domingo, junho 26, 2011

Pois acho engraçado que todas as partes de nossos corpos se encontrem durante a noite, enquanto dormimos pesado, e dêem as mãos. Falo de nós, que somos dois, e não queremos estar longe mesmo quando teimamos em dizer o contrário.

sexta-feira, junho 24, 2011

da série: diálogos inesquecíveis (parte VII)

Último Tango em Paris
(Bertolucci, 1972)
"- I don't know what to call you.
- I don't have a name.
- Do you want to know my name?
- No. No, I don't! I don't want to know your name. You don't have a name, and I don't have a name either. No names here. Not one name.
- You're crazy!
- Maybe I am, but I don't want to know anything about you. I don't wanna know where you live or where you come from. I wanna know nothing, nothing, nothing! Do you understand?
- You scare me.
- Nothing. You and I are gonna meet here without knowing anything that goes on outside here, ok?
- But why?
- Because... Because we don't need names here. Don't you see? We're gonna forget everything that we knew. Every... all the people... all that we do... all that we... wherever we live... We're gonna forget that. Everything, everything.
- But I can't. Can you?
- I don't know."

da série: diálogos inesquecíveis (parte VI)

As Pontes de Madison
(Clint Eastwood, 1995)
"- What's he like?
- He's very... clean.
- Clean?
- No. I mean yes, he's clean but he's also other things. He's a very hard worker. Very honest. Very caring. Gentle. Good father.
- And clean.
- Yes. Very clean."

(Francesca descrevendo o marido. Sensacional.)

segunda-feira, junho 20, 2011

Depois de muito ouvir falar, assisti um filme de Todd Solondz pela primeira vez. E última. Em Felicidade tudo é de um mau gosto terrível, corra e aperte stop antes que um pedófilo de meia idade faça sexo com um coleguinha do próprio filho. Há jóias belíssimas no cinema e particularmente prefiro despender tempo com o que merece.

testemunho:

Eu, Natasha Pinto, brasileira, solteira, residente e domiciliada na cidade do Rio de Janeiro, portadora do CPF número 135.470.917-99, declaro que gosto de sofrer. Espero que não me julguem. Vinicius de Moraes também cantou que o amor só é bom se doer e ninguém deixou de gostar dele por conta disso. "Se não tivesse o chorar, melhor era tudo se acabar" coisa e tal. Aí, então, sinto-me no direito.

domingo, junho 19, 2011

ato ou efeito de concluir:

Agora, porque você é bonito, quero te olhar sem intervalo enquanto você permanecer encostado nessa pilastra carcomida de tempo, segurando seu copo vazio e simulando falta de atenção aos que te cercam. Meus olhos passeiam por cada detalhe seu. Em seguida, se assim podemos acordar, sinta-se confortável para vestir o casaco, virar as costas. Esteja à vontade para ser engolido pela próxima esquina. Ainda que a vida nos esbarre, nosso tempo foi outro.

da série: diálogos inesquecíveis (parte V)

Viver a Vida
(Godard, 1962)

da série: diálogos inesquecíveis (parte IV)

Waking Life
(Linklater, 2001)

"- Devia ser fácil quando era só uma questão de mera sobrevivência. "Água". Criamos um som para isso. "Tigre atrás de você!" Criamos um som para isso. Mas fica realmente interessante, eu acho, quando usamos esse mesmo sistema de símbolos para comunicar tudo de abstrato e intangível que vivenciamos. O que é "frustração"? Ou o que é "raiva" ou "amor"? Quando eu digo "amor" o som sai da minha boca e atinge o ouvido de outra pessoa, viaja através de um canal labiríntico em seu cérebro através das memórias de amor ou de falta de amor. O outro diz que compreende, mas como sei disso? As palavras são inertes, são apenas símbolos. Estão mortas, sabe? E tanto da nossa experiência é intangível. E, ainda assim, quando nos comunicamos uns com os outros e sentimos ter feito uma ligação, e termos sido compreendidos, acho que temos uma sensação quase como uma comunhão espiritual. Essa sensação pode ser transitória, mas é para isso que vivemos."

da série: diálogos inesquecíveis (parte III)

De Olhos Bem Fechados
(Kubrick, 1999)


"- Você não é ciumento, certo?
- Não, não sou.
- Nunca sentiu ciúme de mim, certo?
- Não, nunca.
- E por que nunca sentiu ciúme de mim?
- Bem, não sei, Alice! Talvez por você ser minha esposa. Talvez por você ser mãe da minha filha e porque sei que você nunca me trairia.
- Você é muito, muito autoconfiante, não é?
- Eu confio em você.
- Você se lembra do verão passado? Bem, eu já tinha o visto (o capitão) naquela manhã, no saguão. Ele estava chegando ao hotel e estava seguindo o mensageiro que levava a bagagem até o elevador. Ele olhou para mim de relance ao passar. Foi só um olhar. Nada mais. Mas eu mal consegui me mexer. Naquela tarde Helena foi ao cinema com uma amiga e eu fiz amor com você. Nós fizemos planos sobre o nosso futuro e falamos de Helena. Mesmo assim, em nenhum momento eu deixei de pensar nele. E pensei que, se ele me quisesse, mesmo que fosse só por uma noite, eu estaria pronta a abandonar tudo. Você, Helena, todo o meu futuro. Tudo."

nota:

Sendo detentora única de todo tempo que me resta, cabe somente às minhas mãos a função de gerar-me.

domingo, junho 12, 2011

constando:

Não sei escrever ficção nem tenho pretensão de fazê-lo. Não sou impessoal e não quero aprender a ser.

sábado, junho 11, 2011

Imediatamente paro tudo que estou fazendo se qualquer canal da televisão resolve, por bem, exibir Gladiador. Meu coração pertence inteiramente a Russell Crowe retirando o capacete na frente do Coliseu romano e dizendo: “Meu nome é Maximus Decimus Meridius, comandante dos exércitos do norte, General da Legiões Felix, servo leal ao verdadeiro imperador Marcus Aurelius; pai de um filho assassinado, marido de uma esposa assassinada, eu terei minha vingança nesta vida ou na próxima.” That's my boy.

quarta-feira, junho 08, 2011

"Não sou contra o casamento. Mas, muito mais do que representar ou escrever, ele exige dom." Leila Diniz

Tenho verdadeiro pânico de casamento. Não vou passar hipoglós em bundinha de neném enquanto meu marido ronca no sofá da sala e o Faustão berra "ô loco, meu!" num final de domingo. Suicídio é uma opção mais válida.

Particularmente, prefiro uma boa noitada num cassino em Las Vegas.

segunda-feira, junho 06, 2011

Dormir é fazer pouca valia de si, ignorar-se. Não sei ao menos aonde vou e deixo-me ir! Jogo-me aos leões, pois. Toda noite eu deveria ser condenada por abandono reincidente da minha própria alma.

domingo, junho 05, 2011

marco zero:

Penso que, dadas as circunstâncias, seria interessante passar um tempo em coma. É uma possibilidade que muito me fascina esta de viver uma temporada longe de tudo, sobretudo de mim mesma - mas não digo alto, sou surpreendida por certo medo de uma eventual conseqüência. Acontece. Parece que escrever é menos grave que dizer, na maioria das vezes. Se eu escrevo agora, por exemplo, é menos perigoso que arriscar um telefonema, usar minha voz para impregnar o ambiente com uma notícia que certamente ficará pairando no ar, quase em eco, até sabe-se lá quando. Usar a voz é coisa muito séria. Há estudos sobre isso. Eu sei o que estou falando.

da série: diálogos inesquecíveis (parte II)

Angel-A
(Besson, 2005)

da série: diálogos inesquecíveis (parte I)

Hiroshima Mon Amour
(Alain Resnais, 1959)

"Encontro você. Lembro-me de você. Quem é você? Você me mata. Você me faz bem. Como duvidaria que esta cidade foi feita nos moldes do amor? Como duvidaria que você foi feito nos moldes do meu corpo? Você me agrada! Que acontecimento! Você me agrada! Que lentidão de repente! Que doçura! Você não sabe. Você me mata. Você me faz bem. Você me mata. Você me faz bem. Tenho tempo. Eu lhe peço: devore-me! Deforme-me! Por que não você? Por que não você, nesta cidade e nesta noite, parecida com as outras ao ponto de se enganar? Eu lhe peço. É loucura: você tem pele bonita."


Asas do Desejo
(Wim Wenders, 1987)

"É fantástico viver espiritualmente. Dia após dia testemunhar para a eternidade o que há de puro, de espiritual nas pessoas. Mas às vezes me farto desta eterna existência de espírito. Nessas alturas gostaria de não pairar eternamente. Gostaria de sentir um peso que anulasse a infinidade e me segurasse à Terra. A cada passo ou a cada golpe de vento gostaria de poder dizer: “Agora, agora, agora” e não “desde sempre” ou “para todo o sempre”. Sentar-me à mesa e jogar as cartas, ser cumprimentado, nem que seja só com um aceno. Sempre que o fizemos, foi a fingir. Fingimos que pescávamos, fingimos que nos sentamos numa mesa a comer e a beber, que nos serviam cordeiro assado e vinho nas tendas no deserto. Era tudo a fingir. Eu não quero gerar um filho, nem plantar uma árvore, mas seria bem agradável chegar a casa cansado e dar de comer ao gato. Ter febre, ficar com os dedos sujos de ter lido o jornal. Não me entusiasmar só com coisas do espírito, mas com uma refeição, com a curva de uma nuca, de uma orelha. Mentir descaradamente. Ao andar, sentir o esqueleto mexer-se a cada passo. E finalmente supor ao invés de sempre saber tudo. Poder dizer “ah”, “oh” e “ai” ao invés de “sim” e “amém”. Ou experimentar o que se sente quando se tiram os sapatos debaixo da mesa e se estendem os dedos descalços."


Eu Sei Que Vou Te Amar
(Arnaldo Jabor, 1986)

"Ouve bem, ouve. Quando eu entrei em você pela primeira vez, parecia que eu entrava numa floresta quente, molhada. Parecia que eu ouvia aplausos, palmas. Eu entrei em você e pensei: meu Deus! Eu não vou mais parar de gozar. Eu não parava e eu ouvia aplausos. E pensava: meu Deus, é gol! É gol do Brasil! Sensação de vitória, de Taça de Ouro. Eu pensava: essa menininha me dando tudo isso, esses prazeres todos. Será que ela não tem pai? Será que ninguém cuida dela? Será que o pai e a mãe dela vão deixar ela me enlouquecendo aqui, de paixão? Será que ninguém faz nada? Ninguém toma uma providência?"

quinta-feira, junho 02, 2011

minha sincera assinatura abaixo de:

"O cinema americano não faz mais filme, faz videogame", Luiz Carlos Barreto no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro.

20 rapidinhas antigas:

(não sei precisar a data, encontrei por acaso e tudo soa tão atual...)

1. Sinto-me constantemente ameaçada pela minha própria instabilidade. Seria sensato carregar uma bengala para não correr o risco de cair no meio da rua quando meu estado emocional despencar bruscamente.

2. Agora que estou desconstruída posso começar tudo novamente.

3. Ilegível.

4. Ilegível.

5. Passo aproximadamente 24 horas por dia com vontade de te beijar. Digo 24 horas porque às vezes não dou trégua nem durante o sono. Outro dia senti vontade de te beijar enquanto te beijava. Achei normal. É o costume.

6. A grama do passado é sempre mais verde.

7. "Men go to bed with Gilda and wake up with me", Rita Hayworth referindo-se à personagem que a imortalizou no cinema. Compreendo.

8. Deveriam escrever um livro de auto-ajuda chamado O Seu Amor é Problema Seu. É duro, cruel, eu sei, mas é a realidade. Afinal de contas, o que você quer? Um troféu por me amar? Quer que eu mande rezar uma missa em homenagem ao seu amor? Que eu te ame? Ninguém ama ninguém pelo simples fato de ser amado. Aprende.

9. "Mãe, eu tenho mania de querer ver como é", eu disse aos poucos anos de idade, depois de queimar a mão para ver como é.

10. Não dou mais ouvidos aos meus quereres. E tudo bem se eu reagir fazendo bico ou choramingando pelos cantos, não dou trela. Ignoro. No máximo, num ápice de paciência, digo a mim mesma: um dia você vai me agradecer por isso.

11. A verdade é que a vida é livre de verdades. Mas, no fundo, tenho minhas dúvidas.

12. Quando enfim deito minha cabeça no seu ombro, sinto-me só mais uma. É um alívio inenarrável ser só mais uma.

13. Há qualquer coisa dentro de mim que se debate e não tem paradeiro. Quero estar aqui quando estou lá, ir para lá quando estou cá. O prazer mora na locomoção, no movimento, nas curvas, nos meios, nos entres. Pouco me interessa ponto de partida ou destino, eu quero ir.

14. Me chora!

15. Não me conformo com quem ainda não aprendeu que eu exagero. Já deu tempo. Se eu digo que odeio alguém não significa ódio, apenas antipatia momentânea. "A minha vida acabou" não quer dizer muita coisa além de "estou aborrecida agora".

16. Detesto ter que falar sobre alguma coisa que eu tenha escrito. O que está escrito não é para ser falado. Se eu quisesse falar não teria escolhido ser escritora, teria escolhido ser a Hebe.

17. Silenciosamente esbarro no teto ou nas paredes. Hoje aceito uma dose de gravidade, quero evitar hematomas.

18. Ela disse que vai estar me transferindo para o setor responsável, aí eu desliguei. Não gosto que me transfiram gerundiando.

19. Morro de tesão por impossibilidades. Nasci pra clandestinar.

20. De onde tiro paciência para mimar as primeiras encarnações que cruzam meu caminho?

dos diálogos cotidianos:

- Você está se excedendo.
- É a minha especialidade.