terça-feira, setembro 29, 2009

"Há um princípio forte e comum nos dois: a negação. Eva não conhecia Goethe, porém citava-o. Fausto não citava o fato de ter conhecido, numa festa na semana anterior, Marcela – com quem foi para cama imediatamente. No primeiro caso há uma mentira. No segundo caso, a verdade omitida. Tudo está no mesmo saco e é a mesma coisa quando chegamos à conclusão: negavam-se, os dois, a mostrar suas verdadeiras faces. Entretanto, amavam-se? É possível amar uma verdade que não se vê? Sobre a verdade: por não deixar-se ver, não existe? Por não mostrar-se, é indigna de amor? Pode-se amar uma verdade tímida? Ou amavam somente a mentira que viam - e, conseqüentemente, não se amavam então? A flor que nasce da lama é falsa?"

Eu amo o que eu faço. Eu sou louca pelo que eu faço. Quero deixar registrado: é o que me faz acordar todos os dias.

E tenho uma personagem chamada Maria que fala tudo de um jeito muito engraçado, é um jeito meio nervoso, ela emenda uma coisa na outra e às vezes gagueja. Toda vez que ela aparece, eu acho a maior graça. Mais ainda porque ela fala coisas sérias. Há certo perigo em entregar-se completamente ao que se faz porque todo o resto vira banalidade. Há ausência de importância em todo o resto (é curioso usar o verbo haver para falar de ausência, não é?). E falo sobre entregar-se à qualquer coisa. Talvez por isso as pessoas gostem de viver na superfície. Eu não sou ninguém para dizer que elas estão erradas.

sexta-feira, setembro 25, 2009

De vez em quando sinto falta de um lugar que eu não conheço e não sei onde fica. A única coisa que sei sobre ele é que um dia pisarei e terei certeza: é aqui.
"Eu ando apaixonado
Por cachorros e bichas
Duques e xerifes
Porque eles sabem
Que amar é abanar o rabo
Lamber e dar a pata"

quinta-feira, setembro 24, 2009

Russell Crowe tem que ser eternamente ovacionado por sua atuação em Uma Mente Brilhante. Não canso de babar a cada cena.

O filme inteirinho é lindíssimo e eu havia o esquecido, lembrei hoje por um acaso do controle remoto. Aí lembrei, junto, que as melhores definições de amor que já encontrei são simplérrimas. Não existe nada mais simples e bonito que Alicia Nash dizendo: "Maybe try again tomorrow".

terça-feira, setembro 22, 2009

- Pois mande que atirem a primeira pedra. Depois a segunda, a terceira. Mande que confeccionem todas as cruzes, que busquem os pregos, mande que preparem as fogueiras, que segurem seus chicotes; avise, sobretudo, que é bom que todas as minhas sepulturas estejam prontas. Corra e avise lá, aos seus, que eu não saio de mim, que de mim ninguém vai me tirar. Depois pague pra ver.

segunda-feira, setembro 21, 2009

quarta-feira, setembro 16, 2009

Todo mundo sabe do meu amor por Caio Fernando Abreu. Não o considero o melhor escritor de todos os tempos, como está em voga, mas nutro um bem-querer como por nenhum outro.
Um doce Caban pergunta: "Por que você não veio trabalhar ontem?" Caio candidamente responde: "Eu estava na fossa." Ao que Caban avisa, furioso: "Pois da próxima vez que ficar na fossa, se arraste até o próximo telefone e avise que não vem."

Disse que ia se matar. Mas já estávamos acostumados com isso, tinha até uma brincadeira que alguns amigos faziam: "o Caio se mata três vezes por semana."

Uma vida fascinante, veemente, repleta de humor, esperança e "dramalhões mexicanos" (como a autora mesmo define).
Entretanto Para sempre teu, Caio F. não é apenas uma biografia de um escritor, é um retrato de uma geração inteira. Se Caio Fernando Abreu já havia feito isso literariamente, Paula Dip arma-se de outra linguagem para nos transportar exatamente ao mesmo lugar - aquele lugar que qualquer leitor de Caio F. conhece bem.
Recomendo ler aos pouquinhos para poupar, é o que faço.
A Partir do Final é uma brincadeirinha fina em parceria. Digno.

segunda-feira, setembro 14, 2009

Eu Não Entendo Picas de Amor é o título. Depois joguei no Google e descobri que o Pérsio de Pela Noite diz eu-não-entendo-picas-de-amor. Azar o dele. Não vou mudar. Inconsciente é foda, você não sabe mais o que é seu, o que está entrando, o que está saíndo. Hoje estou cheia de piadinhas com conotação sexual. Sempre achei ridículo. Continuo achando, porque realmente o é. Azar o seu, que está lendo. Não vou mudar. Quero uma triologia. Falta o terceiro. Estudo Irrevogável Sobre a Paixão é o primeiro. Não tenho muita paciência pras minhas brincadeirinhas literárias, então terminarei em breve. Depois eu juntarei os três e mandarei de presente, sei lá, pra Yemanjá no dia 31 de dezembro num barquinho. É uma opção. Azar o dela. Todo mundo cheio de azar vagando numa freqüência astral muito baixa. Eu não. Eu sou ótima.

sexta-feira, setembro 11, 2009

esto es solamente un registro for my studies about meu self:

em 2007 eu escrevi um conto chamado la que murió de su vestido azul. há semanas venho sentindo falta, não me conformo em nunca mais encontrá-lo. era um casal acordando, não acontecia nada. ele citava Pizarnik. ou ela, não me lembro. o fato é que não existe mais. é como se nunca tivesse sido escrito, mas foi. onde será que ficam as coisas que deixam de ser? em algum lugar, certamente - onde?
estou dizendo: nada desaparece. degeneram-se, as coisas, mas não desaparecem.

há dois anos. dois anos é muita coisa. são 17.520 horas. imagina tudo que acontece em 17.520 horas! um ser humano nada mais é que um acúmulo de horas com braços e pernas vagando pelas ruas. só isso? só isso. queria mais? sim. tá,
tem uma coisa também sobre a gente não lembrar de todas as horas mas todas as horas lembrarem da gente. explica melhor. não sei, é só isso mesmo. tá.

eu tenho a mesma sensação quando um relacionamento termina e quando estou desmontando a árvore de natal no dia de reis. ela solta gargalhadas escandalosas e joga a cabeça para trás, depois coloca a mão no peito e diz ai ai.

ah se você soubesse! sempre lembro de virginia woolf respondendo "BUT I DO KNOW! i know the whole business"

"não me faz assim tão desaprendida, não me desenxerga" é o início de uma carta que eu não lembro se escrevi. faz muito tempo.

e eu,
eu que só sei ser assim muito descarada,

meu nome é verdade.

quarta-feira, setembro 09, 2009

e hoje eu quero falar de Hilda Hilst

ou
e hoje eu quero deixar Hilda Hilst falar:
"Vi-me afastada do centro de alguma coisa que não sei dar nome, nem porisso irei à sacristia, teófaga incestuosa, isso não, eu Hillé também chamada por Ehud A Senhora D, eu Nada, eu Nome de Ninguém, eu a procura da luz numa cegueira silenciosa, sessenta anos à procura do sentido das coisas. Derrelição Ehud me dizia, Derrelição – pela última vez Hillé, Derrelição quer dizer desamparo, abandono, e porque me perguntas a cada dia e não reténs, daqui por diante te chamo A Senhora D. D de Derrelição, ouviu? Desamparo, Abandono, desde sempre a alma em vaziez, buscava nomes, tateava cantos, vincos, acariciava dobras, quem sabe se nos frisos, nos fios, nas torçuras, no fundo das calças, nos nós, nos visíveis cotidianos, no ínfimo absurdo, nos mínimos, um dia a luz, o entender de nós todos o destino, um dia vou compreender, Ehud
compreender o quê?
isso de vida e morte, esses porquês
escute, Senhora D, se ao invés desses tratos com o divino, desses luxos do pensamento, tu me fizesses um café, heim? E apalpava, escorria os dedos na minha anca, nas coxas, encostava a boca nos pêlos, no meu mais fundo, dura boca de Ehud, fina úmida e aberta se me tocava, eu dizia olhe espere, queria tanto te falar, não, não faz agora, Ehud, por favor, queria te falar, te falar da morte de Ivan Ilitch, da solidão desse homem, desses nadas do dia a dia que vão consumindo a melhor parte de nós, queria te falar do fardo quando envelhecemos, do desaparecimento, dessa coisa que não é existe mas é crua, é viva, o Tempo."

Eis o início de A Obscena Senhora D. Uma obra-prima. Frases redondinhas, uma delícia de linguagem, de ritmo, de forma, de livro, de ai! Não sei. Fico com palavras da própria, aos 68 anos, em entrevista para Revista Cult:

"CULT - Você escreve poesia, ficção e teatro. Qual dos gêneros literários você prefere?
H.H.- Eu me acho perfeita nos três. Pode escrever isso. A única coisa que eu pude fazer na vida foi escrever, porque é a única coisa que eu sei fazer mesmo. Dizem que eu sou megalomaníaca. Sou. Meu texto de ficção é deslumbrante, é da pessoa ficar gozando o tempo todo."

Embora eu atribua essa arrogância à mágoa de ter passado uma vida inteira sem ser reconhecida, Hilda Hilst define bem seu trabalho quando escolhe a palavra deslumbrante; é da pessoa ficar gozando o tempo todo, sim.

segunda-feira, setembro 07, 2009

Close Your Eyes and Listen

e ficar ali dentro eternamente morrendo de uma dor mansa de beleza
Passei 6 horas escrevendo um Estudo Irrevogável Sobre a Paixão. Depois guardei. Não sei o que será dele. Nada, provavelmente. Rendeu-me dor de coluna, olhos abertos, mais um passo em direção ao câncer de pulmão e epígrafe de Ana C. charmosíssima como sempre. Parabéns para mim e para o meu amontoado de inutilidades. Sigo achando um desaforo esse calor todo; sair de casa é sempre como brincar de jogo dos sete erros, encontrei uma mulher de cachecol. Por favor, avise a ela que.

domingo, setembro 06, 2009

"O bar dos wanna be Jonh Fante. E olha que eu amo o John Fante. E olha que eu sou uma wanna be John Fante. Mas cara, não consigo. Eu simplesmente não consigo ver aquele povo atormentado escrevendo em guardanapo e fazendo cara de tuberculoso beatnik. Meu filho, quem escreve, escreve. Não monta circo de escritor no meio da praça pública pra falar que escreve.", Tati Bernardi em Blônicas.

Estou saturada de esbarrar em toda esquina nos poetas boêmios decadentes intensos viados qual-é-o-seu-processo-de-criação-?

Minha alma boceja. Meu processo de criação eu não sei, mas meu processo de manter a calma consiste em ficar bem longe de vocês.

quinta-feira, setembro 03, 2009

tenho pena dos hojes que viraram ontens numa velocidade monstruosa. as horas tão apressadas! onde vão? onde vou? ando precisando de fôlego. parar durante dois minutos e observar a presidente vargas às 14 hrs é ter certeza que o ser humano não faz a mínima idéia do que é ser humano. acho esquisito mas não fico pensando, preciso me concentrar inteiramente em alcançar um ônibus qualquer que
- me tire, por favor, me tire

minha cabeça dá pane, pergunto se é normal; quero dizer, se você acha que acontece com frequência; é uma constante essa coisa toda de sonho desmanchando? escorre feito maquiagem borrada, compromete minha pouca sanidade. recebo seu sorriso que me causa
pontadinhas no centro do peito descoberto,
(acharei pouco, sentirei falta de aléns; sugiro então deixar-me explicar meus ais sem interrupções:)
é que sou dona de uma febre que não passa,
uma violência: meu corpo acha gostoso se debater, faltar o ar, ai de mim tão incapaz de impedi-lo!

este é apenas um conselho: só case com alguém que te ame o suficiente para preparar seu chá e pentear seus cabelos quando você fizer 80 anos e sofrer de alzheimer. ame de volta, não esqueça.

quarta-feira, setembro 02, 2009

que não sei diferenciar o que vem do cérebro e o que vem da alma, que quero misturar-me, que já não sei onde perdi
as horas dos últimos nove meses;
ainda assim, acordei inteira sutileza. é para poucos, isto que falo.