domingo, maio 31, 2009

eu gostava de colorir paisagens como aquela da outra noite, os ratos despencariam dos postes e eu te diria que não, que nada, que são gaivotas. pula as poças de lama, finge que é amarelinha. me perdoa se eu desaprendi o jeito, o inverno é rigoroso e sempre chega mais cedo nas ruas de dentro.

quinta-feira, maio 28, 2009

detesto encontrar literatura medrosa, toda juntinha, assustada. o texto precisa ser lavrado, desenrolado (desatar os nós, deixar correr, soltar, soltar). o texto precisa respirar. eu tenho pavor de agulha, de sangue, eu jamais poderia ser enfermeira. para quem tem medo de escrever, a enfermagem é uma opção. a arquitetura, o balé, a natação, um concurso pro banco do brasil, tráfico de drogas, sei lá. fico com pena, elas ali tão presas, pobrezinhas. tão maltratadas. as palavras, estou dizendo. tenho pena das palavras.

segunda-feira, maio 25, 2009

segundo presságio (criação):

esse caos deslumbrante que arranha, arranha, não sacia. pisões no pé. de graça. não paguei nada por isso. muito obrigada por pisar gratuitamente no meu pé. hoje em dia é tão raro, guardei as moedinhas: vou comprar uma coca-cola na máquina. como é que é? não vai arrumar um emprego? você já almoçou? vai acabar a hora de almoçar, está acabando, corre, corre, daqui a pouco já é jantar. oi, você quer que eu segure a sua bolsa? obrigada. açúcar ou adoçante? você está usando essa cadeira? posso pegar? obrigada. server is too busy. como eu faço para chegar na avenida borges de medeiros? obrigada. está na hora de dormir, por que você não vai dormir? seu telefone está tocando, você não vai atender? heim? eu estou falando com você, não vai responder? heim?

primeiro presságio (ideação):

tão bonito o azul visto de cima, é aqui que eu quero passar as horas (perco a vontade de ir embora). não quero mais pegar o trem dos dias, me entupir de concreto, acelerar os passos para não ser mastigada, correr para não ser engolida, pensar, pensar: esquece o trem dos dias, esquece o calor dessa praça, esquece as grandes catedrais, vamos largar tudo para observar os caramujos, plantar as coisas claras e pescar um peixe-palhaço que nos faça morrer de rir.



(ao som de Eduardo Agni, o Primeiro Presságio dos sete.)

Tenho tropeçado em bipolares. - Fui diagnosticado! - eles fazem questão de expor com orgulho. E tomam lítio. Para a vida toda. É incurável, sabia? Para a vida toda condenados ao lítio. Pobrezinhos.

Com 20 minutos de consulta psiquiátrica, qualquer pessoa em perfeito juízo pode conseguir ser diagnosticado como bipolar. Não precisa nem fazer força. A Organização Mundial de Saúde vai achar uma delícia que você contribua e entre para estatística.

Ninguém me receita uma substância sem um exame concreto que comprove quimicamente por A + B que o meu organismo é deficiente, ou seja, carece de. Acho, no mínimo, coerente.

Tudo bem vocês discordarem e acharem bonitinho se entupir de lítio porque tentaram se matar com faquinha de rocambole Bauducco, legal, vá lá, mas não tentem me convencer que isso é o máximo. Não é. Conheci um homem esquizofrênico que acreditava ter sido abduzido por extraterrestres, ele me contou que o disco voador era parecido com o antigo Paes Mendonça. Isso sim é o máximo.

quinta-feira, maio 21, 2009

Pavor do caderno verde. Criei pavor. Criei. Como de praxe. Eu nasci para criar, gostaria de ter nascido para viver. (Eu vivo para criar, gostaria de viver para viver.) Não sei o que fica melhor. Aí, por via das dúvidas. Minha cabeça entrará em curto, três, dois, um: olá, meu nome é Maria de tal e tenho problema de tosse. Fico constrangida, todo mundo me olha no cinema e não posso nem freqüentar as aulas de espanhol, aí optei por um curso por correspondência. Tenho dois filhos mas nenhum marido. Posso falar muito sobre mim, mas a minha característica mais marcante é mesmo o problema de tosse. Na realidade eu não existo, sou só um exercício literário para acabar com o pavor que o caderno verde tem causado. Fico um pouco triste. Olá, meu nome é Maria de tal e eu não existo. (É deprimente, queria ver se fosse com você!)

quarta-feira, maio 20, 2009


Começa pelas beiradas e termina pelas beiradas. Não entra. Uma abordagem acanhada, medrosa. Não falo de sutileza: não é um filme sutil, é um filme intimidado. Fico me perguntando o porquê - um tema delicado, compreendo, mas precisa ser tão distante, tão vago, tão aberto? Um desperdício, eu achei.

segunda-feira, maio 18, 2009

despindo lee miller:

encaro, não encaro. encaro, viro o rosto. (tenho outra face aqui, escondida; é com ela que te observo quando não te olho.)
economizo o piscar: tenho medo que tudo acabe no espaço entre o abrir e fechar das pálpebras. (seja bom, você: pegue um pedaço de papel para anotar certinho o que estou perdendo enquanto meus olhos desempenham o movimento inconsciente.) fico preocupada.

despindo diane arbus:

estou muito ocupada desarrumando coisinhas do lado de fora; o reflexo dá um bom efeito, ausência de contraste que ninguém percebe, a simetria de fora/dentro de mim. a simetria hermética. deixo a lixeira transbordar: estou desordenando coisinhas; aqui fora, aqui dentro.

o que não sabem é que eu também engulo espadas (fico um pouco ferida). não é fotografia: fico nua e mudo o sexo. perco a realidade. não me faz mal, não me faz mal.

terça-feira, maio 12, 2009


Louis Garrel é um excelente ator que sempre faz papel de Louis Garrel, ou seja, de franguinho. Tenho a nítida impressão de que esse homem ainda usa fraldas e tem a bundinha francesa repleta de hipoglós. Fico cá com os meus botões tentando encontrar alguma diferença entre Louis Garrel de Os Sonhadores, Louis Garrel de Amantes Constantes e Louis Garrel de A Fronteira da Alvorada. ZERO.

Eu não gosto de filme sem suor, fico toda incomodada, me perdoem se eu estou errada em achar que drama exige carga dramática. Um casal fugindo do hospício como se estivesse indo até a padaria, uma mulher confrontando a loucura como se confrontasse uma gripe... não convence. A Fronteira da Alvorada é um filme que não convence. Uma chatice. (Não quero comentar as cenas de poltergeist no espelho. Venha para a luz, Caroline! perde aqui.)

Em suma: caguei para a fotografia muito bonita. Eu não fui a uma exposição, eu fui ao cinema.
falo daquelas elevadas taxas de bem-querer na circulação sanguínea
quero devolução das minhas horas a fio
(dedicação integral), quero outra
que não essa

quero me desconcentrar, (me desperceba)
não faz mal quando tira o centro:

desata, solta
espanta a poesia do quartinho
Hoje estou aqui sem você, estou aqui com uma legião - dois rapazes de terno (a pouca idade não combina), uma prostituta loira e um homem que não fala, só faz sons com a boca, uhum, uhum, muito compenetrado no assunto, que interessante, que interessante.

sexta-feira, maio 08, 2009

quinta-feira, maio 07, 2009


(Henri de Toulouse-Lautrec)

meus olhos - que não entendem nada - se alegram quando encontram as coisas bonitas.
Trata-se de um gato miando incessantemente, eu pensei até subir ao telhado e descobrir cem gatos miando incessantemente, orquestra felina tirando o meu sono, sinfonia de noites em claro. Devo admitir o meu primeiro esboço de reação: matá-los. (E o que eu faria das madrugadas silenciosas, secas? Não sei lidar com a paz, temo o sossego; poderia, eu mesma, assassinar friamente a minha angústia, matar a minha inquietação?)

terça-feira, maio 05, 2009

conto tim-tim-por-tim-tim e oculto o sujeito (ex.: meu sujeito simples desinencial está descendo pelo ralo sem se despedir ou prestar contas, ataca insônia); quero dar aulas de gramática poética para uma classe vazia, gosto de prosear as paredes (ausência de crase, favor tomar nota) com canetinha vermelha

muito bem, agora vamos aprender egocentrismo babado (= a realidade da conjugação do verbo ser:) eu sou tu sou ele sou nós sou eles sou

quem não estiver entendendo nada, faça o favor de ir embora rápido antes que entremos de corpo e alma (prefixo + sufixo) na Morfologia (experiência perigosíssima, devo alertar!)

cá estou eu, linguagem,

mas quando você vai me deixar dormir? não estou com a mínima paciência para exercitá-la, pelo menos faça o favor de ser flexível, molinha; fica frouxa, sintaxe.

estou enjoada de metalinguagem, quero largar de mão. prefiro reproduzir minha falta de sorriso tátil, não me causa efeito mas não me dá trabalho, pretendo dormir no zero a zero.

(posso tirar um cochilo antes de esmiuçar?): hopper é fichinha perto daquela cena.

aprende: palavras não são pincéis, tenho que entrar em pormenores: nos encontramos apenas nas entrelinhas, no bruto somos estrangeiros.

zero a zero: muito literário mas pouco viável. (boa noite!)

segunda-feira, maio 04, 2009

O problema é que todo mundo se acostumou com a merda, estamos devidamente adaptados, aí qualquer ínfimo causa um bom efeito.

Estou farta de migalhas serem vistas como pepitas de ouro.
Ah-é-melhor-que-nada-não-é-verdade? NÃO.

Meu mantra continua sendo NÃO FEZ MAIS QUE A SUA OBRIGAÇÃO. E quando você fizer alguma coisa realmente boa eu te aviso, pode deixar.