domingo, dezembro 30, 2012

2012 não foi exatamente um ano fácil. Como boa ouvinte, posso dizer que para nenhum dos que me cercam. Não ouço nenhum elogio ao ano que está terminando. Sobre mim, posso dizer que 2012 também não me tratou com a maior doçura do mundo, entretanto sou daquelas que ficam mais bonitas a medida que a guerra fica mais feia. O mundo não se acabou e estou mais viva do que nunca estive. Faço a este ano o primeiro - e talvez único - elogio que ele vai receber: muito obrigada por cada minuto. Sem eles, eu não teria tanto orgulho de ser quem eu sou.
O calor humano é o maior curativo para todas as dores, para todos os males. Eu te convido para sentar mais perto de nós. Ao redor da fogueira não faz frio.

terça-feira, dezembro 18, 2012

De tanto ter que consultar uma agenda preta para os compromissos do dia, resolvi comprar uma agenda branca para anotar as coisas bonitas. Acho justo.

quinta-feira, dezembro 13, 2012

- Vamos escrever?
- Não, estou com sono.
- Por favor, só um pouquinho...
- Já falei que estou com sono, eu quero dormir.
- Levanta dessa cama, vem! Estive pensando, poderíamos escrever um diálogo entre você e o eu lírico, no caso entre você e eu.
- Eu não vou escrever nada, me deixe em paz!
- Você é muito preguiçosa, Natasha. Depois não adianta reclamar quando eu não aparecer, 'tá legal? Estou aqui, cheio de gás, e você jogada nessa cama.
- Eu acordo às 7 horas da manhã! Você sempre escolhe os momentos mais inapropriados pra me atormentar.
- Não custa nada levantar e escrever um pouquinho. Vamos? Eu te faço um café, vai ser tão divertido! Podemos fazer isso a madrugada inteira, como nos velhos tempos.
- Como eu faço pra você calar a boca?
- Você é uma ingrata.
- E você é um inconveniente.
- Estou ofendido. Não volto mais.
- Se é por falta de adeus...
- Olha lá, heim! Depois vai se arrepender de ter me mandado embora.
- Adeus.
Orgasmo é um choque de lucidez. Estávamos no minuto anterior saciando pele, corpo, gemendo, trocando suor, saliva e proferindo frases desconexas. Somos rudimentares. Bichos. De repente, então, aterrissamos em terras reais onde nossa cadeia de raciocínio volta a funcionar de maneira abrupta - e podemos constatar o degradante primitivismo humano.

atrás da porta

Ressentimento é o avesso do bem querer. O outro lado da mesma coisa.

domingo, dezembro 09, 2012

da princesinha do mar


"Pelo pecado de esconderes quem me ama
Ai de ti, Copacabana
Serás submersa ao mar"

Uma daquelas letras lindas que ninguém presta atenção.

segunda-feira, dezembro 03, 2012

Destino é quando te chamam - e você responde embora não saiba de quem é a voz nem de onde vem o som. Destino é instinto. Infeliz daquele que se julga detentor dos próprios passos, que de tão inteligente desaprendeu a farejar.

quarta-feira, novembro 28, 2012

No meu trabalho, a senha do meu computador é "bomdiavida" para que eu não passe nenhuma manhã sem lembrar de cumprimentá-La.
Eu brigo quando estou entediada. Cada um com seu hobby.

terça-feira, novembro 27, 2012

Aos covardes que se julgam suficientemente políticos e diplomáticos para permanecer em cima do muro, devo alertar que ao menos sejam cautelosos e inteligentes para que não cometam qualquer movimento brusco ou passo em falso - porque quem cai de cima do muro é devorado tanto de um lado, quanto do outro.

segunda-feira, novembro 26, 2012

Que me perdoem os modestos, mas depois que discurso tão veemente sempre tenho vontade de me pedir um autógrafo. Sou minha fã.
Nunca falta argumento aos que têm intimidade com a linguagem. Todo ponto de vista se torna válido quando você sabe defendê-lo. Por outro lado, não adianta bulhufas ter uma opinião coerente e precisa se você não souber comunicá-la como deve. Contrate um intérprete ou sairá perdendo de cada discussão. Tudo é questão de palavra.

segunda-feira, novembro 19, 2012

Querida Thaís,

A miséria é um monstro. É assustador. Constato o que eu sempre soube: o meu ponto fraco é a humanidade. Quero colocar o mundo no colo. Transbordo de pena, viro uma manteiga derretendo - eu que sempre fui tão metida a forte.

Minha gastrite chegou de mala e cuia, então vou passar a noite em casa. Há anos eu não usava medicação regularmente, era raro sentir dor, mas essa semana precisei voltar. Pelo menos enquanto dói, pretendo manter distância da cerveja e do café. Sou tão nova! Comi canja. Seria ótimo se você estivesse por aqui hoje, temos muito para falar.

Apesar de tudo, eu posso dizer que tenho me sentido feliz. Os meus braços estão abertos - e só esta frase bastaria, compensa todo resto. A vida tem se desdobrado e me mostra que pode ser infinita.

Me conte o que eu perdi dos seus dias! Quero voltar a acompanhar.

Um beijo,

Natasha
E quantos são os que amam em silêncio? Nunca senti amor que não gritasse. Amor esperneia, toca sirene, solta fogos.

quinta-feira, novembro 15, 2012

Só é julgado aquele que aceita de bom grado a condição de réu. Eu levantei o meu dedo para dizer que você precisa comer muita estrada antes de apontar o seu.

sábado, novembro 10, 2012

Eu sempre quis fazer algo grande e finalmente começo a vislumbrar uma possibilidade concreta. Eu não tenho a pretensão de mudar o mundo, mas sei que vim até aqui para dar uma boa chacoalhada.

quinta-feira, novembro 08, 2012

Hoje uma outra senhora me desejou portas abertas, ao invés de desejar a já manjada felicidade. Poético, também.

domingo, novembro 04, 2012

quando a Vida é gentil

As janelas ficam abertas para que eu consiga ver a lua da minha cama. Chet Baker, no som, está cantando You're My Thrill. Tenho a meia luz do abajur. Pela primeira vez em tanto tempo, me sinto completa. Noutra faixa, agora, as primeiras notas de Daydream. O domingo está minguando lentamente e eu, tão privilegiada, assisto de perto. É muito gostoso estar aqui. Eu agradeço.
Estou tão fértil! Se apanho qualquer chuvinha, em mim já crescem raminhos frescos de todas as cores. Ao menor sinal de raio de sol, tudo floresce. Delicadeza.

quarta-feira, outubro 31, 2012

Você perguntou como eu estou me sentindo e eu respondi que ainda não parei pra pensar nisso. Rimos pelo paradoxo.

terça-feira, outubro 30, 2012

No ônibus, uma senhora respondeu "que a vida te trate muito bem" em agradecimento ao pequeno favor que eu lhe fiz. Achei incrivelmente poético.

segunda-feira, outubro 29, 2012

Às vezes me tomam o tempo certas preocupações tão bestas que custo a me reconhecer.
Ao preencher um formulário, uma pessoa me perguntou se o campo "data" deveria ser respondido com a data de hoje. Como lidar?

sexta-feira, outubro 26, 2012


"Photographers are always photographing the package, but they would never think to open up the box. Well, I'm interested in the contents, because once you start opening up the box, it's like a Chinese box, there's always another box inside - so it's limitless."

Como o mundo pode viver sem Duane Michals? Sou uma apaixonada.

duane michals:

"Madame Schrodinger and her cat are both wondering what the probabilities are that at this moment you are reading this."

the fallen angel


Duane Michals, 1968.
Ao dar um conselho, eu disse: nada é humilhante a menos que você se sinta humilhada. Depois concluí que foi uma das frases mais brilhantes que eu já disse. Dignidade vem de dentro.
O maior pecado que um ser humano pode cometer é não se entregar a sua própria natureza. Desse mal eu não morro. Como já cantava Gabriela, eu nasci assim, eu cresci assim e sou mesmo assim.

quinta-feira, outubro 25, 2012

Tenho medo de ventania. O tempo parece tão nervoso! Fico bem quietinha, apreensiva.

terça-feira, outubro 23, 2012

Eu te amo porque você me faz mais bonita. E não são todos os amores tão egocêntricos quanto este aqui?
Qualquer pouca merda satisfaz. Engolem qualquer coisa abanando o rabinho e justificam com "é melhor que nada". A vida, gigante como é, apresentando uma infinidade de possibilidades - e vocês ocupados roendo osso. Eu lamento.

sexta-feira, outubro 19, 2012

Pavor de quem responde "você não entendeu o que eu falei" quando contra argumentado. Sim, eu entendi o que você falou e achei uma estupidez, portanto estou discordando. Tudo muito natural. Agora seria a sua vez de defender o seu ponto de vista, mas você vai atrasar o diálogo repetindo a estupidez que eu já entendi. Haja estrutura.
Sobre o pote, dizem que não se deve ir com muita sede. Eu pergunto, então, se existe outro motivo para ir até o pote que não seja o fato de estar com muita sede.
A lei que rege os dias é a lei da impermanência. Abocanhem, portanto, antes da validade. Parágrafo único.
A vida sempre tentando me enfiar goela abaixo uma boa colherada de vergonha na cara. Como um bebêzinho malcriado, estou sem apetite. Só abro a boca se fizer aviãozinho.

quinta-feira, outubro 18, 2012

Me contaram que o cumprimento Namastê significa "o meu Deus sauda o seu Deus". Lindo.
O verão tem um cheiro característico. Hoje eu senti cheiro de verão.
Sou apaixonada pelo Ricardo Boechat. Sempre que posso, a televisão fica ligada enquanto ele fala. Não estou interessada exatamente nas notícias, se fosse o caso eu acessaria o globo.com. Estou interessada na voz, no tom, no porte. William Bonner precisa tomar muito Sustagem. Boechat é rei.

quarta-feira, outubro 17, 2012

Falarão, pois, e você haverá de perdoá-los. Uns após os outros, os que têm a língua apodrecida serão perdoados pelo mau cheiro causado ao redor. Atraídas, as moscas rodeiam as bocas, dançam, satisfazem-se. Pobres deles.
Quem tem boca vai a Roma. Ou à forca.

terça-feira, outubro 16, 2012

Não me preocupo com o dia de amanhã porque ele já é bem grandinho e sabe se virar sozinho. O amanhã que cuide de si.

segunda-feira, outubro 15, 2012

Ainda que nossas nuvens sejam mais carregadas, ainda que nos chova granizo ao invés de água - ah! como somos bonitos, nós, os impetuosos.

vai


Você me diz que eu sou filha de Ossanha. Como Vinicius de Moraes. "Que se casou nove vezes", você completa. Fico lisonjeada, ainda assim.

shame on us

Para um bom observador, as relações interpessoais são quase matemáticas. Para alcançarmos uma reação B, devemos executar uma ação A. Como um grande jogo onde conhecemos todas as regras, aprendemos cada fórmula e atalho para vencer e obter determinado resultado de outrem. "Eu poderia jogá-lo no escuro, tamanha facilidade!", dizemos convictos. Entretanto, sem conseguirmos colocar exatamente em prática o aprendizado por sermos indivíduos movidos não somente pela razão, as relações humanas se tornam um atestado de impotência. Tenho consciência de estar dando um passo errado para o meu objetivo, porém ainda assim o darei. Nada nos distingue, então, de um quadrúpede no pasto, guiado pelos instintos mais primitivos. E, devo dizer, nada nos humilha mais do que contar com uma cadeia elaborada de raciocínio e não fazer uso do privilégio.

domingo, outubro 14, 2012

quinta-feira, outubro 11, 2012

segunda-feira, outubro 08, 2012

meu ano mariquinha

Todo ano, próximo ao meu aniversário, faço minha revolução solar. Para astrologia, o aniversário é uma espécie de reveillon pessoal e a revolução solar nada mais é do que uma previsão para o seu próximo ano. Pois bem, este ano abrirei uma exceção. Ao saber que meu próximo ano será canceriano, optei por não saber mais de nada. Não quero ouvir, não quero ler. Estou desolada. Me mande passar um ano no inferno, mas não me mande passar um ano em câncer. Pavor do mimimimi canceriano. Minha última esperança é que o mundo de fato acabe em dezembro. Eu me recuso a ter um ano maricas.

domingo, outubro 07, 2012

sexta-feira, outubro 05, 2012

Sou tão apaixonada pela paz das madrugadas quanto pelo calor humano do dia. Sendo uma só, sempre me dói abdicar de uma das possibilidades em prol de algo tão bobo chamado sono. Dormindo nada se faz, nada se produz, nada surge ou acontece. Estar adormecido é estar ancorado numa espécie de não-ser. Ora, me sirva um expresso duplo porque eu quero fazer jus a minha existência! Quase uma semana sem cafeína, afinal, eu devo mesmo ter perdido muita coisa.
A justificativa "é um problema cultural" pode ser usada para quase tudo e ainda assim não será mentirosa. Nascemos já situados em dado momento e carregamos intrinsecamente determinados valores definidos por outros, que não nós mesmos. Torna-se muito difícil, então, olharmos para dentro. É complicado afirmar o que é realmente seu em essência individual. Todas as sociedades deveriam ser extintas após cumprirem prazo definido para darem espaço ao novo, sem legados comportamentais. Do contrário, estaremos sempre condicionados ao passado. O legado nos facilita muito a vida prática, porém nos limita de maneira assustadora. Carregamos nos ombros uma bagagem que nem é nossa. Deve-se ser assim, deve-se ser assado. E somos assim, e somos assado. Não sei quem sou, sei quem somos.

quarta-feira, outubro 03, 2012

Minha academia é tão infernalmente quente que eu fico esperando a hora que o capeta vai me dar boa tarde e correr na esteira do meu lado.
Várias vezes tive vontade de responder "é a parte que te cabe deste latifúndio" e me calei. Sou uma pessoa muito boa.
Para inflamação na garganta, uma colher de mel pode milagrosamente driblar a tosse noturna. Parece mito, mas não. Outra coisa é que, se o seu corpo é movido a cafeína, abster-se do componente por alguns dias pode mesmo tornar seu sono tão gostoso quanto o de um bebê. Parece historinha para boi dormir, mas não. Dormirá o boi, você, eles e todos nós. Eu garanto. Boa noite.
Algumas pessoas têm me questionado o fato de não escrever em público. Por que não criar um blog onde fosse possível escrever aos olhos de todos? Admito que tenho cogitado a hipótese, acontece que até minha insegurança é metida a besta. Uso a justificativa de que ninguém vai entender o que eu digo. Estou muito além. E, no meio de tanto charminho, afinal quem perde sou eu. Eles continuarão a viver sem me ler. Eu, por outro lado, não sei viver sem escrever.
Estou enjoada de fazer divagações sobre a humanidade, essas anotações racionais sobre o que eu observo. Por ora, cansei de generalizar. De manter essa distância fria do meu texto. Não sou socióloga, chega. Quero ser íntima. Hoje eu disse para o meu coração: fala alguma coisa! Ele, muito preguiçoso, bocejou, virou para o lado e voltou a dormir. Pediu mais cinco minutinhos.

terça-feira, outubro 02, 2012

Favor dar ossos aos cães, milho aos pombos e banana aos macacos. É importante não confundir as criaturas. Um pombo não sabe o que fazer com um osso, os cães estão de dieta e os macacos não aprenderam a fazer pipoca. Cada qual com o que lhe cabe.

segunda-feira, outubro 01, 2012

Querida Thaís,

Fico tão feliz! Torci por você. Tudo deu certo e esse é só o começo da sua vida, você nem imagina o que ainda está por vir. Tenho certeza que o seu futuro será brilhante. Acho que toda mudança é válida, mesmo as que parecem assustadoras num primeiro instante. É gostoso fazer as malas quando não sabemos exatamente o que nos aguarda. Na última vez que fiz as malas, desisti de ir. Não faça o mesmo.

Hoje estou doente, peguei uma gripe muito forte. Minha garganta já dava sinais há uns dias, piorou bastante depois de um final de semana de excessos. O incrível é que estou achando bom estar aqui, coberta, meio febril. É como se a vida puxasse o tapete e me obrigasse a parar. Ganhei um bolo de cenoura e não tenho vontade de fumar. Só é difícil para dormir, mesmo. De resto, estarei bem aconchegada durante os próximos dias.

Me conte sobre as primeiras impressões. Se não por aqui, de outra forma.

Um beijo,
Natasha

 Em resposta a: http://www.simplescomplexibilidade.blogspot.com.br/2012/09/querida-natasha.html

sobre o tempo:

Só persiste o que é reafirmado. Se estou entusiasmada, desejo repetir a causa de bom grado e associo o entusiasmo ao precursor. Baterei palmas, então, toda vez que me trouxerem sardinha. Minha alegria ganha forma, torna-se um fato incontestável. Noutra via, se me deito a chorar não tenho outro objetivo além de comprovar minha dor. Choro porque está doendo, está doendo porque choro. "Está doendo", eu repito se quiser prolongar o martírio. O que não pode ser reafirmado não resiste ao tempo. Fica fraco, vira pó.

viral:

eu celebro
tu celebras
ele celebra

sexta-feira, setembro 28, 2012

Preciso urgentemente parar de me mimar e de ceder aos meus caprichos. Sei que a minha relação comigo mesma não é das mais sadias, toda essa paixão exacerbada, esse ego melado. Não resisto e acabo fazendo tudo que for preciso para me satisfazer. Eu não sei me dizer não. Eu não tenho limites. Sou uma mal acostumada.

quinta-feira, setembro 27, 2012

Em mim, escrever é um processo completamente artesanal. Olhando para o último texto, por exemplo, penso naturalmente: está muito duro. Como se a argila não tivesse sido trabalhada como deveria. E eu posso torna-lo espetacular, dedicar meu precioso tempo, acontece que tenho me perguntado o porquê de tanto trabalho em vão.

quarta-feira, setembro 26, 2012

Não creio que devamos acordar diariamente repetindo que a vida é bonita. Há contratempos e tropeçamos nos próprios cadarços. Somos, todos nós, reles mortais e vez ou outra podemos nos dar o luxo de abdicar da condição de He-Man que o mundo tem nos exigido.

Porém, o momento presente, analisado friamente numa grande perspectiva, é resultado das nossas próprias opções. Se entristecer frente ao dia de hoje é ferver de insatisfação contra o próprio self, é declarar guerra às próprias pernas que, apesar de tudo, te trouxeram são e salvo até aqui. É como ir ao mercado, escolher os itens com dedicação, encher o carrinho e se queixar da conta.

Se sou eu quem me faz, a reação que me cabe é torcer o nariz para essa postura passiva que talvez eu mesma, sem perceber, também tenha adotado diante da vida. Eu, que sempre condenei os que negam a si mesmos, caí no mesmo buraco de self-pity onde só os porcos se lambuzam de bom gosto. Pregam-se na cruz por vontade própria, os auto-sacrificados. "Por que me abandonaste, Pai?", rogam a Deus ou ao que acreditam. Desci tão logo lembrei que minha coroa sempre foi feita de ouro, não de espinhos.
Nossas convicções são construídas ao longo de anos para que, numa esquina qualquer, da noite pro dia, troquemos por outras que nos pareçam mais adequadas. Nada é sólido.

segunda-feira, setembro 24, 2012

Bom dia, primavera! Que gostoso você chegar assim, sem avisar. Eu, que já nem lembrava, sorri como quem bem recebe.

sexta-feira, setembro 21, 2012

Não sei por que escolhi Simone de Beauvoir para voltar a ler. Estava há muito tempo afastada dos livros e não existe explicação plausível que justifique a escolha, já que nunca gostei dela. O fato é que, procurando um livro qualquer para retomar a atividade, esbarrei por acaso no segundo volume de O Segundo Sexo e folheei, despretensiosa. Ainda não consegui parar. É possível enumerar centenas de motivos que fatalmente os convenceriam a nunca ler Simone de Beauvoir, entretanto estou satisfeita em fazê-lo. A vida tem dessas coisas, afinal.

terça-feira, setembro 18, 2012

"People always see Marilyn Monroe. As soon as they realize I'm not her, they run."
Há, no cinema, atuações que deveriam ser obrigatoriamente assistidas por todos. Michelle Williams interpretando a fragilidade de Marilyn Monroe (Sete Dias com Marilyn) é uma delícia. Os que são postos num pedestal parecem, lá de cima, muito seguros de si. Noutra face, o filme retrata uma Marilyn Monroe atormentada, consumida, excessivamente yin. Mais real, mais humana. Muito mais bonita, então.
O inconsciente nos bombardeando durante o sono, nos mostrando tudo aquilo que passamos o dia varrendo para debaixo do tapete. Nos dizendo que podemos fugir de todo resto, exceto de nós mesmos.

segunda-feira, setembro 17, 2012

Deus não me deu sequer um pingo de paciência, mas juro que compenso com outras qualidades.

sexta-feira, setembro 14, 2012

nem toda feiticeira é corcunda


Sou már' macho que muito homi.
"- Este país está podre de tanto sentimentalismo - Frank disse certa noite, dando as costas à janela, com um movimento solene e andando pelo carpete. - O sentimentalismo vem se alastrando como uma doença, há anos, há gerações, e hoje qualquer coisa que a gente toca parece estragada, de tanto sentimentalismo." 

Richard Yates

quarta-feira, setembro 12, 2012

O meu corpo é um brinquedo que ganhei de presente ao nascer. Sendo meu, e somente meu, eu brinco como fizer gosto, quando achar que devo e com quem eu decidir brincar.

terça-feira, setembro 11, 2012

Eu enfeito as pessoas para que elas caibam no meu mundo. Não por gosto, por necessidade. Se eu não as maquiasse, talvez não deixasse ninguém entrar.

segunda-feira, setembro 10, 2012

Tenho um orgulho rasgado de mim mesma por viver cada dia como se eu fosse, de fato, morrer no próximo. Você me faz críticas ferinas e diz que eu encaro a vida como se fosse portadora de uma doença terminal. Eu te respondo que para tanto é preciso, com o perdão da palavra, ter muito cu.
Meu antivírus me chamou de vulnerável e mandou eu renovar agora. Nesse tom, deve pensar que está falando com a mãe dele.
Também é verdade que estou falando muito sobre os outros para não descrever o que se passa nos corredores de dentro. Não quero me denunciar. Estou fazendo hora, disfarçada, fingindo que não sinto. Escrevo como quem assobia ou lixa as unhas. Não quero ser íntima. Não me exponho e espero que não me reparem.
Notei que as pessoas escrevem que nem a cara delas. Digo esteticamente mesmo. É só reparar. Seu texto é tão feio quanto o seu focinho.
Sinto uma admiração monstra por gente ignorante, desses que estão sempre dançando e não se questionam absolutamente nada. Não querem saber de onde vieram, para onde vão. Estão conformados com a pura e simples condição de existir. Não por vontade própria, que fique claro, pois não sabem nem o que significa condição de existir. E também não querem saber. Parecem meu cachorro abanando o rabo sabe-se lá para o quê.
Sem perceber, estou sempre escrevendo para os amanhãs. Como se alguém já os soubesse, afinal. Me pergunto se o dia seguinte já está mesmo pronto ou se faz com as horas.

blame it on my youth

Se eu não puder fazer toda sorte de estripulia possível, de que me vale o álibi da juventude?

sexta-feira, setembro 07, 2012

E eu sei que só o tempo há de trazer band-aids para tudo que agora ainda está aberto.
Meu coração quer uma fogueira para assar marshmallows durante esse inverno sueco que se instalou nas ruas de dentro.

once upon a time

Era uma vez um cisne que vivia no meio dos patos. Um cisne muito triste que queria ter nascido tão pato quanto qualquer outro pato. Comia e bebia com os patos, amava com os patos, sem, porém, nunca ser um deles.

quinta-feira, setembro 06, 2012

Amanhã vou contar uma história, daquelas que acontecem com um amigo de um amigo seu. Qualquer semelhança será mera coincidência.
Gota d'água significa, no dicionário, o elemento que faltava para completar nosso quebra-cabeça de descontentamento.
Tudo aquilo que concebemos como verdade acaba se tornando, posteriormente, nossa própria algema. Estamos tão limitados ao que acreditamos, ao que nos soa real.
A inerente solidão humana, ainda que terrível, tem sua beleza. Ninguém pode te ser. Isso é lindo. Porém, não nos peça compreensão. Definitivamente, não nascemos para nos entender. Nós não somos capazes. Por que diabos eu te entenderia se a sua mente é composta por estradas onde eu nunca pisei? Eu não conheço os seus fantasmas. Se vamos dormir e então você recosta no travesseiro, ainda que eu habite o travesseiro ao lado, não adivinho o filme que está ilustrando seu inconsciente. Pobres que somos, ainda abrimos a boca para oferecer conselhos. Com que direito? Se o que eu carrego você não sabe! Compreender o outro é uma impossibilidade. Não existe ciência que tenha o direito de se julgar digna de tal.

segunda-feira, setembro 03, 2012

Tudo já foi dito. O que nos resta é encontrar outra forma de se dizer tudo novamente. Sobrou apenas a tarefa de refrescar as memórias, já que somos mesmo uns esquecidos. Há muito tempo eu deixei de lado a ambição de escrever o novo. Fiquei mansinha.
Saudade significa, no dicionário, tua ausência brigando com o meu sossego.
Mando notícias aos sobreviventes: não há exatamente o que esperar quando tudo é possível. Tudo é muita coisa. Se me dizem, então, que as probabilidades para certos acontecimentos são restritas, irrisórias, irreais, eu respondo que não trabalho com probabilidades, trabalho com milagres. A vida, até hoje, sempre se desdobrou num passe de mágica. Fatos não são previstos, medidos, calculados. Todo dia é dia de abracadabra. Basta estar acordado quem quiser ver.

segunda-feira, agosto 27, 2012

A minha raiva também é amor. Se facilmente saio do sério e cuspo fogo, é porque enxergo em cada um a capacidade de ser bem maior. De querer mais. Vocês escovam os dentes, se deitam dentro de suas respectivas zonas de conforto e pela manhã ainda estão lá. E vão permanecer para sempre. Se eu não os amasse, estaria pouco me importando com o lugar medíocre onde vocês vão amanhecer. Essa minha maldita sede de humanidade ainda vai me matar, um dia.
Tudo é tão breve! Nada persiste. Nem a dor, nem o entusiasmo. O tempo escorre tudo pelo ralo. Fica a ligeira impressão que, afinal de contas, nada é real. É uma conclusão meio sem graça. Viver é bobo.

Querida Thaís,

Concordo plenamente quando você afirma que construímos uma imagem de nós mesmos e acreditamos cegamente nela. Todos nós. Tenho verdadeira obsessão por observar e analisar toda e qualquer pessoa, então para mim essa é uma característica social muito evidente. De fato, estamos sempre tentando ser o que decidimos que somos. Fácil detectar esse fator em qualquer um que não si mesmo. Para os olhos alheios, somos bem mais claros do que imaginamos. Estamos tão expostos! Por outro lado, por que é tão difícil olhar para dentro? Ou, como dizem, para o próprio rabo?

Não achei seu dia tão enfadonho quanto o tom que você empregou ao contá-lo. Em primeiro lugar, gostaria de ter o seu emprego porque você ganha dinheiro para escrever. Mesmo que você escreva amenidades, não importa. É um exercício. O seu ofício não exige que você se distancie do seu real trabalho. E, ainda que não seja tão excitante, é só um degrau. Nunca sabemos o que virá depois.

É por nunca saber que eu quase sempre acordo de bom humor. Não tenho vontade de continuar na cama como você descreveu, sou de uma ansiedade assustadora e quero porque quero descobrir logo o que me aguarda ao longo do dia. Como sou de grandes expectativas, normalmente vou dormir de mau humor.

Não gosto de saber que você está se arrastando. Fique de pé, mulher. A vida é só uma bobagem que alguém inventou. Nada por aqui é sério. Um circo, um zoológico. Ria dos palhaços e alimente os macacos.

O meu rabo está bem aqui e eu não enxergo nada.

Um beijo,
Natasha


Em resposta a: http://www.simplescomplexibilidade.blogspot.com.br/2012/08/querida-natasha-acho-que-nos_23.html

quinta-feira, agosto 23, 2012

Disseram que eu não encontro respostas porque minhas perguntas são mal formuladas. Talvez tenham razão.
Eu gosto da expressão "lose my mind". Em português, não fica tão significativo.

Querida Thaís,

É engraçada essa imagem que você tem de mim. São engraçadas todas as imagens que construímos sobre o outro. Acho que somos todos um pouco caleidoscópios, cabem mil faces numa só. Tudo muito curioso. Desconfio que o que me mantém viva é a curiosidade, aliás. Estou sempre querendo saber um pouco mais, olhar um pouco mais. Um pouco além.

Gostaria de ter esse autocontrole que você imagina. Essa frieza, também. Estou sempre fervendo e me consumindo.

O que quero dizer sobre criar antes de viver: se existe uma situação X que me renderá um bom texto, eu tenho vontade de vivê-la. E vivo. Não sei até que ponto é completamente consciente, mas olhando para trás consigo perceber claramente essa tendência.

Me conte sobre o seu dia. Detalhadamente. Depois que você abriu os olhos, tomou um café, e então?

Um beijo,
Natasha


Em resposta a: http://simplescomplexibilidade.blogspot.com.br/2012/08/querida-natasha-nao-havia-pensado-no.html

segunda-feira, agosto 20, 2012

Querida Thaís,

Gostaria de ter recebido suas palavras pela caixa de correio, com um selo colorido. É triste que o destino das cartas seja mesmo desaparecer. Penso naquele ritual que envolvia trocar correspondências antes da nossa era digital e acho mágico. Pena não ter podido participar. Quando eu cheguei nesse mundo tudo já era rápido, fácil. As palavras estão cada vez mais velozes. E cruas, por consequência.

Ainda assim, é bom poder te escrever.

Você me conta, então, que Chico Buarque está te fazendo companhia e sinto uma pontinha de saudade de certas canções. Chico Buarque não me faz mais companhia há alguns anos, deixei de lado. Existiu um homem, um namorado, que encheu meu quarto de Chico Buarque e Tom Jobim. Muito me amou durante todo tempo. Daqueles que cuidam da sua gripe com mel, comidinhas e cafunés. Em troca, só consegui deixar para ele uma porção de machucados. Eu não soube amá-lo de volta, nunca saberia. Eu não sei lidar com a paz. O sossego de um relacionamento estável me sufoca como uma grande prisão.

Você me diz, também, que suas palavras estão enterradas em cadernos e diários dentro do armário. Eu te respondo que suas palavras são muito bonitas para estarem escondidas em um lugar tão frio. E se sou eu que estou dizendo, acredite. Tenho o péssimo hábito de não fazer questão de agradar ninguém, o que me torna muitas vezes desagradável.

Embora a maior parte das minhas palavras também fique escondida, acho que a literatura funciona de forma diferente para nós duas. Eu acho que não sou uma escritora porque não sei escrever estórias. Até hoje não aprendi a inventar quando sento de frente para uma folha em branco. Tudo que eu escrevo foi de fato vivido pela minha pele.

Achei esta carta egocêntrica e prolixa.

Um beijo,
Natasha


Em resposta a: http://simplescomplexibilidade.blogspot.com.br/2012/08/querida-natasha-chico-toca-ha-tanto.html 

terça-feira, agosto 14, 2012

domingo, agosto 12, 2012

"Deixa em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa"

Chico
Há o caminho da esquerda, o da direita e todos os outros.
Deus, nós nos perdemos. De repente, no meio dos dias, das ruas, sufocados por essa eterna maldição humana de se viver preso num corpo de centauro, meio bicho, meio gente. Metade instinto, metade razão. Deus, nós não sabemos para onde ir. Nenhum de nós. Nossa raça anda em círculos e ocupa as horas para não encarar de frente a própria falta de direção. Como somos pequenos, meu Deus.

sábado, agosto 11, 2012

quinta-feira, agosto 09, 2012

Antigos e Soltos

"Poemas e prosas da pasta rosa". Lembro como se fosse ontem, e já faz uns bons anos, do lançamento de Antigos e Soltos, publicação que reúne centenas de originais fantásticos da Ana Cristina César. Na ocasião, o Instituto Moreira Salles, sempre muito pomposo, promoveu um coquetel em homenagem aos 25 anos de morte da poeta e deu início às vendas. Foi amor à primeira vista. 
O preço, de fato salgado, é um dinheiro muito bem gasto. Sou apaixonada por cada livro meu, mas este é inegavelmente o meu xodó. A qualidade do material é de alegrar qualquer coração que tenha quedinha por pequenos luxos. Sobre o conteúdo, é muito gostoso poder acompanhar cada trabalho sendo cerzido minimamente, até chegar a versão final. Aos que também escrevem é um verdadeiro paraíso, aos outros não sei se caberia o interesse em manuscritos violentamente rabiscados. 
Pelo tamanho e volume, apelidei de bíblia rosa. Certamente é o tipo de coisa que você tem vontade de mostrar para todo mundo, mas sem deixar de alertar com certo receio: não toca, vê com os olhos.

quarta-feira, agosto 08, 2012

De presente, a quarta-feira me trouxe horas de engarrafamento, uma quase insuportável dor nas costas e, no final, uma banda fingindo que é carnaval em pleno mês de agosto, numa pracinha charmosa, para me fazer sorrir e compensar qualquer item anterior. Quase cheguei a acreditar que o intuito daquela folia era apenas me fazer cosquinha.
Bom dia, quarta-feira! O que você trouxe para mim hoje?

segunda-feira, agosto 06, 2012

"I'm the hero of the story
Don't need to be saved"

Regina Spektor, Hero
E aos poucos fui me tornando esta que sou hoje: uma incrédula. A minha autoconfiança vem muito do fato de que, se eu não acreditar muito em mim mesma, já posso parar de viver. Sou, de fato, a única coisa que eu tenho. Minha última esperança. Não posso nem pensar em me decepcionar.

domingo, agosto 05, 2012

sábado, agosto 04, 2012

Meu coração quer um par de galochas.

estúpido mi corazón

Ainda sobre o Facebook, outro dia escrevi que meu coração quer um guarda-chuva, ao que imediatamente perguntaram o porquê. Graciosamente respondi que está chovendo por aqui e não quero vê-lo, meu coração, com uma pneumonia ou coisa que o valha. Sou muito bonita com respostas. Alguém muito sábio, então, avisou que pneumonia é no pulmão, como quem quer alertar sobre o erro. Fico me perguntando se as pessoas são realmente tão burras assim ou existe outro fator qualquer que justifique a falta de entendimento.

bagunçando Darwin

Tenho achado meus questionamentos muito presunçosos. Quem sou eu para descobrir quem eu sou? Só porque evoluímos naturalmente e nosso cérebro foi presenteado com certa capacidade de raciocínio lógico e vago discernimento, não significa que devamos basear nossas miseráveis vidas em complexos pensamentos, teias psicológicas e reflexões sem fim. Não há o que entender quando, afinal, somos apenas anfíbios melhorados. Não há respostas. Meu cachorro, por exemplo, não tem outro propósito de vida além de ficar me olhando com a língua para fora e eu acho que ele está certo, portanto vou descartar todos os meus porquês, colocar minha língua para fora e acompanhá-lo nessa emocionante jornada.
Pânico de gente que não sabe se comunicar. Então ele fala por horas a fio e não consegue finalizar o raciocínio. Percebo que concluir a frase inicial é uma verdadeira barreira que o indivíduo, por mais que se esforce, não consegue atravessar. Tudo bem se você precisa fazer uma curva ou duas, mas, por favor, volte para a estrada principal. No papel de ouvinte, me sinto uma verdadeira guarda de trânsito com meu apito na boca a sinalizar o caminho.

sexta-feira, agosto 03, 2012

Por onde foi que eu, tão dona de mim, deixei você entrar?
A cidade como um grande manicômio não declarado.

Caio F. e seu irmão gêmeo

Existem dois Caio Fernando Abreu. Um deles foi um escritor que conheci aos 15 anos, morto em 1996 por decorrência da aids. Sua imagem está num quadro na parede do meu quarto. Eu sei de quem eu estou falando. Li e reli toda sua obra literária, correspondências e biografias póstumas de cabo a rabo. Apesar de não tê-lo conhecido de fato, foi alguém de suma importância numa determinada fase da minha vida onde eu começava a me descobrir. A minha real identidade não estava refletida em absolutamente nada ao meu redor, eu tive que ir buscá-la. Aí, talvez, eu tenha entendido a importância da literatura e de toda expressão artística na vida de uma pessoa.
A minha surpresa, depois de entrar para o mundo do Facebook, foi encontrá-lo assim tão exposto. O segundo Caio Fernando Abreu está na boca de todos. E, devo dizer, o segundo Caio Fernando Abreu não existe. Praticamente nenhuma citação atribuída a ele é real. Como Clarice, como Pessoa, como tantos que fatalmente se reviram no túmulo nessa era digital.
Eu quero dizer para cada uma dessas meninas, compartilhando mensagens com borboletas piscando, que elas são tietes de algo que simplesmente não existe. E eu prometo ser paciente. Eu posso emprestar meus livros, se elas quiserem. Todos eles. Eu estou à disposição e de coração aberto. Em troca só pedirei que, por favor, parem de destruir o nome dos outros.
"Ah, no fim destes dias crispados de início de primavera, entre os engarrafamentos de trânsito, as pessoas enlouquecidas e a paranóia à solta pela cidade, no fim desses dias encontrar você que me sorri, que me abre os braços, que me abençoa, e passa a mão na minha cara marcada, no que resta de cabelos na minha cabeça confusa, que me olha no olho e me permite mergulhar no fundo quente da curva do teu olho. Mergulho no cheiro que não defino, você me embala dentro dos seus braços, você cobre com a boca meus ouvidos entupidos de buzinas, versos interrompidos, escapamentos abertos, tilintar de telefones, máquinas de escrever, ruídos eletrônicos, britadeiras de concreto, e você me beija e você me aperta, e você me leva para Creta Mikonos, Rodes, Patmos, Delos, e você me aquieta repetindo que está tudo bem, tudo, tudo bem."

Caio Fernando Abreu, o real, em Anotações Sobre Um Amor Urbano.

Belas:

Sobre as árvores, posso dizer que faço amizade muito facilmente. Outro dia passamos uma tarde tricotando, jogando papo pro ar. Essa primeira me contou que morre de inveja de mim só porque, veja bem, eu tenho duas pernas e posso desfilar por aí. Reclamou das raízes. A segunda é a irmã mais velha, logo atrás, que não aguentou e caiu na gargalhada. Pedi para tirar uma foto e as duas, assanhadas, logo fizeram pose. Infelizmente não saíram tão bem assim. O ângulo não favoreceu. Uma pena.
Não quero ter um filho porque devo protegê-lo do nascimento. Filho meu não participa desse circo que vivemos. Não admito. Se depende do meu ventre para vir ao mundo, pode dormir sossegado que eu garanto sua inexistência. Sou a melhor mãe do mundo.

quinta-feira, agosto 02, 2012

Meu coração quer um guarda-chuva.
"Because everything Beth does comes from within. From some dark impulse. I guess that's what makes her so thrilling to watch. So dangerous. Even perfect at times, but also so damn destructive."


Black Swan, 2010
Às vezes me pergunto o que vai ser de mim. Porém, como esse questionamento me causa doses cavalares de desespero, só o faço às vezes mesmo. Em média dia sim, dia não.

terça-feira, julho 31, 2012

"às vezes me preservo
noutras, suicido"

Zeca Baleiro
Não tenho o que escrever. Preciso, com urgência, me emocionar. Os olhos reclamando de adivinhar a próxima paisagem repetida. Sertão. Muita terra. Os pés fincados no chão. Eu não nasci para dia a dia, eu não nasci para realidades. A boca seca mastigando mato. Então, Vida, é só isso? Mostra logo a que veio. Me manda um tornado.

segunda-feira, julho 30, 2012

"Sou eu esta mulher que anda comigo (...)?"

Hilda Hilst
Sei mesmo é que devo cuidar direitinho de mim porque, afinal de contas, sou a única coisa que eu tenho.

domingo, julho 29, 2012

Tenho pânico dessa gente com síndrome de Vaticano, apontando dedinhos e ditando bons costumes. Moral é o conceito mais falho do mundo. Uma grande ilusão bem estruturada para manter o bom funcionamento do formigueiro. Uma piada. Não, a minha parte eu não faço, obrigada. No que depender de mim, entraremos em curto circuito. Daqui não passa. Tudo bem que por detrás das cortinas ninguém é branco mesmo, acontece que eu quero brincar aqui fora.

sábado, julho 28, 2012

we're safe tonight


I know I was born and I know that I'll die.
The in between is mine.
I am mine.

Se não fui eu que compus, não sei quem foi.

quarta-feira, julho 25, 2012

twixt

Assisti Twixt, o terror noir de Coppola. Patético. É triste ver um homem desse calibre fazendo merda. Difícil de acreditar que foi realizado pelas mesmas mãos que dirigiram Apocalypse Now ou a triologia Godfather. Mais triste ainda é ler as raras críticas que aplaudem e tentam justificar. "Um universo onírico" is my ass.

Francis Ford Coppola é a prova viva de que todo mundo pode errar. A vida é imprevisível e a gente nunca sabe se na próxima esquina vai acabar dirigindo Twixt ou colocando a Sofia Coppola no mundo. Acontece nas melhores famílias.

"O que mais escuto dizerem é que não faço filmes tão bons quanto há 30 anos e a minha resposta é real: há 30 anos, os filmes que vocês acham tão bons também não foram bem recebidos", segundo palavras do nosso herói que acredita no reconhecimento tardio. Quero responder: meu amigo, fique tranquilo porque dessa vez não vai ter jeito nem em 30, nem em 60, nem em 90 anos.
Eu não sei me defender de você. Quero parar de mesa em mesa perguntando se alguém, por favor, pode me emprestar uma máscara. Meu coração assim exposto, ilustrando capa de jornal. Meu próprio corpo me denunciando. Essa fragilidade toda não me cai bem.

sábado, julho 21, 2012

quarto bilhete:

O mais triste dos destinos: nossos corpos viraram paredes. Passa minha perna na tua, finge que a gente é madeira, nos desmancha. Eu quero de novo acordar quentinha sob tua vista, fazer parte dos teus cálculos, queimar os meus dedos. Quero voltar e ver Copacabana da tua janela, conferir se Ela ainda está ali ou fugiu assustada com a nossa intolerância.
Em maio de 2009 escrevi "isso é muito literário, porém pouco viável". Três anos depois, minha vida ainda se baseia no mesmo. Sobra história para contar, falta estrutura. Sobra estrada, falta caminho.
Outra coisa que notei lendo meu passado é que eu queria escrever a la Virginia Woolf e pontuava toda frase com ponto-e-vírgula sem ter a mínima noção do que eu estava fazendo. Acho engraçado.
Eu escrevo para produzir provas contra mim mesma. Do contrário, se me contassem, jamais acreditaria que já estive mesmo ali.

terça-feira, julho 17, 2012

HELP

Deveriam considerar a possibilidade de incluir na lista de torturas chinesas: assistir Woody Allen no cinema. Além de não poder apertar stop, quebrar o DVD e se revirar no chão em cólicas, ainda faz-se necessário aturar as risadas forçadas dos admiradores quando o filme faz menção a algo que eles pensam que só eles conhecem. Antigamente era idolatrado por losers que sonhavam em ser tão losers quanto o diretor do filme, porque em algum momento da evolução humana, provavelmente enquanto eu dormia, ser loser ganhou uma espécie de glamour. Agora nosso querido Woody aprendeu a trabalhar com uma nova estética cinematográfica, que tem repetido para sempre já que não se mexe em time que está faturando bilheteria, e conquistou o público infanto-juvenil que empina o nariz e responde em defesa "você só deve gostar de porcarias hollywoodianas" sem saber o significado nem de porcaria nem de hollywoodiana. Eu nutro verdadeiro ódio desse aprendiz de Didi Mocó.

eu, eu mesma e Irene

F: 
Você se parece mais com a Natasha facebook, ou com a Natasha blogger? Parece que são duas pessoas diferentes. Não combina o que escreve lá e o que escreve aqui. Não apenas o jeito, mas o conteúdo, a personalidade.
Natasha Pinto: 
eu sou duas pessoas ao mesmo tempo
F: 
Não é uma crítica, só uma constatação. Às vezes eu fico encucado. Acho que há um abismo muito grande entre uma e outra, por isso é tão gritante pra mim. Parece que não é você quem escreve o blog. Acho que em algum lugar você bota uma máscara forte, por isso minha primeira pergunta, se vc se parecia MAIS com uma do que com outra.
Natasha Pinto: 
eu pareço as duas...
eu não sei o que as pessoas imaginam quando lêem meu blog
mas eu sou assim socialmente
como vc vê no facebook
F: 
toda alegrinha?
Natasha Pinto: 
eu sou toda alegrinha socialmente
F: 
e você é diferente no seu blog?
Natasha Pinto: 
no meu blog eu me sinto livre pra ser eu mesma
F: 
e na sua vida social, não é você mesma?
Natasha Pinto: 
não sei, não consigo te explicar
é como se fossem duas pessoas diferentes mesmo

segunda-feira, julho 16, 2012

o castor

Geralmente tenho preconceito com os "directed and starred by", mas dei uma chance para Jodie Foster porque muitíssimo me interessa a questão do alterego retratada em The Beaver (ou, eca, Um Novo Despertar). Como outros milhões, também sou cruelmente assolada pelo chamado alterego (ou, eca, o outro eu) e o tema é tratado com certo humor inteligente. Apesar de pontos excessivamente dramáticos e descartáveis, Mel Gibson e seu castor ganharam minha simpatia.
Não há nada mais inconveniente que as horas. Estão sempre atrasadas quando temos pressa, voam quando não devem. Parecem verdadeiras crianças fazendo pirraça.

terceiro bilhete:

Você me descansa. Sei que é confortável morar em você porque meu corpo faz toda sorte de preguiça na hora de ir embora.
II. E eu só fico triste porque sobra muito amor em mim. Nunca vou desistir de fazer vocês enxergarem pelos próprios olhos, mesmo que me falem das impossibilidades, pois estes adoram citar impossibilidades, mesmo que me contem histórias sobre como o mundo já está irremediavelmente consolidado de tal maneira estúpida para todo sempre. Eu me sinto responsável e cumprirei minha obrigação.

domingo, julho 15, 2012

a outra voz:

I. Como parte integrante da dita humanidade, fico muito triste em ver que meus irmãos de raça parecem robôs em série repetindo ad eternum aquilo que um dia alguém definiu como o correto a ser seguido. Vejo uma fila de preguiçosos, fracos, guiados como um verdadeiro gado. Minha garganta assiste em nó.

sábado, julho 14, 2012

"Eu tenho uma pulsação meio difícil de traduzir, o tempo todo olhando as coisas, de manhã, de tarde, de noite. E então acho um absurdo tudo. Acho a vida uma coisa absolutamente espantosa e fico tentando um equilíbrio entre o plano mental e emocional, numa quase vertigem passional diante do mundo. Enquanto a coisa está no cotidiano me perguntando sobre a vida, a morte, eu vou indo muito tensa e muito desconfortavelmente. Mas chega um momento em que é preciso escrever senão tudo vai ficando cada vez pior dentro de mim. É neste momento que sinto um medo muito grande de não saber traduzir a singularidade deste estado tensional, conseguir uma linguagem paralela a este estado tensional."

Hilda Hilst

quarta-feira, julho 11, 2012

segundo bilhete:

Notei que a gente se movimenta com muita destreza na vida do outro. Parece que meu corpo é sua terra natal. A coreografia flui.
Auto-sabotagem é minha cachaça diária. Preciso me proteger de mim mesma ou me destruo sem dó nem piedade.

segunda-feira, julho 09, 2012

Há uns anos estava escrevendo um livro chamado Pathos. Passei os olhos no arquivo e, surpreendentemente, acho de fato gostoso, ainda que quase tudo esteja gritando por uma boa recauchutagem. Pela primeira vez em tanto tempo, senti vontade de prosseguir.

epígrafe:

"Pathos: Além de sofrimento, de pathos deriva-se, também, as palavras “paixão” e “passividade” e quer dizer, no sentido clássico, tudo o que se faz ou que acontece de novo, do ponto de vista daquele ao qual acontece. Nesse sentido, quando pathos acontece, algo da ordem do inusitado, do excesso, da desmesura se põe em marcha sem que o sujeito possa se assenhorear desse acontecimento, a não ser como paciente, como ator."

Revista Latino Americana de Psicopatologia Fundamental
Ano V, n. 2, jun/2002

#17

Hoje todo mundo sentiu frio e eu estava tão quentinha, ainda mais depois de tomar café, que distribuí muitos abraços. Entre cigarras e formigas, se juntos, não há inverno que resista a nós. Eu sei.
Sou eu quem faz a brisa que me refresca. Mas é verdade que minha criatura às vezes se revolta contra a criadora, como o monstro Frankenstein ou um ateu pragmático, e encaro um verdadeiro tufão. Preste atenção porque eu estou falando sobre a minha História. Reporto todas as minhas horas vida afora. Eis então o sagrado, para mim. As minhas palavras têm tanta importância que deveriam ser iniciadas, todas elas, com letra maiúscula. Eu me respeito.

primeiro bilhete:

Toda hora quero olhar esse jeito que você me olha. Sou matéria exposta. Fico bem à vontade.

domingo, julho 08, 2012

Sempre digo que amar é perceber. Eu te amo porque te reparo, examino, vejo. Estou atenta. O apaixonado vive em estado de alerta, em sobreaviso. Sabemos que deixamos de amar quando o outro nos passa despercebido. De uma hora para outra, a atenção é desviada. Ana Cristina César, que também entendia, já dizia "se você me ama, por que não se concentra?" com conhecimento de causa.

sexta-feira, julho 06, 2012

A expressão "estar de mal com a vida" é muito interessante. Como se dissesse, então: eu não quero mais ser sua amiga, Vida, estamos de mal. Eu mesma, por exemplo, sempre brigo com Ela só porque acho muito gostoso fazer as pazes. Também é verdade que somos muito parecidas, fato que normalmente dificulta o relacionamento.

quarta-feira, julho 04, 2012

Creio que deve ter acontecido algum mal entendido quando pedi uma quarta-feira docinha e me deram esta. Vou fingir que não notei.

terça-feira, julho 03, 2012

"Muito docemente, ele ia tirando uma a uma as malhas que prendiam o animalzinho, sem manifestar nenhuma pressa e resistindo pacientemente aos movimentos que o animal fazia para se libertar, até que todas estivessem desfeitas e que o animal pudesse fugir esquecendo toda essa aventura."

Martin Freud em Freud, meu pai.
Durmo com as janelas escancaradas em noites de Lua saliente. O contrário seria uma imperdoável falta de respeito. Também não economizo elogios e ela fica toda prosa, querendo aparecer. Safada.

la dolce vita

Eu quero uma quarta-feira ainda mais docinha que esta terça e assim por diante, dia após dia, até viver um dia inteirinho com gosto de bolo confeitado. Eu tenho um mês de puro açúcar. Branco e refinado. Só me resta lamber os dedos.

#16

Hoje o céu promoveu um verdadeiro espetáculo aos que estavam atentos: centenas de gaivotas dançando juntas, tão levinhas, numa sintonia impecável. Eu contrataria todas elas para o Cirque du Soleil. No final quis aplaudir, mas fiquei encabulada.

segunda-feira, julho 02, 2012

"A linguagem é uma pele: esfrego minha linguagem contra o outro."

Roland Barthes em Fragmentos De Um Discurso Amoroso, 1978.
Em quatro anos, nunca tornei este blog público. Não pretendo. A grande maioria das pessoas que eu conheço não tem a mínima ideia da existência, não sabe sequer que eu escrevo e que o meu armário é abarrotado de cadernos com anotações sem fim. Não existe nada de secreto nestas páginas, acontece que sou eu que decido para quem eu vou tirar a roupa.

domingo, julho 01, 2012

Realidade é o conceito mais variável que existe. Todos nós sofremos de visão seletiva de acordo com o que nos é conveniente. Logo, somando um total de 7 bilhões de pessoas interagindo entre si, o caos da relação humana se torna completamente explicável. Seria cômico, se não fosse trágico.
Não canso de me abismar com a coragem de todos nós, tão frágeis, caminhando pelas ruas às cegas sem conhecer o que nos aguarda no próximo instante. Para quem está vivo as possibilidades são infinitas e quase tudo pode nos acontecer. Subitamente, desde uma gripe ou uma paixão desmedida, até a própria morte de fato. Ainda que a grande maioria não seja exatamente consciente dessa condição, é bonito de se olhar.

Percepções sobre seu discurso público:

II. Suas palavras são encantadoras. Não porque os outros te olham fixamente a ponto de esquecerem o que se passa do lado de fora daquelas janelas, digo porque eu mesma estou encantada e é de suma importância considerarmos a raridade do fato. Você, com sua oratória irresistível e nenhum atributo físico a seu favor, é o homem mais sedutor que eu já conheci. Na condição de ouvinte, a mais privilegiada das condições, permito que você se exceda ao desordenar por acidente o próprio cabelo e gesticular desenfreadamente. Você tem o meu aval. Eu quero que você continue.

Percepções sobre seu discurso público:

I. Enquanto fora do seu equilíbrio natural, fenômeno que dura em média dois ou três minutos, você passa violentamente as duas mãos nas têmporas deixando os cabelos desalinhados e não se preocupa em posteriormente reorganizar os fios, de forma que todos ao seu redor imediatamente focam toda e qualquer atenção no topo da sua cabeça ao invés de se dedicarem com exclusividade às suas palavras entusiasmadas. Apesar disso, quando seu olhar busca o meu, sorrio de longe como quem aprova. 
ai de mim
tão minha

sábado, junho 30, 2012

sexta-feira, junho 29, 2012

No meu peito, você hoje é o dono de proezas inimagináveis: comer pão doce, deitar na rede, ouvir pernilongos. Não quero mais te devolver ao mundo. Questão de escolha.
Lá fora é muito longe.

quinta-feira, junho 28, 2012

Só respeito o que é maior que eu. O tempo, por exemplo, e as joaninhas. Não insistam.

quarta-feira, junho 27, 2012

As pessoas precisam ser mais nuas. Se não por si mesmo, seja nu por altruísmo. Digo, precisamos fazer isso pela humanidade. Precisamos nos despir para nos salvar. Do contrário, neste eterno baile de fantasias, o mundo se afoga irreversivelmente. Só nos sobram os mais variados traumas, buracos e transtornos psicológicos por não conseguirmos enxergar - e alcançar, tocar - de fato um ao outro. Não é para isso que a vida se propõe. Não é essa a intenção da natureza. Eu sei porque olho os macacos.

terça-feira, junho 26, 2012

Natasha,

Eu te dou tudo aquilo que você me pede. TUDO. Basta você desejar um pouquinho e eu me viro, dou cambalhota, movo mundos e fundos e num passe de mágica te entrego de bandeja desde os seus caprichos mais bobos até o que a maioria das pessoas conquistaria no suor. Eu nunca deixei você suar. Desde que você nasceu, te acho muito bonitinha para isso.

Agora você, por favor, pare durante dois minutinhos para refletir. Está todo mundo lá fora querendo ser você. E eu estou muito zangada porque, enquanto isso, você quer brincar de passado, você quer revirar lixo, você cisma em colocar uma lupa e sair à caça de um motivo que te machuque. O que mais me revolta é que quando você não encontra, você mesma dá o seu jeitinho de criar.

A verdade é que eu estou farta de ter que ficar te fazendo cosquinha o tempo todo para ver seu sorriso. Você deveria fazer uma festa por si só.

Você me dá muito trabalho.

Sinceramente,

Vida.

segunda-feira, junho 25, 2012

Receita para acordar fresquinha:

Durma com as janelas abertas para o Sol te desejar bom dia antes do despertador. Pura questão de hierarquia. Reserve o tempo necessário para chamegar sua cama. O mundo pode esperar, acredite. Boceje bem fundo. Não pense em ontem. Não há espaço para ontem. Responda os passarinhos. Se não souber cantar, que seja na sua língua. Eles aceitam também.
Eu já cansei de dizer que não me importo em gastar dinheiro. Eu me importo em gastar o que tem valor. Meu tempo, por exemplo. Me faça perder tempo e verá a mesma reação de um grande empresário que acaba de decretar falência com saldo negativo no banco.

Papai do céu,

Eu quero uma lancheira, uma porção de giz de cera e ligar para mamãe quando quiser ir embora de qualquer maneira.

domingo, junho 24, 2012

Outra coisa sobre saudade é que ela não liga para reciprocidades. Acha bobagem. Está satisfeita em apenas estar ali, sendo sentida. Saudade não tem sequer objetivo próprio além de simplesmente existir. É um troço meio acomodado, preguiçoso, que não quer ir embora.

i put a spell on you


Fatalmente trocaria minha alma por assistir isso ao vivo.
Eu acho muito gostoso embarcar no desconhecido. É para isso que acordo todos os dias.
Quem escreveu "é preciso ter cuidado pra mais tarde não sofrer" é um tremendo cuzão. Sobre viver, não entende bulhufas. E, veja bem, ainda quer nos ensinar.

quinta-feira, junho 21, 2012

Copacabana está de mau humor. Amanheceu cinza. O mar preguiçoso quase não se mexe. Não deixo você comprar pão porque pode ser mesmo muito arriscado caminhar pelo bairro na atual condição psicológica do mesmo. Você volta para o meu lado e passamos fome em segurança enquanto eu te conto que Itanhangá significa "pedra que fala" em tupi. Tão bonito.
Eu quero fazer uma festinha em você. Estou te enfeitando.
Sempre fico em dúvida se as pessoas são excessivamente sufocantes ou eu sou facilmente sufocável. A verdade é que vivo clamando por 5 minutinhos a sós comigo mesma.

quarta-feira, junho 20, 2012

terça-feira, junho 19, 2012

segunda-feira, junho 18, 2012

XIII

"Ávidos de ter, homens e mulheres
Caminham pelas ruas.
As amigas sonâmbulas
Invadidas de um novo a mais querer
Se debruçam banais, sobre as vitrines curvas.
Uma pergunta brusca
Enquanto tu caminhas pelas ruas. Te pergunto:
E a entranha?
De ti mesma, de um poder que te foi dado
Alguma coisa mais clara se fez? Ou porque tudo se perdeu
É que procuras nas vitrines curvas, tu mesma,
Possuída de sonho, tu mesma infinita, maga,
Tua aventura de ser, tão esquecida?
Por que não tentas esse poço de dentro
O incomensurável, um passeio veemente pela vida?

Teu outro rosto. Único. Primeiro. E encantada
De ter teu rosto verdadeiro, desejarias nada."


Hilda Hilst, em Poemas ao Homens do Nosso Tempo.

domingo, junho 17, 2012

Aprende que eu não existo em lugar algum exceto do lado de dentro da tua cabeça. Também não tenho cheiro de nada e não entendo porque tu insistes em cheirar tua fronha para lembrar meu pescoço. Eu nunca me deitei na tua cama. Não pareço ninguém. Não tenho sequer voz para te dizer tudo isso em bom som. Dá fim na tua criação. Me mata, depois me convida para brincar de realidade.

sexta-feira, junho 15, 2012

02:58 A.M. Não sei o que dizer. Tenho ânsias de tudo e paciência para nada. Sou uma acelerada e ao meu redor a vida se movimenta em slow motion bossa nova, a humanidade leva milênios para apresentar qualquer sinal de evolução e a Terra demora exaustivos 365 dias para dar uma mísera voltinha em torno do Sol. Ainda não sei o que dizer. Uma vez escrevi um conto sobre uma mulher que estava literalmente nas mãos de um homem. Digo, na palma. Ela morava lá. Era uma ideia interessante e daria um curta metragem sensacional. Uma pena, não existiu. 03:11 A.M. Estou com sono. Vou escrevendo para esvaziar a cabeça, balançar o berço, me ninar. Não quero ter um sonho muito bonito porque sinto pena de acordar. Também não quero ter um pesadelo e acordar assustada. Quero ter um sonho mediano, quando dormir. Nem bom, nem ruim. Decidido. 03:19 A.M. Eu tinha uma porção de coisas para dizer, mas acabei esquecendo. Não consigo lembrar de uma sequer. Daqui a pouco vou precisar acordar e não estou nada dormida. O ideal seria empurrar o computador para o chão, virar para o lado, me dispor de forma devidamente aconchegante em posição fetal e enfim adormecer. Já até escovei os dentes e tudo mais. Também é verdade que eu não tenho mesmo o que dizer, então estou desperdiçando tempo e isso é pecado. 03:36 A.M. Acho que não vou aguentar muito tempo. Estou quase lá. Não estou certa se é isso mesmo que eu quero agora. Preciso refletir melhor, mas não estou conseguindo. Quero um tempo para pensar e concluir se dormir é mesmo o ideal para o momento. Você pode esperar um pouquinho? Por favor. Eu é que deveria mandar no meu próprio nariz ao invés de ser mandada por mim mesma.

quinta-feira, junho 14, 2012

Você diz que eu devo sentar minha bunda e escrever ao invés de saracotear pelas ruas em busca sabe-se lá do Quê. Concordo que tudo que preciso deve estar bem aqui e imediatamente lembro de uma peça chamada Deve Haver Algum Sentido Em Mim Que Basta. Ainda assim, respondo que não posso evitar as saracoteadas já que sou feita de fogo, não de terra. Além, não sei se realmente ainda me importo com essa história de juntar palavras, pontuar, remexer, rebolar. Preguiça de tocar no que foi devidamente varrido para debaixo dos tapetes. Todos os escritores são masoquistas, já que se torna estritamente necessário enfiar o dedo no fundo de cada ferida. Já eu, que ando muito levinha, só quero mesmo é me mimar.

quarta-feira, junho 13, 2012

eu vejo você pintar os meus dias de branquinho, bonito tom, e tenho medo de sujar as paredes

segunda-feira, junho 11, 2012

sexta-feira, maio 25, 2012

"Consider it a testimony to how much I love you that I spent so long pouring myself into that offer, trying to make it work. But a friend took me to the most amazing place the other day its called, The Augusteum. Octavian Augustus built it to house his remains. When the Barbarians came they trashed it along with everything else. The Great Augustus Rome's first true great emperor. How could he have imagined that Rome, the whole world as far as he was concerned, one day would be in ruins? It's one of the quietest and loneliest places in Rome. The city has grown up around it over centuries. Feels like a precious wound, like a heartbreak you won't let go of cause it hurts too good. We all want things to stay the same, David. Settle for living in misery because were afraid of change. Of things crumbling to ruins. Then i looked around in this place at the chaos its endured. The way its been adapted, burned, pillaged, and found a way to build itself back up again... and i was reassured. Maybe my life hasn't been so chaotic, It's just the world that is. And the only real trap is getting attached to any of it. Ruin is a gift. Ruin is the road to transformation."

Eat, Pray, Love

quinta-feira, maio 24, 2012

#14

Hoje você veio me socorrer no meio de uma multidão, me levou embora, me jogou no banho, me deitou na cama e me abraçou até eu me acalmar e pegar no sono. Quando eu acordei, você ainda estava lá. Eu disse que você nem parece um ser humano.

domingo, maio 20, 2012

#13

Hoje eu disse que, ao contrário da musa de Nelson Rodrigues, sou bonitinha porém extraordinária.

sexta-feira, maio 18, 2012

#12

Hoje você limpou minhas lágrimas com algodão antes de começar a me maquiar. Achei bonito.

quinta-feira, maio 17, 2012

#11

Hoje comemorei o reveillon particular de A., que acompanhou de perto todas as fases da minha vida e está animada para viver logo o seu próximo ano. "Eu prometo que você vai ser feliz" foi o meu voto. Vesti branco e fiz o bar inteiro levantar para cantar parabéns, embora depois de tantos copos eu mesma já não conseguisse levantar com facilidade. Rimos à toa. Sei mesmo é que o álcool, apesar de anestésico, não possui nenhuma propriedade cicatrizante.

quarta-feira, maio 16, 2012

anaïs nin:

"I refuse to live in the ordinary world as ordinary women. To enter ordinary relationships. I will not adjust myself to the world. I am adjusted to myself."

Amém.

#10 (bem-vinda Paz)

Hoje eu ergui a minha cabeça e pedi desculpa por ter a deixado pendida por tanto tempo.

segunda-feira, maio 14, 2012

- Bom dia. Meu nome é Maria de tal e eu não existo. Fico esperando quem me escreve decidir o rumo da minha história, já que não posso fazê-lo por mim mesma. Esta é uma condição muito triste, devo dizer. Principalmente se começaram a te escrever há cerca de três anos e nunca mais voltaram. Fico meio perdida nesta espécie de limbo de criação onde ora penso que sou efetivamente uma personagem, ora noto que não passo de pó. Estou aqui para dizer que todos os escritores, antes de começar, devem ter o mínimo de respeito por seus personagens. Nós não merecemos viver em coma induzido. Basta! Meu nome é Maria de tal e eu exijo um destino digno.
Trocando de pele. Carne viva. Dor inenarrável.

sábado, maio 12, 2012

#8 (ainda)

Hoje constatei que tenho um coração promíscuo. E forte, ainda mais forte do que eu supunha, já que não desacelera. Sempre lembro de um título, "De tanto bater meu coração parou", e fico esperando o dia em que possivelmente acontecerá.

#8

Hoje meu corpo resolveu dançar até esgotar os pés, como há muito tempo não fazia, e meus olhos acidentalmente esbarraram em você, que resolveu brindar à minha beleza estonteante. Irrecusável. A vida, então, é feita de resoluções e acidentes, ainda que não necessariamente nesta ordem.

quarta-feira, maio 09, 2012

#7

Hoje meus olhos provaram duas crianças, um menino e uma menina, brincando com as mãos uma espécie de adoleta ou coisa que o valha. Depois o trânsito andou para não estragar a delicadeza da cena, que consistia apenas no fato de ser breve.

terça-feira, maio 08, 2012

#6 (ainda)

Hoje eu tentei te ensinar a usar hashi e você não aprendeu. Depois quis dizer o quanto você me faz bem, mesmo se atrapalhando para comer salmão cru, mas estava muito sã e sóbria para expor sentimentalismos. Mastiguei para sossegar a voz. Dormi meio colorida.

#6

Hoje passou uma ambulância com a sirene ligada, como quem faz questão de anunciar a urgência, e eu pensei que fosse me buscar para deitar numa cama quentinha e tratar meus machucados com Merthiolate e band-aids.

segunda-feira, maio 07, 2012

clarice lispector:

“Um domingo de tarde sozinha em casa dobrei-me em dois para a frente - como em dores de parto - e vi que a menina em mim estava morrendo. Nunca esquecerei esse domingo. Para cicatrizar levou dias. E eis-me aqui. Dura, silenciosa e heróica. Sem menina dentro de mim.”

#5

Hoje eu acho que nunca mais vou voltar a sorrir. Se Deus quiser, estou errada.

quinta-feira, maio 03, 2012

quarta-feira, maio 02, 2012

não, obrigada

Depois de me dar uma verdadeira surra, a Vida manda eu engolir o choro, levantar do chão, maquiar as cicatrizes, colocar uma máscara do Ronald Mc Donald e continuar a encarar os dias desejando a todos um Mc Dia Feliz. NÃO FODE.

#2 (ainda)

Hoje eu disse para uma flor, que vive no meio de tantas outras flores, como ela é especialmente bonita. Ela corou. Não está acostumada com galanteios. Nunca ninguém havia dito.

#2

Hoje eu vi um esquilo e foi o único momento claro do meu dia. Eu é que estava na casa dele, e não ele na minha. Ele corria de um jeito engraçado, balançando os quadris. Fiquei rindo dele e ele de mim.

terça-feira, maio 01, 2012

#1 (novamente)

Alô. Som. Testando. Som som. Testando. 1, 2, 3 testando som som.

Maio,

Hoje é sua estréia e eu te peço para, por favor, chegar mansinho. Me dá seu colo, beija minha testa. Você nasceu fazendo sol durante uma chuva incessante, como quem não se importa com o que está caindo do céu, e eu parei tudo que fazia só para te achar bonito. Prometo te amar e dedicar cada dia, não fechar as janelas, cantar, cultuar suas horas, ser incansável - mas, por favor, colabora.

segunda-feira, abril 30, 2012

meu Corpo cismou com o seu Corpo: quer seu cheiro, sua língua, gastar tempo naquela brincadeira de passar sua pele na minha pele

domingo, abril 29, 2012

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios é um título muito gostoso. Estive com o livro do Marçal Aquino algumas vezes nas mãos, tentada justamente por conta do título, mas sempre deixei de lado. Agora Beto Brant (eca!) transformou em filme e, apesar de odiá-lo, me vejo tentada em ir ao cinema assistir - ainda por conta do título. Tenho quedinha por títulos.

pegando emprestado:

“I want to burn, even if I break myself. I live only for ecstasy. Nothing else effects me. Small doses, moderate loves - all these leave me cold. I like extravagance, heat… sexuality which bursts the thermometer! I am neurotic, perverted, destructive, fiery, dangerous, inflammable, unrestrained. I feel like a jungle animal who is escaping captivity.”

Anaïs Nin se confessando, me confessando.

sábado, abril 28, 2012

Preste atenção em minhas mãos, que hoje livre de tinturas, te escrevem e dizem e pedem:

terça-feira, abril 24, 2012

manhãzinha:

Agora quero mesmo é viver uma porção de gracinhas, isto é, um amontoado de graças miudinhas que não causam euforia nem estardalhaço, apenas sorrisinhos breves. Agora quero mesmo é descansar de mim. Agora está muito bom, assim.
Relendo os últimos posts, digo: quanto quiprocó, quanta xurumela!

quinta-feira, abril 19, 2012

E nada me cura, então me debato. Eu tenho uma alma morrendo de fome e não descobri o que ela come. Tudo que eu ofereço vira mero aperitivo.

segunda-feira, abril 16, 2012

agentes do destino

Se um dia alguém me perguntar o que é, afinal, o dito cinema comercial, certamente recomendarei Agentes do Destino, a nova repetição maníaca da rede Telecine.

Existe, sem dúvida, um bom conceito. Existe uma boa estrutura. E tudo isso é visivelmente sufocado por uma imensa vontade de agradar o público. Poderia ter sido genial, mas não foi.

Matt Damon incorporando o personagem mais chato da sua carreira, programado para dizer eu te amo em todas as cenas possíveis. "Esse cara é um mala", de um outro personagem referindo-se ao protagonista, torna-se a melhor frase do filme.

domingo, abril 08, 2012

marcel proust:

"Tolere que a considerem nervosa. A senhora pertence a essa família magnífica e lastimável que é o sal da terra. Tudo o que sabemos de grandioso nos vem dos nervosos. Foram eles e não os outros que fundaram as religiões e compuseram as obras-primas. O mundo jamais saberá tudo o que lhes deve, e principalmente o que eles sofreram para lhe dar o que deram. Desfrutamos das finas músicas, dos belos quadros, mil delicadezas, mas não sabemos o que essas obras custaram aos que as inventaram, em insônias, choros, risos espasmódicos, urticárias, asmas, epilepsias, (...)"

Em Busca do Tempo Perdido - parte 3 (pg. 136)

Em tempo: sempre tive medo de ler Proust. Descobri que é mais manso que minha imaginação supunha.

constatando:

Os acontecimentos têm, por natureza, a característica de se darem do dia para a noite, sem mais nem menos. Sem premissa ou lógica plausível