domingo, fevereiro 27, 2011

and the oscar goes to... my bed

Não tenho mais o menor estômago pro Oscar. Lá se foi aquela época, fiquei velha. O humor americano é tão pobre que me causa vergonha alheia e Anne Hathaway como apresentadora só faz piorar a situação. Desligo a televisão e nutro a certeza de que não estou perdendo absolutamente nada.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

(Hoje eu quero chorar mas estou com preguiça, então fico adiando. Acabo fazendo uma coisa, outra. Mas antes da hora de dormir, prometo, não passa. Deitarei mais cedo, reservarei uma média de 20 a 30 minutos. Já esquematizei tudo.)

domingo, fevereiro 20, 2011

1. Gosto de me exercitar com aleatoriedades.

2. Por alguns segundos ocorreu-me a possibilidade de virar as xícaras de café que pousaram na nossa frente como duas borboletas ou anjos, seres celestiais enviados para suavizar o peso do ambiente enquanto cerrávamos os lábios em nítida expressão de desagrado, permanecíamos mudos e desviávamos os olhos (cada qual para um lado distinto como quem se recusa a compartilhar o mesmo campo de visão). Por alguns segundos quase ousei quebrar aquele silêncio que supunha ser mais poderoso que eu.

3. Escrever é muito cansativo. Palavras são símbolos duríssimos e extremamente bem traçados, exercer poder sobre palavras é quase como fazer Vênus de Milo rebolar. Você precisa ser ainda mais forte que elas para colocá-las em movimento, flexioná-las, conduzir, domar. É um trabalho muito violento, neste sentido. Por outro lado, paradoxalmente, é um trabalho infinitamente delicado, quase artesanal.

4. A primeira vez que reparei que não presto aconteceu enquanto tu enxugavas desajeitadamente meu cabelo (como quem é homem e por o ser não consegue fazê-lo nem emprega o mínimo vigor no ato porque teme machucar-me acidentalmente) e me relatavas carregar uma culpa desoladora pelo que fazíamos, por nos encontrarmos às escondidas para saciar bem querer. Respondi que sentia igual, senão pior - por estar ainda mais errada, ah! Respondi, entrei em palco, fiz cena, retirei a toalha das tuas mãos para deitar-me dramaticamente em teu colo e fingir sofrer somente porque te amava a ponto de não arriscar que tu pudesses me achar monstruosa. Mas a verdade é que minha cabeça nunca pesou no travesseiro. No meu íntimo, nunca senti a mínima parcela de culpa - e só deus sabe o quanto eu tentei.

5. Sou impaciente com pessoas porque estas geralmente têm como verdade (e argumento) aquilo que Alguém pensou. Se meus irmãos de raça não fossem tão mentalmente preguiçosos (e tão avessos ao que possa ameaçar seus paradigmas) a humanidade não teria passado tantos anos repetindo em coro que a Terra é quadrada.

6. Há um traço pejorativo quando te chamo de menino ao final de cada frase. Você não percebe porque minha voz assume um tom aveludado, quase carinhoso, enfeite para disfarçar deboche.

7. Não sei mais escrever. Estou muito desaprendida.

a desbiografia oficial de Manoel de Barros

Para documentar há de se estar em sintonia com o documentado. O diretor Pedro Cezar capturou brilhantemente a delicada essência do poeta e guardou a relíquia dentro de um vidrinho de maionese para mostrar aos posteriores - e merece minhas palmas pela exímia construção do espelho. Manoel de Barros é, por natureza, a grandiloquência travestida de simplicidade.

Naturalmente eu poderia passar horas tecendo elogios ao último poeta vivo, rendendo laudas em homenagem, provando por A + B que a poesia de Manoel de Barros é a concretização do que há de mais sensível no homem - mas acontece que sou uma apaixonada, portanto uma eterna suspeita para falar.

"De dentro de mim não saio nem pra pescar."

sábado, fevereiro 19, 2011

"(...) nossa necessidade fresca & neurótica de elaborar sofrimentos e rejeições e amarguras e pequenos melodramas cotidianos para depois sentar Atormentado & Solitário para escrever Belos Textos Literários. O escritor é uma das criaturas mais neuróticas que existem: ele não sabe viver ao vivo, ele vive através de reflexos, espelhos, imagens, palavras. O não-real, o não-palpável."

Caio Fernando Abreu em carta a Sérgio Keuchgerian, 10/08/1985.

domingo, fevereiro 13, 2011

Eu vos perdôo pois não sabem o que dizem.

Mercúrio

suponhamos que dispuséssemos de Tempo como já bem dispomos um dia, tu encararias de frente a possibilidade de embarcar ao meu lado rumo ao que ainda nos é incógnito? pois, como tu certamente responderias que sim, por que não embarcaste enquanto podias? e é tão fácil agora culpar as horas! supondo, ainda, que disporíamos de cortinas para nos proteger dos olhos estrangeiros (os olhos que tu temes como se carregassem o poder de te jogar às fogueiras inquisidoras), continuarias a procurar uma vaga para estacionar teu carro como se sentada ao teu lado não houvesse minha pele? e por tocar no tema agora perto do meio-dia, já que estamos dermatologicamente interligados, por que tu não me almoças? é que às vezes, sem querer, eu quase falo teu nome.

Considerações Finais:

(sobre os últimos dias)

1. E se não sei o que fazer das minhas mãos, concluo que estou inteira à disposição das horas. Que não sejam cruéis, as próximas. Que não me matem, pois. Que as horas compreendam a delicadeza do meu gesto, meu sensível ato de devoção (quero dizer: sou sua, tempo!), dedico-me plenamente e agora estou entregue para que façam o que bem quiserem dos meus braços, do meu peito, para que mastiguem minha alma, devorem lentamente meu cérebro, amém.

2. Terça-feira, 20:45 hs, pergunto-me como o peso de um telefone que não toca pode ser maior que o Holocausto. O fato de milhões de pessoas terem sido friamente assassinadas pelo nazismo não me causa tanta agonia como a ligação que espero - e não vem. Com este depoimento fica decretado, de uma vez por todas, que sou humana e que a humanidade fede. Para os que tinham alguma dúvida, algum tipo de esperança, aí está a prova.

3. Proponho que nós dois, como em despedida, coloquemos nossos tênis e caminhemos juntos sob o sol das 14 hs, sempre em linha reta, até encontrarmos um motivo que valha o suor que escorrerá em nossas testas. Deve haver, certamente, em algum lugar.

4. Apenas uma coisa me aflige mais do que nunca saber se estou fazendo o certo: saber que o certo não existe.

5. Aos poucos vamos aprendendo sobre a continuidade da vida e já não cometemos mais gestos de protesto, não saímos às ruas em arruaça, já não brigamos com os deuses. Nada podemos contra os fatos senão engoli-los.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

(meu umbigo não é obrigado a girar em torno do mundo)

Quinto dia:

E tudo bem se você quiser partir desde que mantenha uma distância razoável dos meus olhos para que eu não o perca de vista. Não tenho a pretensão de te fazer meu, mas me concedo o direito de te observar até que minha visão se canse.

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Quarto dia:

Qualquer coisa é capaz de me levar aos céus ou me empurrar para lama. Meu corpo parece nunca cansar de brincar de montanha russa (como quem se alimenta da náusea). Nasci em carne viva, sem pele, tudo sinto; fui obrigada a me armar para preservar minha espécie já quase extinta. Agora não quero mais falar porque estou toda exposta e me incomoda viver à mercê de fatos. Eu deveria ser una.

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Terceiro dia:

00:15 hs:
Regras do jogo: 1) Brincar de ir direto aos fatos de acordo com o que coube em minha memória num período de aproximadas 24 hs. 2) Tentar finalizar este texto o mais rápido possível para que minha cabeça consiga levantar heroicamente do meu travesseiro de plumas de ganso quando o despertador tocar pela manhã. 3) Ser fiel aos acontecimentos reais, construir uma estrutura palpável, fixar muito cimento e esquecer poesia (é que meu coração quer fazer as malas!).

22:40 hs:
Meu organismo é muito dado a vícios. Agora, por exemplo, sinto-me inteiramente viciada em fio dental. Mania, louvor, entusiasmo, me excita a idéia de mandar meus soldados erguerem um busto de bronze em homenagem ao fio dental em praça pública. Ovacionem-o.

21:00 hs:
Cazuza cantando que só as mães são felizes. Lembrei de um filme francês chamado De Tanto Bater Meu Coração Parou. Não há nenhuma relação entre a primeira frase e a outra, entre a música e o filme. Apenas lembrei. E não há mais nada de interessante para ser registrado durante esta hora, vamos para a anterior. Só anoto o que importa para minha existência enquanto mulher brasileira portadora de um CPF e etc participante de uma sociedade democrática e etc assídua contribuinte com a Realidade e etc.

19:50 hs:
“O homem é responsável por toda mulher que ele pega, que ele come.” Mr. Catra.

18:02 hs:
Minha vó disse que tudo acontece no tempo certo e ela deve ter razão porque hoje completa 72 anos. As pessoas que completam 72 anos estão sempre certas porque, afinal de contas, estão completando 72 anos (o fato explica-se pela causa e vice-versa). Eu não faço idéia do que seja o tempo certo, é um conceito muito abstrato para o meu cérebro. Todo tempo é certo! - eu digo e estou errada.

17:22 hs:
Descobri que as raízes de amendoeiras destroem as calçadas. É emocionante vê-las brigando com o mundo em nome de um espaço que é delas. É bonito, valente, ousado. Quero ser amiga de uma amendoeira porque ela não conhece a resignação.

15:35 hs:
Eu poderia passar horas a fio ouvindo você falar rotativamente acerca desses mesmos assuntos seus. E tudo porque há um componente específico na sua voz, uma peça que sai do seu íntimo enquanto você conversa distraído (você não nota!) e atravessa sua garganta para se encaixar magneticamente numa lacuna localizada aproximadamente entre meus dois seios, como aqueles brinquedos de criança onde um triângulo sólido encaixa-se somente (e tão perfeitamente) na forma triangular. O problema está na sua voz.

12:30 hs:
Ao atravessar a rua, vi um mico morto. Nunca, em toda a história da minha vida, havia visto um mico morto. Achei curioso, dediquei certo tempo para observá-lo, pensei muito sobre. São sempre curiosas essas primeiras vezes.

10:17 hs:
Escrevi há muito tempo, achei outro dia e ainda faz sentido: "No fundo eu sempre fui tua espécie de Jesus Cristo de mini-saia e sem calcinha. Tu trepavas com Jesus Cristo bebendo conhaque e ouvindo Mingus. Canalha."

08:55 hs:
Não estou me fixando em acontecimentos reais, não estou construíndo uma estrutura concreta nem utilizando cimento. Talvez eu não seja boa nessa coisa de realidade. Não é meu ramo.

terça-feira, fevereiro 08, 2011

Segundo Dia:

Hoje eu não vou escrever porque vi um camelô vendendo cofres de porquinho (de barro, detalhadamente pintados à mão) e imediatamente notei que não existe um motivo sequer para continuar a tecer, entrelaçar o Nada, coordenar meia dúzia de palavras ocas - para quem? Sobretudo, para quê?

O homem pinta o porco. Ele não parece querer saber o que minhas palavras carregam, não percebo um semblante interessado, desconfio que ele nem tenha notado minha presença, meus passos minuciosos. O porco é pintado com o intuito (repare o propósito) de ser vendido para outro homem (repare, agora, o destinatário) guardar moedas, estas recebidas de um terceiro homem em troca de um serviço prestado. E o mundo se desenrola apenas pela sucessão dos fatos, a série dos dias, a ordem natural de todas as coisas. Certamente existe uma família jantando agora, nalgum lugar. Provavelmente eles nem sabem que o homem pinta porcos e que isso me tocou de tal maneira. A vida permanece, apesar. O Sol nasce e se põe - será assim toda vez, mesmo que eu prefira não interferir. A vida é sólida, concreta, quase matemática.

E você pode sentar ao meu lado para me dizer que a vida é bonita, é bonita e é bonita. Ou você pode queixar-se de como ela é ingrata por não te dar o que você merece; você pode lamuriar-se, também, não importa! A vida está cagando para suas considerações a respeito dela. A vida não sabe nem quem é você. Veja bem: a vida não faz a mais vaga idéia de quem seja você. Se você morrer atropelado por um caminhão amanhã, ela não hesitará em continuar seguindo. Com você, sem você, não importa, não interessa, nada muda.

Pois, e é tudo que quero dizer desde o princípio, como estou deveras magoada com minhas próprias conclusões, fica decidido e acordado entre minhas duas partes que hoje não há a menor possibilidade de sentar para escrever qualquer palavra. E ponto final.

domingo, fevereiro 06, 2011

Quero deixar claro que estou de férias da humanidade. Não esperem nenhum tipo de reação além do piloto automático porque minha alma provavelmente está desfrutando de um cruzeiro pelas Ilhas Gregas, banheira de espuma e taças de champagne.

Prometo voltar mais calma e complacente.

quinta-feira, fevereiro 03, 2011

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Eu, corpo, movendo-me involuntariamente em direção ao seu tronco como quem reconhece morada. Eu, corpo, identificando residência em seus braços. Meu corpo te chamando de casa. Eu, mente, identificando resistência em cada palavra. Eu, mente, questionando cada posição no tabuleiro do xadrez, perguntando-me os porquês como quem se percebe cavalgando mas não conhece o percurso, como quem pressente perder a direção a qualquer momento, como quem prevê a própria queda. Minha boca te chamando de ameaça.
Agora lembrei quando anoitece no Alto e a cidade se acende aos meus pés. Essas coisas de gente que está viva, de coração que bombeia sangue. Falo de todo esse fenômeno de pele transpirar, o milagre da mastigação, o sistema nervoso central, esse nosso organismo que imita um perfeito nado sincronizado e é suficientemente modesto para não exigir aplausos - para não exigir, sequer, que percebamos! E falo, também, dos instintos que permanecem apesar de milênios de evolução apenas para nos lembrar que somos bicho. (Pois que nos farejemos, então, e que gastemos horas nos dedicando a descobrir se o cheiro do outro satisfaz nosso olfato!) Falo sobre caminhar debaixo do sol carioca para depois beber água, sentir a água, a garganta, a beira do copo dançando nos próprios lábios.

Falo, hoje, sobre como a vida mundana pode ser apetecível - ainda que muitas vezes não a seja.