segunda-feira, junho 29, 2009


EXIT é uma associação suíça que ajuda os doentes incuráveis a cometer suicídio, ou seja, uma empresa suíça de homicídios dolosos em série. Não estou fazendo crítica alguma à associação ou aos membros, não estou sendo nada radical, apenas estou aplicando o português de forma clara - já que o chamado suicídio assistido é um termo patético, eu o substituo por outro de igual significado. Acho, inclusive, que o filme deveria se chamar EXIT - the right to kill.
Tirar a vida de outrem é moralmente ilícito para mim, não para todos, não julgo neste caso: não sou contra nenhum tipo de comum acordo, não sou contra nenhum tipo de prestação de serviço, há quem ofereça porque há quem compre.
O que me choca, na verdade, é a necessidade de assistência para pôr fim à própria vida. Acho banal a idéia de um telefonema eu-estou-em-depressão-há-seis-anos-por-favor-me-matem. Um revólver dentro da boca é mais rápido e eficaz, você não vai precisar assinar nenhum papel, não haverá nenhum tipo de burocracia nem fila de espera. Creio que se trata de amaciar a consciência, porém de que vale a consciência quando o seu único desejo é acabar com ela?
"Já pensaram na imagem que eu deixaria se agisse dessa forma?", um dos membros a respeito da idéia de suicidar-se sem a chamada assistência. Quem está preocupado com sua própria imagem se, no próximo minuto, ela não mais existirá? "Seria desumano. Para mim, é impensável."

domingo, junho 28, 2009

- agora já era.
- agora eu quero mesmo é que tudo vá delicadamente e diretamente para o inferno, ou seja, sem alarido e sem escalas - eu disse enquanto juntávamos as cadeiras para fugir da chuva.

Foi Apenas um Sonho:

"- Este país está podre de tanto sentimentalismo - Frank disse certa noite, dando as costas à janela, com um movimento solene e andando pelo carpete. - O sentimentalismo vem se alastrando como uma doença, há anos, há gerações, e hoje qualquer coisa que a gente toca parece estragada, de tanto sentimentalismo."

quinta-feira, junho 25, 2009

sinto-me tão frágil que no próximo minuto posso desintegrar, virar poeira. os passarinhos sempre ficam presos entre o vidro e o jardim de inverno; sou a babá dos passarinhos, dia após dia, ano após ano; eu, a pássara-mãe (me pergunto como eles farão daqui a pouco, quando eu estiver longe daqui).

quase não tenho mais paciência para literatura, nunca tive muita. só gosto mesmo de firulas, ana c. dizendo ai! que enjôo me dá o açúcar do desejo. literatura séria não me enche mais os olhos. tenho sido incapaz de passar da vigésima página de um hermann hesse sem ter vontade de mandá-lo calar a boca. mi persona está herida, mi primera persona del singular - acho uma graça, você não acha? (para quem eu estou escrevendo, agora?) eu não terminei de ler 80% dos livros que comecei, quero deixar isso bem claro (para quem?). eu queria tanto ter um destinatário!

às 17 hrs recebo uma ligação exata. vamos tomar um café. mas eu não te conto que estou muito fraca para chegar lá; eu nunca conto a ninguém, acho muito perigoso tanto blá-blá-blá.

(calcanhotto está se perguntando onde largou o leão que sempre cavalgou. vou escrever uma carta pedindo que, caso encontre, pergunte por onde anda o meu.)

terça-feira, junho 23, 2009

arrancaram dos meus seios a minha verdade:
toda noite eu a ouço chorar em algum lugar do mundo,
desamparada

mi bemol maior

onde o verde-azul marítimo
balança nos olhos (vim buscar sol para as horas posteriores)

eu costumava a vir aqui quando estava na prisão,
ainda tenho medo de perder o ar, mesmo depois
de tanto tempo

não estou fazendo poesia, estou reproduzindo
meu ritmo mental (puro circo)

eles querem acabar com a minha festa

eu aceito

eu preciso escrever sã e salva, senão um dia morro
de rir, literalmente

segunda-feira, junho 22, 2009

little italy 1930

para L.

desperdício de ternura:
uma suavidade
branca derramada
pelas gavetas

eu gosto de costurar extensas golas verticais à mão
(só eu noto a diferença), muito trabalho
e um bom efeito quando consigo manter
sobriedade em todo o resto
(o negro que dá um bom contraste)
quebra a extravagância que não quero
assumir como responsabilidade

estou muito compenetrada entornando palavras
em mim mesma

sexta-feira, junho 19, 2009

Vera Fischer sorridente na capa, manchete: tem dois anos que não faço sexo. Se alguém ainda tem alguma dúvida de que o mundo acabou, abra uma revista Quem.

"Eu sempre transei muito pouquinho" e "sou uma pessoa delicada" são os pontos altos da super entrevista exclusiva, fica a dica.

terça-feira, junho 16, 2009

eu vi a cara da ausência durante
todas aquelas noites,
eu pedia licença para deitar
na minha própria cama
no lixo de dentro se pisa com os pés descalços, eu me respeito.

segunda-feira, junho 15, 2009

18:08:

porque as situações me vêm prontas, tentei explicar. não sinto os primeiros sinais, formigamento nos dedos dos pés e só então pernas, tempo útil entre, joelho, não é dessa forma que acontece comigo, umbigo, braços, não há vírgulas, ombros, não respiro, pescoço, quisera eu essa pausa, olhos, quisera eu, mente. porque as situações, continuei enquanto brincava com o saleiro para desviar os olhos, as situações são tão inteiras, tão nítidas, fico tão absorvida, as situações me engolem, me tragam. eu não vivo uma vida, a vida é que me vive toda. estou falando sobre a minha passividade, você não compreende, que nada, não fala assim, a minha dificuldade em tomar as rédeas, não diz isso, eu estou indo embora daqui, pára. é engraçado dizer, depois: não está me suprindo, não me preenche. eu só queria um quarto todo branco, wim mertens, cobertor, estórias, laranjeira, eu só queria (querer) um pouquinho de nada, de mim, de você, estamos todos sempre tão longe daqui. (e que eu não me escondesse atrás das minhas palavras, e que eu conseguisse escrever claro, limpo, e que eu, apesar dos pés gelados, amém.) agora interrompemos nossa programação habitual para... quem me dera, ah quem me dera.

domingo, junho 14, 2009

não conheço nada tão bonito quanto

"It is no accident that you are reading this. I am making black marks on white paper. These marks are my thoughts, and although I do not know who you are reading this now, in some way the lines of our lives have intersected... for the length of these few sentences, we meet here. It is no accident that you are reading this. This moment has been waiting for you, I have been waiting for you. Remember me."

Tentei brincar de despir Duane Michals e, naturalmente, não consegui. Deixo que ele fale por si só; tive que escolher as minhas preferidas, uma tarefa árdua demais:


This photograph is my proof

"This photograph is my proof. There was that afternoon, when things were still good between us, and she embraced me, and we were so happy. It did happen, she did love me. Look see for yourself!"


There Are Things Here Not Seen in This Photograph

"My shirt was wet with perspiration. The beer tasted good but I was still thirsty. Some drunk was talking loudly to another drunk about Nixon. I watched a roach walk slowly along the edge of a bar stool. On the juke box Glen Campbell began to sing about "Southern Nights." I had to go to the men's room. A derelict began to walk towards me to ask for money. It was time to leave."




"It was the happiest moment of the happiest how of the happiest day of her entire life. And it passed so quickly without her knowing it. Years later, she would still be filled with the joy of that afternoon's memory, long after she had forgotten just what it was that had made her so happy."


The Poet decorates his muse with verse

terça-feira, junho 09, 2009

(y)in:

acordei sentindo contrações, a bolsa estourou pelos olhos e exatamente agora, meia-noite e cinqüenta e nove do dia nove de junho de dois mil e nove, estou parindo para dentro. minha dor é feminina e geminiana. ninguém consegue enxergá-la.

segunda-feira, junho 08, 2009

nunca mais trocar caneta por colher:
não é com jejum literário que se cura
intoxicação venosa
todas as pessoas que rimam mar com luar deveriam levar uma surra.

- a minha lembrança mais viva é aquela grande escrivaninha de madeira, de frente para a janela. era fácil imaginar o mundo que existia além daquelas cercas, mas não ousávamos conferir; não tínhamos permissão, nem coragem. era ali que eu desenhava sonhos.

quase consigo sentir o cheiro de chá de hortelã: a melhor parte em escrever é poder recordar o que eu não vivi. (é que não sei da Verdade, sei da minha.) não que não seja real, explico: é reprodução descritiva da mente. quase real, tirando a fantasia.

é que às vezes quero conhecer o âmago, saber o que há dentro - e às vezes só quero brincar de tirar os coelhos da cartola (a diferença não é a finalidade, é o tom).

domingo, junho 07, 2009

"(...)
pero le pasó (a Kafka) lo que a mí:
se separó
fue demasiado lejos en la soledad
y supo - tuvo que saber -
que de allí no se vuelve
se alejó - me alejé -
no por desprecio (claro es que nuestro orgullo es infernal)
sino porque una es extranjera
una es de otra parte,
ellos se casan,
procrean,
veranean,
tienen horarios,
no se asustan por la tenebrosa
ambigüedad del lenguaje
(No es lo mismo decir Buenas noches que decir Buenas noches)
El lenguaje
- yo no puedo más,
alma mía, pequeña inexistente,
decidíte;
te las picás o te quedás,
pero no me toques así,
con pavura, con confusión,
o te vas o te las picás,
yo, por mi parte, no puedo más."

Alejandra Pizarnik, Sala de Psicopatología.

sexta-feira, junho 05, 2009

lugar-comum é um espacinho tão confortável...

algum de junho:

hoje acordei cortando pé, catando caco: Cartier-Bresson caiu da estante e se espatifou no chão enquanto eu dormia. hoje percebi que meu calendário ainda está em abril, não tive maio, arranquei as folhinhas: agora estou oficialmente em junho, acho tão perigoso! hoje comprei flores que mais parecem raminhos de couve-flor vermelha, muito feio, eu achei; tive dó, comprei. hoje estou numa postura desfavorável mas não quero aprender a nomear os meus incômodos, aí escrevo sólido e descompromissado. hoje não tenho pretensões, talvez nunca. hoje resolvi que imagem não me engana mais; é só luz, abertura, foco.

terça-feira, junho 02, 2009

amanhã cento e vinte páginas viram oitenta, depois trinta, depois duas. eu me como, sou meu próprio pac man. tenho fome e tendências autofágicas; não sou naturalmente antropofágica, como você me supõe, exceto quando minhas substâncias estão escassas. você sabe, instinto de sobrevivência, tudo muito normal.