito fácil porque ninguém hoje em dia é enviado à campos de concentração, vivemos tempos de uma liberdade enorme onde uma ministra sugere que relaxemos e gozemos e Vanusa resolve cantar sua própria versão do hino nacional com os cornos cheios de comprimido. Vivemos, hoje, num eterno carnaval, eu não sei até que ponto isso é bom ou ruim, eu não sei até que ponto essa liberdade é totalmente benéfica - o fato é que, hoje em dia, falar em "arte política" depois dos quinze anos soa ridículo, sim. Num passado relativamente próximo, não. Escrevemos o que vivemos, o que estamos vendo - mesmo que porventura vistamos nossos personagens com fantasias.
Tirando, então, o fator político na obra de Sartre, há um fator filosófico simplesmente encantador, mesmo quando vai de encontro às minhas verdades atuais ou quando banhado do pessimismo cômico que já citei - "Porque estava sempre lendo para me livrar do tédio. Esse tédio, mais tarde, chamei de existência."
Sartre por ele mesmo não é o documentário mais legal do mundo - é bem verdade que durante certas passagens a vontade é dar com a cabeça na parede - justamente porque o fator político domina 90% do filme.
Há pontos curiosos: é delicioso, por exemplo, ver a relação dele com a gentil, simpática e terna Simone de Beauvoir.
"- Como se ajudam mutuamente no trabalho?
- Basicamente criticando o que o outro escreveu."
O que eu acho bonitinho no relacionamento dos dois - se é que posso usar a palavra bonitinho para descrever - é que eram, visivelmente, farinha do mesmo saco. "Um critica o outro com grande severidade, às vezes até brutalidade." Eu faço idéia. "Às vezes, discutíamos tão alto que Bost, que vinha almoçar conosco, ia embora assustado, dizendo: volto quando estiverem melhor."
"- E em que ele era tão diferente dos outros?
- Acho que era o mais sujo, mal-vestido e talvez o mais feio."
Como sempre um docinho de pessoa e dona da voz mais feia que já ouvi, Simone de Beauvoir participa do documentário com outros quatro ou cinco - o clima pelo menos é de bastante descontração, thanks God, senão seria impossível assistir até o final.
Acredito que vale a pena para historiadores ou aficionados por Sartre. Os apenas admiradores - e neste último grupo eu me encaixo - que conseguirem chegar até o fim, não toparão ver o filme novamente nem sob tortura.
"I am more afraid of making a fault in my Latin than of the Kings of Spain, France, Scotland, the whole House of Guise, and all of their confederates."

Minha Queen Elizabeth linda como ninguém jamais será. Dia 21 está chegando e acho que eu super mereço.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Eu tive duas sortes: nasci mulher e fui alfabetizada na língua mais bonita do mundo. São esses os meus dois maiores prazeres em existir: sinto diariamente prazer por ser mulher e por falar português.

quarta-feira, outubro 07, 2009

eu nunca saberei como expressar a importância desta semana que começou às 3 e 20 da manhã de domingo. até respirar me dói. e cada vez mais chego a conclusão que está na hora de inventarem palavras novas - porque não estou falando da dor que todo mundo conhece, é uma dor deliciosa, eu chamo de dor de beleza mas ainda não é isso,
ainda não é o grau exato.

olha! tudo está se abrindo, os rostos, as mesas, o chão, as xícaras, o semáforo - verde, amarelo, vermelho,
vermelho,
vermelho.

tudo está se revelando para mim! para mim! que honra.

a quem devo agradecer?

talvez eu realmente tenha morrido - e a minha alma agora está se misturando ao todo. tenho falado muito em alma porque há poucas palavras existindo. quero palavras novas.

quero palavras virgens.

ouve! é tão fácil ser livre na música. e é tão difícil ser livre na literatura, sonho um dia soltá-la dela mesma.

quero palavras virgens e soltas como sons.

eu nunca quis pouco.
Identidade de Nós Mesmos é um diálogo filosófico entre duas mentes geniais - o diretor Wim Wenders e o estilista Yohji Yamamoto. Não conhecia nenhum dos dois, estou derretida. É mentiroso quem diz que é um filme sobre moda. A moda, neste caso, é apenas um pano de fundo. Eu recomendo a qualquer pessoa dotada de sensibilidade - porque é, sobretudo, um filme sensível.

Pensei, depois, que deveria haver o museu do cérebro. Quando certas pessoas morressem, seus cérebros seriam doados ao acervo. Deveria haver, também, o museu da alma - mas é uma idéia um pouco mais complicada. E não só porque a alma não é concreta (portanto não pode ser exposta como um quadro ou um mictório); é uma idéia complicada, principalmente, porque os museólogos não saberiam dizer se Fulaninho de tal pertence ao primeiro ou ao segundo museu. Eu gostaria muito que essa diferenciação fosse possível: o que é cabeça, o que é alma.

As duas coisas estão irremediavelmente ligadas, sonho um dia separá-las - como quem veste um jaleco branco e segura um bisturi - mantendo o paciente vivo.

Eu nunca quis pouco.

segunda-feira, outubro 05, 2009

Hoje eu quero um colo para chorar a morte de mim mesma.
Por favor, apenas um apelo: sobre Caio F., quem quiser ler uma biografia de respeito, leia Paula Dip - a que viveu na pele e, sobretudo, a que sabe como fazer.

O livro de Jeanne Callegari é amador e tem cheiro de leite ninho.

"Aids! Estou com aids, pensou Caio."

Não vou me estender porque tenho tentado ser uma pessoa boa. That's all.

quinta-feira, outubro 01, 2009

O Caderno Rosa de Lori Lamby

"Eu fiquei brincando na lagoa sempre com as pernas abertas como o tio Abel gosta e como todo o mundo gosta, não sei até por que não construiram a gente com as pernas abertas e aí a gente não tinha sempre que ficar pensando se era a hora de abrir as pernas."

Hilda Hilst

terça-feira, setembro 29, 2009

"Há um princípio forte e comum nos dois: a negação. Eva não conhecia Goethe, porém citava-o. Fausto não citava o fato de ter conhecido, numa festa na semana anterior, Marcela – com quem foi para cama imediatamente. No primeiro caso há uma mentira. No segundo caso, a verdade omitida. Tudo está no mesmo saco e é a mesma coisa quando chegamos à conclusão: negavam-se, os dois, a mostrar suas verdadeiras faces. Entretanto, amavam-se? É possível amar uma verdade que não se vê? Sobre a verdade: por não deixar-se ver, não existe? Por não mostrar-se, é indigna de amor? Pode-se amar uma verdade tímida? Ou amavam somente a mentira que viam - e, conseqüentemente, não se amavam então? A flor que nasce da lama é falsa?"

Eu amo o que eu faço. Eu sou louca pelo que eu faço. Quero deixar registrado: é o que me faz acordar todos os dias.

E tenho uma personagem chamada Maria que fala tudo de um jeito muito engraçado, é um jeito meio nervoso, ela emenda uma coisa na outra e às vezes gagueja. Toda vez que ela aparece, eu acho a maior graça. Mais ainda porque ela fala coisas sérias. Há certo perigo em entregar-se completamente ao que se faz porque todo o resto vira banalidade. Há ausência de importância em todo o resto (é curioso usar o verbo haver para falar de ausência, não é?). E falo sobre entregar-se à qualquer coisa. Talvez por isso as pessoas gostem de viver na superfície. Eu não sou ninguém para dizer que elas estão erradas.

sexta-feira, setembro 25, 2009

De vez em quando sinto falta de um lugar que eu não conheço e não sei onde fica. A única coisa que sei sobre ele é que um dia pisarei e terei certeza: é aqui.
"Eu ando apaixonado
Por cachorros e bichas
Duques e xerifes
Porque eles sabem
Que amar é abanar o rabo
Lamber e dar a pata"

quinta-feira, setembro 24, 2009

Russell Crowe tem que ser eternamente ovacionado por sua atuação em Uma Mente Brilhante. Não canso de babar a cada cena.

O filme inteirinho é lindíssimo e eu havia o esquecido, lembrei hoje por um acaso do controle remoto. Aí lembrei, junto, que as melhores definições de amor que já encontrei são simplérrimas. Não existe nada mais simples e bonito que Alicia Nash dizendo: "Maybe try again tomorrow".

terça-feira, setembro 22, 2009

- Pois mande que atirem a primeira pedra. Depois a segunda, a terceira. Mande que confeccionem todas as cruzes, que busquem os pregos, mande que preparem as fogueiras, que segurem seus chicotes; avise, sobretudo, que é bom que todas as minhas sepulturas estejam prontas. Corra e avise lá, aos seus, que eu não saio de mim, que de mim ninguém vai me tirar. Depois pague pra ver.

segunda-feira, setembro 21, 2009

quarta-feira, setembro 16, 2009

Todo mundo sabe do meu amor por Caio Fernando Abreu. Não o considero o melhor escritor de todos os tempos, como está em voga, mas nutro um bem-querer como por nenhum outro.
Um doce Caban pergunta: "Por que você não veio trabalhar ontem?" Caio candidamente responde: "Eu estava na fossa." Ao que Caban avisa, furioso: "Pois da próxima vez que ficar na fossa, se arraste até o próximo telefone e avise que não vem."

Disse que ia se matar. Mas já estávamos acostumados com isso, tinha até uma brincadeira que alguns amigos faziam: "o Caio se mata três vezes por semana."

Uma vida fascinante, veemente, repleta de humor, esperança e "dramalhões mexicanos" (como a autora mesmo define).
Entretanto Para sempre teu, Caio F. não é apenas uma biografia de um escritor, é um retrato de uma geração inteira. Se Caio Fernando Abreu já havia feito isso literariamente, Paula Dip arma-se de outra linguagem para nos transportar exatamente ao mesmo lugar - aquele lugar que qualquer leitor de Caio F. conhece bem.
Recomendo ler aos pouquinhos para poupar, é o que faço.
A Partir do Final é uma brincadeirinha fina em parceria. Digno.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Eu Não Entendo Picas de Amor é o título. Depois joguei no Google e descobri que o Pérsio de Pela Noite diz eu-não-entendo-picas-de-amor. Azar o dele. Não vou mudar. Inconsciente é foda, você não sabe mais o que é seu, o que está entrando, o que está saíndo. Hoje estou cheia de piadinhas com conotação sexual. Sempre achei ridículo. Continuo achando, porque realmente o é. Azar o seu, que está lendo. Não vou mudar. Quero uma triologia. Falta o terceiro. Estudo Irrevogável Sobre a Paixão é o primeiro. Não tenho muita paciência pras minhas brincadeirinhas literárias, então terminarei em breve. Depois eu juntarei os três e mandarei de presente, sei lá, pra Yemanjá no dia 31 de dezembro num barquinho. É uma opção. Azar o dela. Todo mundo cheio de azar vagando numa freqüência astral muito baixa. Eu não. Eu sou ótima.

sexta-feira, setembro 11, 2009

esto es solamente un registro for my studies about meu self:

em 2007 eu escrevi um conto chamado la que murió de su vestido azul. há semanas venho sentindo falta, não me conformo em nunca mais encontrá-lo. era um casal acordando, não acontecia nada. ele citava Pizarnik. ou ela, não me lembro. o fato é que não existe mais. é como se nunca tivesse sido escrito, mas foi. onde será que ficam as coisas que deixam de ser? em algum lugar, certamente - onde?
estou dizendo: nada desaparece. degeneram-se, as coisas, mas não desaparecem.

há dois anos. dois anos é muita coisa. são 17.520 horas. imagina tudo que acontece em 17.520 horas! um ser humano nada mais é que um acúmulo de horas com braços e pernas vagando pelas ruas. só isso? só isso. queria mais? sim. tá,
tem uma coisa também sobre a gente não lembrar de todas as horas mas todas as horas lembrarem da gente. explica melhor. não sei, é só isso mesmo. tá.

eu tenho a mesma sensação quando um relacionamento termina e quando estou desmontando a árvore de natal no dia de reis. ela solta gargalhadas escandalosas e joga a cabeça para trás, depois coloca a mão no peito e diz ai ai.

ah se você soubesse! sempre lembro de virginia woolf respondendo "BUT I DO KNOW! i know the whole business"

"não me faz assim tão desaprendida, não me desenxerga" é o início de uma carta que eu não lembro se escrevi. faz muito tempo.

e eu,
eu que só sei ser assim muito descarada,

meu nome é verdade.

quarta-feira, setembro 09, 2009

e hoje eu quero falar de Hilda Hilst

ou
e hoje eu quero deixar Hilda Hilst falar:
"Vi-me afastada do centro de alguma coisa que não sei dar nome, nem porisso irei à sacristia, teófaga incestuosa, isso não, eu Hillé também chamada por Ehud A Senhora D, eu Nada, eu Nome de Ninguém, eu a procura da luz numa cegueira silenciosa, sessenta anos à procura do sentido das coisas. Derrelição Ehud me dizia, Derrelição – pela última vez Hillé, Derrelição quer dizer desamparo, abandono, e porque me perguntas a cada dia e não reténs, daqui por diante te chamo A Senhora D. D de Derrelição, ouviu? Desamparo, Abandono, desde sempre a alma em vaziez, buscava nomes, tateava cantos, vincos, acariciava dobras, quem sabe se nos frisos, nos fios, nas torçuras, no fundo das calças, nos nós, nos visíveis cotidianos, no ínfimo absurdo, nos mínimos, um dia a luz, o entender de nós todos o destino, um dia vou compreender, Ehud
compreender o quê?
isso de vida e morte, esses porquês
escute, Senhora D, se ao invés desses tratos com o divino, desses luxos do pensamento, tu me fizesses um café, heim? E apalpava, escorria os dedos na minha anca, nas coxas, encostava a boca nos pêlos, no meu mais fundo, dura boca de Ehud, fina úmida e aberta se me tocava, eu dizia olhe espere, queria tanto te falar, não, não faz agora, Ehud, por favor, queria te falar, te falar da morte de Ivan Ilitch, da solidão desse homem, desses nadas do dia a dia que vão consumindo a melhor parte de nós, queria te falar do fardo quando envelhecemos, do desaparecimento, dessa coisa que não é existe mas é crua, é viva, o Tempo."

Eis o início de A Obscena Senhora D. Uma obra-prima. Frases redondinhas, uma delícia de linguagem, de ritmo, de forma, de livro, de ai! Não sei. Fico com palavras da própria, aos 68 anos, em entrevista para Revista Cult:

"CULT - Você escreve poesia, ficção e teatro. Qual dos gêneros literários você prefere?
H.H.- Eu me acho perfeita nos três. Pode escrever isso. A única coisa que eu pude fazer na vida foi escrever, porque é a única coisa que eu sei fazer mesmo. Dizem que eu sou megalomaníaca. Sou. Meu texto de ficção é deslumbrante, é da pessoa ficar gozando o tempo todo."

Embora eu atribua essa arrogância à mágoa de ter passado uma vida inteira sem ser reconhecida, Hilda Hilst define bem seu trabalho quando escolhe a palavra deslumbrante; é da pessoa ficar gozando o tempo todo, sim.

segunda-feira, setembro 07, 2009

Close Your Eyes and Listen

e ficar ali dentro eternamente morrendo de uma dor mansa de beleza
Passei 6 horas escrevendo um Estudo Irrevogável Sobre a Paixão. Depois guardei. Não sei o que será dele. Nada, provavelmente. Rendeu-me dor de coluna, olhos abertos, mais um passo em direção ao câncer de pulmão e epígrafe de Ana C. charmosíssima como sempre. Parabéns para mim e para o meu amontoado de inutilidades. Sigo achando um desaforo esse calor todo; sair de casa é sempre como brincar de jogo dos sete erros, encontrei uma mulher de cachecol. Por favor, avise a ela que.

domingo, setembro 06, 2009

"O bar dos wanna be Jonh Fante. E olha que eu amo o John Fante. E olha que eu sou uma wanna be John Fante. Mas cara, não consigo. Eu simplesmente não consigo ver aquele povo atormentado escrevendo em guardanapo e fazendo cara de tuberculoso beatnik. Meu filho, quem escreve, escreve. Não monta circo de escritor no meio da praça pública pra falar que escreve.", Tati Bernardi em Blônicas.

Estou saturada de esbarrar em toda esquina nos poetas boêmios decadentes intensos viados qual-é-o-seu-processo-de-criação-?

Minha alma boceja. Meu processo de criação eu não sei, mas meu processo de manter a calma consiste em ficar bem longe de vocês.

quinta-feira, setembro 03, 2009

tenho pena dos hojes que viraram ontens numa velocidade monstruosa. as horas tão apressadas! onde vão? onde vou? ando precisando de fôlego. parar durante dois minutos e observar a presidente vargas às 14 hrs é ter certeza que o ser humano não faz a mínima idéia do que é ser humano. acho esquisito mas não fico pensando, preciso me concentrar inteiramente em alcançar um ônibus qualquer que
- me tire, por favor, me tire

minha cabeça dá pane, pergunto se é normal; quero dizer, se você acha que acontece com frequência; é uma constante essa coisa toda de sonho desmanchando? escorre feito maquiagem borrada, compromete minha pouca sanidade. recebo seu sorriso que me causa
pontadinhas no centro do peito descoberto,
(acharei pouco, sentirei falta de aléns; sugiro então deixar-me explicar meus ais sem interrupções:)
é que sou dona de uma febre que não passa,
uma violência: meu corpo acha gostoso se debater, faltar o ar, ai de mim tão incapaz de impedi-lo!

este é apenas um conselho: só case com alguém que te ame o suficiente para preparar seu chá e pentear seus cabelos quando você fizer 80 anos e sofrer de alzheimer. ame de volta, não esqueça.

quarta-feira, setembro 02, 2009

que não sei diferenciar o que vem do cérebro e o que vem da alma, que quero misturar-me, que já não sei onde perdi
as horas dos últimos nove meses;
ainda assim, acordei inteira sutileza. é para poucos, isto que falo.

domingo, agosto 30, 2009

Tenho um amor platônico por Duane Michals - e até nutriria algum tipo de esperança, se ele não fosse homossexual. C'est la vie.
Uma vez mostrei a alguém que o achou muito raso. RASO. Em casos assim, a melhor (única?) opção é tornar-se instantaneamente católica e suplicar mentalmente: perdoai-o, ele não sabe o que diz.
"The unfortunate man could not touch the one he loved. It had been declared illegal by the law. Slowly, his fingers became toes and his hands gradually became feet. He began to wear shoes on his hands to disguise his pain. It never occurred to him to break the law."
Aqui uma das melhores entrevistas de todos os tempos. Uma delícia.
"You have said that you felt you were now between two ages and obsessed by the idea that desire can fade. Do you mean desire or lust?
DM: Both, it’s complicated. Lust changes. Desire changes. The greatest of all desires being the desire to “be”. Sexual eroticism is at the service of that essentially because once one loses lust, one can live without sex, but once one loses the desire to live, to be, it’s over. Life is constantly expressing itself against all odds. Things grow through cracks. But eventually that instinct to survive goes when people get quite old, when they’ve done the business of their lives and all their compatriots, peers, and friends have died. Everything changes, especially lust. What I found very attractive when I was younger, I no longer find that interesting. Where once I was dazzled by the big bang theory of sex, I now pay much more attention so that I can enjoy the pleasure of something as subtle as the texture of skin. It’s a kind of wisdom that comes with age. One slows everything down and no longer misses the things one missed in the haste, the impatience of youth. One begins to realize that everything is so fleeting and transient that when there is a good relationship, or a good dinner or conversation, it becomes that much more important. Desire fades but the attention to detail becomes much more intense."

terça-feira, agosto 25, 2009

VI

- Não gosto de pessoas que falam sobre cinema, literatura, arte, música. Não gosto de pessoas que falam sobre política, meio-ambiente. Não gosto de pessoas que falam sobre a novela cafona da Glória Perez. Não gosto de pessoas que falam sobre o fim de semana. Não gosto de pessoas que falam sobre o trânsito, o calor do Rio de Janeiro, a mãe.
- Você gosta de pessoas que falam sobre o quê?
- Não gosto de pessoas que falam sobre.
- Às vezes eu fico me perguntando se você existe mesmo.
- Eu também.

segunda-feira, agosto 10, 2009

correspondência:

eu sou vaidosa, sim, de fato. muito arrogante, também, está certo. tenho um leque de defeitos coloridos - e sou dona da verdade, como eles gostam muito de dizer e você perdeu a oportunidade. sou inteira dona da minha verdade. das outras tantas eu não sei. e quem sabe? (outro dia me peguei escrevendo, lembrei: assumo compromissos com a verdade mas muitas vezes chego atrasada, perco muito tempo me perfumando). fico toda confortável para te fazer respostinha pública e fingir literatura para os olhos que por aqui fingem que não passam:

a vida não é uma repetição. a vida, no bruto, é uma repetição. mas a vida não é o bruto. a vida é tim-tim-por-tim-tim, a vida é entre. eu gostaria de encontrar alguém que me respondesse que sonhou que os cisos nasciam quando eu perguntasse: como foi seu dia? eu sonhei que meus cisos nasciam e meus dentes entortavam imediatamente, um por um, efeito dominó, aterrorizador. mau agouro, eu li no dicionário de sonhos. depois ri. (eu sempre rio depois. você se enganou, pensou errado, eu não rio durante.)

emburrei-me e não quero mais saber de Bliss falso que amassa a cabeça e mutila o cliente de Holmes. nem Bliss verdadeiro. nem bliss de morango da nestlé, esse que você não bebia enquanto me escrevia. estou fazendo bico e cruzei os braços, tenho doze anos.

a escritora é muito boa, sim - "não usar a palavra bliss em vão", ela diz. vale a pena procurar saber, mas você não vai gostar dela. só quem presta é castaneda, não é mesmo?

enquanto eu te escrevia tudo isso, não surgiu nenhuma flor de plástico no monitor. achei estranho. fiquei esperando. nada. nem sinal. (não abandonei o blog, abandono é uma palavra feia. estou aqui. mas, cá entre nós, achei piada essa história de emocional abalado.)

feliz dia dos pais, ainda dá tempo?

sexta-feira, julho 17, 2009

o último número:

o meu compromisso com as palavras não cabe mais num blog. preciso voar muito mais alto.

quero deixar isto aqui intacto para que, um dia, eu possa me lembrar do que fui. e morrer de rir, provavelmente.

que seja bonito aquilo que vem depois - seja lá o que for,

quarta-feira, julho 15, 2009

não sei viver quando as coisas saem do tom, nunca aprendi

tenho vontade de mandar que parem e comecem tudo
novamente, outra vez e outra,
outra, viver não pode ser um lixo de sinfonia, é proibido

tudo está excessivamente fora do tom, eu disse a M. noutra tarde, eu saio daquela salinha, compreende? eu saio,
encosto a porta, fico toda do lado de fora
anotando que meu ouvido não suporta, não suportaria

segunda-feira, julho 13, 2009

desabafo:

eu tenho horror a quem me pede uma oportunidade. eu não sou agência de RH.

além do mais, estou deveras cansada de hipocrisia: AMO cuspir nos pratos em que comi, em todos eles. não quero mais comer, não estou mais com fome, qual é o problema em dar uma cuspidinha?

eu sou suja. e verdadeira.
não quero carinho, quero caminho.
estou reconstruíndo o hímen do que te escrevo, tudo muito puro,
casto, intocado (ninguém nunca pôs os olhos)

os que passaram por aqui, não passaram: aqui eu posso criar o passado: aqui, dentro das minhas grades, eu tudo posso:

minha literatura, a partir de hoje, é virgem

(e quero um acento circunflexo em acordo quando significar consentimento, concordância, comum acôrdo. aí poderei dizer, livremente, sem acento: acordo entre minhas duas partes - quando amanheço, quero dizer, do verbo acordar) depende do contexto! mas é que eu não tenho contexto, sou toda solta
de mim mesma

- vida, minha vida, ah minha vida tão presa nos vitrais! não me desperceba.

izabel é uma personagem que sente falta de ser escrita. de vez em quando aparece para me lembrar que eu fui má e a abandonei. estamos de mal, temporariamente - briguinha boba, coisa de nada.

- chorei três dias, desde a última vez. estou morrendo de sentir, escorro.

izabel é feita de manteiga, duma sensibilidade gritante e assustadora. já expliquei que não tenho condições psicológicas para continuar um livro agora:
quero literatura solta e virgem, quero descobrir
o ritmo

estou vivendo de esboços

sexta-feira, julho 10, 2009

pessoa humana não é pleonasmo, conheço muito humano
que não é pessoa e muita pessoa que não é nada nada
humana, compreende? acho tão complicado de se viver

foi a menina que disse na televisão, logo ri e chamei de burra,
"ele é uma pessoa humana",
depois me chamei de burra, quando parei
para pensar (fiquei toda séria)

nesta sexta-feira, entre pessoas e humanos, prefiro meus sushis

e vou incorporar vinicius de moraes só para
cantar ao telefone eu-não-vou-ir
melhor-nem-pedir-eu-não-vou-ir-não-quero-ir

e eu lá sou cachorro pra ficar revirando lixo?
e eu lá sou passarinho pra comer migalhas?
e eu lá sou pessoa? e eu lá sou humana?

estou buscando somente beleza e verdade, de resto fico com nada

quinta-feira, julho 09, 2009

V

- É que eu acabei de ter um déjà vu.
- Não tenho tempo para palhaçada.
- Vai dizer que você nunca teve um?
- Estou dizendo que quero ir direto ao assunto.
- Dizem que é um defeito no cérebro. Ou nos olhos.
- É, dizem.
- No cérebro? Ou nos olhos? Em qual opção você acredita?
- Acho que é uma coisa espiritual, não sei.
- Como assim?
- Coisa de outras vidas, sei lá, não entendo muito.
- Mas como assim?
- Já disse que não sei direito.
- Acho mais provável ser um defeito no cérebro.
- Tenho que desligar.
- Não, espera, nós precisamos conversar.
- Fala.
- É que fiquei um pouco desnorteada com....
- O déjà vu.
- É tão estranho! Você já teve um?
eu já te contei sobre como meu rosto ficava
bonito de sorriso quando eu fechava
os olhos para te ver?

quarta-feira, julho 08, 2009

uma criança de oito anos leu em voz alta e me perguntou o que significa "quanto mais se lapida, mais longe se fica do verbo to be". enquanto eu tentava inutilmente explicar, ela me perguntou o que significa lapidar. eu sorri e quis dizer a ela: significa que todos nós deveríamos estacionar nossas almas nos oito anos.
jazz é verdade musicada.

clube da esquina nº 2

eu fiquei o tempo todo olhando para as mãos
muito negras tocando violão, depois respondi que não tenho muita certeza a respeito
do nome daquela música

(mas você viu a tradução? - so i want to see the people, people, people. eu sempre pensei naquele a gente como um nós curtinho. i want to see us.)

lembrei instantaneamente daquela vez em que eu disse que não sabia ao certo como conseguiria
chegar ao fim do dia,
eu fico mesmo toda nervosa só de lembrar

terça-feira, julho 07, 2009

hoje desenhei o esboço de um planinho, mostrei a eles enquanto agitava as mãos e falava sem parar. mais devagar, eles pediram. depois me arrependi, fiquei muito exposta - você não acha? dei um gole no café, como quem tenta uma vírgula. estou transbordando vida, não caibo em mim.

minha estante de livros cairá a qualquer minuto, já fiz minha contribuição de hoje porque, veja você, eu não tinha nenhum mário de andrade no panteão. coisa séria. a qualquer minuto minha estante de livros cairá em cima do computador. eu não terei mais computador. nem estante de livros. acho muito engraçado. pode acontecer a qualquer minuto, no próximo, agora. fico me perguntando se eu vou levar um susto. talvez eu até grite ou fique muito ferida, caso algum me acerte. eu aqui muito bem e paf! fico toda rindo quando imagino e olho para cima.

(não sentirei sua falta, sentirei falta do seu carinho bom)

um favor muito sofisticado exige o tempo integral das próximas semanas. não precisa nem terminar de pedir, faço porque minhas mãozinhas coçam quando vêem argila fresca, eu sou uma viciada maldita. estou admitindo isso
agora, às 04 e 50 da manhã,
com uma dor de coluna brutal e um sorrisinho
satisfeito no canto do rosto. (a cara tão lavada!)

não consigo seguir uma linha de raciocínio. não estou sabendo lidar com o ritmo de linguagem acelerada aqui dentro-dentro.

minha alma perdeu o freio. coisa séria.

quinta-feira, julho 02, 2009

segunda-feira, junho 29, 2009


EXIT é uma associação suíça que ajuda os doentes incuráveis a cometer suicídio, ou seja, uma empresa suíça de homicídios dolosos em série. Não estou fazendo crítica alguma à associação ou aos membros, não estou sendo nada radical, apenas estou aplicando o português de forma clara - já que o chamado suicídio assistido é um termo patético, eu o substituo por outro de igual significado. Acho, inclusive, que o filme deveria se chamar EXIT - the right to kill.
Tirar a vida de outrem é moralmente ilícito para mim, não para todos, não julgo neste caso: não sou contra nenhum tipo de comum acordo, não sou contra nenhum tipo de prestação de serviço, há quem ofereça porque há quem compre.
O que me choca, na verdade, é a necessidade de assistência para pôr fim à própria vida. Acho banal a idéia de um telefonema eu-estou-em-depressão-há-seis-anos-por-favor-me-matem. Um revólver dentro da boca é mais rápido e eficaz, você não vai precisar assinar nenhum papel, não haverá nenhum tipo de burocracia nem fila de espera. Creio que se trata de amaciar a consciência, porém de que vale a consciência quando o seu único desejo é acabar com ela?
"Já pensaram na imagem que eu deixaria se agisse dessa forma?", um dos membros a respeito da idéia de suicidar-se sem a chamada assistência. Quem está preocupado com sua própria imagem se, no próximo minuto, ela não mais existirá? "Seria desumano. Para mim, é impensável."

domingo, junho 28, 2009

- agora já era.
- agora eu quero mesmo é que tudo vá delicadamente e diretamente para o inferno, ou seja, sem alarido e sem escalas - eu disse enquanto juntávamos as cadeiras para fugir da chuva.

Foi Apenas um Sonho:

"- Este país está podre de tanto sentimentalismo - Frank disse certa noite, dando as costas à janela, com um movimento solene e andando pelo carpete. - O sentimentalismo vem se alastrando como uma doença, há anos, há gerações, e hoje qualquer coisa que a gente toca parece estragada, de tanto sentimentalismo."

quinta-feira, junho 25, 2009

sinto-me tão frágil que no próximo minuto posso desintegrar, virar poeira. os passarinhos sempre ficam presos entre o vidro e o jardim de inverno; sou a babá dos passarinhos, dia após dia, ano após ano; eu, a pássara-mãe (me pergunto como eles farão daqui a pouco, quando eu estiver longe daqui).

quase não tenho mais paciência para literatura, nunca tive muita. só gosto mesmo de firulas, ana c. dizendo ai! que enjôo me dá o açúcar do desejo. literatura séria não me enche mais os olhos. tenho sido incapaz de passar da vigésima página de um hermann hesse sem ter vontade de mandá-lo calar a boca. mi persona está herida, mi primera persona del singular - acho uma graça, você não acha? (para quem eu estou escrevendo, agora?) eu não terminei de ler 80% dos livros que comecei, quero deixar isso bem claro (para quem?). eu queria tanto ter um destinatário!

às 17 hrs recebo uma ligação exata. vamos tomar um café. mas eu não te conto que estou muito fraca para chegar lá; eu nunca conto a ninguém, acho muito perigoso tanto blá-blá-blá.

(calcanhotto está se perguntando onde largou o leão que sempre cavalgou. vou escrever uma carta pedindo que, caso encontre, pergunte por onde anda o meu.)

terça-feira, junho 23, 2009

arrancaram dos meus seios a minha verdade:
toda noite eu a ouço chorar em algum lugar do mundo,
desamparada

mi bemol maior

onde o verde-azul marítimo
balança nos olhos (vim buscar sol para as horas posteriores)

eu costumava a vir aqui quando estava na prisão,
ainda tenho medo de perder o ar, mesmo depois
de tanto tempo

não estou fazendo poesia, estou reproduzindo
meu ritmo mental (puro circo)

eles querem acabar com a minha festa

eu aceito

eu preciso escrever sã e salva, senão um dia morro
de rir, literalmente

segunda-feira, junho 22, 2009

little italy 1930

para L.

desperdício de ternura:
uma suavidade
branca derramada
pelas gavetas

eu gosto de costurar extensas golas verticais à mão
(só eu noto a diferença), muito trabalho
e um bom efeito quando consigo manter
sobriedade em todo o resto
(o negro que dá um bom contraste)
quebra a extravagância que não quero
assumir como responsabilidade

estou muito compenetrada entornando palavras
em mim mesma

sexta-feira, junho 19, 2009

Vera Fischer sorridente na capa, manchete: tem dois anos que não faço sexo. Se alguém ainda tem alguma dúvida de que o mundo acabou, abra uma revista Quem.

"Eu sempre transei muito pouquinho" e "sou uma pessoa delicada" são os pontos altos da super entrevista exclusiva, fica a dica.

terça-feira, junho 16, 2009

eu vi a cara da ausência durante
todas aquelas noites,
eu pedia licença para deitar
na minha própria cama
no lixo de dentro se pisa com os pés descalços, eu me respeito.

segunda-feira, junho 15, 2009

18:08:

porque as situações me vêm prontas, tentei explicar. não sinto os primeiros sinais, formigamento nos dedos dos pés e só então pernas, tempo útil entre, joelho, não é dessa forma que acontece comigo, umbigo, braços, não há vírgulas, ombros, não respiro, pescoço, quisera eu essa pausa, olhos, quisera eu, mente. porque as situações, continuei enquanto brincava com o saleiro para desviar os olhos, as situações são tão inteiras, tão nítidas, fico tão absorvida, as situações me engolem, me tragam. eu não vivo uma vida, a vida é que me vive toda. estou falando sobre a minha passividade, você não compreende, que nada, não fala assim, a minha dificuldade em tomar as rédeas, não diz isso, eu estou indo embora daqui, pára. é engraçado dizer, depois: não está me suprindo, não me preenche. eu só queria um quarto todo branco, wim mertens, cobertor, estórias, laranjeira, eu só queria (querer) um pouquinho de nada, de mim, de você, estamos todos sempre tão longe daqui. (e que eu não me escondesse atrás das minhas palavras, e que eu conseguisse escrever claro, limpo, e que eu, apesar dos pés gelados, amém.) agora interrompemos nossa programação habitual para... quem me dera, ah quem me dera.

domingo, junho 14, 2009

não conheço nada tão bonito quanto

"It is no accident that you are reading this. I am making black marks on white paper. These marks are my thoughts, and although I do not know who you are reading this now, in some way the lines of our lives have intersected... for the length of these few sentences, we meet here. It is no accident that you are reading this. This moment has been waiting for you, I have been waiting for you. Remember me."

Tentei brincar de despir Duane Michals e, naturalmente, não consegui. Deixo que ele fale por si só; tive que escolher as minhas preferidas, uma tarefa árdua demais:


This photograph is my proof

"This photograph is my proof. There was that afternoon, when things were still good between us, and she embraced me, and we were so happy. It did happen, she did love me. Look see for yourself!"


There Are Things Here Not Seen in This Photograph

"My shirt was wet with perspiration. The beer tasted good but I was still thirsty. Some drunk was talking loudly to another drunk about Nixon. I watched a roach walk slowly along the edge of a bar stool. On the juke box Glen Campbell began to sing about "Southern Nights." I had to go to the men's room. A derelict began to walk towards me to ask for money. It was time to leave."




"It was the happiest moment of the happiest how of the happiest day of her entire life. And it passed so quickly without her knowing it. Years later, she would still be filled with the joy of that afternoon's memory, long after she had forgotten just what it was that had made her so happy."


The Poet decorates his muse with verse

terça-feira, junho 09, 2009

(y)in:

acordei sentindo contrações, a bolsa estourou pelos olhos e exatamente agora, meia-noite e cinqüenta e nove do dia nove de junho de dois mil e nove, estou parindo para dentro. minha dor é feminina e geminiana. ninguém consegue enxergá-la.

segunda-feira, junho 08, 2009

nunca mais trocar caneta por colher:
não é com jejum literário que se cura
intoxicação venosa
todas as pessoas que rimam mar com luar deveriam levar uma surra.

- a minha lembrança mais viva é aquela grande escrivaninha de madeira, de frente para a janela. era fácil imaginar o mundo que existia além daquelas cercas, mas não ousávamos conferir; não tínhamos permissão, nem coragem. era ali que eu desenhava sonhos.

quase consigo sentir o cheiro de chá de hortelã: a melhor parte em escrever é poder recordar o que eu não vivi. (é que não sei da Verdade, sei da minha.) não que não seja real, explico: é reprodução descritiva da mente. quase real, tirando a fantasia.

é que às vezes quero conhecer o âmago, saber o que há dentro - e às vezes só quero brincar de tirar os coelhos da cartola (a diferença não é a finalidade, é o tom).

domingo, junho 07, 2009

"(...)
pero le pasó (a Kafka) lo que a mí:
se separó
fue demasiado lejos en la soledad
y supo - tuvo que saber -
que de allí no se vuelve
se alejó - me alejé -
no por desprecio (claro es que nuestro orgullo es infernal)
sino porque una es extranjera
una es de otra parte,
ellos se casan,
procrean,
veranean,
tienen horarios,
no se asustan por la tenebrosa
ambigüedad del lenguaje
(No es lo mismo decir Buenas noches que decir Buenas noches)
El lenguaje
- yo no puedo más,
alma mía, pequeña inexistente,
decidíte;
te las picás o te quedás,
pero no me toques así,
con pavura, con confusión,
o te vas o te las picás,
yo, por mi parte, no puedo más."

Alejandra Pizarnik, Sala de Psicopatología.

sexta-feira, junho 05, 2009

lugar-comum é um espacinho tão confortável...

algum de junho:

hoje acordei cortando pé, catando caco: Cartier-Bresson caiu da estante e se espatifou no chão enquanto eu dormia. hoje percebi que meu calendário ainda está em abril, não tive maio, arranquei as folhinhas: agora estou oficialmente em junho, acho tão perigoso! hoje comprei flores que mais parecem raminhos de couve-flor vermelha, muito feio, eu achei; tive dó, comprei. hoje estou numa postura desfavorável mas não quero aprender a nomear os meus incômodos, aí escrevo sólido e descompromissado. hoje não tenho pretensões, talvez nunca. hoje resolvi que imagem não me engana mais; é só luz, abertura, foco.

terça-feira, junho 02, 2009

amanhã cento e vinte páginas viram oitenta, depois trinta, depois duas. eu me como, sou meu próprio pac man. tenho fome e tendências autofágicas; não sou naturalmente antropofágica, como você me supõe, exceto quando minhas substâncias estão escassas. você sabe, instinto de sobrevivência, tudo muito normal.

domingo, maio 31, 2009

eu gostava de colorir paisagens como aquela da outra noite, os ratos despencariam dos postes e eu te diria que não, que nada, que são gaivotas. pula as poças de lama, finge que é amarelinha. me perdoa se eu desaprendi o jeito, o inverno é rigoroso e sempre chega mais cedo nas ruas de dentro.

quinta-feira, maio 28, 2009

detesto encontrar literatura medrosa, toda juntinha, assustada. o texto precisa ser lavrado, desenrolado (desatar os nós, deixar correr, soltar, soltar). o texto precisa respirar. eu tenho pavor de agulha, de sangue, eu jamais poderia ser enfermeira. para quem tem medo de escrever, a enfermagem é uma opção. a arquitetura, o balé, a natação, um concurso pro banco do brasil, tráfico de drogas, sei lá. fico com pena, elas ali tão presas, pobrezinhas. tão maltratadas. as palavras, estou dizendo. tenho pena das palavras.

segunda-feira, maio 25, 2009

segundo presságio (criação):

esse caos deslumbrante que arranha, arranha, não sacia. pisões no pé. de graça. não paguei nada por isso. muito obrigada por pisar gratuitamente no meu pé. hoje em dia é tão raro, guardei as moedinhas: vou comprar uma coca-cola na máquina. como é que é? não vai arrumar um emprego? você já almoçou? vai acabar a hora de almoçar, está acabando, corre, corre, daqui a pouco já é jantar. oi, você quer que eu segure a sua bolsa? obrigada. açúcar ou adoçante? você está usando essa cadeira? posso pegar? obrigada. server is too busy. como eu faço para chegar na avenida borges de medeiros? obrigada. está na hora de dormir, por que você não vai dormir? seu telefone está tocando, você não vai atender? heim? eu estou falando com você, não vai responder? heim?

primeiro presságio (ideação):

tão bonito o azul visto de cima, é aqui que eu quero passar as horas (perco a vontade de ir embora). não quero mais pegar o trem dos dias, me entupir de concreto, acelerar os passos para não ser mastigada, correr para não ser engolida, pensar, pensar: esquece o trem dos dias, esquece o calor dessa praça, esquece as grandes catedrais, vamos largar tudo para observar os caramujos, plantar as coisas claras e pescar um peixe-palhaço que nos faça morrer de rir.



(ao som de Eduardo Agni, o Primeiro Presságio dos sete.)

Tenho tropeçado em bipolares. - Fui diagnosticado! - eles fazem questão de expor com orgulho. E tomam lítio. Para a vida toda. É incurável, sabia? Para a vida toda condenados ao lítio. Pobrezinhos.

Com 20 minutos de consulta psiquiátrica, qualquer pessoa em perfeito juízo pode conseguir ser diagnosticado como bipolar. Não precisa nem fazer força. A Organização Mundial de Saúde vai achar uma delícia que você contribua e entre para estatística.

Ninguém me receita uma substância sem um exame concreto que comprove quimicamente por A + B que o meu organismo é deficiente, ou seja, carece de. Acho, no mínimo, coerente.

Tudo bem vocês discordarem e acharem bonitinho se entupir de lítio porque tentaram se matar com faquinha de rocambole Bauducco, legal, vá lá, mas não tentem me convencer que isso é o máximo. Não é. Conheci um homem esquizofrênico que acreditava ter sido abduzido por extraterrestres, ele me contou que o disco voador era parecido com o antigo Paes Mendonça. Isso sim é o máximo.

quinta-feira, maio 21, 2009

Pavor do caderno verde. Criei pavor. Criei. Como de praxe. Eu nasci para criar, gostaria de ter nascido para viver. (Eu vivo para criar, gostaria de viver para viver.) Não sei o que fica melhor. Aí, por via das dúvidas. Minha cabeça entrará em curto, três, dois, um: olá, meu nome é Maria de tal e tenho problema de tosse. Fico constrangida, todo mundo me olha no cinema e não posso nem freqüentar as aulas de espanhol, aí optei por um curso por correspondência. Tenho dois filhos mas nenhum marido. Posso falar muito sobre mim, mas a minha característica mais marcante é mesmo o problema de tosse. Na realidade eu não existo, sou só um exercício literário para acabar com o pavor que o caderno verde tem causado. Fico um pouco triste. Olá, meu nome é Maria de tal e eu não existo. (É deprimente, queria ver se fosse com você!)

quarta-feira, maio 20, 2009


Começa pelas beiradas e termina pelas beiradas. Não entra. Uma abordagem acanhada, medrosa. Não falo de sutileza: não é um filme sutil, é um filme intimidado. Fico me perguntando o porquê - um tema delicado, compreendo, mas precisa ser tão distante, tão vago, tão aberto? Um desperdício, eu achei.

segunda-feira, maio 18, 2009

despindo lee miller:

encaro, não encaro. encaro, viro o rosto. (tenho outra face aqui, escondida; é com ela que te observo quando não te olho.)
economizo o piscar: tenho medo que tudo acabe no espaço entre o abrir e fechar das pálpebras. (seja bom, você: pegue um pedaço de papel para anotar certinho o que estou perdendo enquanto meus olhos desempenham o movimento inconsciente.) fico preocupada.

despindo diane arbus:

estou muito ocupada desarrumando coisinhas do lado de fora; o reflexo dá um bom efeito, ausência de contraste que ninguém percebe, a simetria de fora/dentro de mim. a simetria hermética. deixo a lixeira transbordar: estou desordenando coisinhas; aqui fora, aqui dentro.

o que não sabem é que eu também engulo espadas (fico um pouco ferida). não é fotografia: fico nua e mudo o sexo. perco a realidade. não me faz mal, não me faz mal.

terça-feira, maio 12, 2009


Louis Garrel é um excelente ator que sempre faz papel de Louis Garrel, ou seja, de franguinho. Tenho a nítida impressão de que esse homem ainda usa fraldas e tem a bundinha francesa repleta de hipoglós. Fico cá com os meus botões tentando encontrar alguma diferença entre Louis Garrel de Os Sonhadores, Louis Garrel de Amantes Constantes e Louis Garrel de A Fronteira da Alvorada. ZERO.

Eu não gosto de filme sem suor, fico toda incomodada, me perdoem se eu estou errada em achar que drama exige carga dramática. Um casal fugindo do hospício como se estivesse indo até a padaria, uma mulher confrontando a loucura como se confrontasse uma gripe... não convence. A Fronteira da Alvorada é um filme que não convence. Uma chatice. (Não quero comentar as cenas de poltergeist no espelho. Venha para a luz, Caroline! perde aqui.)

Em suma: caguei para a fotografia muito bonita. Eu não fui a uma exposição, eu fui ao cinema.
falo daquelas elevadas taxas de bem-querer na circulação sanguínea
quero devolução das minhas horas a fio
(dedicação integral), quero outra
que não essa

quero me desconcentrar, (me desperceba)
não faz mal quando tira o centro:

desata, solta
espanta a poesia do quartinho
Hoje estou aqui sem você, estou aqui com uma legião - dois rapazes de terno (a pouca idade não combina), uma prostituta loira e um homem que não fala, só faz sons com a boca, uhum, uhum, muito compenetrado no assunto, que interessante, que interessante.

sexta-feira, maio 08, 2009

quinta-feira, maio 07, 2009


(Henri de Toulouse-Lautrec)

meus olhos - que não entendem nada - se alegram quando encontram as coisas bonitas.
Trata-se de um gato miando incessantemente, eu pensei até subir ao telhado e descobrir cem gatos miando incessantemente, orquestra felina tirando o meu sono, sinfonia de noites em claro. Devo admitir o meu primeiro esboço de reação: matá-los. (E o que eu faria das madrugadas silenciosas, secas? Não sei lidar com a paz, temo o sossego; poderia, eu mesma, assassinar friamente a minha angústia, matar a minha inquietação?)

terça-feira, maio 05, 2009

conto tim-tim-por-tim-tim e oculto o sujeito (ex.: meu sujeito simples desinencial está descendo pelo ralo sem se despedir ou prestar contas, ataca insônia); quero dar aulas de gramática poética para uma classe vazia, gosto de prosear as paredes (ausência de crase, favor tomar nota) com canetinha vermelha

muito bem, agora vamos aprender egocentrismo babado (= a realidade da conjugação do verbo ser:) eu sou tu sou ele sou nós sou eles sou

quem não estiver entendendo nada, faça o favor de ir embora rápido antes que entremos de corpo e alma (prefixo + sufixo) na Morfologia (experiência perigosíssima, devo alertar!)

cá estou eu, linguagem,

mas quando você vai me deixar dormir? não estou com a mínima paciência para exercitá-la, pelo menos faça o favor de ser flexível, molinha; fica frouxa, sintaxe.

estou enjoada de metalinguagem, quero largar de mão. prefiro reproduzir minha falta de sorriso tátil, não me causa efeito mas não me dá trabalho, pretendo dormir no zero a zero.

(posso tirar um cochilo antes de esmiuçar?): hopper é fichinha perto daquela cena.

aprende: palavras não são pincéis, tenho que entrar em pormenores: nos encontramos apenas nas entrelinhas, no bruto somos estrangeiros.

zero a zero: muito literário mas pouco viável. (boa noite!)

segunda-feira, maio 04, 2009

O problema é que todo mundo se acostumou com a merda, estamos devidamente adaptados, aí qualquer ínfimo causa um bom efeito.

Estou farta de migalhas serem vistas como pepitas de ouro.
Ah-é-melhor-que-nada-não-é-verdade? NÃO.

Meu mantra continua sendo NÃO FEZ MAIS QUE A SUA OBRIGAÇÃO. E quando você fizer alguma coisa realmente boa eu te aviso, pode deixar.

quarta-feira, abril 29, 2009

meu eterno circular: durante o dia jogo fora, na madrugada reviro a lata de lixo

(crianças, não tentem fazer isso em casa)
campainha cega que perturba a vigília:
puro simulacro

convergir aquele tal apetite
do corpo nu
(choque inédito)

viver:
puro simulacro

terça-feira, abril 28, 2009

o exílio não surte efeito, aprendi a brincar de gonçalves dias

do desamor faço minha própria ode descontínua e remota para flauta e oboé

estou sentindo umas cosquinhas (doídas)

tenho duas sortes (restaram):

sou mulher em prosa
que
inteira
se
desaba
(embriaga)

domingo, abril 26, 2009

aos domingos o tempo é uma serpente gorda se arrastando; ainda não uso maiúsculas mas brinco: transformar o casual em habitual, o habitual em vício (alimentar o vício faminto que não aceita migalhas); presto atenção nos ângulos apenas para distrair minha memória tua; acabo aprendendo cenas, quero reproduzi-las dentro-dentro, mastigarei as cenas para escrevê-las posteriormente, me darei ao luxo de ser vagamente ininteligível para não identificarem os elementos, não quero ser detida por plágio (não há provas, eu sempre fui uma boa criminosa).

te aviso: não estou gostando do papinho nas esquinas de fora porém não consigo estar exatamente incomodada: seguro uma sombrinha e me equilibro na corda bamba do meio-termo (até quando?).

meu próximo movimento não será pendular nem ensaiado.
1) perder o tempo (de vista)
2) exagerar nos temperos, modificar as receitas
3) derreter sem receio
4) esquecer as sobriedades
5) fluir

(acrescentar boas doses de ainda que o mundo se ressinta)

quinta-feira, abril 23, 2009



Pensa-se, depois, o óbvio: se toda atriz tivesse um quê de Meryl Streep eu não pararia de ver nenhum filme no meio. Quando sabe-se o significado de uma atuação impecável, perde-se logo a paciência com o resto.
(mas agora estou escrevendo para não ser soterrada pelo meu próprio desamparo, para conseguir usar letras maiúsculas novamente; estou escrevendo para amanhecer depois das seis, só por isso)

"mas é tão importante assim essa coisa toda? você morreria se não escrevesse?", mas quem foi que disse que escrever me livra da morte? só me ajuda a ressuscitar, vez ou outra.

no fundo é pura frescura: eu não escreveria se tivesse nascido numa família miserável com quarenta irmãos, eu trabalharia para ter o que comer, eu não escreveria se não fosse alfabetizada. escrever é luxo.

ser soterrada por desamparo é luxo.

terça-feira, abril 21, 2009

sonhos são descargas, estou me livrando do lixo que ocupa espaço no meu inconsciente.

segunda-feira, abril 20, 2009

a vida é muita curta para perder tempo

não quero o tempo, quero perdê-lo (de vista)

a tréplica: perder o tempo, não perder tempo
uma poesia envergonhada que se veste de prosa, narrativa, narrativa: acho uma graça!
Fragmentada, há em mim mil (ou centenas de; soa melhor mas não cabe no meu exagero; bobagem, deixe assim, eles são muito descuidados para notar falhas na linguagem) trechos que não estabelecem conexão entre si, não se comunicam, blocos, blocos; quero fluir. (Parêntese é recurso dispersivo, sou cheia de parênteses).

Contraveneno: responder ao passado: não tenho medo de cara feia! (Sentir por ele pontadinhas frescas de orgulho,) eliminar os parênteses na literatura e as digressões na vida, (antes: procurar saber a diferença literatura/vida,) eliminar as digressões do texto e os parênteses dos dias.

domingo, abril 19, 2009

IV

- Isso é tudo coisa da sua cabeça.
- Mas é óbvio que é coisa da minha cabeça, sempre é, vai ser da cabeça de quem? Da sua, do porteiro, da Marilyn Monroe?
- Estou dizendo que não é real.
- É real para mim.
- Mas não é real para o mundo.
- Para o seu mundo.
- Não, para o mundo todo.
- O mundo todo é coisa da sua cabeça.
- Desisto de tentar te salvar.
- Até que enfim!
- É que são raros os momentos em que estou em mim, gosto muito de passear.
(...) e você não está aqui para me contar detalhadamente sobre o dia, compassadamente sobre as horas, entre risinhos frouxos e cigarros, tão clássico, tão óbvio. Vou distribuir panfletos anônimos denunciando o seu crime: M. não compõe a cena esta madrugada porque achou mais seguro se refugiar na falsa ilusão de paz do seu sono, tirando o meu. Prisão perpétua, no mínimo.

Resolvi me vingar e escrever para perturbar seus sonhos: estou me distraíndo com alguém que não é tão homem quanto você e lê o jornal em voz alta como se fosse meio-dia, me lança olhares repressivos a cada cigarro que acendo e profetiza minha morte, me arrancando assim risadas encorpadas e não risinhos frouxos, você dorme porque é madrugada e o seu mal é fazer das coisas somente o que elas são.

(meados de setembro, ainda)
Meados de setembro: não penso em ti porque lembrei que tens os ombros levemente caídos quando viras de costas, me lanças palavras obscuras e enevoadas e tens os cabelos constantemente em desalinho. Não penso em ti, lembro-te.

(é que eu encontro tanta coisa perdida por aqui...)

sábado, abril 18, 2009



"A única razão de ser de um ser é... ser."
Impecável, violentamente apaixonante do primeiro ao último minuto.

ATENÇÃO: ESTE POST É PARA PESSOAS BURRAS COMO EU, SE VOCÊ FOR INTELIGENTE POR FAVOR PASSE LONGE E PERDOE A BAIXA CAPACIDADE DE SÍNTESE DO MEU CÉREBRO:

Cidade dos Sonhos é um filme que beira o ridículo durante duas horas e porrada e nos últimos minutos triunfalmente chega ao seu objetivo. Como se eu já não achasse David Lynch um palhaço, como se eu já não o odiasse suficientemente, eis que hoje encontro na internet:

"Dez dicas para se entender Mulholland Drive:

1) No começo do filme, antes dos créditos, duas pistas são reveladas.
2) Fique atento para o que está escrito no luminoso vermelho.
3) Qual o título do filme, para qual o personagem Adam Kesher está realizando teste de elenco? Ele será mencionado mais uma vez durante CIDADE DOS SONHOS?
4) O acidente é um importante acontecimento em CIDADE DOS SONHOS. Onde ele acontece?
5) Quem entrega a chave azul e porque?
6) Fique atento para o roupão, o cinzeiro e a caneca de café.
7) Qual mistério é revelado no palco do Club Silencio?
8) Somente o talento de Camilla pode ajudá-la?
9) Fique atento para o objeto que está nas mãos do estranho homem que vive perto da lanchonete Winkie!
10) Onde está tia Ruth?"

EU NÃO SEI ONDE ESTÁ TIA RUTH, OKAY? TOMARA QUE NO INFERNO.

Só em mim bate algo do tipo: "vá tomar no cu, vá fazer charadinhas com a tua mãe"? Prefiro jogar Scotland Yard.

quinta-feira, abril 16, 2009

E no final das contas, tudo tende a ser apenas o que é.
(Acho tão estranho!)

terça-feira, abril 14, 2009

não durmo porque aquelas correspondências deixam-me encharcada:
passo as madrugadas
conjugando
o verbo
pingar





pela manhã checo a caixa de correio
fico instantaneamente seca
(durmo menos ainda)

sexta-feira, abril 10, 2009

Como reconhecer um babaca:

- Eu quase não sonho e blá blá blá...
- Você sonha toda noite, é que você não lembra.


- Ele morreu de aids e blá blá blá...
- Ninguém morre de aids.


- Amanhã vou fazer isso e aquilo e blá blá blá...
- Amanhã não, hoje, afinal já passou de meia-noite.


etc, etc, etc...
Haikai para Aurélio:

em moraria em ti
se não fosses
tão miúdo