quinta-feira, dezembro 29, 2011

Feliz 2012 a todos os olhos que por aqui fingem que não passam.
Espionando, descobri que em 2012 tenho regência de Marte. O próprio bem posicionado em Leão. Vênus em Escorpião, brincando. Além, uma verdadeira orgia planetária na casa VIII. Definitivamente, não preciso de mais nada. Favor não entrar na minha frente, esse ano é meu. Obrigada, obrigada, obrigada!

a love supreme (its all about yesterday)

Você ainda dormia. Pensei em deixar um bilhete para agradecer pela noite, por dividir o cobertor, a toalha, as cervejas, o baseado, sorrisos, carinho, pele, por todos esses anos, por todos os nossos desencontros. Registrar bem querer. Enxuguei o cabelo e segui em frente - pisando leve para que meu salto não te acordasse. Depois as ruas acobertaram minha fuga. Até o céu, meio cinza. Foi fácil.

sábado, dezembro 24, 2011

Eu digo que, estando tudo interligado, você move o mundo quando move uma palha. Eu não estou pregando ecologia, moral ou bons costumes. Eu estou dizendo que se você levantar da cadeira para atravessar a rua, por exemplo, você estará interferindo no Universo.

quinta-feira, dezembro 22, 2011

Aos medíocres, lhes basta o que sobra das mesas de Roma. Dou, pois, a César o que é de César. Aos cães o que é dos cães. Bom apetite!

domingo, dezembro 18, 2011

O amanhã será obrigatoriamente celebrado.
O amanhã quer ouvir aplausos.

verão

Estou procurando algum resquício de gaivota nos seus braços. Nós, que costumávamos velejar, talvez tenhamos nos transformado noutra coisa. Você me pergunta se já é tarde, desliga a televisão, me convida para deitar - e eu me posiciono sob seu corpo buscando outra vez aquele esquecido cheiro de mar.

águia

por Rafael Silva, 2006 (?)

"Ela que vem e anda e sabe a verdade
Tem todo um jeito próprio de amar
Se aproximar da ferida e curar com delicadeza
Às vezes falha, mas não interessa
Obstáculos...
Cair na rotina...
Os tentáculos que envolvem seu ser
A prendem na razão de um robô
E logo ela sente que quer mais da vida
Se solta tão facilmente
Esquece que é gente
Uma águia que despenca do céu
Só pelo prazer de sentir que vai morrer
E de repente se lembrar que ainda há vida
E viver..."

terça-feira, dezembro 06, 2011

da série: diálogos inesquecíveis (parte XIV)

Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças
(Michel Gondry, 2004)

"- I could die right now. I'm just… happy. I'm just exactly where I want to be."

segunda-feira, dezembro 05, 2011

Senhores, não esqueçam de vestir suas máscaras ao sair de Casa. Estejam à vontade. Compreendo que vocês possam se sentir inábeis sem o artifício. Sou uma mulher deveras compreensiva, afinal.

terça-feira, novembro 29, 2011

É bonito quando Gil canta que "o melhor lugar do mundo é aqui". Ninguém presta atenção. Ninguém pára. Ah, se vocês soubessem como isso é bonito!

segunda-feira, novembro 28, 2011

"Eu estou cada vez mais Bambi. Adoro comprar flores e acender incensos e fazer pequenas faxinas arrumando cantinhos “artísticos”. Talvez seja um tanto kitsch, mas é a forma — saudável, suponho — que encontrei de reagir não só à feiúra de fora, que é cada vez maior, mas também à feiúra de dentro. Que embora controlada, você sabe, às vezes ameaça explodir."

Caio Fernando Abreu em carta a Maria Lídia Magliani, 25/01/91.
Favor respeitar meu bocejo. Todo despertar é sagrado. Meu corpo namora os lençóis e revira-se para um lado, depois para o outro. Eu sou portadora do direito de alongar os braços e pernas durante o tempo que meus membros julgarem necessário serem alongados. Enquanto isso, minhas pálpebras trabalham lentamente no ato de constatar os arredores. Não me obriguem. Estou amanhecendo.

quarta-feira, novembro 16, 2011

E eu continuo sem saber se todas as crianças são poetas ou se todos os poetas são crianças.

meninices

"As crianças são muito literárias porque dizem como sentem e não como deve sentir quem sente segundo outra pessoa. Uma criança, que uma vez ouvi, disse, querendo dizer que estava à beira de chorar, não “tenho vontade de chorar”, que é como diria um adulto, isto é, um estúpido, senão isto: “tenho vontade de lágrimas”."

Fernando Pessoa em O Livro do Desassossego, seu trabalho mais bonito entre tantos e tantos trabalhos bonitos.

terça-feira, novembro 15, 2011

da série: diálogos inesquecíveis (parte XIII)

Beleza Americana
(Sam Mendes, 1999)



Beleza Americana com seu clássico "olhe mais de perto" deveria estar aqui por inteiro. Um dos meus filmes preferidos, sem dúvida.

segunda-feira, novembro 07, 2011

Deve-se encarar um texto como quem encara um corpo. Em mim, não há outra forma possível.

quinta-feira, novembro 03, 2011

das pérolas no charco (parte II)

"Meu coração faz chica chica boom" é um mimo, uma frase poética e delicada que está desprotegida dentro de um axé da Ivete Sangalo, portanto nunca será notada da forma que merece. Eu gostaria de tê-la escrito. Fernando Pessoa gostaria de tê-la escrito. Meu coração faz chica chica boom. Tenho dó. Um desperdício sem tamanho.

segunda-feira, outubro 24, 2011

outono

A gente se brinca. Você é minha camisa de força, minha casa na árvore, meu cheesecake. Eu te escorrego, você me balança (lembrança que faz cócegas). Passatempo: eu quero ficar te olhando. Te espero como quem espera o sinal do recreio. O relógio demora, as horas se alongam. Os ponteiros tropeçam nos próprios cadarços, tombam, se atrasam. Você é meu par de patins embrulhado embaixo da árvore de Natal.

domingo, outubro 16, 2011

primavera

Você me percorre. Você tem uma bicicleta branca para atravessar cada detalhe do meu corpo. Faz sol. Eu te permito, você me passeia.

quarta-feira, outubro 12, 2011

domingo, outubro 09, 2011

oração:

Que eu nunca deixe de ser urgente. Que eu continue vivendo de pele, brevidades e gracejos. Que ninguém tente arrancar a nobreza que mantém minha cabeça alta - e que eu seja piedosa com os que porventura ousarem fazê-lo. Que eu tenha paciência com os menores e não os culpe por não serem capazes. Que o meu colo possa continuar a ser abrigo e meus olhos permaneçam sempre abertos. Que o meu corpo goze da mais absoluta liberdade. Dai-me coragem para que eu seja, todos os dias, quem eu sou. Amém.

quarta-feira, outubro 05, 2011

tête-à-tête

Esta fotografia é um quadro na parede do meu quarto. Desde que pus os olhos pela primeira vez, há tantos anos, me reconheci. Esta fotografia sou eu. Nada mais justo que pendurá-la: todos os dias, quando olho para o quadro, estou olhando para o espelho.

terça-feira, outubro 04, 2011

diário antropológico:

23:42 p.m. Prosseguindo minhas escavações em busca de vestígios Humanos. Pouco sucesso. Relato das últimas descobertas mais relevantes sobre o gênero: 1) o teatro de Maria Adelaide Amaral é das coisas mais ricas que se tem notícias, ainda que sua obra literária não seja do mesmo quilate. Relíquia empoeirada de nome Melhor Teatro é vendida por preço de banana em sebo fedendo à barata. Pagamento realizado em moedas. Destaque para De Braços Abertos, um dos melhores roteiros que já li. Até a presente data, as companhias teatrais ainda preferem o Sérgio Malandro; 2) algumas manhãs estudando o tema com afinco revelaram-me que o som do seu despertador significa, traduzindo ao pé da letra, que daquele momento em diante meu corpo terá que prosseguir viagem sem o seu¹. Ainda que enrolemos nossas pernas mutuamente, levantaremos para marchar em ordem proveniente do general eletrônico. Justo, somos meros soldados. Numa próxima encarnação tiro a sorte grande de nascer digital e aí, quem sabe, poderemos gastar as manhãs com delicadezas; 3) instruções aos que nasceram com a visão perfeita e passeiam por terra de cego: finja ter um apenas um olho e exija sua coroa. Dê-se por satisfeito. Em terra de cego, quem tem dois olhos passa a incomodar²; 4) a comunicação verbal entre duas pessoas apresenta resultados pouco ou nada satisfatórios porque se trata de uma ilusão. Nós, os teimosos, persistimos. "No es lo mismo decir Buenas noches que decir Buenas noches"³.

¹ Popularmente chamado Saudade.
² Releitura corrigida de antigo provérbio.
³ Alejandra Pizarnik, 1971.

segunda-feira, outubro 03, 2011

Outubro, bem-vindo! Quero cada dia seu.
Sobre o aclamado A Árvore da Vida: Tarkovski não morreu, foi ao inferno e voltou. Só aceito rever o filme acompanhada por quem entender a comparação e rir da piada. Não aguento mais ter que camuflar meu humor genial.

quarta-feira, setembro 28, 2011

making off

Aquela já conhecida angústia de estar cara a cara com uma folha em branco. Estou entalada como quem precisa afunilar uma massa muito densa. Experimente tomar sorvete de canudinho, depois entenda.

segunda-feira, setembro 19, 2011

Sobre os últimos dias: não se trata de estar necessariamente alegre, acontece que a vida está me fazendo cosquinha.

domingo, setembro 18, 2011

da série: diálogos inesquecíveis (parte XII)

A Insustentável Leveza do Ser
(Philip Kaufman, 1988)

a insustentável leveza do ser

A leveza de viver é um fardo pesado. Para ilustrar o fato, o tcheco Milan Kundera publica em 1984 o livro que viria a ser sua obra prima, A Insustentável Leveza do Ser, a bíblia dos amantes.

Entre encontros e acasos, amores e desamores, erotismo e compaixão, o autor construiu personagens tão sólidos e marcantes que nos desarmam assim que nos são apresentados. Inevitavelmente somos fascinados pela crueza de Tomás, a ternura de Teresa, a aparente liberdade de Sabina ou a fragilidade de Franz - todos inesquecíveis por darem face às mais variadas possibilidades existenciais que todos nós já vestimos dentro de um relacionamento.

Espetacular: Kundera talentosamente nos conduz até a cidade de Praga e exerce tanto domínio sobre a história que é capaz de entrar e sair da narrativa sem quebrar o fio que nos conduz - vezes explicando a teoria filosófica por trás de cada fato ocorrido, outras se retirando para que os fatos desenrolem-se naturalmente. Sempre que releio, sinto a mesma incontida admiração da primeira vez.

Servindo como base, a Lei do Eterno Retorno de Nietzsche é recorrentemente citada. Trata-se de um conceito filosófico que supõe, para nos questionar sobre nossos atos, que tudo aquilo que você viveu repetiria-se outra vez e essa repetição se repetiria mais uma e mais uma vez durante toda a eternidade. A teoria, ainda que aterrorizante, de fato nos oferece outro olhar sobre nossos próprios passos, sugerindo que busquemos viver de forma que valha a pena.

Quatro anos após a publicação do livro, Philip Kaufman transformaria a obra de Kundera em filme.

quinta-feira, setembro 15, 2011

da série: cenas da vida real (parte II)

"- Lá no colégio eu escrevi uma redação pra Dilma aí eu escrevi que os preços dos produtos tinham que cair porque 'tá tudo muito caro mesmo aí eu escrevi que as bonecas Monster High eu tenho 8 bonecas Monster High custam 15 dólares ou seja 32 reais né (respira) aí aqui no Brasil elas custam 80 reais e isso dói no bolso do trabalhador (batendo nos próprios bolsos) e tem que melhorar a qualidade dos produtos também porque a qualidade é inapropriada aí querem tirar do meu bolso o dinheiro que eu nem tenho aí eu comecei a redação dizendo: Oi Dilma, essa aqui vai pra você!"

Imposto nas palavras de Daniela, 10 anos.

quarta-feira, setembro 14, 2011

"Tenho pedido às crianças mais sossego
Menos riso e muita compreensão para o brinquedo
O navio não é trem, o gato não é guizo."

Hilda Hilst

segunda-feira, setembro 12, 2011

Vivem a me acusar injustamente de implicância com acadêmicos. Nada disso é verdade. Por exemplo: recebi agora mesmo, via e-mail, um convite de um ex-namorado academicamente letrado para apresentação de uma pesquisa desenvolvida por ele, intitulada "As invectivas na Lisístrata de Aristófanes: a obscenidade na boca do corifeu". Pausa dramática. Educadamente respondi que não poderei comparecer pois a única palavra que conheço bem, dentre as do título, é obscenidade. Sou pacífica.
Pânico de gente passiva. Acorda, lava o rosto!

domingo, setembro 11, 2011

a bela Junie

Mais um filme francês sem maiores ambições. Apesar de grande admiradora do cinema francês, admito que é cada vez mais notória a falta de gana.

Outro ponto é que, como sempre digo, Louis Garrel é um ator medíocre. Para o meu azar, o franguinho virou galã e tem protagonizado 90% das últimas produções mansinhas, fato que não ajuda em nada.

Ainda que conte com personagens bastante tangíveis, o que facilita a entrada do espectador, o charmoso (e insosso) La Belle Personne não diz exatamente a que veio. Sim, podemos até aproveitá-lo de algumas formas, é verdade. Não se trata de um filme totalmente descartável, apenas facilmente esquecível - o que, na minha opinião, é tão frustrante quanto.

viajo porque preciso, volto porque te amo

“Manhã do dia 52 da nossa separação: eu sinto que sobrevivi a um terremoto. Seis semanas longe de casa são como seis gotas de um calmante poderoso. Um calmante que não resolve a dor, mas tranquiliza o juízo.”
Com o melhor trabalho de edição que eu já vi, o ousado longa experimental "Viajo porque preciso, volto porque te amo" é parada obrigatória. Em tom de documentário ficcional, o road movie nos dá uma carona pelo sertão do nordeste brasileiro ao lado de um geólogo recém abandonado pela esposa.
Reiterando a força do cinema nacional de qualidade, o filme realizado pelas mãos dos já comprovadamente brilhantes Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) e Karim Aïnouz (O Céu de Suely) apóia-se delicadamente em imagens poéticas e depoimentos geniais dos humildes moradores, como uma prostituta definindo o que é amor. Belíssimo. O personagem principal - que não tem rosto, só voz - narra o dia-a-dia de uma dor incessante e inevitavelmente nos faz cúmplices. Compartilhamos, tornamo-nos amigos íntimos. Somos o seu diário de bordo.

quinta-feira, setembro 08, 2011

WTC, happy birthday!

Brasileiro não tem umbigo. Não aguento mais assistir a mídia assoprar velinhas para o World Trade Center a cada 11 de setembro. A televisão não transmite documentários sobre Hiroshima no dia 6 de agosto - o que, cá entre nós, é de uma ironia ímpar. Vamos brincar de relembrar o dia em que os EUA assassinaram covardemente 200 mil pessoas? Não, né? Pois eu também não estou interessada em saber como anda a vida das viúvas do 11 de setembro. Não quero ver fotos de antes e depois do atentado sob a ótica da grande Estátua da Liberdade. Nada disso me comove pelo simples fato de não ter mais cabimento. Brasil, eu quero ler a manchete: hoje um menino descalço vendeu bala Halls no sinal de trânsito. Fome dói. Duas por 1 real, tia!

quarta-feira, setembro 07, 2011

Hoje, que descobri este lugarzinho improvisado, quis morar ali dentro. Batizei-o Chorinho, pelo som dos instrumentos. Lembrei Itapuã de Vinicius. Nos olhamos com receio de falar sobre entrar no carro, virar as costas, ir embora - soava quase como pecado.

terça-feira, setembro 06, 2011

da série: diálogos inesquecíveis (parte XI)

Cleópatra
(Joseph L. Mankiewicz, 1963)

"- Beba.
- Perdoe-me, Majestade.
- Beba.
- Perdoe-me. Perdoe-me.
- Eu lhe perdôo. Agora, beba."

Cena em que uma serva tenta matar Cleópatra com uma taça envenenada. A rainha, percebendo a intenção, ordena que a empregada prove o líquido primeiro. Liz Taylor em sua melhor forma.

segunda-feira, setembro 05, 2011

pegando emprestado:

"- Por que é que você olha tão demoradamente cada pessoa?
Ela corou:
- Não sabia que você estava me observando. Não é por nada que olho: é que gosto de ver as pessoas sendo."

Clarice Lispector em Uma Aprendizagem Ou O Livro dos Prazeres, um dos livros mais doces do universo.

quarta-feira, agosto 24, 2011

obrigado por fumar

Carisma e retórica podem te convencer a qualquer coisa. Quem prova é Nick Naylor, representante da indústria de tabaco, o nosso anti-herói no delicioso Obrigado Por Fumar. Muitíssimo bem interpretado pelo até então desconhecido Aaron Eckhart, o personagem nos conquista a cada cena de uma comédia fina e sacana sobre o poder da palavra e a monstruosa força do marketing.

Depois desse longa de estréia, Jason Reitman ganhou todo crédito do mundo para brincar de dirigir bobagens posteriores, como Juno. Já disse a que veio. Passe livre e eterno.

não é mais um besteirol brasileiro

Nem tudo que parece, é.

Ainda mais difícil do que ser inteligente é ser inteligente e, além, usar uma maquiagem burra para conseguir comunicação com a massa. Polaróides Urbanas, a estréia de Miguel Falabella como diretor de cinema, não foi tão bem repercutido quanto deveria. Não estou sugerindo que aplaudamos de pé, apenas que o notemos. Em meio ao lixo cinematográfico nacional, não julgo ser um filme que deva passar despercebido. Afinal, não é de todo fácil usar uma abordagem leve, quase mansa, para revelar a violência psicológica que todos nós estamos expostos.

Marília Pêra - impagável! - faz lembrar qualquer atriz de Almodóvar por conta do drama caricato. Inevitável comparação. Além, com exceção do provável elenco de Malhação, todos os outros estão surpreendentemente afinadíssimos.

inversão

Até que me provem o contrário, não acredito que o mundo gire em vão e que fatos se dêem à toa. Preciso de provas para crer que nascemos a esmo. Pronto, agora sou cética.

da série: cenas da vida real

"- Ele fugiu de casa, levou as muda toda. Fiquei pateta da cabeça. Já tinha outro filho, já. Tinha esposa, tinha tudo. Mas ninguém me contou nada porque tiveram medo d'eu fazer, como vou dizer, uma tragédia, né? Olha, eu fiquei pateta."

Divórcio nas palavras de Dona Neuza, 82 anos.
Consultório odontológico, sala de espera.

sábado, agosto 20, 2011

Que grande engano seu, plebeu!

dos breves relatos cotidianos:

Hoje meu Corpo acordou procurando o seu. Notei que precisávamos, enfim, sentar para uma conversa séria, meu Corpo e eu. Após longos minutos e duas xícaras de café, sendo uma para mim e outra para Ele, creio termos nos entendido. Agora estamos bem ajustados e por ora não voltaremos a entrar em divergência.

segunda-feira, agosto 15, 2011

"O homem que diz "dou", não dá
Porque quem dá mesmo, não diz"

Vinicius de Moraes, Canto de Ossanha

making off

Não acredito na inspiração que me relatam, os Orgulhosos. Acredito em disciplina, trabalho. Compor em guardanapos de bar não passa de uma teatralidade desnecessária. Quero escrever, por exemplo, sobre o fato de estar debruçada em você, como quem ainda não caiu mas apóia o peso do corpo sobre as pontas dos pés. O que me falta é dedicação para esmiuçar, desenhar palavras. Há outros termos que venho pensando, como "morar em silêncios". Ou a expressão "desmedidos carnavais" para pontuar excessos. Escrever não é a melhor tarefa do mundo, não fiz esta opção e sou uma eterna indisposta quando trata-se de. Por outro lado sei que, inevitavelmente, tudo se fará.

quinta-feira, agosto 11, 2011

segunda-feira, agosto 08, 2011

Só enxergo o que palpita. Acusam-me de ter olhos muito graves, já que não vejo serventia no que não urge. Descarto. Sou simples: o que não pulsa, não é.

quarta-feira, agosto 03, 2011

Já falo sobre bipolaridade há uns anos e é de conhecimento geral que sou plenamente cética em relação aos novos transtornos psiquiátricos que a indústria farmacêutica, com sua criatividade ímpar, teima em validar. Sempre evito trazer o assunto à tona porque passei anos estudando o tema e sobrou paciência zero para discutir com gente que não sabe o que diz. Quer se drogar, esteja à vontade.

O fato é que esbarrei em um documentário chamado Meu Filho Bipolar, no Discovery Home & Health, e estou mais chocada que nunca. Tudo bem se você acha louvável tomar remédios para seus pseudo-transtornos, o azar é todo seu, mas drogar uma criança de três anos porque ela faz pirraça é de uma covardia terrível. A seriedade aumenta se a criança em questão é seu próprio filho. Produzir um documentário tratando do assunto com normalidade torna-se uma aberração.
Os vídeos, que têm como objetivo comprovar o caráter bipolar das crianças, não apresentam nada além do que podemos ver ao vivo em qualquer shopping center, preferencialmente aos domingos: crianças mal educadas por pais visivelmente despreparados. Jogam-se no chão, choram, batem. Nenhuma delas precisa ser medicada, todas precisam da Supernanny.
Há um tempo conheci Thomas Szasz e me apaixonei. Como ainda não desisti da humanidade e sonho em um dia ver o produtor de Meu Filho Bipolar na cadeia, eis um vídeo que verdadeiramente merece ser assistido:

Guardo meu coração debaixo de 7 chaves e, por via das dúvidas, recentemente encomendei a oitava ao chaveiro.

domingo, julho 31, 2011

O que escrevo é documento. Se escrevo, por exemplo, que ainda nas primeiras horas da manhã um sabiá repousou as asas no parapeito da minha janela, imediatamente o fato torna-se incontestável.

domingo, julho 24, 2011

Você é injusto quando diz que a vida nos levou longe demais. A vida é inofensiva e não trabalha sozinha. A vida por si só é tão perigosa quanto um yorkshire. Sejamos razoáveis: nossas pernas nos levaram longe demais. Regressemos, então, com as mesmas.
Minha intuição é meu faro quando avanço às cegas. Minha bengala, minha guia mais primitiva e quase infalível.

quarta-feira, julho 20, 2011

quinta-feira, julho 14, 2011

da série: diálogos inesquecíveis (parte X)

Apocalypse Now
(Coppola, 1979)
"- Smell that? Do you smell that?
- What?
- Napalm, son. Nothing else in the world smells like that. I love the smell of napalm in the morning. You know, one time we had a hill bombed, for 12 hours. When it was all over, I walked up. We didn't find one of 'em, not one stinkin' dink body. The smell, you know that gasoline smell, the whole hill. Smelled like... victory."

da série: diálogos inesquecíveis (parte IX)

O Poderoso Chefão
(Coppola, 1972)
"- Eu voltei da Itália e revi meus pais, meus irmãos, minha família e fiquei contente. Mas só quando eu encontrei você eu fiquei realmente feliz. Isto é amor?"

sábado, julho 09, 2011

domingo, junho 26, 2011

Pois acho engraçado que todas as partes de nossos corpos se encontrem durante a noite, enquanto dormimos pesado, e dêem as mãos. Falo de nós, que somos dois, e não queremos estar longe mesmo quando teimamos em dizer o contrário.

sexta-feira, junho 24, 2011

da série: diálogos inesquecíveis (parte VII)

Último Tango em Paris
(Bertolucci, 1972)
"- I don't know what to call you.
- I don't have a name.
- Do you want to know my name?
- No. No, I don't! I don't want to know your name. You don't have a name, and I don't have a name either. No names here. Not one name.
- You're crazy!
- Maybe I am, but I don't want to know anything about you. I don't wanna know where you live or where you come from. I wanna know nothing, nothing, nothing! Do you understand?
- You scare me.
- Nothing. You and I are gonna meet here without knowing anything that goes on outside here, ok?
- But why?
- Because... Because we don't need names here. Don't you see? We're gonna forget everything that we knew. Every... all the people... all that we do... all that we... wherever we live... We're gonna forget that. Everything, everything.
- But I can't. Can you?
- I don't know."

da série: diálogos inesquecíveis (parte VI)

As Pontes de Madison
(Clint Eastwood, 1995)
"- What's he like?
- He's very... clean.
- Clean?
- No. I mean yes, he's clean but he's also other things. He's a very hard worker. Very honest. Very caring. Gentle. Good father.
- And clean.
- Yes. Very clean."

(Francesca descrevendo o marido. Sensacional.)

segunda-feira, junho 20, 2011

Depois de muito ouvir falar, assisti um filme de Todd Solondz pela primeira vez. E última. Em Felicidade tudo é de um mau gosto terrível, corra e aperte stop antes que um pedófilo de meia idade faça sexo com um coleguinha do próprio filho. Há jóias belíssimas no cinema e particularmente prefiro despender tempo com o que merece.

testemunho:

Eu, Natasha Pinto, brasileira, solteira, residente e domiciliada na cidade do Rio de Janeiro, portadora do CPF número 135.470.917-99, declaro que gosto de sofrer. Espero que não me julguem. Vinicius de Moraes também cantou que o amor só é bom se doer e ninguém deixou de gostar dele por conta disso. "Se não tivesse o chorar, melhor era tudo se acabar" coisa e tal. Aí, então, sinto-me no direito.

domingo, junho 19, 2011

ato ou efeito de concluir:

Agora, porque você é bonito, quero te olhar sem intervalo enquanto você permanecer encostado nessa pilastra carcomida de tempo, segurando seu copo vazio e simulando falta de atenção aos que te cercam. Meus olhos passeiam por cada detalhe seu. Em seguida, se assim podemos acordar, sinta-se confortável para vestir o casaco, virar as costas. Esteja à vontade para ser engolido pela próxima esquina. Ainda que a vida nos esbarre, nosso tempo foi outro.

da série: diálogos inesquecíveis (parte V)

Viver a Vida
(Godard, 1962)

da série: diálogos inesquecíveis (parte IV)

Waking Life
(Linklater, 2001)

"- Devia ser fácil quando era só uma questão de mera sobrevivência. "Água". Criamos um som para isso. "Tigre atrás de você!" Criamos um som para isso. Mas fica realmente interessante, eu acho, quando usamos esse mesmo sistema de símbolos para comunicar tudo de abstrato e intangível que vivenciamos. O que é "frustração"? Ou o que é "raiva" ou "amor"? Quando eu digo "amor" o som sai da minha boca e atinge o ouvido de outra pessoa, viaja através de um canal labiríntico em seu cérebro através das memórias de amor ou de falta de amor. O outro diz que compreende, mas como sei disso? As palavras são inertes, são apenas símbolos. Estão mortas, sabe? E tanto da nossa experiência é intangível. E, ainda assim, quando nos comunicamos uns com os outros e sentimos ter feito uma ligação, e termos sido compreendidos, acho que temos uma sensação quase como uma comunhão espiritual. Essa sensação pode ser transitória, mas é para isso que vivemos."

da série: diálogos inesquecíveis (parte III)

De Olhos Bem Fechados
(Kubrick, 1999)


"- Você não é ciumento, certo?
- Não, não sou.
- Nunca sentiu ciúme de mim, certo?
- Não, nunca.
- E por que nunca sentiu ciúme de mim?
- Bem, não sei, Alice! Talvez por você ser minha esposa. Talvez por você ser mãe da minha filha e porque sei que você nunca me trairia.
- Você é muito, muito autoconfiante, não é?
- Eu confio em você.
- Você se lembra do verão passado? Bem, eu já tinha o visto (o capitão) naquela manhã, no saguão. Ele estava chegando ao hotel e estava seguindo o mensageiro que levava a bagagem até o elevador. Ele olhou para mim de relance ao passar. Foi só um olhar. Nada mais. Mas eu mal consegui me mexer. Naquela tarde Helena foi ao cinema com uma amiga e eu fiz amor com você. Nós fizemos planos sobre o nosso futuro e falamos de Helena. Mesmo assim, em nenhum momento eu deixei de pensar nele. E pensei que, se ele me quisesse, mesmo que fosse só por uma noite, eu estaria pronta a abandonar tudo. Você, Helena, todo o meu futuro. Tudo."

nota:

Sendo detentora única de todo tempo que me resta, cabe somente às minhas mãos a função de gerar-me.

domingo, junho 12, 2011

constando:

Não sei escrever ficção nem tenho pretensão de fazê-lo. Não sou impessoal e não quero aprender a ser.

sábado, junho 11, 2011

Imediatamente paro tudo que estou fazendo se qualquer canal da televisão resolve, por bem, exibir Gladiador. Meu coração pertence inteiramente a Russell Crowe retirando o capacete na frente do Coliseu romano e dizendo: “Meu nome é Maximus Decimus Meridius, comandante dos exércitos do norte, General da Legiões Felix, servo leal ao verdadeiro imperador Marcus Aurelius; pai de um filho assassinado, marido de uma esposa assassinada, eu terei minha vingança nesta vida ou na próxima.” That's my boy.

quarta-feira, junho 08, 2011

"Não sou contra o casamento. Mas, muito mais do que representar ou escrever, ele exige dom." Leila Diniz

Tenho verdadeiro pânico de casamento. Não vou passar hipoglós em bundinha de neném enquanto meu marido ronca no sofá da sala e o Faustão berra "ô loco, meu!" num final de domingo. Suicídio é uma opção mais válida.

Particularmente, prefiro uma boa noitada num cassino em Las Vegas.

segunda-feira, junho 06, 2011

Dormir é fazer pouca valia de si, ignorar-se. Não sei ao menos aonde vou e deixo-me ir! Jogo-me aos leões, pois. Toda noite eu deveria ser condenada por abandono reincidente da minha própria alma.

domingo, junho 05, 2011

marco zero:

Penso que, dadas as circunstâncias, seria interessante passar um tempo em coma. É uma possibilidade que muito me fascina esta de viver uma temporada longe de tudo, sobretudo de mim mesma - mas não digo alto, sou surpreendida por certo medo de uma eventual conseqüência. Acontece. Parece que escrever é menos grave que dizer, na maioria das vezes. Se eu escrevo agora, por exemplo, é menos perigoso que arriscar um telefonema, usar minha voz para impregnar o ambiente com uma notícia que certamente ficará pairando no ar, quase em eco, até sabe-se lá quando. Usar a voz é coisa muito séria. Há estudos sobre isso. Eu sei o que estou falando.

da série: diálogos inesquecíveis (parte II)

Angel-A
(Besson, 2005)

da série: diálogos inesquecíveis (parte I)

Hiroshima Mon Amour
(Alain Resnais, 1959)

"Encontro você. Lembro-me de você. Quem é você? Você me mata. Você me faz bem. Como duvidaria que esta cidade foi feita nos moldes do amor? Como duvidaria que você foi feito nos moldes do meu corpo? Você me agrada! Que acontecimento! Você me agrada! Que lentidão de repente! Que doçura! Você não sabe. Você me mata. Você me faz bem. Você me mata. Você me faz bem. Tenho tempo. Eu lhe peço: devore-me! Deforme-me! Por que não você? Por que não você, nesta cidade e nesta noite, parecida com as outras ao ponto de se enganar? Eu lhe peço. É loucura: você tem pele bonita."


Asas do Desejo
(Wim Wenders, 1987)

"É fantástico viver espiritualmente. Dia após dia testemunhar para a eternidade o que há de puro, de espiritual nas pessoas. Mas às vezes me farto desta eterna existência de espírito. Nessas alturas gostaria de não pairar eternamente. Gostaria de sentir um peso que anulasse a infinidade e me segurasse à Terra. A cada passo ou a cada golpe de vento gostaria de poder dizer: “Agora, agora, agora” e não “desde sempre” ou “para todo o sempre”. Sentar-me à mesa e jogar as cartas, ser cumprimentado, nem que seja só com um aceno. Sempre que o fizemos, foi a fingir. Fingimos que pescávamos, fingimos que nos sentamos numa mesa a comer e a beber, que nos serviam cordeiro assado e vinho nas tendas no deserto. Era tudo a fingir. Eu não quero gerar um filho, nem plantar uma árvore, mas seria bem agradável chegar a casa cansado e dar de comer ao gato. Ter febre, ficar com os dedos sujos de ter lido o jornal. Não me entusiasmar só com coisas do espírito, mas com uma refeição, com a curva de uma nuca, de uma orelha. Mentir descaradamente. Ao andar, sentir o esqueleto mexer-se a cada passo. E finalmente supor ao invés de sempre saber tudo. Poder dizer “ah”, “oh” e “ai” ao invés de “sim” e “amém”. Ou experimentar o que se sente quando se tiram os sapatos debaixo da mesa e se estendem os dedos descalços."


Eu Sei Que Vou Te Amar
(Arnaldo Jabor, 1986)

"Ouve bem, ouve. Quando eu entrei em você pela primeira vez, parecia que eu entrava numa floresta quente, molhada. Parecia que eu ouvia aplausos, palmas. Eu entrei em você e pensei: meu Deus! Eu não vou mais parar de gozar. Eu não parava e eu ouvia aplausos. E pensava: meu Deus, é gol! É gol do Brasil! Sensação de vitória, de Taça de Ouro. Eu pensava: essa menininha me dando tudo isso, esses prazeres todos. Será que ela não tem pai? Será que ninguém cuida dela? Será que o pai e a mãe dela vão deixar ela me enlouquecendo aqui, de paixão? Será que ninguém faz nada? Ninguém toma uma providência?"

quinta-feira, junho 02, 2011

minha sincera assinatura abaixo de:

"O cinema americano não faz mais filme, faz videogame", Luiz Carlos Barreto no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

20 rapidinhas antigas:

(não sei precisar a data, encontrei por acaso e tudo soa tão atual...)

1. Sinto-me constantemente ameaçada pela minha própria instabilidade. Seria sensato carregar uma bengala para não correr o risco de cair no meio da rua quando meu estado emocional despencar bruscamente.

2. Agora que estou desconstruída posso começar tudo novamente.

3. Ilegível.

4. Ilegível.

5. Passo aproximadamente 24 horas por dia com vontade de te beijar. Digo 24 horas porque às vezes não dou trégua nem durante o sono. Outro dia senti vontade de te beijar enquanto te beijava. Achei normal. É o costume.

6. A grama do passado é sempre mais verde.

7. "Men go to bed with Gilda and wake up with me", Rita Hayworth referindo-se à personagem que a imortalizou no cinema. Compreendo.

8. Deveriam escrever um livro de auto-ajuda chamado O Seu Amor é Problema Seu. É duro, cruel, eu sei, mas é a realidade. Afinal de contas, o que você quer? Um troféu por me amar? Quer que eu mande rezar uma missa em homenagem ao seu amor? Que eu te ame? Ninguém ama ninguém pelo simples fato de ser amado. Aprende.

9. "Mãe, eu tenho mania de querer ver como é", eu disse aos poucos anos de idade, depois de queimar a mão para ver como é.

10. Não dou mais ouvidos aos meus quereres. E tudo bem se eu reagir fazendo bico ou choramingando pelos cantos, não dou trela. Ignoro. No máximo, num ápice de paciência, digo a mim mesma: um dia você vai me agradecer por isso.

11. A verdade é que a vida é livre de verdades. Mas, no fundo, tenho minhas dúvidas.

12. Quando enfim deito minha cabeça no seu ombro, sinto-me só mais uma. É um alívio inenarrável ser só mais uma.

13. Há qualquer coisa dentro de mim que se debate e não tem paradeiro. Quero estar aqui quando estou lá, ir para lá quando estou cá. O prazer mora na locomoção, no movimento, nas curvas, nos meios, nos entres. Pouco me interessa ponto de partida ou destino, eu quero ir.

14. Me chora!

15. Não me conformo com quem ainda não aprendeu que eu exagero. Já deu tempo. Se eu digo que odeio alguém não significa ódio, apenas antipatia momentânea. "A minha vida acabou" não quer dizer muita coisa além de "estou aborrecida agora".

16. Detesto ter que falar sobre alguma coisa que eu tenha escrito. O que está escrito não é para ser falado. Se eu quisesse falar não teria escolhido ser escritora, teria escolhido ser a Hebe.

17. Silenciosamente esbarro no teto ou nas paredes. Hoje aceito uma dose de gravidade, quero evitar hematomas.

18. Ela disse que vai estar me transferindo para o setor responsável, aí eu desliguei. Não gosto que me transfiram gerundiando.

19. Morro de tesão por impossibilidades. Nasci pra clandestinar.

20. De onde tiro paciência para mimar as primeiras encarnações que cruzam meu caminho?

dos diálogos cotidianos:

- Você está se excedendo.
- É a minha especialidade.

terça-feira, maio 31, 2011

Querido diário,

Sou tão amiga minha que me coloco no colo, estou aqui, foi só um pesadelo. Bebe um copo d'água. Pronto. Chora não. Passou, passou.

domingo, maio 29, 2011

(Não me sinto suficientemente corajosa para encarar de frente, cara a cara, a semana que se inicia. Não vou andar por aí exposta a possibilidade qualquer. Meu cobertor é mais seguro que os próximos dias. Quero poder me dar ao luxo da covardia, sinto-me merecedora.)

Querido diário,

Tenho ouvido termos geniais. "Pessoa vivente" foi a máxima, certamente adicionarei ao meu vocabulário. E também há outros que não recordo bem, agora. Minha memória está entupida de inutilidades e não sobra tanto espaço para armazenar essas genialidades cotidianas. Há dias em que as palavras fluem melhor, desenrolam-se com mais destreza, parecem não precisar tanto de mim. Noutros dias, não. Outro ponto é que, quando você me beija, volto a ter dezesseis anos. É triste porque, quando abro os olhos, percebo que não tenho mais. Você era meu herói com os cabelos já faltando, me contava sobre seus passos pelo mundo afora e todos aqueles conceitos de revolução, liberdade. Amor. Cumpro a promessa de amar e respeitar, na saúde e na doença, apesar dos pesares. Sou sua amiga. Sabemos que podemos contar, ainda que os anos corram. Acho bonito.

quinta-feira, maio 26, 2011

Querido diário,

Toda vez que vejo alguém catando lixo, sinto vontade de me jogar na cama e chorar incessantemente por cinco dias. Geralmente choro no máximo durante dez ou quinze minutos. Sou uma mulher forte.

quarta-feira, maio 25, 2011

Querido diário,

Noto, ao fim, que nunca haverá outro dia 25 de maio de 2011. Sou tomada por uma animação quase infantil toda vez que percebo o óbvio, um misto de nostalgia carinhosa pelo que ocorreu há poucas horas e entusiasmo cretino pelo que há de vir. Estou ponderando a possibilidade de abrir uma champagne, soltar fogos e me desejar feliz dia 26 de maio assim que o relógio sinalizar meia-noite. Planos: amanhã, penso, dedicarei tempo integral para degustar as infinitas possibilidades assanhadas que a vida me oferecer. Quanto ao dia de hoje, trancarei afetuosamente dentro de uma caixinha devidamente selada com cadeado para não correr o risco. Percebo que os ontens carregam um quê fantasmagórico e, até segunda ordem, não quero ter notícias deles.

Das falhas fundamentais que azedam um texto:

Dentre mil e uma, cito algumas: 1. falta de ritmo, dá-se geralmente quando quem escreve atém-se a uma visão particularmente in, é como construir uma casa e, satisfeito, passar a habitá-la sem no entanto nunca ter observado o resultado da fachada; 2. texto engessado, típico caso de quem escreve mas não sabe escrever, estrutura durinha e mal bolada, dentre todas certamente é a opção que mais me irrita; 3. literatura tímida, caso normal de quem não ousa dar uma pirueta porque não julga necessário ou não foi assim que aprendeu, muito comum em acadêmicos frangos. Tem-se a mesma impressão, ao ler um escritor tímido, de assistir a um show ao vivo e na saída dizer que foi igual ao DVD. Não compromete e ao mesmo tempo deixa a desejar; 4. Engasgar, trata-se de esbarrar numa frase que parece o motor de um fusca 94, vai vai vai mas não engrena de jeito nenhum. Existe um fio condutor, por trás, que é brutalmente rompido por conta, muitas vezes, de uma mera palavra que não foi devidamente trabalhada ao lado da palavra vizinha.

Corrigindo as últimas provas, concluo que tenho cometido todas acima descritas. Classifico-me como insuficiente, portanto obrigo-me, a partir da presente data, a publicar ao menos um ponto diário durante sete dias. Preciso urgentemente de prática - que foge e se perde pelo caminho - além de contribuir para minha posterior análise do Self.

terça-feira, maio 24, 2011

pequena nota d'água:

E, se vejo desenrolar-se frente aos meus olhos a mesma história já mencionada tantas vezes anteriormente, nomeio-me a grande causadora da própria. Mudo o personagem, apenas. Depois sento-me para assistir o que já sei de cor. Estou estudando para defender uma tese sobre o tema, talvez. Mas, por enquanto, não quero falar sobre você, escrever sobre a bagunça que sua boca me causa. Ainda não. Qualquer dia, quem sabe. Já é tarde. Por ora, te poupo.

segunda-feira, maio 23, 2011

vira e mexe viro cinza

Sobre ser, creio que não decepciono. Eu sou. O resto é pura bobagem: ultimamente sinto, por exemplo, dores de cabeça que não cessam sob nenhuma solução farmacêutica. É verdade que também tenho notado, e já faz certo tempo, que os pratinhos da minha balança interior estão num desequilíbrio de dar dó. Não penso em soluções homéricas para consertar o estrago pois tenho estado de fato entretida, dia após dia, em executar a tarefa de caminhar ladeira abaixo - rumo a Sabe Deus Aonde. Chegarei lá. Confio plenamente na minha capacidade de me destruir, sou muito boa nisso - depois volto, ainda melhor que antes.

O fato é que eu sou. E, de tudo, penso que poderia ser pior: eu poderia, veja que triste, não ser. A probabilidade é bem grande, concluo, eu que esbarro diariamente em milhões que não são.

Troquemos flores: se fui agraciada, a Quem devo ser grata?

domingo, maio 22, 2011

"De repente descubro que esta impossibilidade é a matéria que trabalho."
Ana Cristina César

quarta-feira, maio 18, 2011

Certa vez ouvi de um homem que eu deveria ter nascido com manual de instruções. Pois bem, eu nasci.

Eureka!

Percebo, enfim, que o dia de hoje morre no minuto exato em que eu adormecer o rosto no travesseiro. E se foram assim todos os meus ontens, tudo é vão e findo. Tenho pensado sobre a liberdade que esse conceito me concede.

terça-feira, maio 17, 2011

Eu não sinto saudade de Pedro Almodóvar

Quando chove sinto vontade de encher minha caneca de café e ler Virginia Woolf, que escrevia como uma rainha, e daqui mesmo consigo avistá-la comportada na prateleira ao lado de um chatíssimo Hermann Hesse que nunca li até o final. Muito Franz Kafka e eu nem sei como, nunca fui fã. Sartre e suas picaretagens. Hilda Hilst, a figura mais genial que já habitou o planeta Terra. Clarice, que está na boca de todos e ainda hoje não foi compreendida. Ana Cristina César, Manoel de Barros, Caio Fernando, Adélia Prado, Lygia Fagundes. Yourcenar, Duras. Pizarnik, Cortázar, amados. E muita porcaria, também: Bukowski, Henry Miller, Anaïs Nin, teria um prazer inenarrável em jogá-los no lixo se não fossem recordações de uma época.

Esbarro em Roland Barthes com seu Fragmentos de Um Discurso Amoroso, um dos melhores livros que se tem notícia. Lembro que, depois de ler Roland Barthes, escrevi um Tratado Irrevogável sobre a Paixão. E, quero dizer, esta é a parte boa: hoje sou livre de qualquer influência, caso resolva voltar a escrever decentemente.

Jejuo. Não leio. Não assisto. Meus olhos querem fechar e evito cometer qualquer gesto que porventura possa me lançar ao abismo irremediável do sono.

Não falo sobre, também. Não puxo este assunto. Não tenho paciência para ouvir essa gente falar sobre Martha Medeiros. Desconsidero. Eu tenho um panteão e Martha Medeiros não existe.

Vivo como se eu não fosse eu.

Eu não sinto saudade de assistir Pedro Almodóvar, definitivamente. Não sinto saudade de Bergman, Resnais, Wim Wenders. Eu sinto saudade de mim.

segunda-feira, maio 16, 2011

era uma vez você

I

Começo a falar, se hoje já consigo, sobre o embaraçamento tórrido que nos resta: de tudo que me custou, o mais pesado tem sido fingir aos demais que meu corpo nunca habitou tua cama, tua boca nunca brincou de passear meus seios e minha voz não conhece cada canto do teu ouvido. A rotina de trocar suor e, passadas duas horas, as bochechas cumprimentarem dois beijinhos simpáticos. Falo por mim: forjar não é costume, a verdade não amedronta os que não devem. Contudo, porque tu carregas uma mentira no dedo anelar, nos fantasiamos de meros conhecidos quando, em público, tu pedes licença ao transitar e então agradeces, educado. Este, que passa temeroso, não é aquele homem. Eu, ainda que isenta de culpa, não sou aquela mulher. Nos reconhecemos apenas quando, sem querer, teus olhos tropeçam nos meus - e bambeiam sem equilíbrio, levemente embriagados, a um triz de tombar em praça pública.

quarta-feira, maio 11, 2011

my lady day

Billie Holiday é a voz mais charmosa do jazz. Derreto quando ela canta dando essas quebradinhas, assim, está ouvindo? Delicioso. Parece uma bezerra desmamada choramingando ao som desse piano impecável, consegue escutar? Aumenta. Toda vez que ouço Billie Holiday sinto vontade de beber uma taça de qualquer coisa e avisar ao mundo que já posso morrer feliz.

quinta-feira, maio 05, 2011

Nota mental:

Eu não sou obrigada a escrever. Estou farta das minhas próprias cobranças e, só para me sacanear, continuarei sem dar uma palavra.

segunda-feira, abril 25, 2011

Das idéias que já acostumei:

1) Assumo riscos. Faço tudo que quero e pago cada conta, respondo por todos os meus crimes. A vida e eu estamos sempre quites - ninguém deve nada a ninguém. Penso que, de tanto ir ao inferno e retornar, provavelmente já ganhei meu greencard. E acho graça quando encontro alguém desnorteado, eu que já sou de casa e criei certa intimidade com a quantidade de talheres à mesa, sei utilizá-los de fora para dentro e não faço cara feia quando é servido o pão que o diabo amassou.

Das idéias que ainda não acostumei:

1) Não será decretado feriado por conta da minha dor. Embora eu, num auge de megalomania, julgue estritamente necessário que o planeta (ou país, minimamente) se compadeça da minha situação emocional e libere todas as pessoas de seus respectivos afazeres cotidianos para que todos possam enfim aguardar em fila o momento de visitar o meu leito real, onde mereço permanecer deitada em posição fetal recebendo chás, flores e biscoitos suíços. Estou machucada. Contudo, os sinais de trânsito continuam a alternar entre verde, amarelo e vermelho. Os telefones continuam a tocar, os e-mails aterrissam na caixa de entrada, o preço do maço de cigarro sofre reajuste e eu sou obrigada a desejar bom dia aos rostos conhecidos. Uma ofensa ao meu ego, um verdadeiro disparate.

sábado, abril 23, 2011

"Tenho tentado aprender a ser humilde. A engolir os nãos que a vida te enfia goela abaixo. A lamber o chão dos palácios. A me sentir desprezado-como-um-cão, e tudo bem, acordar, escovar os dentes, tomar café e continuar. Não há de ser em vão."

Caio Fernando Abreu em carta a Jacqueline Cantore, 18/04/85.

segunda-feira, abril 18, 2011

domingo, abril 10, 2011

um gosto de língua no céu



Delícia sensual de maçã. Tara que tem ímã. Uma das mais belas letras da música popular brasileira, indubitavelmente.

quarta-feira, abril 06, 2011

à volonté, monsieur

Não entro na frente de quem quer passar direto. Quem não viu, não é digno de tal. Não interfiro em caminho que não é meu.

terça-feira, abril 05, 2011

inverno

Naturalmente os lençóis esfriam quando tenho que me tornar uma mãe portuguesa, tirar as roupas molhadas do filho que brincou na chuva e então preparar um chá para curar a gripe que ainda não existe.

making off

Preciso criar uma frase em que eu possa usar a palavra eleger em tom conotativo, mesmo que em qualquer tempo verbal, depois manualmente prosear os arredores para construir um berço onde a frase possa encaixar-se confortavelmente, sem acordar. Veja bem: não que eu queira fazê-lo, não instituí esta tarefa para minha noite, não estava nos meus planos. Além do mais, eu detesto escrever. Contudo, caso eu não consiga criá-la, provavelmente a frase que ainda não existe brincará de circular minha mente até que eu enlouqueça. Ou seja, sou inevitavelmente obrigada a juntar meia dúzia de folhas em branco, exilar-me na varanda e rabiscar, quem sabe por horas a fio, até que o texto se faça. Quando eu descobrir a quem recorrer, juro que peço demissão desse cargo.

segunda-feira, abril 04, 2011

quinta-feira, março 31, 2011

Todos esses ditos populares valem para os dois lados, ainda que ninguém lembre disso: se passo a maior parte do tempo ouvindo o que não quero ouvir, concedo-me todo direito de falar o que eu bem entender.

das pérolas no charco

"O meu amor é passarinheiro,
Ele só quer passarinhar"

Incontestavelmente genial. Às vezes tento acreditar que é um pagode, nunca consigo.

constando:

Não engulo quem tem medo de ser.

no title

Ao mesmo tempo que respeito a Natureza como uma filha respeita a própria mãe, sou inevitavelmente seduzida como uma apaixonada: fico deslumbrada quando olho bem para as folhas, dessas de árvores quaisquer, pois são tão frágeis que desmanchariam em minhas mãos se eu empregasse o mínimo de força e, simultaneamente, transmitem um rigor inenarrável mesmo quando secas e jogadas às calçadas.

quarta-feira, março 30, 2011

Pequeno dicionário gestual cotidiano:

Porque, eu sei, seu corpo também berra.

A melhor forma de estudar linguagem corporal é, estando exausta, entrar num ônibus em que todos os assentos estejam ocupados. É necessário, depois de atravessar a catraca, observar (em míseros segundos num ângulo de 180 graus) todos os passageiros e escolher um alvo, ou seja, posicionar-se ao lado de um indivíduo por apostar que em breve o mesmo abandonará o transporte e conseqüentemente cederá o banco. Analisa-se, primeiramente, o fator semblante, expressões faciais, sobretudo direção dos olhos e grau de contração dos lábios. Depois, se for o caso, o objeto que o passageiro carrega no colo - uma bolsa, pasta, compras de mercado, livro, bebê. É importante notar se a pessoa segura o elemento firmemente, eis premissas primordiais para concluirmos: o posicionamento dos dedos em relação à matéria e a intensidade do gesto. Por fim, e talvez o último quesito seja o mais revelador, focamos os membros inferiores do sujeito em questão pois a disposição das pernas involuntariamente declara a intenção. Esta informação pode ser usada em outras situações, inclusive. Pernas são indícios infalíveis.

Agora, por favor, um apelo: parem de comprar os livros de Allan e Barbara Pease. Este é um dos traços da humanidade que me aborrece de fato. Havia, então, uma menina lendo "Desvendando os Segredos da Linguagem Corporal" enquanto o trânsito não dava trégua. Um desperdício sem tamanho.

terça-feira, março 29, 2011

Não me importo que o mundo constantemente termine em pizza desde que não tentem me obrigar a comer uma fatia.

quinta-feira, março 24, 2011

E, sobre você, agora pensei que é uma grande inutilidade passarmos os dias simulando ausência de querer. Não ganho nada por isso. Não seremos premiados com nenhum troféu da Omo Multiação por sermos tão limpos e brancos. Somos corretos: não nos podemos, não nos temos. Contudo, em termos práticos, caso você pretenda nos arrumar um certificado de dignidade devidamente carimbado, agradeço. Até agora, não enxerguei benefício.
"(...)
também escrevi coisas assim,
para pessoas que nem sei mais
quem são"

Ana Cristina César

segunda-feira, março 21, 2011

Um texto é uma estrutura física. É necessário fixar bases, virar massa, aparar arestas, lixar até suas mãos criarem calos, esculpir. Frases não sustentam o peso do próprio corpo, caem e viram pó. Não adianta lhufas você querer contar uma historinha se não pretende ter trabalho braçal. Conte-a para sua mãe e vá tomar um toddynho.

pontuando-nos

Sobretudo porque eu fico bem em você. Nossos braços alinhados nessa espécie de tom sobre tom, minha perna que encontra vaga exata entre as suas, a textura da minha pele realçando seus dedos longos toda vez que você passa a mão nos meus ombros para comprimir meu corpo no seu tronco. Ficamos, nós dois, tão bem delineados nessas ocasiões em que podemos enfim encostar nossos detalhes e inevitavelmente esbanjar certo garbo - pincelar o cenário, gracejar os lençóis, desempalidecer a paisagem. Estou com a mania besta de nos apreciar quando estamos assim milimetricamente cerzidos. Esteticamente falando, ainda não enxergo defeito.

quarta-feira, março 16, 2011

Operação Noé

em 16 de março de 2011, 23h10m.

Diário de bordo:

I. Das coisas findas:

(em andamento)

Prévia

Sinto-me cansada como nunca. Agora eu queria mesmo é sentar na minha poltrona, aplicar hidratante nos pés e colocá-los para cima em repouso, acender um Marlboro e assistir o final da primeira temporada de Damages. A inescrupulosa Patty Hewes é a melhor vilã de todos os tempos e conquista meu coração toda vez que manda alguém shut the fuck up com aquela classe incomparável.

Porém o fato é que o mundo está chegando ao seu glorioso fim. Não fico surpresa que comecemos pelo Japão, mas mantenham a calma pois muito em breve todos nós poderemos usufruir de radioatividade letal. Dadas as circunstâncias, sou obrigada a escrever. Preciso, até 2012, publicar cerca de sete livros, alcançar o reconhecimento do meu trabalho e mantê-lo vivo para próxima raça que habitará este planeta. Como as coisas provavelmente não tomarão o rumo que pretendo, tenho como plano B engarrafar minhas palavras e deixá-las boiando pelo oceano até que porventura sejam encontradas. Mais poético, devo admitir, entretanto bem menos funcional.

Em suma, sou Noé construindo minha arca. Favor não perturbar, não tenho tempo para realidades.

quarta-feira, março 09, 2011

...meia palavra basta

Sou ótima e estou sempre concedendo oportunidades às pessoas mostrarem seus dotes. Acontece que viro a ampulheta.

Tenho vontade de soprar: Tempo! Valendo!
Dia desses fui convidada para um Congresso de Literatura Clássica. Apresentarão uma tese sobre Euclides da Cunha, um estudo minucioso que tem como objetivo determinar (porque os acadêmicos cruzam as perninhas e julgam-se no direito de tal) se Os Sertões é uma obra literária ou histórica.

Respondi que tenho mais o que fazer da minha vida.

terça-feira, março 08, 2011

Tocar a genitália de uma mulher não significa tocar seu íntimo. Sou virgem. Minha alma permanece intacta e selada por um hímen que homem algum conseguiu romper, ainda que dividisse o talher e a cama. É nobre minha castidade. Sou uma dama.

quinta-feira, março 03, 2011

Dou um pirulito para quem exterminar José Wilker da face da Terra. Dois para quem o fizer à facadas. A humanidade precisa ser poupada daquele tom de voz seboso ladrando comentários xiitas.

José Wilker, eu te vomito.

Sem mais.

Notebook on Cities and Clothes

Existe, de fato, um documentário chamado Identidade de Nós Mesmos (ou ainda Notebook on Cities and Clothes), brilhantemente dirigido pelo mestre Wim Wenders. Lembro de ter citado este filme na época em que o assisti pela primeira vez, permaneceu marcado em minha memória especialmente por ter sido meu primeiro contato com o universo magistral do diretor alemão.

Wenders conta com uma característica cinematográfica deslumbrante: arrebatar o espectador na primeira cena. Sempre sou nocauteada antes dos cinco primeiros minutos de qualquer filme assinado por ele. Gosto muito dos que mostram logo a que vieram. Além, ainda mais incrível é a capacidade de nunca perder o tom durante todos os minutos posteriores. Tem-se a explosão inicial e o natural seria a queda, o declínio. Não. Segue-se exatamente o mesmo ritmo.

Yohji Yamamoto, por sua vez, é um estilista japonês e também o cerne da obra em questão, a mesma do título. Um gênio, um verdadeiro artista. Acompanhar seu processo de criação é fascinante, tão delicado que eu sempre faço questão de recomendar este documentário às pessoas dotadas de sensibilidade que torcem o nariz quando se fala em moda. Pois moda é criação, sim senhor, e toda criação tem seu encanto. Prova-se, sobretudo, que nenhum tipo de criação é frívolo nem deve ser denominado como tal.

domingo, fevereiro 27, 2011

and the oscar goes to... my bed

Não tenho mais o menor estômago pro Oscar. Lá se foi aquela época, fiquei velha. O humor americano é tão pobre que me causa vergonha alheia e Anne Hathaway como apresentadora só faz piorar a situação. Desligo a televisão e nutro a certeza de que não estou perdendo absolutamente nada.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

(Hoje eu quero chorar mas estou com preguiça, então fico adiando. Acabo fazendo uma coisa, outra. Mas antes da hora de dormir, prometo, não passa. Deitarei mais cedo, reservarei uma média de 20 a 30 minutos. Já esquematizei tudo.)

domingo, fevereiro 20, 2011

1. Gosto de me exercitar com aleatoriedades.

2. Por alguns segundos ocorreu-me a possibilidade de virar as xícaras de café que pousaram na nossa frente como duas borboletas ou anjos, seres celestiais enviados para suavizar o peso do ambiente enquanto cerrávamos os lábios em nítida expressão de desagrado, permanecíamos mudos e desviávamos os olhos (cada qual para um lado distinto como quem se recusa a compartilhar o mesmo campo de visão). Por alguns segundos quase ousei quebrar aquele silêncio que supunha ser mais poderoso que eu.

3. Escrever é muito cansativo. Palavras são símbolos duríssimos e extremamente bem traçados, exercer poder sobre palavras é quase como fazer Vênus de Milo rebolar. Você precisa ser ainda mais forte que elas para colocá-las em movimento, flexioná-las, conduzir, domar. É um trabalho muito violento, neste sentido. Por outro lado, paradoxalmente, é um trabalho infinitamente delicado, quase artesanal.

4. A primeira vez que reparei que não presto aconteceu enquanto tu enxugavas desajeitadamente meu cabelo (como quem é homem e por o ser não consegue fazê-lo nem emprega o mínimo vigor no ato porque teme machucar-me acidentalmente) e me relatavas carregar uma culpa desoladora pelo que fazíamos, por nos encontrarmos às escondidas para saciar bem querer. Respondi que sentia igual, senão pior - por estar ainda mais errada, ah! Respondi, entrei em palco, fiz cena, retirei a toalha das tuas mãos para deitar-me dramaticamente em teu colo e fingir sofrer somente porque te amava a ponto de não arriscar que tu pudesses me achar monstruosa. Mas a verdade é que minha cabeça nunca pesou no travesseiro. No meu íntimo, nunca senti a mínima parcela de culpa - e só deus sabe o quanto eu tentei.

5. Sou impaciente com pessoas porque estas geralmente têm como verdade (e argumento) aquilo que Alguém pensou. Se meus irmãos de raça não fossem tão mentalmente preguiçosos (e tão avessos ao que possa ameaçar seus paradigmas) a humanidade não teria passado tantos anos repetindo em coro que a Terra é quadrada.

6. Há um traço pejorativo quando te chamo de menino ao final de cada frase. Você não percebe porque minha voz assume um tom aveludado, quase carinhoso, enfeite para disfarçar deboche.

7. Não sei mais escrever. Estou muito desaprendida.

a desbiografia oficial de Manoel de Barros

Para documentar há de se estar em sintonia com o documentado. O diretor Pedro Cezar capturou brilhantemente a delicada essência do poeta e guardou a relíquia dentro de um vidrinho de maionese para mostrar aos posteriores - e merece minhas palmas pela exímia construção do espelho. Manoel de Barros é, por natureza, a grandiloquência travestida de simplicidade.

Naturalmente eu poderia passar horas tecendo elogios ao último poeta vivo, rendendo laudas em homenagem, provando por A + B que a poesia de Manoel de Barros é a concretização do que há de mais sensível no homem - mas acontece que sou uma apaixonada, portanto uma eterna suspeita para falar.

"De dentro de mim não saio nem pra pescar."

sábado, fevereiro 19, 2011

"(...) nossa necessidade fresca & neurótica de elaborar sofrimentos e rejeições e amarguras e pequenos melodramas cotidianos para depois sentar Atormentado & Solitário para escrever Belos Textos Literários. O escritor é uma das criaturas mais neuróticas que existem: ele não sabe viver ao vivo, ele vive através de reflexos, espelhos, imagens, palavras. O não-real, o não-palpável."

Caio Fernando Abreu em carta a Sérgio Keuchgerian, 10/08/1985.

domingo, fevereiro 13, 2011

Eu vos perdôo pois não sabem o que dizem.

Mercúrio

suponhamos que dispuséssemos de Tempo como já bem dispomos um dia, tu encararias de frente a possibilidade de embarcar ao meu lado rumo ao que ainda nos é incógnito? pois, como tu certamente responderias que sim, por que não embarcaste enquanto podias? e é tão fácil agora culpar as horas! supondo, ainda, que disporíamos de cortinas para nos proteger dos olhos estrangeiros (os olhos que tu temes como se carregassem o poder de te jogar às fogueiras inquisidoras), continuarias a procurar uma vaga para estacionar teu carro como se sentada ao teu lado não houvesse minha pele? e por tocar no tema agora perto do meio-dia, já que estamos dermatologicamente interligados, por que tu não me almoças? é que às vezes, sem querer, eu quase falo teu nome.

Considerações Finais:

(sobre os últimos dias)

1. E se não sei o que fazer das minhas mãos, concluo que estou inteira à disposição das horas. Que não sejam cruéis, as próximas. Que não me matem, pois. Que as horas compreendam a delicadeza do meu gesto, meu sensível ato de devoção (quero dizer: sou sua, tempo!), dedico-me plenamente e agora estou entregue para que façam o que bem quiserem dos meus braços, do meu peito, para que mastiguem minha alma, devorem lentamente meu cérebro, amém.

2. Terça-feira, 20:45 hs, pergunto-me como o peso de um telefone que não toca pode ser maior que o Holocausto. O fato de milhões de pessoas terem sido friamente assassinadas pelo nazismo não me causa tanta agonia como a ligação que espero - e não vem. Com este depoimento fica decretado, de uma vez por todas, que sou humana e que a humanidade fede. Para os que tinham alguma dúvida, algum tipo de esperança, aí está a prova.

3. Proponho que nós dois, como em despedida, coloquemos nossos tênis e caminhemos juntos sob o sol das 14 hs, sempre em linha reta, até encontrarmos um motivo que valha o suor que escorrerá em nossas testas. Deve haver, certamente, em algum lugar.

4. Apenas uma coisa me aflige mais do que nunca saber se estou fazendo o certo: saber que o certo não existe.

5. Aos poucos vamos aprendendo sobre a continuidade da vida e já não cometemos mais gestos de protesto, não saímos às ruas em arruaça, já não brigamos com os deuses. Nada podemos contra os fatos senão engoli-los.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

(meu umbigo não é obrigado a girar em torno do mundo)

Quinto dia:

E tudo bem se você quiser partir desde que mantenha uma distância razoável dos meus olhos para que eu não o perca de vista. Não tenho a pretensão de te fazer meu, mas me concedo o direito de te observar até que minha visão se canse.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Quarto dia:

Qualquer coisa é capaz de me levar aos céus ou me empurrar para lama. Meu corpo parece nunca cansar de brincar de montanha russa (como quem se alimenta da náusea). Nasci em carne viva, sem pele, tudo sinto; fui obrigada a me armar para preservar minha espécie já quase extinta. Agora não quero mais falar porque estou toda exposta e me incomoda viver à mercê de fatos. Eu deveria ser una.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Terceiro dia:

00:15 hs:
Regras do jogo: 1) Brincar de ir direto aos fatos de acordo com o que coube em minha memória num período de aproximadas 24 hs. 2) Tentar finalizar este texto o mais rápido possível para que minha cabeça consiga levantar heroicamente do meu travesseiro de plumas de ganso quando o despertador tocar pela manhã. 3) Ser fiel aos acontecimentos reais, construir uma estrutura palpável, fixar muito cimento e esquecer poesia (é que meu coração quer fazer as malas!).

22:40 hs:
Meu organismo é muito dado a vícios. Agora, por exemplo, sinto-me inteiramente viciada em fio dental. Mania, louvor, entusiasmo, me excita a idéia de mandar meus soldados erguerem um busto de bronze em homenagem ao fio dental em praça pública. Ovacionem-o.

21:00 hs:
Cazuza cantando que só as mães são felizes. Lembrei de um filme francês chamado De Tanto Bater Meu Coração Parou. Não há nenhuma relação entre a primeira frase e a outra, entre a música e o filme. Apenas lembrei. E não há mais nada de interessante para ser registrado durante esta hora, vamos para a anterior. Só anoto o que importa para minha existência enquanto mulher brasileira portadora de um CPF e etc participante de uma sociedade democrática e etc assídua contribuinte com a Realidade e etc.

19:50 hs:
“O homem é responsável por toda mulher que ele pega, que ele come.” Mr. Catra.

18:02 hs:
Minha vó disse que tudo acontece no tempo certo e ela deve ter razão porque hoje completa 72 anos. As pessoas que completam 72 anos estão sempre certas porque, afinal de contas, estão completando 72 anos (o fato explica-se pela causa e vice-versa). Eu não faço idéia do que seja o tempo certo, é um conceito muito abstrato para o meu cérebro. Todo tempo é certo! - eu digo e estou errada.

17:22 hs:
Descobri que as raízes de amendoeiras destroem as calçadas. É emocionante vê-las brigando com o mundo em nome de um espaço que é delas. É bonito, valente, ousado. Quero ser amiga de uma amendoeira porque ela não conhece a resignação.

15:35 hs:
Eu poderia passar horas a fio ouvindo você falar rotativamente acerca desses mesmos assuntos seus. E tudo porque há um componente específico na sua voz, uma peça que sai do seu íntimo enquanto você conversa distraído (você não nota!) e atravessa sua garganta para se encaixar magneticamente numa lacuna localizada aproximadamente entre meus dois seios, como aqueles brinquedos de criança onde um triângulo sólido encaixa-se somente (e tão perfeitamente) na forma triangular. O problema está na sua voz.

12:30 hs:
Ao atravessar a rua, vi um mico morto. Nunca, em toda a história da minha vida, havia visto um mico morto. Achei curioso, dediquei certo tempo para observá-lo, pensei muito sobre. São sempre curiosas essas primeiras vezes.

10:17 hs:
Escrevi há muito tempo, achei outro dia e ainda faz sentido: "No fundo eu sempre fui tua espécie de Jesus Cristo de mini-saia e sem calcinha. Tu trepavas com Jesus Cristo bebendo conhaque e ouvindo Mingus. Canalha."

08:55 hs:
Não estou me fixando em acontecimentos reais, não estou construíndo uma estrutura concreta nem utilizando cimento. Talvez eu não seja boa nessa coisa de realidade. Não é meu ramo.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Segundo Dia:

Hoje eu não vou escrever porque vi um camelô vendendo cofres de porquinho (de barro, detalhadamente pintados à mão) e imediatamente notei que não existe um motivo sequer para continuar a tecer, entrelaçar o Nada, coordenar meia dúzia de palavras ocas - para quem? Sobretudo, para quê?

O homem pinta o porco. Ele não parece querer saber o que minhas palavras carregam, não percebo um semblante interessado, desconfio que ele nem tenha notado minha presença, meus passos minuciosos. O porco é pintado com o intuito (repare o propósito) de ser vendido para outro homem (repare, agora, o destinatário) guardar moedas, estas recebidas de um terceiro homem em troca de um serviço prestado. E o mundo se desenrola apenas pela sucessão dos fatos, a série dos dias, a ordem natural de todas as coisas. Certamente existe uma família jantando agora, nalgum lugar. Provavelmente eles nem sabem que o homem pinta porcos e que isso me tocou de tal maneira. A vida permanece, apesar. O Sol nasce e se põe - será assim toda vez, mesmo que eu prefira não interferir. A vida é sólida, concreta, quase matemática.

E você pode sentar ao meu lado para me dizer que a vida é bonita, é bonita e é bonita. Ou você pode queixar-se de como ela é ingrata por não te dar o que você merece; você pode lamuriar-se, também, não importa! A vida está cagando para suas considerações a respeito dela. A vida não sabe nem quem é você. Veja bem: a vida não faz a mais vaga idéia de quem seja você. Se você morrer atropelado por um caminhão amanhã, ela não hesitará em continuar seguindo. Com você, sem você, não importa, não interessa, nada muda.

Pois, e é tudo que quero dizer desde o princípio, como estou deveras magoada com minhas próprias conclusões, fica decidido e acordado entre minhas duas partes que hoje não há a menor possibilidade de sentar para escrever qualquer palavra. E ponto final.

domingo, fevereiro 06, 2011

Quero deixar claro que estou de férias da humanidade. Não esperem nenhum tipo de reação além do piloto automático porque minha alma provavelmente está desfrutando de um cruzeiro pelas Ilhas Gregas, banheira de espuma e taças de champagne.

Prometo voltar mais calma e complacente.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Eu, corpo, movendo-me involuntariamente em direção ao seu tronco como quem reconhece morada. Eu, corpo, identificando residência em seus braços. Meu corpo te chamando de casa. Eu, mente, identificando resistência em cada palavra. Eu, mente, questionando cada posição no tabuleiro do xadrez, perguntando-me os porquês como quem se percebe cavalgando mas não conhece o percurso, como quem pressente perder a direção a qualquer momento, como quem prevê a própria queda. Minha boca te chamando de ameaça.
Agora lembrei quando anoitece no Alto e a cidade se acende aos meus pés. Essas coisas de gente que está viva, de coração que bombeia sangue. Falo de todo esse fenômeno de pele transpirar, o milagre da mastigação, o sistema nervoso central, esse nosso organismo que imita um perfeito nado sincronizado e é suficientemente modesto para não exigir aplausos - para não exigir, sequer, que percebamos! E falo, também, dos instintos que permanecem apesar de milênios de evolução apenas para nos lembrar que somos bicho. (Pois que nos farejemos, então, e que gastemos horas nos dedicando a descobrir se o cheiro do outro satisfaz nosso olfato!) Falo sobre caminhar debaixo do sol carioca para depois beber água, sentir a água, a garganta, a beira do copo dançando nos próprios lábios.

Falo, hoje, sobre como a vida mundana pode ser apetecível - ainda que muitas vezes não a seja.

domingo, janeiro 30, 2011

"Tarde turquesa
Quarenta graus"
Adriana Calcanhotto


O que tenho a dizer hoje soará deveras cansativo - e de fato causará aborrecimento aos olhos, principalmente aos meus. O que tenho a dizer hoje é o mesmo que tive a dizer ontem, anteontem ou há duas semanas. (Que pouca coisa isso tudo que você me dá, homem! E quantas vezes eu vou ter que te dizer que sim? Quantas vezes eu terei que dizer que aceito para que você tenha coragem de, enfim, oferecer? Quanto tempo? Quantas vidas?) E se digo é pelo simples fato de não saber o que fazer das horas, nada importante. E se não sei o que fazer das horas é porque não as enxergo mais. Parecem-me, hoje, tão traiçoeiras, escorregadias.

Ando cega de tempo.

Recito enquanto tu fazes café: meu amor, duvido que negues apoio a uma antiga senhora que já não consegue apoiar-se por si só, que já não atravessa a rua sem bambear, que já não sabe distinguir uma coisa de outra coisa. No mesmo minuto que tu achas graça eu apóio a cabeça sobre as mãos, tom aflito, leve pitada de desespero, mais um daqueles gestos a procura de espectador. Aí, então, agora que abrimos as cortinas vermelhas, ficaremos à toa, brincaremos de circular. E até podemos jogar amarelinha, criar ligeira dúvida entre passas ao rum ou flocos, ao final do dia espantar os mosquitos e contar lentamente sobre os nossos passos de outrora, compartilhar informações sobre os sons que o mundo emitia antes de um interceptar o círculo magnético do outro - mas nada, nada disso será Verdade.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

"Mas o homem, porque não tem senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a um sentimento."

Milan Kundera em A Insustentável Leveza do Ser.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

"I am too pure for you or anyone.
Your body
Hurts me as the world hurts God. I am a lantern -
My head a moon
Of Japanese paper, my gold beaten skin
Infinitely delicate and infinitely expensive."
Sylvia Plath



Pequenas folias, breves anunciações. É tempo de bandejas! (Escondo os seios, tinjo a face, ai de mim tão exposta!) Aí, com o último pingo de prudência que resta neste corpo de mulher ardida, tomo nota: ao final não esquecer de lavar as mãos, como Pilatos. E fechar a porta, apagar a luz, meu coração não é sócio da Light, etc.

Então seja feita a minha vontade, assim na Terra como no Céu. Amém.

A verdade é que sou muito explícita. Enxergar mistério em mim é cometer aquele antigo erro de vislumbrar chifres em cabeça de cavalo ou pêlos em ovos. E tudo isso, veja você, só porque gosto muito de falar codificadamente para fazer charme. Senhores passageiros, sejam bem vindos à bordo, favor não confundir graça com segredo. Por medidas de segurança, permaneçam com o cinto atado durante todo o vôo
. Depois não digam que não avisei. Em caso de emergência, entrem em pânico e desfrutem o perigo. Usufruam. Bon voyage.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

domingo, janeiro 02, 2011

Fragmento perdido numa folhinha de papel:

Quando fico perto, quero ficar mais perto. E quando fico mais perto, quero ficar mais perto. Cada vez mais e mais perto. Quero poder me dedicar a observar atentamente o fiapo da sua barba que tem coloração diferente de todos os outros fiapos. Coisa de corpo, jeito de dentro. Quero escrever uma tese sobre isso, tenho o direito. Eu tenho todos os direitos. Quando eu nasci um anjo exibido, desses que vivem de palco, disse: vai, mulher, ter direitos! Cumpro minha sina. Mas é que pele não fala, eu não sei mesmo como dizer. Nós que só dizemos bobagens, que nos esbarramos - e eu queria mesmo é ficar toda encostada! Isto sim é preocupante, isto sim deveria ser manchete do Globo de hoje, finalmente uma notícia considerável. Foda-se o Complexo do Alemão. Que estampem nas capas, quero letras garrafais: aqui dentro você faz 40ºC de relevância, suor, ar seco pesando nas costas, nos ombros, minha boca teimosa procurando a sua, sua voz orquestrando sinfonia de todos os meus órgãos. Socorro. Emito desesperadamente sinais de socorro. William Bonner parece não se importar com a minha dor. Insensível. Vamos lá, interrompam a programação! Junto os joelhos e quase em prece procuro helicóptero de resgate, bote salva vida, máscara de oxigênio, nave espacial, luz no fim do túnel, Deus.