quarta-feira, abril 29, 2009

meu eterno circular: durante o dia jogo fora, na madrugada reviro a lata de lixo

(crianças, não tentem fazer isso em casa)
campainha cega que perturba a vigília:
puro simulacro

convergir aquele tal apetite
do corpo nu
(choque inédito)

viver:
puro simulacro

terça-feira, abril 28, 2009

o exílio não surte efeito, aprendi a brincar de gonçalves dias

do desamor faço minha própria ode descontínua e remota para flauta e oboé

estou sentindo umas cosquinhas (doídas)

tenho duas sortes (restaram):

sou mulher em prosa
que
inteira
se
desaba
(embriaga)

domingo, abril 26, 2009

aos domingos o tempo é uma serpente gorda se arrastando; ainda não uso maiúsculas mas brinco: transformar o casual em habitual, o habitual em vício (alimentar o vício faminto que não aceita migalhas); presto atenção nos ângulos apenas para distrair minha memória tua; acabo aprendendo cenas, quero reproduzi-las dentro-dentro, mastigarei as cenas para escrevê-las posteriormente, me darei ao luxo de ser vagamente ininteligível para não identificarem os elementos, não quero ser detida por plágio (não há provas, eu sempre fui uma boa criminosa).

te aviso: não estou gostando do papinho nas esquinas de fora porém não consigo estar exatamente incomodada: seguro uma sombrinha e me equilibro na corda bamba do meio-termo (até quando?).

meu próximo movimento não será pendular nem ensaiado.
1) perder o tempo (de vista)
2) exagerar nos temperos, modificar as receitas
3) derreter sem receio
4) esquecer as sobriedades
5) fluir

(acrescentar boas doses de ainda que o mundo se ressinta)

quinta-feira, abril 23, 2009



Pensa-se, depois, o óbvio: se toda atriz tivesse um quê de Meryl Streep eu não pararia de ver nenhum filme no meio. Quando sabe-se o significado de uma atuação impecável, perde-se logo a paciência com o resto.
(mas agora estou escrevendo para não ser soterrada pelo meu próprio desamparo, para conseguir usar letras maiúsculas novamente; estou escrevendo para amanhecer depois das seis, só por isso)

"mas é tão importante assim essa coisa toda? você morreria se não escrevesse?", mas quem foi que disse que escrever me livra da morte? só me ajuda a ressuscitar, vez ou outra.

no fundo é pura frescura: eu não escreveria se tivesse nascido numa família miserável com quarenta irmãos, eu trabalharia para ter o que comer, eu não escreveria se não fosse alfabetizada. escrever é luxo.

ser soterrada por desamparo é luxo.

terça-feira, abril 21, 2009

sonhos são descargas, estou me livrando do lixo que ocupa espaço no meu inconsciente.

segunda-feira, abril 20, 2009

a vida é muita curta para perder tempo

não quero o tempo, quero perdê-lo (de vista)

a tréplica: perder o tempo, não perder tempo
uma poesia envergonhada que se veste de prosa, narrativa, narrativa: acho uma graça!
Fragmentada, há em mim mil (ou centenas de; soa melhor mas não cabe no meu exagero; bobagem, deixe assim, eles são muito descuidados para notar falhas na linguagem) trechos que não estabelecem conexão entre si, não se comunicam, blocos, blocos; quero fluir. (Parêntese é recurso dispersivo, sou cheia de parênteses).

Contraveneno: responder ao passado: não tenho medo de cara feia! (Sentir por ele pontadinhas frescas de orgulho,) eliminar os parênteses na literatura e as digressões na vida, (antes: procurar saber a diferença literatura/vida,) eliminar as digressões do texto e os parênteses dos dias.

domingo, abril 19, 2009

IV

- Isso é tudo coisa da sua cabeça.
- Mas é óbvio que é coisa da minha cabeça, sempre é, vai ser da cabeça de quem? Da sua, do porteiro, da Marilyn Monroe?
- Estou dizendo que não é real.
- É real para mim.
- Mas não é real para o mundo.
- Para o seu mundo.
- Não, para o mundo todo.
- O mundo todo é coisa da sua cabeça.
- Desisto de tentar te salvar.
- Até que enfim!
- É que são raros os momentos em que estou em mim, gosto muito de passear.
(...) e você não está aqui para me contar detalhadamente sobre o dia, compassadamente sobre as horas, entre risinhos frouxos e cigarros, tão clássico, tão óbvio. Vou distribuir panfletos anônimos denunciando o seu crime: M. não compõe a cena esta madrugada porque achou mais seguro se refugiar na falsa ilusão de paz do seu sono, tirando o meu. Prisão perpétua, no mínimo.

Resolvi me vingar e escrever para perturbar seus sonhos: estou me distraíndo com alguém que não é tão homem quanto você e lê o jornal em voz alta como se fosse meio-dia, me lança olhares repressivos a cada cigarro que acendo e profetiza minha morte, me arrancando assim risadas encorpadas e não risinhos frouxos, você dorme porque é madrugada e o seu mal é fazer das coisas somente o que elas são.

(meados de setembro, ainda)
Meados de setembro: não penso em ti porque lembrei que tens os ombros levemente caídos quando viras de costas, me lanças palavras obscuras e enevoadas e tens os cabelos constantemente em desalinho. Não penso em ti, lembro-te.

(é que eu encontro tanta coisa perdida por aqui...)

sábado, abril 18, 2009



"A única razão de ser de um ser é... ser."
Impecável, violentamente apaixonante do primeiro ao último minuto.

ATENÇÃO: ESTE POST É PARA PESSOAS BURRAS COMO EU, SE VOCÊ FOR INTELIGENTE POR FAVOR PASSE LONGE E PERDOE A BAIXA CAPACIDADE DE SÍNTESE DO MEU CÉREBRO:

Cidade dos Sonhos é um filme que beira o ridículo durante duas horas e porrada e nos últimos minutos triunfalmente chega ao seu objetivo. Como se eu já não achasse David Lynch um palhaço, como se eu já não o odiasse suficientemente, eis que hoje encontro na internet:

"Dez dicas para se entender Mulholland Drive:

1) No começo do filme, antes dos créditos, duas pistas são reveladas.
2) Fique atento para o que está escrito no luminoso vermelho.
3) Qual o título do filme, para qual o personagem Adam Kesher está realizando teste de elenco? Ele será mencionado mais uma vez durante CIDADE DOS SONHOS?
4) O acidente é um importante acontecimento em CIDADE DOS SONHOS. Onde ele acontece?
5) Quem entrega a chave azul e porque?
6) Fique atento para o roupão, o cinzeiro e a caneca de café.
7) Qual mistério é revelado no palco do Club Silencio?
8) Somente o talento de Camilla pode ajudá-la?
9) Fique atento para o objeto que está nas mãos do estranho homem que vive perto da lanchonete Winkie!
10) Onde está tia Ruth?"

EU NÃO SEI ONDE ESTÁ TIA RUTH, OKAY? TOMARA QUE NO INFERNO.

Só em mim bate algo do tipo: "vá tomar no cu, vá fazer charadinhas com a tua mãe"? Prefiro jogar Scotland Yard.

quinta-feira, abril 16, 2009

E no final das contas, tudo tende a ser apenas o que é.
(Acho tão estranho!)

terça-feira, abril 14, 2009

não durmo porque aquelas correspondências deixam-me encharcada:
passo as madrugadas
conjugando
o verbo
pingar





pela manhã checo a caixa de correio
fico instantaneamente seca
(durmo menos ainda)

sexta-feira, abril 10, 2009

Como reconhecer um babaca:

- Eu quase não sonho e blá blá blá...
- Você sonha toda noite, é que você não lembra.


- Ele morreu de aids e blá blá blá...
- Ninguém morre de aids.


- Amanhã vou fazer isso e aquilo e blá blá blá...
- Amanhã não, hoje, afinal já passou de meia-noite.


etc, etc, etc...
Haikai para Aurélio:

em moraria em ti
se não fosses
tão miúdo

terça-feira, abril 07, 2009

III

- Sabia que os japoneses vão mandar um robô para lua?
- E daí?
- Não é interessante?
- Não.
- Você não lê jornal?
- Há uma semana.
- É, eles vão mandar... é um robô bípede, tipo um homenzinho.
- Ah!
- Mas só em 2020.
- Não precisava de pressa para me contar.
- É, mas achei que você fosse ficar contente em saber.
- Estou... super... olha a minha cara de vibração...
- Você já jantou?
- Há uma semana.
- Então deve estar com fome.
- Nunca entendi o que tanto essa gente quer na porra da lua.
- Quer pedir uma pizza?
- Nunca fui com a cara de japonês, sabia?
- Quando é que vamos conseguir nos comunicar?
- Estou muito ocupada.
- Sentada no sofá?
- Tentando entender o que você ainda está fazendo aqui.

segunda-feira, abril 06, 2009

- É que essa é minha parte teórica.
- E a prática?
- Não existe.

domingo, abril 05, 2009

(e, além disso, tão repugnantemente sensata que chegou ao cúmulo de comer a vida pelas beiradas para não queimar a língua)

mas desde quando? desde quando?

quinta-feira, abril 02, 2009

II

- Desespero-me quando olho para trás, desespero-me quando olho para frente: eis o motivo pelo qual vivo sempre no meio.
- Você me enoja.
- Pois então vomite, é excitante a idéia de que algo saia de você sem que exista o mínimo controle, vomitar é excitante.
- Acontece que você vai terminar louca se não se livrar desse mundo cheio de espelhos, filosofias bestas, interpretações, análises, metáforas, recursos de linguagem, que inferno!
- Eu sei, estou até costurando-me uma camisa de força, é um bonito modelo porém pouco convencional, quando eu terminá-la deixo que você mesmo leia e experimente, talvez fique um pouco apertado em você aqui nos braços...
- Eu não quero ler nada, eu quero ir embora.
- Para sempre ou temporariamente?
- Para sempre.
- Ótimo, assim não preciso te esperar para o jantar.