sábado, janeiro 30, 2010

(e quem suspeitará, ao cruzar com cada um de nós, o que nos impulsiona a acordar todos os dias, escovar os dentes e continuar? quem poderá dizer? continuamos, sim - por quê? quem imaginará?)
é como receber, subitamente,
este desacato caprichoso:
um cartão postal que diz, você:
nem pense em trocar cartões postais!
(investida reversa?)

em breve, senhoras e senhores, assistam àquele meu
flerte gostoso com a caixa
de correio

categoria: coming soon
no cinema mais próximo,
até logo.

sexta-feira, janeiro 29, 2010

eu consisto, tu consistes

I

Todos os inícios de manhãs - antes de preparar o café, mexer a terra, banhar-se e, enfim, trabalhar - abria as janelas, espreguiçava-se e o mundo parecia dizer-lhe, como num concerto de música clássica onde cada componente da paisagem era fundamental para que a mensagem fosse transmitida sem cortes, o mundo parecia dizer-lhe, sem dúvidas, o quê? Ora, e não é verdade que as possibilidades são inesgotáveis? Cruzam-se infinitas ruas entre cada mísero minuto e ela bem poderia, quem sabe, esbarrar no Desconhecido qualquer hora dessas, assim distraída. Entretanto era preciso estar pronta, nunca titubear frente ao oculto, ao que se esconde atrás da vida e ao mesmo tempo revela-se pela própria. E, afinal, quais são as probabilidades de acontecimentos tão louváveis? Grandes, muito grandes, pensa enquanto franze a testa, soltas ao ar as mãos que fechariam o sutiã caso não tivesse sido invadida pela ordem de parar - e concluir. Uma probabilidade de cem por cento, talvez - por que não? Todos os inícios de manhãs o mundo parecia dizer-lhe que viver era extremamente praticável.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

Desnecessárias as pessoas que assistem aos épicos e saem das salas de cinema gritando aos quatro cantos que a história real não-foi-bem-assim-não-heim. Só você sabe disso, amigão. Arrasou com a novidade. Parabéns. Agora chega, cessou, vá assistir a um documentário e nos deixe em paz.

Devo dizer que o adjetivo desnecessárias para definir certas pessoas cai como uma luva.

domingo, janeiro 24, 2010

Plataforma IV

entretanto não sabia que a cada minuto - pois eram contados os minutos, desde o da partida - revelava-se mais imprópria, ela mesma tão inacessível, de vez em vez mais distante; por não saber restava-lhe somente a espera, consultar os ponteiros, cruzar as pernas, ensaiar cumprimentos - deveria parecer saudosa ou acabaria assustando-o? as mãos deveriam alcançar as dele calorosamente, por fim decidiu, sem que seu rosto denunciasse satisfação; era isso o que faria, de fato, provocaria a dúvida, induziria a possibilidade de um não - com o rosto austero, os olhos graves - em contraste perfeito suas mãos heroicamente o tocariam, e então? consultar os ponteiros, descruzar as pernas, e então? os que a rodeavam teriam notado, é verdade, era melhor distrair-se - como? folheou o jornal novamente, achou melhor fixar-se numa página, numa matéria, numa foto, ora! quem viesse de longe - e ele viria daqui a pouco, certificou os ponteiros - acreditaria, sim, sem dúvidas, muito esperta (uma boa pose, infalível tática, certamente dirão: uma mulher que aguarda distraída já quase esquecendo-se - o quê?)

terça-feira, janeiro 19, 2010

terceiro presságio (o círculo):

que não adianta porque só repouso minhas mãos sobre o fogo pelo Eu que me habita sem fim há tantos séculos, ah que me perdoe se o meu giro é tão distante, se me fiz assim tão anelada nos meus dentros; a única coisa que me interessa é encontrar minha Raíz, aquelas tais origens; fatigada das buscas chegar aos pés da Verdade que me espera pacientemente, enfim beijá-los; coroar-me.
Eu tenho vontade de conhecer o indivíduo que resolveu que The Great Buck Howard teria o título no Brasil de A Mente que Mente. Conhecer, normal, tomar um café, bater um papo e perguntar: qual é o seu problema?

Fico curiosa porque, além de ser um trocadilho estúpido, o título nacional é completamente nonsense. Tenho certeza que o responsável não assistiu ao filme. Juro. E perdeu John Malkovich carregando 90 minutos nas costas. SOZINHO. A tradução de The Great Buck Howard deveria ser John Malkovich. Seria mais sensato. "Quero uma meia entrada para John Malkovich, por favor".

sexta-feira, janeiro 15, 2010

"Quem castiga nem é Deus, é os avessos."

de Guimarães Rosa a frase mais exata que já me passou pelos olhos.
Dentro de mim há a menina que outrora fui (e ninguém deixa de ser nada, Alguém me disse), a carrego no colo e penteio seus cabelos negros todos os dias antes de colocá-la para dormir. Há também uma mulher já quase velha que ainda não sou e para esta peço, de vez em quando, que fique ao meu lado até eu dormir - estou muito assustada, digo e dou as mãos.

Novamente é para poucos, isto que digo.

das sutilezas:

que eu quero habitar teu lado e que tu habites
todos os meus

tão bom brincar de fazer bem,
um acordo:
cerzir os dias,
entrelaçar os dedos
(e voltar de todas as idas)

aí faz uma paz que dá até medo de mexer,
vamos ficar por aqui?

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Há tanto tempo que te amo é outro filhotinho de Bergman. Inegável. Philippe Claudel, pra cima de moi? Você não me engana, garotão. Mas tem pedigree, também; um filme lindo, denso e delicadíssimo na medida exata. E sou suspeita para falar das atuações soberbas, belíssimas, desmancham-me.

segunda-feira, janeiro 11, 2010

Concedo-me o luxo de cometer todas essas minhas estripulias. Permito-me e ai de quem não.

E quando foi que eu quis alguma coisa e não fui lá buscar?

sábado, janeiro 09, 2010

dos dias:

"Mortos por conta da chuva." Ora, mortos por conta de nós mesmos! Fecho o jornal, atendo o telefone e tenho notícia de I., que dividiu alguns cafés. Estuprada. Assassinada. Morta.

Pego minha bolsa, estou atrasada. "Aí ele mandou uma carinha assim, aí eu respondi com uma carinha assim, aí ele disse que tava a fim de mim." As meninas conversam no ônibus.

Numa vitrine há duas araras. "Como se compra uma arara?", você me pergunta. Sei lá, acho que entra e pergunta quanto é que tá a arara.

Acordo e não há mais árvore na minha calçada. O homem que mora na casa ao lado a derrubou. Se achou no direito, a árvore o incomodava, aí derrubou.

Não sou de hoje nem daqui. Estou disfarçada.

quarta-feira, janeiro 06, 2010

Parágrafo um:

Chove há meses. Não sei a quem endereçar esta carta. Não penso que algum, dentre os meus semelhantes, seja o destinatário ideal de minhas memórias. Estas palavras estão carregadas de anos de sangue; pesam, valem muito. Preocupo-me em ser violada antes de encontrar as mãos exatas - eu, que depois de tanto tornei-me inteira apenas uma carta. Leda virá logo, ajeitará os travesseiros sob minha cabeça, trará um pano molhado para as feridas, perguntará se ainda doem. Ainda doem.

terça-feira, janeiro 05, 2010

Austrália é um filme de quase três horas de duração sobre tudo. Um saco enorme onde cabem todos os clichês imagináveis sem que eles tenham necessariamente alguma relação entre si. Nunca vi nada tão afobado, parece que fui eu que fiz. Mas eu teria terminado com um ataque alienígena e três tiranossauros rex. E um tsunami, de quebra. Já que é para descaralhar, let's do it. Achei lindo, torci para a família terminar viva e feliz, chorei de me contorcer, Hugh Jackman é gorgeous e não admito que digam que a Nicole Kidman está trabalhando mal - porque não está nem nunca estará. Acho válido fazer pipoca para acompanhar. Se você é inteligente, vai achar cansativo; sugiro gastar as três horas com Jules and Jim.

Acho incrível um filme caminhar sozinho. Tem-se exatamente esta impressão: sozinho, lentamente, pouco a pouco, o filme costura-se. E muito bem, por sinal.


Belíssimo em negrito porque é filhotinho de Bergman com pedigree - isso qualquer amebiano notará. Não vou muito com a cara do Woody Allen, mas ele acerta quase sempre que resolve deixar de lado a fantasia de Didi Mocó.

domingo, janeiro 03, 2010

(some)one

Eu te escrevi uma carta longa para avisar que eu não vou abrir o gás, tomar barbitúricos, nada disso. Eu não estou sofrendo sem você. Não tenho mais o mínimo saco para sofrer por alguém. Dá preguiça só de pensar em começar. Enquanto eles dizem que endureci, eu digo que talvez já tenha estourado a minha cota nesta encarnação, já que comecei cedo e sempre me excedi.

No meu último emprego, havia uma mulher com olhos úmidos ouvindo incansavelmente Alcione cantar "sua estupideeeeez não lhe deixa ver que eu te amo, eu te amo". Às vezes dava pena. Noutras, vontade de rir. A música terminava. Repeat. "Meu bem, meu bem, você tem que acreditar em miiiim." Diariamente, às oito horas da manhã. Quem merece? Eu, certamente, não.

Tenho dormido bem, mesmo sem você para me enrodilhar. Eu te escrevi dizendo que, sem você aqui, a minha vida vai continuar a mesma. Continuarei escolhendo filmes na prateleira, de madrugada, abraçando uma almofada e colocando outra nas costas, sentada naquele meu sofá preto. Continuarei a gostar de torta de bacalhau, também. E do meu microondas que esquenta tudo, até café. Ainda tomarei muito café e me levantarei dos lugares onde vendem café mas barram o cigarro. É como abrir um motel onde é proibido fazer sexo. Vou continuar fazendo essas comparações exageradas, com ou sem você.

Meu humor oscilará a cada meia hora, como de praxe. Ficarei irritada por coisas bobas (tenho uma quadratura lua/marte horrorosa). Serei excessivamente franca e as pessoas continuarão se doendo por isso. Há dias em que falo muito, parando poucas vezes para respirar. Há dias em que ninguém ouve minha voz. Sou eu, esta aqui, quando você está ou não está ao meu lado.

Acontece que eu prefiro que você esteja. Para dividir a torta de bacalhau, rir dos outros e tudo mais.