sexta-feira, setembro 28, 2012

Preciso urgentemente parar de me mimar e de ceder aos meus caprichos. Sei que a minha relação comigo mesma não é das mais sadias, toda essa paixão exacerbada, esse ego melado. Não resisto e acabo fazendo tudo que for preciso para me satisfazer. Eu não sei me dizer não. Eu não tenho limites. Sou uma mal acostumada.

quinta-feira, setembro 27, 2012

Em mim, escrever é um processo completamente artesanal. Olhando para o último texto, por exemplo, penso naturalmente: está muito duro. Como se a argila não tivesse sido trabalhada como deveria. E eu posso torna-lo espetacular, dedicar meu precioso tempo, acontece que tenho me perguntado o porquê de tanto trabalho em vão.

quarta-feira, setembro 26, 2012

Não creio que devamos acordar diariamente repetindo que a vida é bonita. Há contratempos e tropeçamos nos próprios cadarços. Somos, todos nós, reles mortais e vez ou outra podemos nos dar o luxo de abdicar da condição de He-Man que o mundo tem nos exigido.

Porém, o momento presente, analisado friamente numa grande perspectiva, é resultado das nossas próprias opções. Se entristecer frente ao dia de hoje é ferver de insatisfação contra o próprio self, é declarar guerra às próprias pernas que, apesar de tudo, te trouxeram são e salvo até aqui. É como ir ao mercado, escolher os itens com dedicação, encher o carrinho e se queixar da conta.

Se sou eu quem me faz, a reação que me cabe é torcer o nariz para essa postura passiva que talvez eu mesma, sem perceber, também tenha adotado diante da vida. Eu, que sempre condenei os que negam a si mesmos, caí no mesmo buraco de self-pity onde só os porcos se lambuzam de bom gosto. Pregam-se na cruz por vontade própria, os auto-sacrificados. "Por que me abandonaste, Pai?", rogam a Deus ou ao que acreditam. Desci tão logo lembrei que minha coroa sempre foi feita de ouro, não de espinhos.
Nossas convicções são construídas ao longo de anos para que, numa esquina qualquer, da noite pro dia, troquemos por outras que nos pareçam mais adequadas. Nada é sólido.

segunda-feira, setembro 24, 2012

Bom dia, primavera! Que gostoso você chegar assim, sem avisar. Eu, que já nem lembrava, sorri como quem bem recebe.

sexta-feira, setembro 21, 2012

Não sei por que escolhi Simone de Beauvoir para voltar a ler. Estava há muito tempo afastada dos livros e não existe explicação plausível que justifique a escolha, já que nunca gostei dela. O fato é que, procurando um livro qualquer para retomar a atividade, esbarrei por acaso no segundo volume de O Segundo Sexo e folheei, despretensiosa. Ainda não consegui parar. É possível enumerar centenas de motivos que fatalmente os convenceriam a nunca ler Simone de Beauvoir, entretanto estou satisfeita em fazê-lo. A vida tem dessas coisas, afinal.

terça-feira, setembro 18, 2012

"People always see Marilyn Monroe. As soon as they realize I'm not her, they run."
Há, no cinema, atuações que deveriam ser obrigatoriamente assistidas por todos. Michelle Williams interpretando a fragilidade de Marilyn Monroe (Sete Dias com Marilyn) é uma delícia. Os que são postos num pedestal parecem, lá de cima, muito seguros de si. Noutra face, o filme retrata uma Marilyn Monroe atormentada, consumida, excessivamente yin. Mais real, mais humana. Muito mais bonita, então.
O inconsciente nos bombardeando durante o sono, nos mostrando tudo aquilo que passamos o dia varrendo para debaixo do tapete. Nos dizendo que podemos fugir de todo resto, exceto de nós mesmos.

segunda-feira, setembro 17, 2012

Deus não me deu sequer um pingo de paciência, mas juro que compenso com outras qualidades.

sexta-feira, setembro 14, 2012

nem toda feiticeira é corcunda


Sou már' macho que muito homi.
"- Este país está podre de tanto sentimentalismo - Frank disse certa noite, dando as costas à janela, com um movimento solene e andando pelo carpete. - O sentimentalismo vem se alastrando como uma doença, há anos, há gerações, e hoje qualquer coisa que a gente toca parece estragada, de tanto sentimentalismo." 

Richard Yates

quarta-feira, setembro 12, 2012

O meu corpo é um brinquedo que ganhei de presente ao nascer. Sendo meu, e somente meu, eu brinco como fizer gosto, quando achar que devo e com quem eu decidir brincar.

terça-feira, setembro 11, 2012

Eu enfeito as pessoas para que elas caibam no meu mundo. Não por gosto, por necessidade. Se eu não as maquiasse, talvez não deixasse ninguém entrar.

segunda-feira, setembro 10, 2012

Tenho um orgulho rasgado de mim mesma por viver cada dia como se eu fosse, de fato, morrer no próximo. Você me faz críticas ferinas e diz que eu encaro a vida como se fosse portadora de uma doença terminal. Eu te respondo que para tanto é preciso, com o perdão da palavra, ter muito cu.
Meu antivírus me chamou de vulnerável e mandou eu renovar agora. Nesse tom, deve pensar que está falando com a mãe dele.
Também é verdade que estou falando muito sobre os outros para não descrever o que se passa nos corredores de dentro. Não quero me denunciar. Estou fazendo hora, disfarçada, fingindo que não sinto. Escrevo como quem assobia ou lixa as unhas. Não quero ser íntima. Não me exponho e espero que não me reparem.
Notei que as pessoas escrevem que nem a cara delas. Digo esteticamente mesmo. É só reparar. Seu texto é tão feio quanto o seu focinho.
Sinto uma admiração monstra por gente ignorante, desses que estão sempre dançando e não se questionam absolutamente nada. Não querem saber de onde vieram, para onde vão. Estão conformados com a pura e simples condição de existir. Não por vontade própria, que fique claro, pois não sabem nem o que significa condição de existir. E também não querem saber. Parecem meu cachorro abanando o rabo sabe-se lá para o quê.
Sem perceber, estou sempre escrevendo para os amanhãs. Como se alguém já os soubesse, afinal. Me pergunto se o dia seguinte já está mesmo pronto ou se faz com as horas.

blame it on my youth

Se eu não puder fazer toda sorte de estripulia possível, de que me vale o álibi da juventude?

sexta-feira, setembro 07, 2012

E eu sei que só o tempo há de trazer band-aids para tudo que agora ainda está aberto.
Meu coração quer uma fogueira para assar marshmallows durante esse inverno sueco que se instalou nas ruas de dentro.

once upon a time

Era uma vez um cisne que vivia no meio dos patos. Um cisne muito triste que queria ter nascido tão pato quanto qualquer outro pato. Comia e bebia com os patos, amava com os patos, sem, porém, nunca ser um deles.

quinta-feira, setembro 06, 2012

Amanhã vou contar uma história, daquelas que acontecem com um amigo de um amigo seu. Qualquer semelhança será mera coincidência.
Gota d'água significa, no dicionário, o elemento que faltava para completar nosso quebra-cabeça de descontentamento.
Tudo aquilo que concebemos como verdade acaba se tornando, posteriormente, nossa própria algema. Estamos tão limitados ao que acreditamos, ao que nos soa real.
A inerente solidão humana, ainda que terrível, tem sua beleza. Ninguém pode te ser. Isso é lindo. Porém, não nos peça compreensão. Definitivamente, não nascemos para nos entender. Nós não somos capazes. Por que diabos eu te entenderia se a sua mente é composta por estradas onde eu nunca pisei? Eu não conheço os seus fantasmas. Se vamos dormir e então você recosta no travesseiro, ainda que eu habite o travesseiro ao lado, não adivinho o filme que está ilustrando seu inconsciente. Pobres que somos, ainda abrimos a boca para oferecer conselhos. Com que direito? Se o que eu carrego você não sabe! Compreender o outro é uma impossibilidade. Não existe ciência que tenha o direito de se julgar digna de tal.

segunda-feira, setembro 03, 2012

Tudo já foi dito. O que nos resta é encontrar outra forma de se dizer tudo novamente. Sobrou apenas a tarefa de refrescar as memórias, já que somos mesmo uns esquecidos. Há muito tempo eu deixei de lado a ambição de escrever o novo. Fiquei mansinha.
Saudade significa, no dicionário, tua ausência brigando com o meu sossego.
Mando notícias aos sobreviventes: não há exatamente o que esperar quando tudo é possível. Tudo é muita coisa. Se me dizem, então, que as probabilidades para certos acontecimentos são restritas, irrisórias, irreais, eu respondo que não trabalho com probabilidades, trabalho com milagres. A vida, até hoje, sempre se desdobrou num passe de mágica. Fatos não são previstos, medidos, calculados. Todo dia é dia de abracadabra. Basta estar acordado quem quiser ver.