segunda-feira, outubro 24, 2011

outono

A gente se brinca. Você é minha camisa de força, minha casa na árvore, meu cheesecake. Eu te escorrego, você me balança (lembrança que faz cócegas). Passatempo: eu quero ficar te olhando. Te espero como quem espera o sinal do recreio. O relógio demora, as horas se alongam. Os ponteiros tropeçam nos próprios cadarços, tombam, se atrasam. Você é meu par de patins embrulhado embaixo da árvore de Natal.

domingo, outubro 16, 2011

primavera

Você me percorre. Você tem uma bicicleta branca para atravessar cada detalhe do meu corpo. Faz sol. Eu te permito, você me passeia.

quarta-feira, outubro 12, 2011

domingo, outubro 09, 2011

oração:

Que eu nunca deixe de ser urgente. Que eu continue vivendo de pele, brevidades e gracejos. Que ninguém tente arrancar a nobreza que mantém minha cabeça alta - e que eu seja piedosa com os que porventura ousarem fazê-lo. Que eu tenha paciência com os menores e não os culpe por não serem capazes. Que o meu colo possa continuar a ser abrigo e meus olhos permaneçam sempre abertos. Que o meu corpo goze da mais absoluta liberdade. Dai-me coragem para que eu seja, todos os dias, quem eu sou. Amém.

quarta-feira, outubro 05, 2011

tête-à-tête

Esta fotografia é um quadro na parede do meu quarto. Desde que pus os olhos pela primeira vez, há tantos anos, me reconheci. Esta fotografia sou eu. Nada mais justo que pendurá-la: todos os dias, quando olho para o quadro, estou olhando para o espelho.

terça-feira, outubro 04, 2011

diário antropológico:

23:42 p.m. Prosseguindo minhas escavações em busca de vestígios Humanos. Pouco sucesso. Relato das últimas descobertas mais relevantes sobre o gênero: 1) o teatro de Maria Adelaide Amaral é das coisas mais ricas que se tem notícias, ainda que sua obra literária não seja do mesmo quilate. Relíquia empoeirada de nome Melhor Teatro é vendida por preço de banana em sebo fedendo à barata. Pagamento realizado em moedas. Destaque para De Braços Abertos, um dos melhores roteiros que já li. Até a presente data, as companhias teatrais ainda preferem o Sérgio Malandro; 2) algumas manhãs estudando o tema com afinco revelaram-me que o som do seu despertador significa, traduzindo ao pé da letra, que daquele momento em diante meu corpo terá que prosseguir viagem sem o seu¹. Ainda que enrolemos nossas pernas mutuamente, levantaremos para marchar em ordem proveniente do general eletrônico. Justo, somos meros soldados. Numa próxima encarnação tiro a sorte grande de nascer digital e aí, quem sabe, poderemos gastar as manhãs com delicadezas; 3) instruções aos que nasceram com a visão perfeita e passeiam por terra de cego: finja ter um apenas um olho e exija sua coroa. Dê-se por satisfeito. Em terra de cego, quem tem dois olhos passa a incomodar²; 4) a comunicação verbal entre duas pessoas apresenta resultados pouco ou nada satisfatórios porque se trata de uma ilusão. Nós, os teimosos, persistimos. "No es lo mismo decir Buenas noches que decir Buenas noches"³.

¹ Popularmente chamado Saudade.
² Releitura corrigida de antigo provérbio.
³ Alejandra Pizarnik, 1971.

segunda-feira, outubro 03, 2011

Outubro, bem-vindo! Quero cada dia seu.
Sobre o aclamado A Árvore da Vida: Tarkovski não morreu, foi ao inferno e voltou. Só aceito rever o filme acompanhada por quem entender a comparação e rir da piada. Não aguento mais ter que camuflar meu humor genial.