sexta-feira, dezembro 31, 2010

sábado, dezembro 11, 2010

‘‘I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.’’

Elizabeth Bishop

quinta-feira, novembro 25, 2010

domingo, novembro 21, 2010

Instinto

sm (lat instinctu) Estímulo ou impulso natural, involuntário, pelo qual homens e animais executam certos atos sem conhecer o fim ou o porquê desses atos.

terça-feira, novembro 16, 2010

"Yo creo que desde muy pequeño mi desdicha y mi dicha al mismo tiempo fue el no aceptar las cosas como dadas. A mí no me bastaba con que me dijeran que eso era una mesa, o que la palabra madre era la palabra madre y ahí se acaba todo. Al contrario, en el objeto mesa y en la palabra madre empezaba para mi un itinerario misterioso que a veces llegaba a franquear y en el que a veces me estrellaba.

En suma, desde pequeño, mi relación con las palabras, con la escritura, no se diferencia de mi relación con el mundo en general. Yo parezco haber nacido para no aceptar las cosas tal como me son dadas."

Cortázar

segunda-feira, novembro 15, 2010

(Vejo semelhanças entre meu processo literário atual e uma infecção urinária. Preciso de tempo - e água, principalmente.)

domingo, novembro 14, 2010

Júpiter

Quero estabelecer um pacto onde fica mutuamente acordado que esta noite você preenche meus entrededos com os seus de modo que fiquemos seguramente entrelaçados até que eu sinta suficiente paz para folgar meus músculos, repousar as minhas pálpebras e minha alma possa enfim embarcar rumo ao Sono, ao Nada, ao reino do até então Desconhecido. Quero te dar dois presentes: uma fita cassete com todos os meus sons e um desafivelar de cinto. No primeiro você me decora para nunca mais me errar, no segundo você sabe o que fazer. Quero sair à francesa de todos os seus espetáculos, mas à meia-noite te encontrar no camarim. Quero ser sua espécie de cor, de pretexto, de graça.

Saturno

Aí, quando distante dos holofotes, deito no teu colo e te peço: por favor me desbota, me afrouxa, me faz vulnerável.

terça-feira, novembro 09, 2010

segunda-feira, novembro 08, 2010

Aquiles

Sonho muito importante, tentei levantar no meio da madrugada para tomar nota mas minha cabeça pesava cerca de mil toneladas e pendia para o outro lado do travesseiro. O despertador me acordou religiosamente às 7 horas e esqueci o que sonhei. Obviamente puxei meu chicotinho. Post-it: ser mais disciplinada, oniricamente falando.

Tive ânsias de você, mas disse que não, que nunca. Se todos os meus sinais me entregam de bandeja, ao menos me dou ao luxo de salvar o verbo.

(Não sei me explicar bem, me falta foco.)

Assisti Chanel no seu tórrido romance com Igor Stravinsky e achei bonito; forte, maduro, aromático, poético, bem pontuado.

No mais, a vida caminha tal como lhe cabe fazer. O que me impulsiona para frente é saber que nos amanhãs tudo se transforma, os dias são incrivelmente transmutáveis. O que me impulsiona para frente é, também, o meu calcanhar.

domingo, outubro 31, 2010

Você sabe que não vive mais nesse mundo quando só lembra que é dia de eleição às 18:50 hrs da noite. Muito prazer, meu nome é Natasha e eu esqueci de votar.

domingo, outubro 24, 2010

decreto

devemos perder o apetite
e esse pensamento teimoso
nas tuas mãos que relutam em tocar meus ombros
(nos meus ombros que relutam em tocar tuas mãos),
essa coisa cismada.

é porque você me despetala!
aí entro em nítida alternância,
viro margaridinha:
bem-estar, mal-estar, bem-estar, mal-estar...

domingo, outubro 17, 2010

quinta-feira, outubro 14, 2010

midnight story:

Era uma vez uma mulher que esbarrou com sua imagem refletida num espelho qualquer, talvez até mesmo desses de elevador, e se perguntou:

- Quem é essa dublê? Quem escalou? Não convence.

quarta-feira, outubro 13, 2010

Elizabeth Gilbert:




Quero declarar que a partir de hoje eu não tenho mais preconceito com escritor de best seller. Mentira, tenho sim. Não vou comprar meu ingresso pra assistir a Julia Roberts comendo, rezando e amando - mas o discurso acima me tocou como poucos.

domingo, outubro 10, 2010

saudade de atacar meus amiguinhos:


Ponto de Partida é constrangedor. O pior é que consegue-se perceber claramente o teor do filme, o que o diretor tentou fazer - mas falhou. E fracassar em exposição é triste, muito triste.

Para não ser de todo invalidado: há uns dois ou três diálogos que se salvam. Réplica: ninguém assiste um filme com intenção de dois ou três diálogos.

Poucas vezes na vida senti tamanha vergonha alheia como nos últimos minutos. É por essas e outras que sou adepta ao: se não sabe fazer, tira a mão.

Para bom entendedor: Alejandro González Iñarritu, por favor promova workshops aos seus coleguinhas de profissão. They just don't know how to do it right.


aproveitando a oportunidade...
Paul Thomas Anderson, apesar de ter seu mérito de primogênito, também não foi feliz no resultado da fórmula. O fato é que Magnólia é um saco. Ninguém gosta de Magnólia. Quem finge que gosta de Magnólia é chato e quer aparecer. Esta é uma verdade absoluta.

Agora vá buscar papel e caneta para anotar um conselho: não tenha medo de dizer que você estava com cãibras e não via a hora do filme terminar. Caso alguém queira se gabar às suas custas dizendo que você não compreendeu a mensagem do filme e te azucrinar com a teoria do Exôdo
8:2 e afins, vire o rosto com uma expressão zangada e diga: talk to my hand.

dos motivos:

Às vezes acho que escrevo por puro ceticismo. Eu duvidaria se me contassem, por exemplo, que há exato um ano eu sentia intensa dor nos cotovelos. Depois sorriria debochadamente e diria "sei" como quem diz "até parece". Preciso escrever para produzir provas.

C. G. Jung em Análise de Sonhos, seminário ministrado de 1928 a 1930:

"É também exatamente o que a natureza faz no corpo físico. Se você tem um corpo estranho em si, a natureza manda um exército de células especiais para assimilá-lo; se elas não têm sucesso em absorvê-lo, há então a supuração para fazer a expulsão. As leis são as mesmas na mente inconsciente.

Provavelmente na realidade absoluta não há uma tal coisa como corpo e mente, mas corpo e mente ou alma são o mesmo, a mesma vida, sujeitos às mesmas leis, e o que o corpo faz está acontecendo na mente. Os conteúdos de um inconsciente neurótico são corpos estranhos, não assimilados, artificialmente cindidos, e devem ser integrados de modo a se tornarem normais. Suponhamos que algo muito desagradável tenha me acontecido e eu não o admito, talvez uma mentira terrível. Eu tenho que admiti-la. A mentira está lá objetivamente, seja no consciente ou no inconsciente. Se eu não admitir isto, se eu não o assimilei, isto se torna um corpo estranho e formará um abcesso no inconsciente, e o mesmo processo de supuração do corpo começa, psicologicamente, assim como tem lugar no corpo físico. Eu terei sonhos, ou, se introspectivo, uma fantasia vendo a mim mesmo como criminoso. O que farei com estes sonhos ou fantasias? Pode-se rejeitá-los, como o fariseu, e dizer "graças aos céus, eu não sou assim". Há um fariseu assim em cada um de nós que não quer ver o que ele é. Mas se eu reprimir minhas fantasias acerca disso, elas formarão um novo foco de infecção, assim como uma substância estranha pode causar um abcesso em meu corpo. Quando é razoável eu tenho que admitir a mentira, engoli-la. Se eu admiti-la, assimilo aquele fato, adiciono-o à minha constituição mental e psicológica; eu normalizo minha constituição inconsciente assimilando fatos. O sonho é uma tentativa de nos fazer assimilar coisas ainda não digeridas. É uma tentativa de cura."



Jung tem sido a melhor companhia dos últimos tempos pelo fato de pacientemente me colocar no colo e explicar - com doses cavalares de coerência - o que ninguém nunca conseguiu. Estamos apaixonados e em lua de mel. Favor não incomodar.

quinta-feira, setembro 30, 2010

"Não vou me sujar fumando apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar gastando assim o meu batom"

quarta-feira, setembro 08, 2010

Você descobre que é megalomaníaca quando se pega analisando Freud. Literalmente.

segunda-feira, setembro 06, 2010

(se você me percebia atravessando suas ruas, eu eterna transeunte)
Que não levantarei desta poltrona e não empregarei nenhum esforço que comprometa o conforto que tenho experimentado, por ora dispenso possibilidade de caos. E que talvez o único movimento tendente seja mesmo o de escorregar levemente minha mão por entre meus próprios cabelos num gesto quase instintivo, essas coisas de mulher. Que, entretanto, estou disposta a apurar os ouvidos para escutar seus passos estalando na madeira fria dos meus arredores. Eu quero que você me desestude.

E enquanto espero o supérfluo, essa bobagem de me arrastar em você, acabo me entretendo com utilidades. Hoje, por exemplo, colori as unhas.

Eu quero que você me demore.

domingo, agosto 29, 2010

parênteses


"When I was a child, my mother said to me, 'If you become a soldier, you'll be a general. If you become a monk you'll end up as the pope.' Instead I became a painter and wound up as Picasso."

quinta-feira, agosto 26, 2010

sexta-feira, agosto 13, 2010

Minha pele me trai, me apunhala pelas costas, pelos ombros, pelo pescoço, pelos seios. Denunciando-me, minha pele deita e dá risadas quando me percebe assim tão desconcertada. Tornar público meus termômetros, meus corredores, expor ligeiras intimidades: minha pele quer ser capa de jornal.

domingo, agosto 08, 2010

"Explicações sucintas dadas aos seres reais: eu não sinto. Eu invento."

Ana C., que sofria do mesmo mal

domingo, agosto 01, 2010

Sou, hoje em dia, uma mulher completamente apaixonada pelo Wim Wenders porque, além de tudo, é bonito até o modo como ele cruza as pernas, mexe os braços ou faz uma pausa entre uma frase e outra. Um homem irresistivelmente pontuado.

E não espero que ninguém enxergue ou compreenda porque lhes falta capacidade para tal. Sou franca.

quarta-feira, julho 28, 2010

Eu me dou um trabalho que ninguém imagina. Passo o dia inteiro tentando esconder objetos cortantes e produtos tóxicos de fácil ingestão, instalando protetores nas tomadas e ameaçando me deixar de castigo sem videogame e sobremesa por uma semana caso eu não sossegue.

Onde vou tenho que ir correndo atrás para evitar disparates.

Mil vezes pior que uma criança de cinco anos.

segunda-feira, julho 12, 2010

Naturalmente já tenho os dois pés atrás com tradução literária. Aí, além, tenho que driblar Lya Luft que cismou em traduzir todos os livros do mundo para ficar rica e não precisar mais fingir que escreve.

Lya Luft, eu não gosto de você.

Sem mais.

segunda-feira, julho 05, 2010

domingo, julho 04, 2010

te sinto trajeto, não destino.

quarto presságio (o sonho):

É como chegar ao fim do arco-íris e descobrir que existe um longo caminho pela frente. Quarta-feira de cinzas, dia de despir fantasias - e descobrir que é possível sobreviver sem elas. Acordar, vomitar restos de serpentina, mas tomar um café e fazer sinal para o ônibus, ainda que o estômago embrulhe. É como saber que a vida tem um jeito bobo de não saber engatar a ré.

terça-feira, junho 29, 2010

Adoro quando me chamam de insensível. Significa que estou cada vez mais perto de concorrer ao Oscar.

segunda-feira, junho 28, 2010

Acabei de ouvir Whitney Houston cantar a frase "stay in my arms if you dare" e achei muito digno. Depois me xinguei de cafona. Necessariamente nessa ordem.
Um saco ser obrigada a discutir diplomaticamente com quem não tem base pra sustentar o que diz. Vontade louca de dizer: toma 10 anos de Sustagem e depois volta pra gente conversar.

terça-feira, junho 22, 2010

E nos jardins os urubus passeiam a tarde inteira entre os girassóis, como já bem disse Caetano.

domingo, junho 20, 2010

Não há versão verdadeira de nenhuma história. Todas as versões são verdadeiras para quem a conta. Não há a realidade da coisa porque a coisa só existe se você decide concebê-la como existente.
Basta de trocar fraldas.

quinta-feira, junho 17, 2010

Você não é um cafajeste.

Um dia entenderei por que quase todo homem sonha em ser um cafajeste. Há coisas mais legais para querer ser. Vocês poderiam sonhar em fazer fortuna, por exemplo. Dólares. Seria um caminho mais fácil para uma noite de sexo, caso esse seja o objetivo. Eu conheci pouquíssimos cafajestes e digo: é preciso ter estrela. Tudo muito normal, questão de talento: há uns que nascem com uma aptidão brutal para o crime, alguns para a cozinha ou para a mecânica, outros para enganar. Dom. A maioria não sabe nem por onde começar. Não sabe nem mentir, não sabe nem... Nada. Não sabe nada. Não sabe nem o bê-a-bá e quer dar aula de lingüística. "Eu não presto." Tá legal, se isso vai te fazer mais feliz: você não presta, amigão, três vivas em homenagem.

terça-feira, junho 15, 2010

Morro de medo de mim. Ameaço escorregar e logo ao me recompor não economizo súplicas de perdão. É que me olho de um jeito muito tirano. Constantemente me sinto intimidada por mim mesma.

terça-feira, junho 08, 2010

ensaio desorganizado sobre alguma coisa:

- Porque sou toda feita de nada, desmancho-me à toa; hora sim, hora não. Experimento de nanquim: teimam em me dizer pronta quando ainda sou esboço mas insistem em me xingar de ensaio quando me percebo inteira. Careço de precisão. Eu deveria mesmo é ser descartada na primeira oportunidade, mas fico guardada há décadas na intenção de um Royal Straight Flush. Bocejo. Vigiam-me.

Temos, então, Izabel. Para mim, ruiva de longas tranças. É a maneira que eu a penso, embora não possa afirmar que seja realidade. Cada par de olhos é uma realidade, um mundo distinto. Prova disso é que se estou sentada a observar centenas de corpos que passam por mim e me ponho a anotá-los em grupos de adjetivos, certamente ao final da noite minha lista terá pouco em comum com a sua.

Mas não encontramos Izabel entre centenas de corpos. Nossos olhos não a escolheram, entretanto, como num susto, ela apresenta-se. Nossa mente imediatamente processa uma gama de informação e a transforma em imagem, já que precisamos enxergá-la.

Podemos fazer mil associações.

Estando sentada em frente ao aglomerado de pessoas, meus olhos não se fixam no desinteressante; se o fizer, posso afirmar que apenas para repousar as pálpebras. A visão vive uma eterna busca daquilo que nos renderá satisfação, preenchimento. A primeira coisa que podemos dizer a respeito da visão, certamente, é que se trata de um sentido sexual.

Há sempre um motivo que nos leva a parar – e ver. (Porque é necessário parar para ver, do contrário nossos olhos apenas passeiam.) Eu não sei o que te causará esse interesse; você, na maioria das vezes, também não sabe. Não porque você seja incapaz de descobrir, mas se pensássemos nisso cada vez que nossa vista fosse atraída, certamente enlouqueceríamos.

Posso dizer que seus olhos passeiam por uma longa exposição e param em frente a um quadro específico quando sentem prazer. O conceito de prazer é inteiramente pessoal e mora em locais inimagináveis.

Nunca pensamos à respeito. Nossa aventura ocular é estritamente inconsciente.

Num segundo caso, se sentada em frente ao aglomerado de pessoas e uma delas, até então não notada, repentinamente apresenta-se a mim, minha mente imediatamente processa a imagem vista e transforma em conceitos, palavras, adjetivos, já que precisamos defini-la.

Não tenho idéia se estou pensando de acordo com a realidade, assim como não posso dizer se enxergo Izabel tal como ela é. Portanto a visão é, também, um sentido puramente imaginativo.

sábado, maio 29, 2010

"I've written about all the others not because I loved him less, but because they were clearer, easier."

Out of Africa, 1985.

quinta-feira, maio 27, 2010

segunda-feira, maio 17, 2010

quinta-feira, abril 29, 2010

É que viro pra olhar seu nome pichado num muro, por exemplo. Reservo certo tempo para virar-me, encarar, constatar se leva acento no mesmo i, só depois volto o tronco para o sentido correto. Sou cuidadosa.

domingo, abril 11, 2010

(tanta coisa escondida
na porta dos meus fundos)

Miles Davis pelo avesso,
deserto,
causa pequenos arranhões
nas órbitas dos meus olhos
(ver dolorido é sintoma,
cegueira é remédio)

sexta-feira, abril 09, 2010

the last Kubrick


O maior prazer da minha vida seria amarrar David Lynch numa cadeira de frente para uma televisão passando Eyes Wide Shut ininterruptamente. Mas digo pra sempre mesmo. Até ele morrer.

Pelo menos na próxima encarnação ele já viria sabendo que dá pra fazer aquilo que ele tem vontade de fazer sem precisar ser ridículo.

De Olhos Bem Fechados é uma delícia.

O que nós vamos fazer hoje?

(e outros mimimis)

Um homem precisa ser um homem. Há uma diferença enorme entre ser um cavalheiro e ser uma bicha. Eu não sou sua mãe. Eu não vou te levar pra passear. "Você que sabe." Não, eu não sei de nada. Eu não sei escolher nem se eu quero churros de creme ou doce de leite. Para escolher lugar no teatro preciso ponderar a questão por quarenta minutos, pelo menos. Pode escolher meu churros. E a poltrona, a peça, o horário, o restaurante, o motel e o nome dos nossos filhos. Tenho coisas mais importantes para ocupar minha cabeça. É muito fácil saber o que eu quero assistir, portanto compre nossos ingressos e me comunique. Ficarei satisfeita e te acharei um bom rapaz. Ou você quer, também, que eu te leve em casa e te coloque pra dormir, seu bebê chorão? Quer que eu escolha a marca da sua fralda? Você curte a Pampers noturna? "Por mim, qualquer coisa que você escolher tá bom." Great. Então some, tá bom?

quinta-feira, abril 08, 2010

OH GO TO TEXAS, SWEET!

Sou uma pessoa muito tolerante, embora não pareça. Digo isso com plena convicção. Disponho meu precioso tempo para me comunicar com um outro alguém, me empenho para tentar encontrar uma forma de fazer as coisas funcionarem - às vezes sendo um pouco dura, um pouco crítica, um pouco exagerada, é verdade. E não importa. O fato é: comunico-me. Acredito que a comunicação é um dom preciosíssimo inato ao gênero humano e não nutro nenhum tipo de admiração por quem não coloca as coisas pra fora. Se eu fosse intolerante, viraria as costas e iria embora frente a primeira palhaçada exposta. Não é o que eu faço.

Outro fato interessante é que, se é verdade que me chateio com facilidade, também sou dotada de uma grande capacidade de perdoar. Logo esquecerei que você tentou envenenar minha sopa. Sou ótima, como se pode perceber.

E tenho limites. Primeiramente porque quem insiste em situações que não obtiveram nenhum êxito, repete os mesmos erros todos os dias ao acordar e não tem capacidade de enxergar que está fazendo besteira, na minha opinião está implorando um passaporte para o Texas. Aqueles que não só tentam envenenar sua sopa, mas enchem sua casa de dinamite e no final te apontam uma metralhadora. Extrapolam o limite da tolerância.

Creio que estes deveriam, ao fim de uma situação desagradável, imediatamente receber um telefonema com uma proposta de emprego milionária e irrecusável no Texas. Não desejo que ninguém sofra, que ninguém efetivamente morra, o Texas é um lugar aprazível e dinheiro é sempre bem-vindo. Desejo que sejam todos muito felizes comendo um texas burger, casando, tendo filhos sadios e fazendo fortuna. LONGE DE MIM.

"Go to Texas!" é o novo "vá pro inferno!". A diferença é que agora não é importante que ninguém sinta muito calor ou seja espetado por tridentes. I don't give a damn. Para me satisfazer basta estar a quilômetros de distância, basta eliminar por completo a possibilidade de um encontro ocasional.

Do contrário precisarei continuar repetindo: I see dead people. All the time. They're everywhere.

domingo, abril 04, 2010

- Mas é que você sempre fica com um pé atrás...
- Sinta-se privilegiado, geralmente fico com dois.
- Por quê?
- Ginástica pros joelhos.
- Estou falando sério.
- Ninguém vale um real, Frank.
- E pare de me chamar de Frank.

terça-feira, março 30, 2010

"A estética e a ética para mim não se separam. Eu acho péssimo, por exemplo, o paraíso dos nudistas. Mas não é um problema moral; é estético. Eu não quero ver aquela gente assim. Eu gosto da beleza. Eu não quero ver corpos deformados. Se estão deformados, devem ser escondidos. Não é por moral, portanto, mas motivos estéticos que eu não quero vê-los."

Lygia Fagundes Telles

quinta-feira, março 18, 2010

DiCaprio menstruou!


Eu relutava, mas finalmente tenho que concordar que DiCaprio virou um homenzinho. Teve que tomar muito Biotônico Fontoura, mas chegou lá. Finalmente deixou a categoria que eu chamo carinhosamente de FRANGO.

E o filme é genial, saí do cinema embasbacada - depois, conversando, descobri que todo mundo que assistiu achou tudo muito previsível. Eu sou uma pequena anta.

the IT movie


Eu ainda estou - e certamente ficarei por muito tempo - tentando entender o motivo da alucinação em torno de Guerra ao Terror. E não falo sobre as premiações, é de conhecimento geral que levar um - ou seis? - Oscar para casa envolve uma série de fatores que vão além do filme propriamente dito. Nesse caso, especificamente, é completamente compreensível.

Mas falo sobre a crítica babando, o público babando, todo mundo caiu de quatro por Guerra ao Terror - por quê?

Eu senti falta, por exemplo, de um fio condutor... ninguém mais? Anybody? Nobody? Okay. Nenhuma cena chega a lugar algum, dá pra fazer mil combinações de edição sem alterar em absolutamente nada o teor do filme. Fica aquela impressão reticente, você sabe? O espectador fica muito solto, eu particularmente não sou fã desse tipo de coisa. Há quem seja, pelo visto.

É até um filme válido, acho sim que as pessoas deveriam assisti-lo - mas está muito longe de valer tanto alarde.

Brincando de Audrey Tautou em três lições básicas:


1) contraia os lábios, no matter what.
2) arregale uns olhões pavorosos querendo engolir todo mundo.
3) pronuncie qualquer frase como se você estivesse com muita pressa de chegar ao final dela.

Para início de conversa: Audrey Tautou serve para pegar um bom rodo e limpar o chão da minha cozinha, não pra pagar de Chanel. Eu explicaria com uma frase só: não tem porte. Não é todo mundo que pode interpretar qualquer coisa. São pouquíssimos, aliás, os que podem interpretar qualquer coisa.

E ela nasceu para colocar uma fantasia de Amélie Poulain, ser amiguinha do anão de jardim, se apaixonar à primeira vista, algodão-doce, roda gigante, tobogã, coisas assim. E só, é melhor parar por aí porque qualquer outro papel é uma verdadeira catástrofe.

Mas podem me chamar de louca, podem endeusá-la, podem cometer essas heresias, para mim ela continua sendo uma pobrezinha - e aquela cara de pobrezinha? - que se esforça bastante mas não consegue passar absolutamente nada além de uma expressão de grilo assustado. (Fica o conselho: tenta um filme de terror, amiga.)

Não deve-se esperar nada de Coco antes de Chanel além de Audrey Tautou visivelmente sem saber o que fazer com um papel de mulher hostil. Ela deveria assistir Marion Cotillard interpretando Piaf para ter uma vaga noção de como precisa comer feijão com arroz.

Se você quer realmente saber mais sobre a vida da estilista, vá estudar. Se você quer entretenimento, escolha Alvin e Os Esquilos 2. Em suma, não serve.

El Secreto de Sus Ojos


"El tipo puede cambiar de todo, de cara, de casa, de familia, de novia, de religión, de Dios, pero hay una cosa que no puede cambiar: no puede cambiar de pasión."

Belíssimo.

quarta-feira, março 17, 2010

Eu sinto vergonha alheia pelo Rio de Janeiro.

1) "Integrantes do Cordão da Bola Preta vão participar da passeata do movimento 'Contra a covardia, em defesa do Rio', nesta quarta-feira. A banda-show se concentrará na Candelária, às 15h, para animar o ato público tocando marchinhas carnavalescas."

2) "Aos gritos de 'O petróleo é nosso, haha, huhu' e debaixo de chuva, os manifestantes reunidos na Cinelândia, no Centro do Rio."

3) "Vestido de papa, manifestante foi à caminhada para 'benzer' o Rio."

4) "Já a presidente do Flamengo, Patricia Amorim, afirmou que o clube é a favor do pré-sal e do petróleo: 'O Flamengo é um patrimônio do estado, assim como o petróleo'."

5) "e o grupo de funkeiros Os Havaianos estava entre os que protestaram contra o corte nos royalties do petróleo."

terça-feira, março 16, 2010

Não há nada mais digno que Kristin Scott Thomas matando o ex-marido cuzão em Partir. Taí uma personagem que tem minha admiração eterna, viu. Minha heroína.

Só perde pra Nicole Kidman em Dogville. Finíssima.

diagnóstico:

ouvidos calejados, dedos mudos e olhos ainda muito recatados

auto-medicação tautológica: ingerir-se

quinta-feira, março 11, 2010

Todo mundo que morre vira cool. Se te perguntarem seu estilista favorito, responda Alexander McQueen mesmo que você não saiba de quem se trata. Aliás, responda somente McQueen, dá um ar de intimidade.

Tenho reparado.
Acho digno que as pessoas mostrem logo pro que vieram. Minha vida não é banco de praça pra você ficar sentadão fazendo hora, vendo a banda passar.
Escrever é uma merda. Você nunca consegue dizer o que realmente quer dizer. Imaginável, as palavras são limitantes, mas você não consegue parar de tentar. Aí se dizem que você escreve bem, você quer responder: e daí? Eu não quero escrever bem, eu quero dizer a coisa. O que importa é dizer a coisa, senão ela continua ali dentro - mas a coisa nunca é dita. É uma loucura, uma impossibilidade, a coisa não pode ser dita. O resultado é sempre frustrante. Por isso que todo mundo se mata ou vira jornalista. Escrever a frase "o salário mínimo sofrerá reajuste" querendo dizer que o salário mínimo sofrerá reajuste é, no mínimo, aliviante.

quarta-feira, março 10, 2010


It's Complicated é uma fofura de filme. Há um tempão eu não assistia a uma comédia romântica tão gostosa.

E não é só porque Meryl Streep é minha atriz preferida. Não é só porque Meryl Streep é a atriz preferida de todo mundo. É porque Meryl Streep tem que se candidatar à presidência - e por mim não precisa retirar as tropas do Iraque quando ganhar, só dar aquela risadinha jogando a cabeça pra trás. Meryl Streep acaba de ganhar o mundo por unanimidade. Meryl Streep é maleável. Eu sou Meryl Streep. Você é Meryl Streep. Quem é Meryl Streep? Meryl Streep não existe.

terça-feira, março 09, 2010

segunda-feira, março 08, 2010

and the oscar goes to

O melhor da noite, para mim, foi o superestimado Bastardos Inglórios ter rendido APENAS UM merecidíssimo oscar a Christoph Waltz. Digno. Tarantino, passa já pra casa!

sexta-feira, março 05, 2010

não confio nos que não sofrem de urgências.

fragmento perdido:

Eu deveria te colocar aspas porque você teima em ser apenas uma citação, menção ao nada, referência boba a outra que não eu.

terça-feira, março 02, 2010

sexta-feira, fevereiro 26, 2010

Mas é que estava tudo tão bonito em volta que eu não consegui prestar atenção. Fiquei ali, imóvel, olhando pras beiras, toda desarmada.

Só volto a mim quando chamarem meu nome.

quinta-feira, fevereiro 25, 2010

Ah, os inteligentes!

(e aquela cara de quem não faz sexo desde 1983 mas já assistiu Godard - pra compensar.)

Se o mundo fosse dividido entre os que lêem e os que não lêem, haveria a mesma quantidade de imbecil nos dois lados. Simplesmente porque ler não te faz uma pessoa melhor. Qualquer pessoa alfabetizada pode ler, escrever e fazer tudo que você faz. Basta querer. Escrever não te faz uma pessoa melhor, você só está juntando palavras, qual é o mistério? Que diabos significa essa superioridade? Eu ficaria mais orgulhosa se, sei lá, eu conseguisse encostar a língua na ponta do nariz. Nem todo mundo consegue.

Assistir Godard não te faz uma pessoa melhor. Tirando seu grupinho de meia dúzia de débil mental, ninguém vai te achar mais legal por conta disso. Você vai continuar respirando cecê dos outros no ônibus, mesmo sendo tão instruído.

As coisas mais importantes que já ouvi vieram de pessoas que não têm o costume de ler e não sabem quem foi Fellini. Eu me apaixonaria por cada homem por quem me apaixonei mesmo se fossem analfabetos. O que me interessa é o que está atrás. Quem é você? Você não é as músicas que você escuta, você não é os livros que você lê. Quem, afinal de contas, é você?

Conclue-se, e é tudo que quero dizer, que estou verdadeiramente cagando se você lê Tolstói em mandarim, portanto desça do palanque, abaixe o queixo e não me confunda com os seus.

segunda-feira, fevereiro 22, 2010

dos porquês:

Eu enjôo rápido das pessoas porque elas são muito enjoativas. Não tenho a mínima parcela de culpa. Tudo muito simples: se não fossem, eu não enjoaria. Mas, infelizmente, não há nada que eu possa fazer a respeito disso porque não tenho filhos nem sou babá. Ou seja, não tenho obrigação de ensinar como devem se comportar.

Pronto, penso que a questão está respondida com clareza. Menos uma.

mudando de idéia - parte III

(descartar a espécie calor-anão porque não causa cócegas. considerar com seriedade a possibilidade de deixar as portas escancaradas para que o Calor retorne quando assim decidir. pois se a vida, esta que me invade, é de arder - arderemos.)

segunda-feira, fevereiro 08, 2010

E te afastar só para poder escrever, aliviada: senta aqui, me olha meio bobo, vamos comer mexilhão, faz menos distância de mim.

Aqui dentro um coração faz tic-tac quando te supõe. Aqui dentro um coração só faz tic-tac por suposições. (Como explicar? Apóio o queixo na palma da mão e torço a boca para pensar num jeito. Acompanhe o raciocínio e o charme despretensioso do gesto.)

É com pesar que muitas vezes olho o relógio, está na hora, recuo. Perdoem-me, senhores, é que no fundo eu sou casada.

sábado, fevereiro 06, 2010

Carregar destino nos ombros é cargo pesado - ah se minha sina é maior que eu mesma! (Transpondo-me, como manter-me?)

Narciso é meu pastor

(e pergunto-me, então, ao mirar minhas próprias - mil - faces:
o que seria de mim sem mim?)

e nada me faltará.

segunda-feira, fevereiro 01, 2010

"(...) ainda pensou: gosto tanto de você, baby. Só que os escritores são seres muito cruéis, estão sempre matando a vida à procura de histórias. Você me ama pelo que me mata."

Caio Fernando Abreu

sábado, janeiro 30, 2010

(e quem suspeitará, ao cruzar com cada um de nós, o que nos impulsiona a acordar todos os dias, escovar os dentes e continuar? quem poderá dizer? continuamos, sim - por quê? quem imaginará?)
é como receber, subitamente,
este desacato caprichoso:
um cartão postal que diz, você:
nem pense em trocar cartões postais!
(investida reversa?)

em breve, senhoras e senhores, assistam àquele meu
flerte gostoso com a caixa
de correio

categoria: coming soon
no cinema mais próximo,
até logo.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

eu consisto, tu consistes

I

Todos os inícios de manhãs - antes de preparar o café, mexer a terra, banhar-se e, enfim, trabalhar - abria as janelas, espreguiçava-se e o mundo parecia dizer-lhe, como num concerto de música clássica onde cada componente da paisagem era fundamental para que a mensagem fosse transmitida sem cortes, o mundo parecia dizer-lhe, sem dúvidas, o quê? Ora, e não é verdade que as possibilidades são inesgotáveis? Cruzam-se infinitas ruas entre cada mísero minuto e ela bem poderia, quem sabe, esbarrar no Desconhecido qualquer hora dessas, assim distraída. Entretanto era preciso estar pronta, nunca titubear frente ao oculto, ao que se esconde atrás da vida e ao mesmo tempo revela-se pela própria. E, afinal, quais são as probabilidades de acontecimentos tão louváveis? Grandes, muito grandes, pensa enquanto franze a testa, soltas ao ar as mãos que fechariam o sutiã caso não tivesse sido invadida pela ordem de parar - e concluir. Uma probabilidade de cem por cento, talvez - por que não? Todos os inícios de manhãs o mundo parecia dizer-lhe que viver era extremamente praticável.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Desnecessárias as pessoas que assistem aos épicos e saem das salas de cinema gritando aos quatro cantos que a história real não-foi-bem-assim-não-heim. Só você sabe disso, amigão. Arrasou com a novidade. Parabéns. Agora chega, cessou, vá assistir a um documentário e nos deixe em paz.

Devo dizer que o adjetivo desnecessárias para definir certas pessoas cai como uma luva.

domingo, janeiro 24, 2010

Plataforma IV

entretanto não sabia que a cada minuto - pois eram contados os minutos, desde o da partida - revelava-se mais imprópria, ela mesma tão inacessível, de vez em vez mais distante; por não saber restava-lhe somente a espera, consultar os ponteiros, cruzar as pernas, ensaiar cumprimentos - deveria parecer saudosa ou acabaria assustando-o? as mãos deveriam alcançar as dele calorosamente, por fim decidiu, sem que seu rosto denunciasse satisfação; era isso o que faria, de fato, provocaria a dúvida, induziria a possibilidade de um não - com o rosto austero, os olhos graves - em contraste perfeito suas mãos heroicamente o tocariam, e então? consultar os ponteiros, descruzar as pernas, e então? os que a rodeavam teriam notado, é verdade, era melhor distrair-se - como? folheou o jornal novamente, achou melhor fixar-se numa página, numa matéria, numa foto, ora! quem viesse de longe - e ele viria daqui a pouco, certificou os ponteiros - acreditaria, sim, sem dúvidas, muito esperta (uma boa pose, infalível tática, certamente dirão: uma mulher que aguarda distraída já quase esquecendo-se - o quê?)

terça-feira, janeiro 19, 2010

terceiro presságio (o círculo):

que não adianta porque só repouso minhas mãos sobre o fogo pelo Eu que me habita sem fim há tantos séculos, ah que me perdoe se o meu giro é tão distante, se me fiz assim tão anelada nos meus dentros; a única coisa que me interessa é encontrar minha Raíz, aquelas tais origens; fatigada das buscas chegar aos pés da Verdade que me espera pacientemente, enfim beijá-los; coroar-me.
Eu tenho vontade de conhecer o indivíduo que resolveu que The Great Buck Howard teria o título no Brasil de A Mente que Mente. Conhecer, normal, tomar um café, bater um papo e perguntar: qual é o seu problema?

Fico curiosa porque, além de ser um trocadilho estúpido, o título nacional é completamente nonsense. Tenho certeza que o responsável não assistiu ao filme. Juro. E perdeu John Malkovich carregando 90 minutos nas costas. SOZINHO. A tradução de The Great Buck Howard deveria ser John Malkovich. Seria mais sensato. "Quero uma meia entrada para John Malkovich, por favor".

sexta-feira, janeiro 15, 2010

"Quem castiga nem é Deus, é os avessos."

de Guimarães Rosa a frase mais exata que já me passou pelos olhos.
Dentro de mim há a menina que outrora fui (e ninguém deixa de ser nada, Alguém me disse), a carrego no colo e penteio seus cabelos negros todos os dias antes de colocá-la para dormir. Há também uma mulher já quase velha que ainda não sou e para esta peço, de vez em quando, que fique ao meu lado até eu dormir - estou muito assustada, digo e dou as mãos.

Novamente é para poucos, isto que digo.

das sutilezas:

que eu quero habitar teu lado e que tu habites
todos os meus

tão bom brincar de fazer bem,
um acordo:
cerzir os dias,
entrelaçar os dedos
(e voltar de todas as idas)

aí faz uma paz que dá até medo de mexer,
vamos ficar por aqui?

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Há tanto tempo que te amo é outro filhotinho de Bergman. Inegável. Philippe Claudel, pra cima de moi? Você não me engana, garotão. Mas tem pedigree, também; um filme lindo, denso e delicadíssimo na medida exata. E sou suspeita para falar das atuações soberbas, belíssimas, desmancham-me.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Concedo-me o luxo de cometer todas essas minhas estripulias. Permito-me e ai de quem não.

E quando foi que eu quis alguma coisa e não fui lá buscar?

sábado, janeiro 09, 2010

dos dias:

"Mortos por conta da chuva." Ora, mortos por conta de nós mesmos! Fecho o jornal, atendo o telefone e tenho notícia de I., que dividiu alguns cafés. Estuprada. Assassinada. Morta.

Pego minha bolsa, estou atrasada. "Aí ele mandou uma carinha assim, aí eu respondi com uma carinha assim, aí ele disse que tava a fim de mim." As meninas conversam no ônibus.

Numa vitrine há duas araras. "Como se compra uma arara?", você me pergunta. Sei lá, acho que entra e pergunta quanto é que tá a arara.

Acordo e não há mais árvore na minha calçada. O homem que mora na casa ao lado a derrubou. Se achou no direito, a árvore o incomodava, aí derrubou.

Não sou de hoje nem daqui. Estou disfarçada.

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Parágrafo um:

Chove há meses. Não sei a quem endereçar esta carta. Não penso que algum, dentre os meus semelhantes, seja o destinatário ideal de minhas memórias. Estas palavras estão carregadas de anos de sangue; pesam, valem muito. Preocupo-me em ser violada antes de encontrar as mãos exatas - eu, que depois de tanto tornei-me inteira apenas uma carta. Leda virá logo, ajeitará os travesseiros sob minha cabeça, trará um pano molhado para as feridas, perguntará se ainda doem. Ainda doem.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Austrália é um filme de quase três horas de duração sobre tudo. Um saco enorme onde cabem todos os clichês imagináveis sem que eles tenham necessariamente alguma relação entre si. Nunca vi nada tão afobado, parece que fui eu que fiz. Mas eu teria terminado com um ataque alienígena e três tiranossauros rex. E um tsunami, de quebra. Já que é para descaralhar, let's do it. Achei lindo, torci para a família terminar viva e feliz, chorei de me contorcer, Hugh Jackman é gorgeous e não admito que digam que a Nicole Kidman está trabalhando mal - porque não está nem nunca estará. Acho válido fazer pipoca para acompanhar. Se você é inteligente, vai achar cansativo; sugiro gastar as três horas com Jules and Jim.

Acho incrível um filme caminhar sozinho. Tem-se exatamente esta impressão: sozinho, lentamente, pouco a pouco, o filme costura-se. E muito bem, por sinal.


Belíssimo em negrito porque é filhotinho de Bergman com pedigree - isso qualquer amebiano notará. Não vou muito com a cara do Woody Allen, mas ele acerta quase sempre que resolve deixar de lado a fantasia de Didi Mocó.

domingo, janeiro 03, 2010

(some)one

Eu te escrevi uma carta longa para avisar que eu não vou abrir o gás, tomar barbitúricos, nada disso. Eu não estou sofrendo sem você. Não tenho mais o mínimo saco para sofrer por alguém. Dá preguiça só de pensar em começar. Enquanto eles dizem que endureci, eu digo que talvez já tenha estourado a minha cota nesta encarnação, já que comecei cedo e sempre me excedi.

No meu último emprego, havia uma mulher com olhos úmidos ouvindo incansavelmente Alcione cantar "sua estupideeeeez não lhe deixa ver que eu te amo, eu te amo". Às vezes dava pena. Noutras, vontade de rir. A música terminava. Repeat. "Meu bem, meu bem, você tem que acreditar em miiiim." Diariamente, às oito horas da manhã. Quem merece? Eu, certamente, não.

Tenho dormido bem, mesmo sem você para me enrodilhar. Eu te escrevi dizendo que, sem você aqui, a minha vida vai continuar a mesma. Continuarei escolhendo filmes na prateleira, de madrugada, abraçando uma almofada e colocando outra nas costas, sentada naquele meu sofá preto. Continuarei a gostar de torta de bacalhau, também. E do meu microondas que esquenta tudo, até café. Ainda tomarei muito café e me levantarei dos lugares onde vendem café mas barram o cigarro. É como abrir um motel onde é proibido fazer sexo. Vou continuar fazendo essas comparações exageradas, com ou sem você.

Meu humor oscilará a cada meia hora, como de praxe. Ficarei irritada por coisas bobas (tenho uma quadratura lua/marte horrorosa). Serei excessivamente franca e as pessoas continuarão se doendo por isso. Há dias em que falo muito, parando poucas vezes para respirar. Há dias em que ninguém ouve minha voz. Sou eu, esta aqui, quando você está ou não está ao meu lado.

Acontece que eu prefiro que você esteja. Para dividir a torta de bacalhau, rir dos outros e tudo mais.