domingo, janeiro 30, 2011

"Tarde turquesa
Quarenta graus"
Adriana Calcanhotto


O que tenho a dizer hoje soará deveras cansativo - e de fato causará aborrecimento aos olhos, principalmente aos meus. O que tenho a dizer hoje é o mesmo que tive a dizer ontem, anteontem ou há duas semanas. (Que pouca coisa isso tudo que você me dá, homem! E quantas vezes eu vou ter que te dizer que sim? Quantas vezes eu terei que dizer que aceito para que você tenha coragem de, enfim, oferecer? Quanto tempo? Quantas vidas?) E se digo é pelo simples fato de não saber o que fazer das horas, nada importante. E se não sei o que fazer das horas é porque não as enxergo mais. Parecem-me, hoje, tão traiçoeiras, escorregadias.

Ando cega de tempo.

Recito enquanto tu fazes café: meu amor, duvido que negues apoio a uma antiga senhora que já não consegue apoiar-se por si só, que já não atravessa a rua sem bambear, que já não sabe distinguir uma coisa de outra coisa. No mesmo minuto que tu achas graça eu apóio a cabeça sobre as mãos, tom aflito, leve pitada de desespero, mais um daqueles gestos a procura de espectador. Aí, então, agora que abrimos as cortinas vermelhas, ficaremos à toa, brincaremos de circular. E até podemos jogar amarelinha, criar ligeira dúvida entre passas ao rum ou flocos, ao final do dia espantar os mosquitos e contar lentamente sobre os nossos passos de outrora, compartilhar informações sobre os sons que o mundo emitia antes de um interceptar o círculo magnético do outro - mas nada, nada disso será Verdade.

quinta-feira, janeiro 27, 2011

"Mas o homem, porque não tem senão uma vida, não tem nenhuma possibilidade de verificar a hipótese através de experimentos, de maneira que não saberá nunca se errou ou acertou ao obedecer a um sentimento."

Milan Kundera em A Insustentável Leveza do Ser.

segunda-feira, janeiro 17, 2011

"I am too pure for you or anyone.
Your body
Hurts me as the world hurts God. I am a lantern -
My head a moon
Of Japanese paper, my gold beaten skin
Infinitely delicate and infinitely expensive."
Sylvia Plath



Pequenas folias, breves anunciações. É tempo de bandejas! (Escondo os seios, tinjo a face, ai de mim tão exposta!) Aí, com o último pingo de prudência que resta neste corpo de mulher ardida, tomo nota: ao final não esquecer de lavar as mãos, como Pilatos. E fechar a porta, apagar a luz, meu coração não é sócio da Light, etc.

Então seja feita a minha vontade, assim na Terra como no Céu. Amém.

A verdade é que sou muito explícita. Enxergar mistério em mim é cometer aquele antigo erro de vislumbrar chifres em cabeça de cavalo ou pêlos em ovos. E tudo isso, veja você, só porque gosto muito de falar codificadamente para fazer charme. Senhores passageiros, sejam bem vindos à bordo, favor não confundir graça com segredo. Por medidas de segurança, permaneçam com o cinto atado durante todo o vôo
. Depois não digam que não avisei. Em caso de emergência, entrem em pânico e desfrutem o perigo. Usufruam. Bon voyage.

segunda-feira, janeiro 10, 2011

domingo, janeiro 02, 2011

Fragmento perdido numa folhinha de papel:

Quando fico perto, quero ficar mais perto. E quando fico mais perto, quero ficar mais perto. Cada vez mais e mais perto. Quero poder me dedicar a observar atentamente o fiapo da sua barba que tem coloração diferente de todos os outros fiapos. Coisa de corpo, jeito de dentro. Quero escrever uma tese sobre isso, tenho o direito. Eu tenho todos os direitos. Quando eu nasci um anjo exibido, desses que vivem de palco, disse: vai, mulher, ter direitos! Cumpro minha sina. Mas é que pele não fala, eu não sei mesmo como dizer. Nós que só dizemos bobagens, que nos esbarramos - e eu queria mesmo é ficar toda encostada! Isto sim é preocupante, isto sim deveria ser manchete do Globo de hoje, finalmente uma notícia considerável. Foda-se o Complexo do Alemão. Que estampem nas capas, quero letras garrafais: aqui dentro você faz 40ºC de relevância, suor, ar seco pesando nas costas, nos ombros, minha boca teimosa procurando a sua, sua voz orquestrando sinfonia de todos os meus órgãos. Socorro. Emito desesperadamente sinais de socorro. William Bonner parece não se importar com a minha dor. Insensível. Vamos lá, interrompam a programação! Junto os joelhos e quase em prece procuro helicóptero de resgate, bote salva vida, máscara de oxigênio, nave espacial, luz no fim do túnel, Deus.