sábado, outubro 31, 2009

(só estaremos completamente livres quando matarmos todas as nossas ilusões ou o homem livre não passa de um homem excessivamente iludido?)

janeiro ou fevereiro:

Eu passei todos os anos pensando, pensando - eu não achava nada disso, mas me veio o Estalo. Eu sou. Vou desistir das palavras, digo muitas vezes, não consigo mais. Impossível: abdicar da sua única paixão verdadeira. A língua portuguesa é a minha mãe e eu sou uma criança que se recusa a crescer - são os seios mais bonitos que eu já vi, quero mamar eternamente. Tenho medo que tudo seque um dia, o que farei? Do que me alimentarei? - Como isso é assustador, meu deus, como eu temo, como... - me alimento do temor. O temor é a antecipação de todas as coisas; me alimento do que ainda está por vir e os meus enjôos diários são por conta do passado, vomito o que passou (todos os dias, todos os dias). Sou uma mulher incompleta porque me falta o instante - que deve ser o instante eterno, o agora. Eu escrevo para preencher o presente. Não é assim que deveria ser, me nego, me nego. Vou me arrastar até o Momento, sedenta, aflita, vou encontrá-lo (sussurro: ele não sabe da minha necessidade, não quero dizer para não assustá-lo. Vou aparentar normalidade quando chegar aos seus braços, vou esconder minha angústia, minha aflição. Penso: quando eu der as mãos ao Momento não mostrarei minha face para que ele não fuja, para que ele não escape entre meus dedos). Aí viverei o instante-inventado, concluo; estou decepcionada, só por assim dizer.

Simplesmente Eu, Clarice Lispector


Ontem Beth Goulart despediu-se temporariamente dos cariocas numa curta temporada no teatro da UERJ. É muito bonito assistir ao reconhecimento de um bom trabalho, a atriz foi incessantemente aplaudida de pé por mais de mil pessoas, a impressão que fica é que os espectadores não querem parar de aplaudir nunca mais. Beth Goulart consegue criar uma atmosfera Lispector que não deixa ninguém impune - já assisti à peça com pessoas que entraram sem saber quem era Clarice e saíram do teatro completamente apaixonadas. Para quem ainda não assistiu, em janeiro o espetáculo volta ao Rio em cartaz no teatro SESI.

quarta-feira, outubro 28, 2009

"quem é você e o que faz por aqui?"
(sublinhar com marca texto amarelo as conexões self-mundo-natureza-divino-self para não perdê-las posteriormente; ancorá-las.)

por via das dúvidas

Todas as manhãs colava um post-it na geladeira para o homem que ainda dormia: "Bom dia! Não esqueça de me amar hoje."

Depois terminava o suco e passava o resto do dia despreocupada.

terça-feira, outubro 27, 2009

VIII

- Alô.
- Alô? Está me ouvindo?
- Quem está falando?
- Você está me ouvindo?
- Ah... sim....
- Estranho, eu sempre tive a impressão que você não me ouvia!
- Eu estou te ouvindo, Marcelo. São quatro horas da manhã.
- É que eu estava aqui sem sono pensando que, porra, talvez você realmente tenha um problema de audição, imagina só! Fiquei com a consciência pesada, nosso relacionamento terminou justamente porque eu tinha a impressão de estar falando sozinho, sabe, eu ficava impaciente e...
- Marcelo...
- Não! Me escuta, por favor, me escuta só desta vez! Eu estava aqui pensando que se você realmente tiver um problema de surdez e isso for constatado, quero dizer, eu posso te levar ao médico coisa e tal, pagar todos os exames necessários, aí quem sabe, Tereza, quem sabe a gente possa sair, beber alguma coisa, conversar, não sei. Seria muito diferente, Tereza, eu teria consciência que você realmente tem um problema auditivo, que não se trata de egoísmo, de descaso, você está me ouvindo?
- Estou.
- Então fala alguma coisa.
- Marcelo...
- Tá vendo? Tá vendo só? Você sabe que tem problema! Você não consegue emitir nenhuma opinião concreta sobre nada porque você simplesmente não escuta! Amanhã nós vamos resolver isso, meu bem, fique tranqüila, tudo vai entrar no eixo, viu?
- Porra, Marcelo, eu não tenho problema de audição nenhum, você enlouqueceu?
- Você conhece algum médico?
- Que médico, Marcelo, que médico? Do que você está falando?
- Se você tivesse algum médico na família você poderia pedir a ele algum laudo forjado, um atestado mesmo, sabe? Como as pessoas fazem para faltar o emprego, enganar o patrão, eu ficaria achando que você tem um problema auditivo e nós poderíamos retomar de onde paramos...
- Se eu tiver algum médico na família pedirei que te encaminhe ao manicômio.
- Alô, Tereza? Alô? Está me ouvindo? ALÔ? ALÔ, TEREZA?
- Estou. Não grita.
- Foi só um teste. Diga: você ouviu só os dois últimos alôs?

Com os Meus Olhos de Cão

"Aparentemente estava tudo bem. Os olhos apagaram-se por um instante assim como se eu e você não estivéssemos mais ali, como se ele mesmo fosse outro, a boca aberta como se lhe faltasse o ar e disse num arranco: que esforço para tentar não compreender, só assim se fica vivo, tentando não compreender."
Hilda Hilst

Lentamente concluo que, para mim, não existe nada tão grandioso como Hilda Hilst - literariamente falando.

Mas não quero fazer outro post mimimi hilda hilst mimimi. Está ficando cansativo. Só quero dizer que A Obscena Senhora D não é leitura obrigatória para Com os Meus Olhos de Cão. Não acredite caso digam.

segunda-feira, outubro 26, 2009

"espero que este libro no sea leído jamás"

"Un dios que quiere que yo viva te ha ordenado que dejes de amarme. No soporto bien la felicidad. Falta de costumbre."

Esbarrei em Marguerite Yourcenar por um acaso - como sempre, pois tenho costume de acasos - e instantaneamente sorri sabendo que ela tinha aparecido para ficar. "Te deseo con horror una traición de Camilo, un fracaso junto a Claudio y un escándalo que te aleje de Hipólito. No me importa cuál sea el paso en falso que te haga caer sobre mi cuerpo" - depois de gargalhar concluí que era das minhas, aí dei boas vindas e mandei que sentasse do lado das outras. Escolho as mulheres para a vida literária e os homens para a vida real: o equilíbrio perfeito.

Imediatamente, naquela mesma madrugada, apelei para o Google e fiz o download de Fuegos, um livro curtinho que devorei em pouco tempo. Depois do ato consumado, depois que já estávamos irremediavelmente apaixonadas - "yo te amo como una loca", dizíamos - descobri que eu fui enganada: li uma tradução, Marguerite escrevia em francês.

O meu cérebro demorou muito tempo para conseguir processar a informação, é como passar uma noite maravilhosa ao lado de um homem que pela manhã te mostra as fotos da mulher, dos filhos e do cachorro labrador. Ou te diz "olha, na realidade eu sou homossexual". Ou até mesmo "uma pena a gente ter esquecido a camisinha, eu tenho aids". Um balde de água fria diretamente na face até então sorridente e satisfeita.

Mas falo sério, então: Marguerite Yourcenar escrevia na língua errada. (E minha síndrome de Deus anda tão grande que quero determinar, agora, a língua em que as pessoas deveriam escrever. So funny.) Acho o francês muito tímidozinho, muito contido - o que está longe de ser uma crítica, sempre tive uma quedinha pelos tímidos - para a crueza das palavras de Marguerite. O espanhol é cru por natureza, é aberto, escancarado, indiscutivelmente assemelha-se muito mais à essência daquelas frases.

Hoje tenho nas mãos um Memórias de Adriano devidamente traduzido para o português que terá que aguardar eu me recuperar do choque da traição. Marguerite Yourcenar não vale nada, não se deixem levar por esse sorriso de boa velhinha.

"Soledad... Yo no creo como ellos creen, no vivo como ellos viven, no amo como ellos aman... Moriré como ellos mueren."

lixinho perdido de agosto ou setembro:

Eva estava lendo um livro que não era seu e só por isso amava-o – era amor o que sentia? Primeiro uma raiva ao esbarrar numa frase descuidadamente sublinhada com lápis, depois o horror, um susto: não era ela que havia sublinhado! Aquilo que estava em suas mãos, portanto, não era seu, pertencia a outrem, carregava a marca de outrem, como um território já marcado anteriormente por outro cão. Eva havia pagado caro pelo livro - já fora de catálogo há muitos anos, uma raridade - encontrara-o empoeirado num sebo, entretanto nunca seria seu. “Não é a mim que ele pertence!” – pensava involuntariamente cada vez que virava a página. E então, a dor. Se ela estava ali, tão pronta para ele, por que não? Se ela dedicava todas as noites, se ela estava tão perfumada (pois acabara de tomar banho e perfumar-se com lavanda, como fazia todas as noites antes de deitar-se cedo), se ela o amava tanto a ponto de tê-lo buscado incansavelmente por todos os sebos da cidade, se ela o admirava tanto que pronunciava seu nome a todos os amigos próximos, se ela o queria - pois se ela o queria! - se ela o queria, por que não querê-la? Por fim, o amor nascendo no meio de uma infinidade de nãos, na mais cruel rejeição, como uma flor nascendo na lama – e esta, apesar de ridícula, era a comparação mais perfeita. O livro amaria, então, quem o marcou descuidadamente e depois o rejeitou? O livro amaria quem o iludiu - marcando certas frases como se houvesse suma importância em suas linhas para depois vendê-lo por algum trocado? O amor cultiva o hábito de nascer frente aos nãos? Era mesmo amor o que sentia? Quem te fez isso? – pensou enquanto passava ternamente os dedos pelas marcas.

Antigos e Soltos


"Te deixo meus textos póstumos. Só te peço isto: não permitas que digam que são produtos de uma mente doentia! Posso tolerar tudo menos esse obscurantismo biografílico. Ratazanas esse psicólogos da literatura - roem o que encontram com o fio e o ranço de suas analogias baratas. Já basta o que fizeram ao Pessoa. É preciso mais uma vez uma nova geração que saiba escutar o palrar os signos." Ana Cristina César

Meu tesourinho.
(deveria eu responder-te à altura? altura? dei mais um gole, reformulei: deveria eu responder-te à baixeza? fitei minha própria imagem no espelho em frente, só então notei meus olhos apertados numa expressão rara, não falo da míope costumeira, trata-se de uma expressão muitíssimo mais funda - não devo, ainda, preocupar-me com rugas, fico muito à vontade para. e, cortando o silêncio, deveria eu responder-te à baixeza? mas tantas vezes desci que passei a me supor embaixo! é perigoso descer toda hora, sabia? é muito perigoso - pensei enquanto te segurava pelo rabo, camundongo, para te observar de pertinho - a gente acaba se sentindo um pouco rato de tanto conviver com eles. rato se mata com pancadas. ou senta-se na poltrona, acende-se um cigarro para observar a ratoeira pega-lo pelo rabo. hoje eu fico com a segunda opção.)
- É melhor pedirmos a conta, querido.

domingo, outubro 25, 2009

A Baía dos Anjos:

"- Sonhei que você tinha ido embora, acordei e você não estava mais, fiquei sem saber se era um sonho ou realidade...
- E o que você sentiu?
- Nada."

dois pontos

e um dia de tanto viver de sede

hei de morrer da mesma causa

terça-feira, outubro 20, 2009

"cut me a rose make my tea with the petals"

Entretantos

(O que mais me chamou atenção neste conto, depois de pronto, é uma inocência quase infantil. Eu poderia perfeitamente tê-lo escrito há uns cinco anos. É puro. Desenvolvi, por isso, um carinho especial por ele. Quando termino de ler acho mal escrito, primitivo, quase bobo - e uma gracinha que me dá vontade de me colocar no colo.)

I

- Agora será que você pode me ouvir?
- Posso.
- Então me ouça.
- Te ouço. - Fernando respondeu sarcasticamente, repousando então a colher sobre a mesa como quem desiste de comer.
- Eu não estou conseguindo.
- Você está tentando?
- Sim.
- Todos os dias?
- Sim.
- Eu vou perguntar novamente: todos os dias?
- Não, mas é que... - e desistiu da frase quando fitou as mãos daquele homem alcançarem novamente a colher que mergulhava no cereal, depois na boca.



II

Laura e Fernando moram juntos há quatro anos num apartamento na Tijuca. Na varanda, Laura passa os dias observando os que vêm, os que vão. Acha muito movimentada aquela rua, aquele bairro, aquela cidade. Não gosta de morar ali. - Agora é a hora em que eles descem para comprar pão porque já sabem que esta é a hora do pão quente. - Laura, de cima, acompanha a rua com os olhos - Todos os dias, no mesmo horário, eles descem para comprar pão. - Com o olhar fixo no portão do prédio em frente, espera o primeiro sair. Um sujeito gordo e careca, hoje sem camisa porque faz muito calor. - E ele não sabe... Ele não sabe que está gordo demais para comer pão todos os dias. - concluiu enquanto esperava o segundo sujeito sair do prédio. Laura é uma tartaruga.



III

- Fernando, é você? - perguntou quando ouviu o barulho da chave na porta.
- E quem mais seria?
- Como foi a entrevista?
- Havia mais uns quarenta candidatos. - Fernando ligou a torneira da cozinha para lavar as folhas frescas de alface que comprou para o jantar. - Todos muito bem preparados, você sabe, é muito complicado. Eu nunca deveria ter recusado aquela vaga em Vitória, se você soubesse como eu me arrependo!
- Eu não estou te ouvindo, vou até aí...
- É mais fácil que eu vá! Espere um minuto. - terminou de preparar a salada de alface e cruzou o corredor enxugando as mãos num pano de prato. - Ah, Laura, você está aí! Você é tão bonita, Laura, você é tão bonita!
- Fernando, eu não consigo.
- Você vai conseguir, meu bem, você vai conseguir.




IV

Laura está tendo um pesadelo, durante os últimos meses seu sono está muito agitado, acorda no meio da madrugada suando, inquieta, aí não contém um grito:
- Fernando, eu não consigo!
O homem abre lentamente os olhos, vira-se para o outro lado depois de responder:
- Mas Laura, você é só uma tartaruga.




V

- É isso mesmo que você quer? - perguntou tristemente enquanto acendia o cigarro da manhã. - Nós somos tão felizes...
- É isso mesmo que eu quero.
Fernando colocou a tartaruga debaixo do braço, enquanto esperava o elevador acariciou-a pela última vez. Sentiram um nó na garganta, os dois.
- Adeus, Laura. - murmurou ao colocá-la na calçada.



VI

Laura demorou algumas horas para alcançar o outro lado da extensa rua. Quase foi atropelada cinco vezes. Estava em pânico. Parou em frente à vitrine de uma loja para admirar um vestido estampado, mas os pés que iam e vinham quase a pisotearam. Era preciso ser safa.
- Ei, olha por onde anda! - gritava em vão.
Ninguém a ouvia. Ao cruzar a esquina, Laura deparou-se com uma poça e, então, o grande susto ao observar sua própria imagem refletida: eu sou apenas uma tartaruga! Já anoitece, Laura desconfia que é tarde demais para voltar para casa.

quinta-feira, outubro 15, 2009

Parte I:

"O Nunca Mais é a fera." Hilda Hilst

"Acalmo a ferinha? Deixo passar? Valeu a importância gasta?" Ana C.

"Levántate y anda, pobre bestia, y sin llorar." Pizarnik

Parte II:

"O Nunca Mais não é verdade." Hilda Hilst

"A fera dá preguiça, coração alhures." Ana C.

"¿no es verdad que yo existo y no soy la pesadilla de una bestia?" Pizarnik

terça-feira, outubro 13, 2009

Clive Wearing sofre do caso de amnésia mais cruel já registrado. Depois de sofrer um acidente, sua memória dura apenas alguns segundos, se você disser "olha, Clive, vai chover!" e instantes depois perguntar se vai chover ou não, ele responderá que não sabe. Clive cumprimenta sua mulher centenas de vezes por dia, como se não a visse há muito tempo. Lembra de sua mulher, lembra que era músico. E só. Durante anos manteve um diário pois acreditava que anotar cada minuto o ajudaria na recuperação da memória - desistiu depois de inúmeros acessos de raiva, repetia incansavelmente "não fui eu que escrevi isso, não fui eu". Okay, tá legal. O que está me incomodando brutalmente é uma frase da sua mulher, Deborah Wearing, "o mais incrível é que Clive não mudou nada, continua a ser ele mesmo" ou algo do tipo. ELE MESMO QUEM? Pois se ele não lembra nem a profissão do filho, pois se um ser humano é - sim! - um acúmulo de horas com braços e pernas, ele mesmo quem? Deborah Wearing escreveu um livro chamado Forever Today, contando detalhes do caso do marido, quero muito ler somente porque preciso que Deborah me responda - ele mesmo como? Ele mesmo o quê? Ele mesmo quem?

segunda-feira, outubro 12, 2009

este é apenas mais um conselho: quando alguma coisa boba grudar na sua cabeça e resolver te perturbar durante todas as horas, não tente fugir. enfrente-a. olhe seriamente para ela - para a coisa - e diga: e daí? fique atento, depois, ao silêncio - a ausência de resposta confirmará a falta de justificativa da perturbação. repita o procedimento até concluir que o que está tomando seus pensamentos é algo completamente vazio, depois descarte.

domingo, outubro 11, 2009

Sartre por ele mesmo

Eu não aconselho absolutamente ninguém a ficar durante três horas com a bunda sentada assistindo Sartre falar sobre política. Eu escolhi fazer porque o acho muito engraçado, então daria no mesmo de assistir a uma comédia com o Adam Sandler.
"Tudo é gratuito: este jardim, este cidade e eu próprio. Quando a gente se dá conta disso, o coração fica pesado e tudo começa a rodar. Fiquei no banco, perplexo, achatado por essa profusão de seres sem origem. Por toda parte, desabrochamentos. Minhas orelhas fervilhavam de existência. Minha própria carne palpitava, pulsava e se abandonava à germinação universal. Era repugnante." Jean-Paul Sartre, em A Náusea.
"Era repugnante." É de um pessimismo hilário. Eu juro que não entendo como as pessoas podem estranhar quando eu digo que Sartre era engraçado. Talvez seja um problema meu mesmo - porque, por exemplo, já dei gargalhadas lendo Virginia Woolf. Notei que acho engraçado quase tudo que considero genial. O que não é uma via de mão dupla, porque não acho genial quase tudo que acho engraçado. Acho raríssimas as coisas geniais - e considero Sartre genial, sim, apesar de contestar praticamente tudo que ele falava.

É sempre necessário procurar entender, antes de tudo, a época. Já ouvi muita gente critica-lo pelo fato de fazer "arte política", etc e tal. Se eu tivesse sido prisioneira na segunda guerra mundial, certamente não escreveria sobre o que eu escrevo hoje. Provavelmente seria ativista, militante, e toda aquela parafernalha. Isso vale para toda a turminha da ditadura militar, que também é alvo fácil dos mimimi mas arte não deve carregar ideologia política mimimimi.
Muito fácil porque ninguém hoje em dia é enviado à campos de concentração, vivemos tempos de uma liberdade enorme onde uma ministra sugere que relaxemos e gozemos e Vanusa resolve cantar sua própria versão do hino nacional com os cornos cheios de comprimido. Vivemos, hoje, num eterno carnaval, eu não sei até que ponto isso é bom ou ruim, eu não sei até que ponto essa liberdade é totalmente benéfica - o fato é que, hoje em dia, falar em "arte política" depois dos quinze anos soa ridículo, sim. Num passado relativamente próximo, não. Escrevemos o que vivemos, o que estamos vendo - mesmo que porventura vistamos nossos personagens com fantasias.
Tirando, então, o fator político na obra de Sartre, há um fator filosófico simplesmente encantador, mesmo quando vai de encontro às minhas verdades atuais ou quando banhado do pessimismo cômico que já citei - "Porque estava sempre lendo para me livrar do tédio. Esse tédio, mais tarde, chamei de existência."
Sartre por ele mesmo não é o documentário mais legal do mundo - é bem verdade que durante certas passagens a vontade é dar com a cabeça na parede - justamente porque o fator político domina 90% do filme.
Há pontos curiosos: é delicioso, por exemplo, ver a relação dele com a gentil, simpática e terna Simone de Beauvoir.
"- Como se ajudam mutuamente no trabalho?
- Basicamente criticando o que o outro escreveu."
O que eu acho bonitinho no relacionamento dos dois - se é que posso usar a palavra bonitinho para descrever - é que eram, visivelmente, farinha do mesmo saco. "Um critica o outro com grande severidade, às vezes até brutalidade." Eu faço idéia. "Às vezes, discutíamos tão alto que Bost, que vinha almoçar conosco, ia embora assustado, dizendo: volto quando estiverem melhor."
"- E em que ele era tão diferente dos outros?
- Acho que era o mais sujo, mal-vestido e talvez o mais feio."
Como sempre um docinho de pessoa e dona da voz mais feia que já ouvi, Simone de Beauvoir participa do documentário com outros quatro ou cinco - o clima pelo menos é de bastante descontração, thanks God, senão seria impossível assistir até o final.
Acredito que vale a pena para historiadores ou aficionados por Sartre. Os apenas admiradores - e neste último grupo eu me encaixo - que conseguirem chegar até o fim, não toparão ver o filme novamente nem sob tortura.
"I am more afraid of making a fault in my Latin than of the Kings of Spain, France, Scotland, the whole House of Guise, and all of their confederates."

Minha Queen Elizabeth linda como ninguém jamais será. Dia 21 está chegando e acho que eu super mereço.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Eu tive duas sortes: nasci mulher e fui alfabetizada na língua mais bonita do mundo. São esses os meus dois maiores prazeres em existir: sinto diariamente prazer por ser mulher e por falar português.

quarta-feira, outubro 07, 2009

eu nunca saberei como expressar a importância desta semana que começou às 3 e 20 da manhã de domingo. até respirar me dói. e cada vez mais chego a conclusão que está na hora de inventarem palavras novas - porque não estou falando da dor que todo mundo conhece, é uma dor deliciosa, eu chamo de dor de beleza mas ainda não é isso,
ainda não é o grau exato.

olha! tudo está se abrindo, os rostos, as mesas, o chão, as xícaras, o semáforo - verde, amarelo, vermelho,
vermelho,
vermelho.

tudo está se revelando para mim! para mim! que honra.

a quem devo agradecer?

talvez eu realmente tenha morrido - e a minha alma agora está se misturando ao todo. tenho falado muito em alma porque há poucas palavras existindo. quero palavras novas.

quero palavras virgens.

ouve! é tão fácil ser livre na música. e é tão difícil ser livre na literatura, sonho um dia soltá-la dela mesma.

quero palavras virgens e soltas como sons.

eu nunca quis pouco.
Identidade de Nós Mesmos é um diálogo filosófico entre duas mentes geniais - o diretor Wim Wenders e o estilista Yohji Yamamoto. Não conhecia nenhum dos dois, estou derretida. É mentiroso quem diz que é um filme sobre moda. A moda, neste caso, é apenas um pano de fundo. Eu recomendo a qualquer pessoa dotada de sensibilidade - porque é, sobretudo, um filme sensível.

Pensei, depois, que deveria haver o museu do cérebro. Quando certas pessoas morressem, seus cérebros seriam doados ao acervo. Deveria haver, também, o museu da alma - mas é uma idéia um pouco mais complicada. E não só porque a alma não é concreta (portanto não pode ser exposta como um quadro ou um mictório); é uma idéia complicada, principalmente, porque os museólogos não saberiam dizer se Fulaninho de tal pertence ao primeiro ou ao segundo museu. Eu gostaria muito que essa diferenciação fosse possível: o que é cabeça, o que é alma.

As duas coisas estão irremediavelmente ligadas, sonho um dia separá-las - como quem veste um jaleco branco e segura um bisturi - mantendo o paciente vivo.

Eu nunca quis pouco.

segunda-feira, outubro 05, 2009

Hoje eu quero um colo para chorar a morte de mim mesma.
Por favor, apenas um apelo: sobre Caio F., quem quiser ler uma biografia de respeito, leia Paula Dip - a que viveu na pele e, sobretudo, a que sabe como fazer.

O livro de Jeanne Callegari é amador e tem cheiro de leite ninho.

"Aids! Estou com aids, pensou Caio."

Não vou me estender porque tenho tentado ser uma pessoa boa. That's all.

quinta-feira, outubro 01, 2009

O Caderno Rosa de Lori Lamby

"Eu fiquei brincando na lagoa sempre com as pernas abertas como o tio Abel gosta e como todo o mundo gosta, não sei até por que não construiram a gente com as pernas abertas e aí a gente não tinha sempre que ficar pensando se era a hora de abrir as pernas."

Hilda Hilst