quarta-feira, setembro 28, 2011

making off

Aquela já conhecida angústia de estar cara a cara com uma folha em branco. Estou entalada como quem precisa afunilar uma massa muito densa. Experimente tomar sorvete de canudinho, depois entenda.

segunda-feira, setembro 19, 2011

Sobre os últimos dias: não se trata de estar necessariamente alegre, acontece que a vida está me fazendo cosquinha.

domingo, setembro 18, 2011

da série: diálogos inesquecíveis (parte XII)

A Insustentável Leveza do Ser
(Philip Kaufman, 1988)

a insustentável leveza do ser

A leveza de viver é um fardo pesado. Para ilustrar o fato, o tcheco Milan Kundera publica em 1984 o livro que viria a ser sua obra prima, A Insustentável Leveza do Ser, a bíblia dos amantes.

Entre encontros e acasos, amores e desamores, erotismo e compaixão, o autor construiu personagens tão sólidos e marcantes que nos desarmam assim que nos são apresentados. Inevitavelmente somos fascinados pela crueza de Tomás, a ternura de Teresa, a aparente liberdade de Sabina ou a fragilidade de Franz - todos inesquecíveis por darem face às mais variadas possibilidades existenciais que todos nós já vestimos dentro de um relacionamento.

Espetacular: Kundera talentosamente nos conduz até a cidade de Praga e exerce tanto domínio sobre a história que é capaz de entrar e sair da narrativa sem quebrar o fio que nos conduz - vezes explicando a teoria filosófica por trás de cada fato ocorrido, outras se retirando para que os fatos desenrolem-se naturalmente. Sempre que releio, sinto a mesma incontida admiração da primeira vez.

Servindo como base, a Lei do Eterno Retorno de Nietzsche é recorrentemente citada. Trata-se de um conceito filosófico que supõe, para nos questionar sobre nossos atos, que tudo aquilo que você viveu repetiria-se outra vez e essa repetição se repetiria mais uma e mais uma vez durante toda a eternidade. A teoria, ainda que aterrorizante, de fato nos oferece outro olhar sobre nossos próprios passos, sugerindo que busquemos viver de forma que valha a pena.

Quatro anos após a publicação do livro, Philip Kaufman transformaria a obra de Kundera em filme.

quinta-feira, setembro 15, 2011

da série: cenas da vida real (parte II)

"- Lá no colégio eu escrevi uma redação pra Dilma aí eu escrevi que os preços dos produtos tinham que cair porque 'tá tudo muito caro mesmo aí eu escrevi que as bonecas Monster High eu tenho 8 bonecas Monster High custam 15 dólares ou seja 32 reais né (respira) aí aqui no Brasil elas custam 80 reais e isso dói no bolso do trabalhador (batendo nos próprios bolsos) e tem que melhorar a qualidade dos produtos também porque a qualidade é inapropriada aí querem tirar do meu bolso o dinheiro que eu nem tenho aí eu comecei a redação dizendo: Oi Dilma, essa aqui vai pra você!"

Imposto nas palavras de Daniela, 10 anos.

quarta-feira, setembro 14, 2011

"Tenho pedido às crianças mais sossego
Menos riso e muita compreensão para o brinquedo
O navio não é trem, o gato não é guizo."

Hilda Hilst

segunda-feira, setembro 12, 2011

Vivem a me acusar injustamente de implicância com acadêmicos. Nada disso é verdade. Por exemplo: recebi agora mesmo, via e-mail, um convite de um ex-namorado academicamente letrado para apresentação de uma pesquisa desenvolvida por ele, intitulada "As invectivas na Lisístrata de Aristófanes: a obscenidade na boca do corifeu". Pausa dramática. Educadamente respondi que não poderei comparecer pois a única palavra que conheço bem, dentre as do título, é obscenidade. Sou pacífica.
Pânico de gente passiva. Acorda, lava o rosto!

domingo, setembro 11, 2011

a bela Junie

Mais um filme francês sem maiores ambições. Apesar de grande admiradora do cinema francês, admito que é cada vez mais notória a falta de gana.

Outro ponto é que, como sempre digo, Louis Garrel é um ator medíocre. Para o meu azar, o franguinho virou galã e tem protagonizado 90% das últimas produções mansinhas, fato que não ajuda em nada.

Ainda que conte com personagens bastante tangíveis, o que facilita a entrada do espectador, o charmoso (e insosso) La Belle Personne não diz exatamente a que veio. Sim, podemos até aproveitá-lo de algumas formas, é verdade. Não se trata de um filme totalmente descartável, apenas facilmente esquecível - o que, na minha opinião, é tão frustrante quanto.

viajo porque preciso, volto porque te amo

“Manhã do dia 52 da nossa separação: eu sinto que sobrevivi a um terremoto. Seis semanas longe de casa são como seis gotas de um calmante poderoso. Um calmante que não resolve a dor, mas tranquiliza o juízo.”
Com o melhor trabalho de edição que eu já vi, o ousado longa experimental "Viajo porque preciso, volto porque te amo" é parada obrigatória. Em tom de documentário ficcional, o road movie nos dá uma carona pelo sertão do nordeste brasileiro ao lado de um geólogo recém abandonado pela esposa.
Reiterando a força do cinema nacional de qualidade, o filme realizado pelas mãos dos já comprovadamente brilhantes Marcelo Gomes (Cinema, Aspirinas e Urubus) e Karim Aïnouz (O Céu de Suely) apóia-se delicadamente em imagens poéticas e depoimentos geniais dos humildes moradores, como uma prostituta definindo o que é amor. Belíssimo. O personagem principal - que não tem rosto, só voz - narra o dia-a-dia de uma dor incessante e inevitavelmente nos faz cúmplices. Compartilhamos, tornamo-nos amigos íntimos. Somos o seu diário de bordo.

quinta-feira, setembro 08, 2011

WTC, happy birthday!

Brasileiro não tem umbigo. Não aguento mais assistir a mídia assoprar velinhas para o World Trade Center a cada 11 de setembro. A televisão não transmite documentários sobre Hiroshima no dia 6 de agosto - o que, cá entre nós, é de uma ironia ímpar. Vamos brincar de relembrar o dia em que os EUA assassinaram covardemente 200 mil pessoas? Não, né? Pois eu também não estou interessada em saber como anda a vida das viúvas do 11 de setembro. Não quero ver fotos de antes e depois do atentado sob a ótica da grande Estátua da Liberdade. Nada disso me comove pelo simples fato de não ter mais cabimento. Brasil, eu quero ler a manchete: hoje um menino descalço vendeu bala Halls no sinal de trânsito. Fome dói. Duas por 1 real, tia!

quarta-feira, setembro 07, 2011

Hoje, que descobri este lugarzinho improvisado, quis morar ali dentro. Batizei-o Chorinho, pelo som dos instrumentos. Lembrei Itapuã de Vinicius. Nos olhamos com receio de falar sobre entrar no carro, virar as costas, ir embora - soava quase como pecado.

terça-feira, setembro 06, 2011

da série: diálogos inesquecíveis (parte XI)

Cleópatra
(Joseph L. Mankiewicz, 1963)

"- Beba.
- Perdoe-me, Majestade.
- Beba.
- Perdoe-me. Perdoe-me.
- Eu lhe perdôo. Agora, beba."

Cena em que uma serva tenta matar Cleópatra com uma taça envenenada. A rainha, percebendo a intenção, ordena que a empregada prove o líquido primeiro. Liz Taylor em sua melhor forma.

segunda-feira, setembro 05, 2011

pegando emprestado:

"- Por que é que você olha tão demoradamente cada pessoa?
Ela corou:
- Não sabia que você estava me observando. Não é por nada que olho: é que gosto de ver as pessoas sendo."

Clarice Lispector em Uma Aprendizagem Ou O Livro dos Prazeres, um dos livros mais doces do universo.