terça-feira, maio 31, 2011

Querido diário,

Sou tão amiga minha que me coloco no colo, estou aqui, foi só um pesadelo. Bebe um copo d'água. Pronto. Chora não. Passou, passou.

domingo, maio 29, 2011

(Não me sinto suficientemente corajosa para encarar de frente, cara a cara, a semana que se inicia. Não vou andar por aí exposta a possibilidade qualquer. Meu cobertor é mais seguro que os próximos dias. Quero poder me dar ao luxo da covardia, sinto-me merecedora.)

Querido diário,

Tenho ouvido termos geniais. "Pessoa vivente" foi a máxima, certamente adicionarei ao meu vocabulário. E também há outros que não recordo bem, agora. Minha memória está entupida de inutilidades e não sobra tanto espaço para armazenar essas genialidades cotidianas. Há dias em que as palavras fluem melhor, desenrolam-se com mais destreza, parecem não precisar tanto de mim. Noutros dias, não. Outro ponto é que, quando você me beija, volto a ter dezesseis anos. É triste porque, quando abro os olhos, percebo que não tenho mais. Você era meu herói com os cabelos já faltando, me contava sobre seus passos pelo mundo afora e todos aqueles conceitos de revolução, liberdade. Amor. Cumpro a promessa de amar e respeitar, na saúde e na doença, apesar dos pesares. Sou sua amiga. Sabemos que podemos contar, ainda que os anos corram. Acho bonito.

quinta-feira, maio 26, 2011

Querido diário,

Toda vez que vejo alguém catando lixo, sinto vontade de me jogar na cama e chorar incessantemente por cinco dias. Geralmente choro no máximo durante dez ou quinze minutos. Sou uma mulher forte.

quarta-feira, maio 25, 2011

Querido diário,

Noto, ao fim, que nunca haverá outro dia 25 de maio de 2011. Sou tomada por uma animação quase infantil toda vez que percebo o óbvio, um misto de nostalgia carinhosa pelo que ocorreu há poucas horas e entusiasmo cretino pelo que há de vir. Estou ponderando a possibilidade de abrir uma champagne, soltar fogos e me desejar feliz dia 26 de maio assim que o relógio sinalizar meia-noite. Planos: amanhã, penso, dedicarei tempo integral para degustar as infinitas possibilidades assanhadas que a vida me oferecer. Quanto ao dia de hoje, trancarei afetuosamente dentro de uma caixinha devidamente selada com cadeado para não correr o risco. Percebo que os ontens carregam um quê fantasmagórico e, até segunda ordem, não quero ter notícias deles.

Das falhas fundamentais que azedam um texto:

Dentre mil e uma, cito algumas: 1. falta de ritmo, dá-se geralmente quando quem escreve atém-se a uma visão particularmente in, é como construir uma casa e, satisfeito, passar a habitá-la sem no entanto nunca ter observado o resultado da fachada; 2. texto engessado, típico caso de quem escreve mas não sabe escrever, estrutura durinha e mal bolada, dentre todas certamente é a opção que mais me irrita; 3. literatura tímida, caso normal de quem não ousa dar uma pirueta porque não julga necessário ou não foi assim que aprendeu, muito comum em acadêmicos frangos. Tem-se a mesma impressão, ao ler um escritor tímido, de assistir a um show ao vivo e na saída dizer que foi igual ao DVD. Não compromete e ao mesmo tempo deixa a desejar; 4. Engasgar, trata-se de esbarrar numa frase que parece o motor de um fusca 94, vai vai vai mas não engrena de jeito nenhum. Existe um fio condutor, por trás, que é brutalmente rompido por conta, muitas vezes, de uma mera palavra que não foi devidamente trabalhada ao lado da palavra vizinha.

Corrigindo as últimas provas, concluo que tenho cometido todas acima descritas. Classifico-me como insuficiente, portanto obrigo-me, a partir da presente data, a publicar ao menos um ponto diário durante sete dias. Preciso urgentemente de prática - que foge e se perde pelo caminho - além de contribuir para minha posterior análise do Self.

terça-feira, maio 24, 2011

pequena nota d'água:

E, se vejo desenrolar-se frente aos meus olhos a mesma história já mencionada tantas vezes anteriormente, nomeio-me a grande causadora da própria. Mudo o personagem, apenas. Depois sento-me para assistir o que já sei de cor. Estou estudando para defender uma tese sobre o tema, talvez. Mas, por enquanto, não quero falar sobre você, escrever sobre a bagunça que sua boca me causa. Ainda não. Qualquer dia, quem sabe. Já é tarde. Por ora, te poupo.

segunda-feira, maio 23, 2011

vira e mexe viro cinza

Sobre ser, creio que não decepciono. Eu sou. O resto é pura bobagem: ultimamente sinto, por exemplo, dores de cabeça que não cessam sob nenhuma solução farmacêutica. É verdade que também tenho notado, e já faz certo tempo, que os pratinhos da minha balança interior estão num desequilíbrio de dar dó. Não penso em soluções homéricas para consertar o estrago pois tenho estado de fato entretida, dia após dia, em executar a tarefa de caminhar ladeira abaixo - rumo a Sabe Deus Aonde. Chegarei lá. Confio plenamente na minha capacidade de me destruir, sou muito boa nisso - depois volto, ainda melhor que antes.

O fato é que eu sou. E, de tudo, penso que poderia ser pior: eu poderia, veja que triste, não ser. A probabilidade é bem grande, concluo, eu que esbarro diariamente em milhões que não são.

Troquemos flores: se fui agraciada, a Quem devo ser grata?

domingo, maio 22, 2011

"De repente descubro que esta impossibilidade é a matéria que trabalho."
Ana Cristina César

quarta-feira, maio 18, 2011

Certa vez ouvi de um homem que eu deveria ter nascido com manual de instruções. Pois bem, eu nasci.

Eureka!

Percebo, enfim, que o dia de hoje morre no minuto exato em que eu adormecer o rosto no travesseiro. E se foram assim todos os meus ontens, tudo é vão e findo. Tenho pensado sobre a liberdade que esse conceito me concede.

terça-feira, maio 17, 2011

Eu não sinto saudade de Pedro Almodóvar

Quando chove sinto vontade de encher minha caneca de café e ler Virginia Woolf, que escrevia como uma rainha, e daqui mesmo consigo avistá-la comportada na prateleira ao lado de um chatíssimo Hermann Hesse que nunca li até o final. Muito Franz Kafka e eu nem sei como, nunca fui fã. Sartre e suas picaretagens. Hilda Hilst, a figura mais genial que já habitou o planeta Terra. Clarice, que está na boca de todos e ainda hoje não foi compreendida. Ana Cristina César, Manoel de Barros, Caio Fernando, Adélia Prado, Lygia Fagundes. Yourcenar, Duras. Pizarnik, Cortázar, amados. E muita porcaria, também: Bukowski, Henry Miller, Anaïs Nin, teria um prazer inenarrável em jogá-los no lixo se não fossem recordações de uma época.

Esbarro em Roland Barthes com seu Fragmentos de Um Discurso Amoroso, um dos melhores livros que se tem notícia. Lembro que, depois de ler Roland Barthes, escrevi um Tratado Irrevogável sobre a Paixão. E, quero dizer, esta é a parte boa: hoje sou livre de qualquer influência, caso resolva voltar a escrever decentemente.

Jejuo. Não leio. Não assisto. Meus olhos querem fechar e evito cometer qualquer gesto que porventura possa me lançar ao abismo irremediável do sono.

Não falo sobre, também. Não puxo este assunto. Não tenho paciência para ouvir essa gente falar sobre Martha Medeiros. Desconsidero. Eu tenho um panteão e Martha Medeiros não existe.

Vivo como se eu não fosse eu.

Eu não sinto saudade de assistir Pedro Almodóvar, definitivamente. Não sinto saudade de Bergman, Resnais, Wim Wenders. Eu sinto saudade de mim.

segunda-feira, maio 16, 2011

era uma vez você

I

Começo a falar, se hoje já consigo, sobre o embaraçamento tórrido que nos resta: de tudo que me custou, o mais pesado tem sido fingir aos demais que meu corpo nunca habitou tua cama, tua boca nunca brincou de passear meus seios e minha voz não conhece cada canto do teu ouvido. A rotina de trocar suor e, passadas duas horas, as bochechas cumprimentarem dois beijinhos simpáticos. Falo por mim: forjar não é costume, a verdade não amedronta os que não devem. Contudo, porque tu carregas uma mentira no dedo anelar, nos fantasiamos de meros conhecidos quando, em público, tu pedes licença ao transitar e então agradeces, educado. Este, que passa temeroso, não é aquele homem. Eu, ainda que isenta de culpa, não sou aquela mulher. Nos reconhecemos apenas quando, sem querer, teus olhos tropeçam nos meus - e bambeiam sem equilíbrio, levemente embriagados, a um triz de tombar em praça pública.

quarta-feira, maio 11, 2011

my lady day

Billie Holiday é a voz mais charmosa do jazz. Derreto quando ela canta dando essas quebradinhas, assim, está ouvindo? Delicioso. Parece uma bezerra desmamada choramingando ao som desse piano impecável, consegue escutar? Aumenta. Toda vez que ouço Billie Holiday sinto vontade de beber uma taça de qualquer coisa e avisar ao mundo que já posso morrer feliz.

quinta-feira, maio 05, 2011

Nota mental:

Eu não sou obrigada a escrever. Estou farta das minhas próprias cobranças e, só para me sacanear, continuarei sem dar uma palavra.