terça-feira, dezembro 31, 2013

Se os calendários já nada me dizem, eu me desejo um bonito amanhã, um bonito depois de amanhã, e que todos os amanhãs posteriores me deem razões para continuar a sorrir fundo apesar de qualquer pesar.

segunda-feira, dezembro 02, 2013

José e Pilar (2010)

Saramago, meu mal humorado preferido.

terceira lei de Newton:

Digam, pois, todos vocês, o que acharem devido. E então respondo, ora!, da maneira que melhor lhes cabe.
Como é bom encontrar quem fale a nossa língua, reconhecer nossos conterrâneos. Dizer, enfim, ao outro: tu não precisas fazer grandes explicações, eu te sei logo assim que tu começas o discurso.

domingo, dezembro 01, 2013

Estão falando muito sobre a chegada de Dezembro, o final de 2013, e o fato é que tenho me sentido inábil para prosseguir o assunto, se para mim as mudanças não acontecem em função dos calendários. Se, como digo, pode-se mudar uma vida inteira em dois minutos e duas xícaras de café. Se, como sei, os verdadeiros amanhãs não têm nome, nem número, nem avisam quando vão chegar.
Outro dia escrevi despretensiosa, no meio de tantas outras palavras, "o que se há de fazer quando cada um é que sabe o que faz seu coração bater" e achei bonito. Nossa falta de controle sobre o peito dos outros. Nossa inaptidão humana de criar reciprocidades.
E assim nós dois fomos nos desacontecendo. Até o dia em que poderemos jurar, de fato, que nunca acontecemos.

would you love me 'til i'm dead

Amigo,

Como estão as coisas?

Desculpe a demora. Não foi falta de tempo, porque tempo a gente é quem faz. Foi falta de vontade de olhar para dentro. E escrever, até um e-mail despretensioso como este para dar notícias sobre as bandas de cá, exige uma grande lupa bem no meio do próprio peito. Assusta. A gente faz preguiça, finge que não vê. Tapa os Sóis (se são vários) com peneiras fajutas. Tudo para não constatar a bagunça dos interiores.

Você está sozinho, sim. Sobretudo porque todos nós estamos. Acontece que são poucos os que pensam a respeito disso. Creio que compartilhamos momentos, opiniões, gargalhadas, colo, cama, saliva. Até teto, se existem os casais e as famílias. Mas, no fundo, estamos sozinhos. Sempre acreditei nisso, em mim sempre foi uma verdade absoluta. Essa é a sua vida. Somente sua. Somente.

Acho, sim, que a solidão é mais palpável conforme ficamos mais fundos. Quando se nada no rasinho, compartilhar é coisa fácil. A cada esquina se encontra. Difícil mesmo é encontrar alguém vibrando na mesma frequência quando se está além. Mas, eu juro, acontece. Eu estou aqui - e te leio, te compreendo. Entendo até essa sua preguiça de mostrar a alma. A gente vai ficando meio pessimista quando adivinha os próximos capítulos. Só que, eu juro de novo, a gente pode se surpreender. Nunca se sabe quando. Amanhã, quem sabe. Não perca a esperança nos amanhãs.

Torne a acordar, insistir, jogar nessa grande loteria que chamam de vida. E, eu por último te juro, qualquer dia ela acaba. Tudo fica mais gostoso quando sabemos que tem fim.

Tenho vivido na pele esse grande paradoxo. Vivo pensando que morte de fato chega. Eu vi. Com esses mesmos olhos que a terra também há de comer. E, por incrível que pareça, nunca fui tão livre.

(...) e o mundo está tão feio. Hoje é feio demonstrar afeto, interesse, carinho. As pessoas mais admiradas são corações de pedra, estátuas mudas, que não se movem em direção ao outro. Está tudo errado. E não é porque está tudo errado que eu tenho que estar errada, também. Me expus. Com o perdão da palavra, tenho cu para isso.

Mande notícias! São 23:17h. Tenho sono e não quero dormir.

Beijos,

Eu

Amélia,

Li seu e-mail enquanto fumava dois cigarros. Estava tentando me controlar a respeito dos cigarros, mas nos últimos dias larguei de mão. Larguei tudo de mão, aliás.

Vamos lá:

Sempre achei que amor é um conceito muito pessoal, portanto muito relativo. Cada um aprendeu ao longo da vida (durante experiências, palavras, contatos, filmes água com açúcar) o que, afinal, significa o tal do amor. "Essa palavra de luxo", como diria Adélia Prado. E cada um o entende da sua forma particular, o que seria muito natural caso todas essas formas tão (e, acredite, TÃO) distintas não atendesse pelo mesmo nome: amor. Gosta-se ou não de determinada pessoa. Fulano faz meu coração acelerar. Quero estar perto dele. Tudo bem. Creio que não há, nem carece de, muita lógica nessas escolhas passionais que o nosso corpo faz. Entretanto, acredita-se que o amor é muito mais, é bem maior, que tudo isso. E, penso, talvez essa ideia tão grandiosa, quase colossal, esteja um pouco equivocada. Talvez esteja fora dos padrões de realidade. O amor, ao menos a minha concepção de amor, não é surreal. Não é uma quimera. O amor, creio, é um gostar que vai sendo praticado. E toma forma, e cresce - como naturalmente acontece com o que se alimenta.

Te digo tudo isso, e peço perdão pela delonga, para opinar levianamente na sua história: não existe amor perfeito, amor completo, único, eterno, insubstituível. Acredito que você o ama. Acredito piamente. Mas não se cobre tanto por isso, não exija tanto do seu sentimento. Não espere que isto vá te preencher de todas as formas. Talvez eu seja a única pessoa que vá te dizer isso, mas: é só amor. Há, ainda, todo resto. E todo resto é o que você (também) está vivendo. Sei que não é tão simples assim. Mas não é tão complicado quanto parece. É uma situação delicada, sei que tudo se confunde, passamos a questionar o que afinal estamos sentindo. Fomos criados para um ideal romântico que, no frigir dos ovos, nunca se cumpre. Que grande confusão é a humanidade.

Juro que te entendo. E, ainda assim, o único conselho que posso te dar é: não se cobre dessa forma. Solte um pouco as rédeas da Vida. Deixe que os acontecimentos se desdobrem sozinhos. Eles têm força suficiente para isso, eu te juro. Largue-se. Você não vai se afogar. A maré sabe onde vai dar. Não demora muito e o tempo clareia.

Deite hoje a cabeça no travesseiro e durma o sono dos reis. É este o sono que deve acompanhar os que têm coragem de fazer o que desejam. Eu gosto dos seus modos confusos, dos seus pensamentos tortos, porque eles me soam Reais (em ambos os sentidos).

Me escreva mais. Te escrevo mais! Tenho muito para contar, está na minha vez.

Muitos beijos,

Eu

sábado, novembro 16, 2013

Sobre o que de fato tem que ser, sobre o que lhe é reservado em absoluto, não é necessário nenhum grande gesto ou esforço em prol de. Os acontecimentos é que te procuram, prontos, e te acham desprevenida na próxima esquina. Num rosto, num convite, numa dita coincidência.
Sobreviver a todas as coisas que parecem insobrevivíveis, manter-se de pé, ereta, a cada manhã bater continência a Vida. Cumprir o meu legado, carregar as minhas marcas, as minhas cruzes, gozar com as minhas escolhas, receber os meus presentes, me entregar cá nos braços do meu destino.

sexta-feira, novembro 15, 2013

"A gente aceita o amor que acha que merece."

As Vantagens de Ser Invisível, 2012.
Sobre sentar na pedra e ver navios ilusórios que nunca de fato atracarão no Porto, antigas alucinações afetivas do tempo em que fui menina.

terça-feira, novembro 12, 2013

O lado prático que se adquire ao vivenciar uma grande perda é encarar todas as pessoas como passagem e, além, saber se desvencilhar de cada uma delas sem maiores sentimentalismos destes inerentes a despedidas, descobrir a naturalidade dos desencontros e perdas ocasionais que outrora lhe renderiam rios de lágrimas, se desfazer, mandar um abraçaço, bye bye, au revoir, hasta nunca más, sentar e pedir um café.

segunda-feira, novembro 11, 2013

E, como já bem disse Saramago, "sentir, como perda irreparável, o findar de cada dia".

quinta-feira, outubro 31, 2013

Fico me perguntando quem foi a Ophélia que rejeitou Fernando Pessoa. E Dionísio para quem Hilda Hilst escrevia calorosamente seu amor mendigo, como deixá-la? Como dizer não a almas tão fundas, estas apenas exemplos rápidos entre zil que me ocorrem se me coloco a pensar, como escolher outra pessoa que não Pessoa, este em maiúsculo não à toa, como?

Eu me apaixonei por você num dia comum de uma semana que parecia com qualquer outra semana, enquanto você atendia uma ligação e, distraído, brincava o garfo em uma azeitona que sobrava dos seus restos de almoço. Eu fiquei te olhando e você franzia o canto da boca em nítida expressão de desagrado com o que falavam no outro lado da linha, ao passo que a azeitona teimosa escorregava dos dentes do garfo sujo e alguém me pedia licença para passar apertado entre a nossa mesa e a mesa de trás. Eu fiquei te olhando.

domingo, outubro 27, 2013

Memórias

Meu pai foi morto no dia oito de abril com uma flecha no meio do peito. Os médicos chamaram de infarto e eu os perdoei pelo diagnóstico falho, se estes não sabiam que estávamos atravessando uma guerra, se afinal os termos técnicos para causa mortis e a poeticidade da vida jamais poderão caminhar na mesma calçada. Eu não sou médica, nem poeta, mas pude assistir o momento em que ele foi atingido, colocou a mão sobre o peito e desfaleceu num semblante de dor, portanto posso opinar no óbito apenas como singela testemunha. 

Deram, depois, nas minhas mãos, um saco plástico com a roupa que ele vestia. E por esse pequeno gesto tudo começou, então, a tomar forma real. Pois se retiraram sua camisa, seus sapatos, se desnudaram seu corpo, era mesmo verdade que estavam tão certos do ocorrido a ponto de não nutrirem sequer uma mínima esperança infantil, como a que eu nutria, de que num arranco ele voltasse a tomar ar. E levantasse da maca. E viesse me dizer: ufa, foi por pouco.

Eu, que respeito as leis dos céus tanto como peito as leis dos homens, não cuspi inconformidades. Cuspi primeiro incompreensão, porque tenho o direito, e depois incompletude, essa prosa natural de todos os incompletos.

terça-feira, outubro 22, 2013

Disseram que eu tenho que escrever PARA FORA como se minhas palavras fossem o cento do salgadinho. Faço textos para fora. Campainha quebrada. Favor bater no portão.

que da noite pro dia você não vai crescer

Nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus

segunda-feira, outubro 21, 2013

vinte um de outubro

Parabéns para mim. Que eu continue sendo tão assim como eu sou. Que os céus digam amém quando meus desejos forem dignos de améns. Que estes meus anos sejam pouco perto de tantos outros que ainda viverei, se tenho muito a fazer por estas bandas de cá. E que um dia, quando o meu tempo por bem esgotar, que eu possa voltar cantando vitória aos braços do homem que me fez.
Sempre sou mais apaixonada quando chego em casa do que pessoalmente. E isso diz muita coisa, afinal.

terça-feira, outubro 08, 2013

Como é gostoso o que acontece a cada um desses que, por audácia, embarcam na loucura de ser quem se é.
Hoje só peço da Vida o que é meu. Não desejo nada além do meu caminho. Pois, se for de pedras, que seja. Minha prece não se baseia em quereres. Que chegue até mim o que melhor me cabe. Comerei de bom grado, se este for meu prato. Foi quando frente ao destino aprendi a ser pequena. Foi quando virei gente grande.

segunda-feira, outubro 07, 2013

Nada é demora quando descobrimos o prazer de todas as horas. Cada passo nos situa. Cada momento nos faz.
"Amor fati (do latim amor, nominativo singular de amor,óris: 'amor a algo' e fati genitivo singular de fatum,i, 'destino') é uma expressão latina que significa 'amor ao destino', 'amor ao fado'."
Nada é estranho aos olhos do mundo de hoje. Nada é chocante. Toda sorte de absurdo é dita e encarada com naturalidade. Neste tempo, tudo é normal. Matar a mãe, os filhos, o vizinho. Sentar-se durante um almoço a conversar com desconhecidos sobre seus estímulos anais preferidos. Normal.

quinta-feira, outubro 03, 2013

“No puede ser que estemos aquí para no poder ser.”

Cortázar, sempre pontual, em Rayuela (1963)

segunda-feira, setembro 30, 2013

Sobre os quandos, nada sabemos.
Você me pergunta como isso acontece assim, de repente, e usa a expressão do nada, que quer dizer sem circunstâncias antecedentes ou sinais prévios. E eu te respondo que se paramos e analisamos a vida, todas as Grandes Coisas, digo as que realmente pesam importância, estas acontecem assim, do nada, que quer dizer de forma arrebatadora e nunca antes imaginável. A vida, repentina por essência, acontece às quatro e quarenta e cinco de uma tarde morna, de supetão, enquanto você caminha por aí pensando que ordena os seus próprios passos. Aprende.
E que privilégio seu, plebeu, este de fazer parte das minhas notas, de se tornar personagem das minhas letras. Este de ser escolhido a esmo, sem precisar de esforços ou grandes feitos. E, de brinde, ainda ganhar todo esse livre acesso ao meu corpo, descobrir os meus ombros, tatear minha pele, me passear.
Eu te cismei. E não demora para que eu comece a lhe escrever todas essas mesmas coisas que um dia já escrevi para outros, mas que agora serão suas.

quinta-feira, setembro 26, 2013

Outra coisa é que, ao passo que desejo encontrar minha manicure, penso no quão desagradável será contar os eventos que justificam minha ausência. Talvez eu diga que sumi porque estou servindo ao exército, o que será uma meia verdade ou uma mentira poética. Além, pelo atual estado das minhas unhas, terei total credibilidade.
Tenho ouvido tanto que sou um doce um amor etc, que estou prestes a me candidatar ao Oscar. Grandes chances.
Para qualquer coisa sobre minha casa, conto com cinco pessoas. Até hoje não consegui entender que somos apenas quatro. Talvez nunca.

quarta-feira, setembro 25, 2013

Bored Couples:

Fotografia por Martin Parr, do ensaio Bored Couples (1993), onde a tão conhecida solidão a dois é explícita em retratos de casais desconectados. Vale a pena conferir o trabalho mais de perto. Arrisco dizer, aliás, que solidão a dois é o mal do nosso século. Tão comum. E, penso, talvez um dos maiores medos da minha vida esteja aí, nesta fotografia. Não sei meus porquês, só mil anos de análise explicarão minha repulsa ao boring. Sei que para mim, sem dúvida, a imagem é mais pavorosa que qualquer Diane Arbus.

terça-feira, setembro 24, 2013

Ainda sobre os ditos populares, posso discordá-los quando prefiro dizê-los, por exemplo: água mole em pedra dura, tanto bate até que esmurra. Também creio que quem tem boca pode ir tanto a Roma quanto à forca. E acho válido, sim, chorar e chorar pelo leite que por descuido se derramou, do contrário os poetas não teriam material de trabalho. Por último, devo dizer que se cada macaco permanecesse no seu galho, nós não seríamos sequer homo sapiens e viveríamos a descascar bananas ad eternum.

esmiuçando clichês:

"Nada como um dia após o outro" quer dizer, trocando em miúdos poéticos, que a melhor observação sobre os dias é que eles se sucedem continuamente. Portanto, ainda que hoje nossos corpos ameacem despencar em queda livre, o Amanhã é um trapezista circense que numa acrobacia nos pega a mão. Devo ressaltar, é claro, que facilitamos muito o trabalho deles se estamos levinhos.

segunda-feira, setembro 23, 2013

Quando suas mãos apertam minhas costas em uma massagem torta e seus ouvidos desobrigados compactuam com minhas frases extensas e despontuadas, com o meu tom pouco comedido, sem que seus lábios digam que deve-se ser assim assim assado.

você não existe, Dindi

"Ah, Dindi
Se um dia você for embora
Me leva contigo, Dindi
Olha, Dindi
Fica, Dindi"

Tom Jobim

domingo, setembro 22, 2013

E "eu também queria uma porrada de coisa" é o que tenho respondido aos milhões que me interpelam ao longo do dia para resolver os seus próprios quereres. Mas, infelizmente, não é por isso que a vida abre as pernas.
"Você é um homem ou é um rato?" é o que tenho perguntado em alto e bom som aos ratos, ainda que eu já saiba a resposta. Sou fã de perguntas retóricas.
aos navegantes aviso que nesta semana que se inicia talvez eu não disponha tanta energia para convencer os patos de que sou um pato, portanto a qualquer momento podem me descobrir infiltrada neste planeta que não é o meu, com essa fantasia que não parece comigo, e não me importo porque gosto mesmo de brincar com o perigo. quack
arrumar as malas é sempre bem mais que arrumar as malas, qualquer coisa é sempre bem mais que qualquer coisa se olharmos de perto
e o sol despretensioso atravessando a vidraça do jardim de inverno às cinco horas me lembra coisas bem Maiores
quem precisa de pontuação almofadinha
e que tu foste apenas um corpo dentre esses outros corpos que me mordem os lábios, me tocam a costela, me dão as mãos, e que tu mal soubeste onde mora a minha memória, esta que te lembra, que te traz de volta, que te redescobre em meio aos meus dias presentes, estes dias de paz abafada, de sossego ou de sufoco, estes dias que eu trocaria por um punhado de moedas, por um frio na barriga, por uma mensagem de ainda lembro (também descubro neste domingo de véspera, de pré mudanças, de pés fincados na terra, que eu reinvento certos sentimentos pelo prazer de escrevê-los, e de imediato fico rubra ao certificar a ilegitimidade do meu peito)

quarta-feira, setembro 18, 2013

Eu te amo há pouco mais de quinze horas.
Creio que as pessoas deveriam, de uma vez por todas, compreender que não existe a decisão certa. Escolher uma estrada é nunca tomar conhecimento do que as outras lhe renderiam. Nós, tão pequenos, nunca sabemos o que aconteceria se. Se seríamos mais felizes. Mais ricos. Menos amargos. O desenrolar dos fatos não é nada previsível, muito embora possa parecer. Não suponham as esquinas não percorridas, se estas não lhes pertencem. Salvo moralidades, não há opção correta, não há melhor escolha. O que nos torna, portanto, seres humanos inteiramente livres de quaisquer arrependimentos.

terça-feira, setembro 17, 2013

O que se ganha quando se perde pelo caminho todas as ilusões é a liberdade de viver sem nada por detrás. A vida se torna mais limpa. Mais precisa.
Constantemente me sinto falhar no propósito que eu mesma estabeleci. Minhas auto exigências exacerbadas. Por mais que eu faça, refaça, me doe, nunca estou satisfeita e sempre acho que eu poderia fazer mais. Mais e melhor. Com mais cuidado, mais atenta. Bebo minhas culpas.
Penso que nem os Céus estão livres de deslizes. De descuidos.
Todas as dores o Tempo tende abrandar, exceto a dor da morte física, da inexistência daquele corpo que outrora falava, sorria, dançava e hoje não está. Com o passar do calendário, a ausência torna-se mais pesada, mais real, mais convincente. É difícil duvidar de uma ausência quando ela teima em reafirmar-se todo tempo possível.
Sonhei que eu contava ao meu pai a dor de saber que ele não assiste eu me transformar numa mulher. E que jamais eu poderei fazer uma viagem e ligar para dizer: como aqui é bonito, pai! Que um dia eu conhecerei o amor, se até hoje nunca o soube, e não poderei apresentá-lo. Foi um sonho muito triste. Ele me dizia que, quando a tarde se põe, gosta de sentar na pedra mais alta para ficar me olhando lá de cima. Não nos dizíamos mais muita coisa porque, ao invés, eu chorava de olhar para ele e ele chorava de olhar para mim.

Liniers

segunda-feira, setembro 16, 2013

Muda-se, por vezes, uma vida inteira em cinco minutos e duas xícaras de café. Por outras vezes, entretanto, não. São possibilidades.

domingo, setembro 15, 2013

Muitas vezes, quando paro, lembro de como eu achava que seria o meu futuro. Um amor em cada porto. Ah, se eu fosse marinheira...

sábado, setembro 14, 2013

Outra coisa é que minhas palavras estão numa fase preguiçosa e não querem mover uma palha para que sejam compreendidas. E o meu bom humor responde que não tem problema porque não posso me culpar, afinal de contas, caso o raciocínio dos outros não queira mover uma palha para compreender minhas palavras. Maomé está balançando na rede, tomando chimarrão. E, se, a montanha que venha até ele. São questões.
Tudo na vida é contextual. Mera questão de enquadradamento. Inserido em contexto X, sounds good or not good. O que quer dizer, resumo, que nenhum conceito é totalitário. Agora não preciso mais falar nada porque já expus a sabedoria universal que, veja bem, descobri sozinha. Sorte de quem me lê.
Eu te amo há quinze horas foi uma frase que me ocorreu. Quero dizê-la. Sobretudo porque ficaria bonito num roteiro cinematográfico. O que eu digo sempre tem muito mais a ver com a cena do que com o outro. Não é nada pessoal.

terça-feira, setembro 10, 2013

- E você reza?
- Não.
- Por quê?
- Tenho lá minhas mágoas.
- Você quer falar sobre elas?
- Noutro dia, quem sabe.

segunda-feira, setembro 09, 2013

Como quem te percebe, deslizei os dedos por entre meus cabelos num gesto de denúncia própria. Também desviei os olhos e torci a boca como quem quer outra boca. Meu corpo é tão declarado que me enrubesce.
Penso em desde já costurar um vestido azul para não te receber nua quando você bater três vezes no meu portão.
Que o meu Caminho guie os meus passos. Amém.
Não existe uma única noite em que a minha mente não teime em repassar, quando as pálpebras recaem para encontrar o sono, todos os minutos do dia oito de abril. Todas as noites sou violentada pela minha própria memória.

Fellini


Não conheço sequer um homem mais macho que eu. Senta aqui, meu amigo, pede um café e eu te conto passo a passo dos meus dias, e eu te explico por que diabos você deve me respeitar.

quack quack

Amanhã pretendo voltar a usar minha fantasia de pato. Estou dando muita bandeira nestes últimos dias. Daqui a pouco descobrem que não sou um pato e estarei perdida neste incrível mundo de patos. Quack!
Um sonho recorrente que tenho com o meu pai é o de que ele volta a viver e sou tomada num susto - para depois, da mesma maneira, morrer novamente. É curioso porque eu digo a ele, em todos os sonhos, que da segunda morte é mais difícil ser salvo. Que nem sempre teremos a sorte da primeira vez, etc. Acordo atordoada.

domingo, setembro 08, 2013

fico besta quando:

"- Estou convencida de que o amor é a unica coisa a se viver. Minha infraestrutura é completamente amorosa. Eu queria viver sempre na paixão. Isso pode custar anos de vida, esse "viver" unicamente em função da paixão... Assim como uma corda esticada prestes a se romper... Enquanto a vida cotidiana, a vida doméstica, é uma coisa insuportável... Acho que só essa tensão, essa paixão, justifica o tempo que passamos a viver, e eu daria com muito prazer anos da minha vida para só conhecer esse estado... Mesmo que seja muito difícil de suportar, porque se acaba morrendo por isso, deixa-se a vida aí...
- No entanto, você diz que não conhece a fidelidade.
- É um pouco estranho, mas para mim existe um limite para a duração desse encantamento apaixonado. Um ano e três meses, acho que foi o máximo que conheci. E é terrível, porque, de repente - isso acontece de repente, de modo brusco -, eu não sinto mais nada... O encantamento acaba. O que o corpo procura é o encontro, essa descoberta inicial, esse olhar inaugural, o primeiro toque, a primeira carícia... E o que vem depois disso não passa de performances que, para mim, são um pouco tristes. Nunca mais vai ser a primeira, a segunda vez. O que eu sempre procurei foi esse encantamento: encher meus olhos com um rosto e pensar: meu Deus, nessa cabeça existem pensamentos que eu não conheço. Essa cabeça pensa de um modo desconhecido para mim. Há vinte anos eu já era assim. (...) Se eu sentisse vontade de amar um homem, eu falava para ele. Eu chegava até ele e dizia: "Escuta, gostei de você"; ou "Eu te adoro. Vamos sair juntos. Quero dormir com você". E as pessoas levavam isso a mal. Depois eu vi a mudança. A partir do momento em que, digamos, comecei a ter um nome, as coisas mudaram. Eu poderia me apaixonar por um leão e falar isso, proclamar: "Eu durmo com um leão, eu adoro esse leão"... E todo mundo ia achar incrível: "Você viu, a Hilda é extraordinária, ela gosta de um leão"... [risos]
- Você já foi casada?
- (...) E daí me casei com o homem com quem eu vivo agora. Tenho horror a expressão "meu marido". Ela me dá muita vergonha. Tive que empregá-la duas vezes em oito anos de casamento e, a cada vez eu me sinto enrubescer da cabeça aos pés. Acho abominável a situação de ter um marido. (...) Mas é terrível, porque a partir do momento em que o encantamento acaba, eu não suporto mais nada, nem que se aproximem de mim, nem mesmo que me olhem... O corpo morre, ele está morto diante do outro corpo, ele não está mais habilitado."

Hilda Hilst em Fico Besta Quando Me Entendem.
A reunião de vinte entrevistas com Hilda Hilst. Fico Besta Quando Me Entendem. Eu também fico, Hilda. E por isso hoje eu te trouxe para casa, para que a gente se entenda antes de dormir.

dos porquês

"É impossível capturar a vida se a gente não mantém diários"

Sylvia Plath, 1957, em Diários de Sylvia Plath.

quinta-feira, setembro 05, 2013

Que todas as noites ajeito os travesseiros sob minha cabeça, trago um pano molhado para as feridas, pergunto onde dói. Que me desdobrei por completo em duas para que uma cuidasse de mim mesma. Que temerosa me pergunto se vou embora de mim. Que me respondo Nunca. E que repito, quantas vezes necessárias, Nunca. Que suspiro aliviada. Que beijo minha testa. Que durmo, enfim.

que ao findar vai dar em nada

Gilberto Gil cantando Se Eu Quiser Falar com Deus. E ninguém, hoje, sabe mais do que eu sobre virar um cão e lamber o chão dos palácios suntuosos dos meus sonhos. Nem ele, talvez, quando escreveu, tenha lambido tanto o chão dos próprios castelos.
Meu pai não me mandou seu novo endereço para que eu envie as cartas que lhe escrevo. Eu fiquei esperando correspondências, que no dicionário quer dizer, também, relação mútua, reciprocidade. Neste mês são cinco meses. Eu fiquei esperando.

segunda-feira, setembro 02, 2013

Eu me fiz um cafuné até pegar no sono. Pedi que eu me acalmasse, é só um pesadelo, shhhh... Vai passar... Eu estou aqui... Eu não vou embora... Descansa...

domingo, setembro 01, 2013

"Aproveita enquanto eu quero" é o conselho que tenho distribuído a respeito de mim. Daqui a pouco é tempo demais.

O Segundo Sexo:

"Por isso mesmo não é o amor que o otimismo burguês promete à jovem esposa: o ideal que lhe acenam é o da felicidade, isto é, o de um tranqüilo equilíbrio no seio da imanência e da repetição. Em certas épocas de prosperidade e de segurança esse ideal foi o de toda burguesia e particularmente o dos proprietários fundiários que não visavam à conquista do futuro e do mundo, mas sim à manutenção tranqüila do passado, o status quo. Uma mediocridade dourada, sem ambição nem paixão, dias que não conduzem à parte alguma e que recomeçam indefinidamente, uma vida que desliza docemente para a morte sem procurar razões que a expliquem, eis o que propugna, por exemplo, o autor do Sonnet du bonheur. Essa pseudo-sabedoria, molemente inspirada em Epicuro e Zenon, carece hoje de crédito; conservar e repetir o mundo tal qual é, não parece nem desejável nem possível. A vocação do homem é a ação; ele precisa produzir, criar, progredir, ultrapassar-se em direção à totalidade do universo e à infinidade do futuro; (...) O ideal da felicidade sempre se materializou na casa, na choupana ou no castelo: encarna a permanência e a separação. É entre seus muros que a família se constitui numa célula isolada e afirma sua identidade para além da passagem das gerações; o passado conservado sob forma de móveis e retratos de antepassados prefigura um futuro sem riscos; no jardim, as estações inscrevem em legumes comestíveis seu ciclo tranqüilizador; cada ano a mesma primavera ornada das mesmas flores promete o retorno do imutável verão, do outono com seus frutos idênticos aos de todos os outonos: nem o tempo nem o espaço escapam para o infinito, ambos executam comportadamente o mesmo giro."

Simone de Beauvoir, por quem nutro uma eterna relação de amor e ódio, descrevendo como ninguém nosso pânico do cotidiano conjugal. O Segundo Sexo, volume dois, A Experiência Vivida. 1967.

One Art:

"The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster."

Elizabeth Bishop
Reagem todos com certa semelhança porque seres humanos são, por essência, farinha do mesmo saco.

quarta-feira, agosto 28, 2013

"Em mim todas as afeições se passam à superfície, mas sinceramente. Tenho sido ator sempre, e a valer. Sempre que amei, fingi que amei, e para mim mesmo o finjo."

Fernando Pessoa, com quem esta noite troco prosas antes dos sonhos, em O Livro do Desassossego.
Há muito mais escrito na minha testa do que aqui.
Meu passatempo preferido é ficar sentada ao sol, esteja ele - esteja eu - onde estiver. Por horas a fio, se possível for, como uma árvore criando raízes.
Ora, eu é que não quero descrever cotidianos, porque a verdade é que estes têm me feito menos bonita e menos saudável. Também não quero resumir minhas palavras a queixumes brabos, pois 1) não quero ser injusta com o Todo; 2) falar em broncas não transformaria em vinho toda essa água podre; e 3) o que se há de fazer. Prefiro, muito esperta, me abster de realidades e fazer destas páginas uma leveza que a Vida não me dá, um sopro, uns pincéis, tinta guache, massinha de modelar.
Nunca diria que, um dia, esta que se ocupa a publicar uma postagem pelo celular, fosse capaz de tal proeza. O papel e a caneta, órfãos, certamente sentirão tamanho abandono, se antes era eu uma das últimas defensoras. Daqui a pouco esqueço, triste, como desenhar minha própria letra. Ela é redondinha e espaçosa, com certo vão entre uma letrinha e outra letrinha, um cuidado para que possam respirar sem esforço. Sempre tive medo que as palavras morressem sufocadas. Sou uma preocupada.
A grama do passado é sempre mais verde. Os primórdios sempre são tempos heroicos de glória, talvez justamente por, de tão longínquos, tornarem impossível à memória constatação real da suposta bonança. O dia de hoje será aplaudido, sim, nos próximos futuros. Quando, enfim, relembrarmos imaginativos - e suspirarmos: ah, naquele tempo!

segunda-feira, agosto 26, 2013

Todas as noites eu me ponho no colo, troco meus band-aids, lavo minhas camisetas suadas, meus pés sujos, e digo pela manhã: vá lá, faz tuas brincadeiras! Eu me permito.

domingo, agosto 25, 2013

Noutra época, quando sabia ainda menos, fatalmente diria que estou me contentando com muito pouco. Hoje me respondo: e quem foi que te disse, mulher, que isso tudo é muito pouco? Olhe de novo. Mais devagar. Mais de perto. Mais atenta.
E quando eu nasci, Deus, ou nomenclatura que o valha, perguntou se eu de fato prometeria ser fiel a mim mesma na alegria e na tristeza, na saúde de na doença, e que nem a morte com todos os seus ilusórios fins nos separasse, amém. Aceitei o fardo. Eu me cumpro.
Quando se voa muito alto, quase sempre aterrissar em terra firme significa destruir os joelhos, tombar e ralar os cotovelos, salvo quando, devido a prática dos anos, o sujeito virou passarinho. E aprendeu a pousar tão bonito como se dissesse, enfim, isto faz parte da minha natureza.

Querida Thaís,

Há muito não recebo notícias suas. Espero que você esteja sendo generosa com os dias. Sobretudo porque eles são bem educados e, de tal maneira, costumam retribuir.

Estou tão cansada que mal consigo lhe escrever. Mas estou viva. Radiosamente viva. A vida é um playground e eu escorrego, balanço, trepo-trepo, caio de boca no chão e choro mamãe, soluço mamãe, mas não foi nada, já passou. Falo muito rápido, eufórica, tropeço nas frases porque as palavras não acompanham meu raciocínio, acho muita graça. Rio escandalosamente. Poucas vezes estive tão vibrante. E meu corpo vezes pede bis, vezes pede socorro dessa descarga emocional.

Ainda agora tomei um banho muito quente e deitei para ler Pessoa, O Livro do Desassossego, um dos meus preferidos. Começo a sentir algo parecido com a paz, este tão ilustre prêmio destinado aos plenos de si. Enfim me sinto acolhida e lembro Ana Cristina César, que uma vez escreveu "a gente sempre acha que é Fernando Pessoa". Como é grande esse nosso ímpeto de ser grande.

Amanhã recomeço. E não é, pois, para isso que servem os amanhãs?

Com saudades suas,

Natasha

domingo, agosto 18, 2013


"Como tudo, as palavras têm os seus quês, os seus comos e os seus porquês. Algumas, solenes, interpelam-nos com ar pomposo, dando-se importância, como se estivessem destinadas a grandes coisas, e, vai-se ver, não eram mais que uma brisa leve que não conseguiria mover uma vela de moinho, outras, das comuns, das habituais, das de todos os dias, viriam a ter, afinal, consequências que ninguém se atreveria a prever, não tinham nascido para isso, e contudo abalaram o mundo."

José Saramago em Caim, 2009.
Enfim reparo que você me repara de tal maneira que nem eu mesma, que descuido, havia reparado.
"Bom, é o que tem pra hoje" é o que repito com humor e cada vez mais frequência, quando ousam iniciar o blá-blá-blá insatisfeito. A maior lição de humildade que um ser humano pode experimentar é trabalhar com o que a vida oferece, sem maiores anseios quando estes são meras impossibilidades, sonhos longínquos, suspiros de nada. Isto é o que se tem. Queira o além, mas não baseie toda sua existência em hipotéticos aléns porque, é com muito pesar que sou obrigada a confessar, talvez não haja o pote de ouro no final do arco-íris. Ainda assim, vale a caminhada. Para bom entendedor, minhas palavras bastam.
"I know I have but the body of a weak and feeble woman, but I have the heart and stomach of a king."

Queen Elizabeth I

quinta-feira, agosto 15, 2013

Finalmente gostei de Caetano mandando um abraçaço.
Eu sou a pessoa mais engraçada que eu conheço e, somente no dia em que eu perder a capacidade de rir de mim mesma, é que de fato constatarei que está tudo perdido.

terça-feira, agosto 13, 2013

"Mas o tema da cegueira tem muito mais que ver com uma convicção minha, que nós, no que toca a razão, estamos cegos. Uma vez que decidimos que somos os únicos seres racionais na face da Terra, o que foi uma decisão nossa, ninguém veio cá de fora, vindo de outro planeta ou de outro sistema, dizer que nós somos racionais."

José Saramago, com quem tenho me deitado todas as noites e por quem tenho me apaixonado irremediavelmente, em entrevista a Folha de S.Paulo, 1995.
Hoje eu gostaria de ter a mente descansada, bem dormida, para me colocar à disposição das palavras durante horas a fio. E fazê-lo seria nada mais que me colocar à disposição de mim mesma. Escrever é, em mim, a única maneira de me dar ouvidos. E eu tenho tanto a me dizer!

segunda-feira, agosto 12, 2013

Neste agosto estas páginas completam cinco breves e inflamáveis anos. Reli muita coisa. Sorri muita coisa. A graça da vida deve estar justamente em não poder voltar e explicar para gente o que a gente só aprende depois.

domingo, agosto 11, 2013

Às adversidades é que tenho dito: cá entre nós, coleguinhas, já escalei muros mais altos.
Me perguntaram por que diabos construo tantas barreiras por vezes intransponíveis para o meu coração, e eu respondo que, para se chegar até um rei, há de se enfrentar um batalhão de soldados.
Feliz dia dos pais ao homem que pode se mudar de Casa, mas nunca de mim. "Obrigada por ser você" é o que eu costumava te escrever, é o que eu ainda te escreverei pelo resto dos meus dias. Voa longe, pai. Voa alto que os desta terra não merecem o seu peito tão bonito.

sábado, agosto 10, 2013

Esmurrando ponta de faca enquanto a Vida calmamente me observa e pergunta, vez ou outra, se minha mão já sangrou o suficiente para que eu enfim me convença a juntar meus paninhos de bunda ou se ainda quero mais.

segunda-feira, agosto 05, 2013

Teu amor é do teu tamanho.
Teu amor é do teu tamanho.
Teu amor é do teu tamanho.
Teu amor é do teu tamanho.

domingo, agosto 04, 2013


Frida Kahlo, 1946.

Notícias ao meu pai:

Eu tenho mil e uma ausências que me fazem companhia.
Excesso de paciência é resignação. Eu sempre tive medo de me tornar paciente e acabar resignada. É temerosa, e por não ter outra escolha, que rogo paciência.

II

Que a minha alma esteja presente durante todos os meus presentes - e se livre da mania torpe de vagar pelo passado ou ansiar eufórica pelos minutos que ainda sequer existem. Que eu saiba estar.

I

Que os meus olhos, cansados de muito olhar para dentro, passem a enxergar uma árvore tal como uma árvore (pois se há tanta beleza em ser árvore!), uma xícara de café não como um mar de reflexões enfumaçadas e sim como uma xícara de café. E, só assim, meus mesmos olhos fartos possam descobrir uma nova maneira de olhar: com os olhos, pois, não mais com o cérebro.

I've been to sea before


Do fundo do fundo do fundo da Alma.
Todas as minhas preces entram, enfim, em comum acordo.

domingo, julho 28, 2013

Eu me sinto tão covarde quando, aos domingos, adio a hora de dormir como quem cruza os braços e se recusa a iniciar uma nova semana. Ora, se tantos milagres podem morar nos próximos dias! Se tanta beleza escondida pode estar esperando que eu chegue, enfim, no amanhã. Deixa de ser frouxa, mulher.
Ultimamente tenho sentido repulsa por sofredores. Exceto, óbvio, dores existencialistas porque a estas faço muito gosto.
Dia desses uma pessoa próxima suspirou duas vezes e disse, cansada, que gostaria de desistir da vida. Respondi que não é preciso se dar ao trabalho porque a vida, de tão breve, daqui a pouco acaba por si só. Num piscar de olhos. Relaxem.

quinta-feira, julho 25, 2013

quarta-feira, julho 24, 2013

quinta-feira, julho 18, 2013

Todo não dito está escrito em nossos semblantes. Ah, se os outros olhos fossem espelhos! E pudéssemos, por um instante, olhar para nós mesmos, constatar cada auto-denúncia que mora numa sobrancelha levantada, uma boca torcida, um olhar desviado.

segunda-feira, julho 15, 2013

Hoje mandei duas pessoas para o inferno. Mentalmente, porque minhas palavras são muito bonitas para que eu faça uso o tempo inteiro. Não quero gastá-las. E também porque se mandamos para determinado endereço, o essencial é que sejam devidamente enviados. A maneira é desimportante.

ah!

"Até que, de dor e cansaço, ambos cochilam, no ninho da resignação. E eu não aguento a resignação. Ah, como devoro com fome e prazer a revolta."

Clarice Lispector, que recordo pois desde os primórdios me faz companhia, em A Descoberta do Mundo.

Pai,

Outro dia, enquanto eu estava sentada ao sol com o meu café, um homem saiu da emergência urrando eu quero o meu pai. Provavelmente o pai dele havia acabado de falecer. Terminei o meu cigarro e, em seguida, passei direto por ele para voltar ao trabalho. A normalidade é enfim atingida pela quantidade de vezes que uma cena se desenrola frente aos seus olhos.

Lembrei que na sexta-feira anterior a sua morte, sentada ao sol naquele mesmo lugar, te enviei uma mensagem contando os meus maus pressentimentos. Eu te disse, ainda que inexplicavelmente, estar com medo de que alguma coisa ruim acontecesse. Foi a última mensagem que trocamos. Você, talvez o único que levasse a sério minhas palavras, ficou preocupado e pediu que eu viesse para casa.

Eu vim. Na segunda-feira você é quem foi para sua Casa. E eu fico triste porque a gente bem que poderia, de vez em quando, visitar a casa do outro.

Não quero mais te escrever, se toda vez me faz chorar, entretanto eu preciso te falar. Durmo e acordo precisando te falar.

Natasha

domingo, julho 14, 2013

quarta-feira, julho 10, 2013

Porque tão repentina quanto a morte é a própria vida. De repente, numa próxima esquina, a gente encontra, desencontra. De repente a gente ama. De repente a gente deixa de amar.
Quando toda gota é gota d'água, vive-se a transbordar.
Eu não conheço nenhuma outra pele tão à flor de si quanto esta que me reveste. Nasci em carne viva.

terça-feira, julho 09, 2013

Traduções literárias são tão necessárias quanto criminosas. As palavras precisam dançar balé e então, se você as substitui por outros sons, ainda que com sorte o significado seja mantido, o texto se transforma num espetáculo completamente distinto do original. Quase sempre desordenado, diga-se de passagem, e feio, pobre, já que o objetivo de uma tradução consiste apenas em conservar o sentido. Julgar um autor sem tê-lo conhecido no idioma de origem é julgar um autor que não existe. Linguagem é intraduzível.

segunda-feira, julho 08, 2013

quack

E beira o ridículo minha fantasia de pato. Ora, se não sou pato!
Quase sempre me envergonho por ser grande. Chego a corar se por descuido enxergam o meu tamanho. Fico nervosa quando me vêem.
Solidão só existe para provar que compartilhar é coisa muito séria.
No dia oito de abril, há exatos três meses, o meu pai ficou invisível a olho nu. A minha sorte é que ao longo dos anos ele teve tempo suficiente para me explicar que isso não quer dizer quase nada.

Pai,

Se é verdade que sou, dentre tantas, uma privilegiada por ter nascido sua filha, também sou obrigada a aceitar, neste silêncio de prece, minha dor descomedida.

Porque nós dois conversávamos vezes e vezes sobre todas as coisas e já havíamos concordado, por fim, que não se pode escapar a dualidade da Vida. Quanto maior a benção, maior a sombra que lhe acompanhará. Tão grande a coroa, tal qual a cara.

Minha garganta arde em nó. E eu, que desde cedo tomei ensino pelas suas palavras, aceito até o insuportável.

Natasha
"E se fores tu a primeira a morrer, Bendito seja quem te trouxe a este mundo quando eu ainda estava nele"

Saramago
"Levei dezoito anos para chegar aqui, Alguns dias mais não te farão diferença"

José Saramago, que descubro tão bonito a ponto de encher meus olhos cascudos, em O Evangelho Segundo Jesus Cristo. 1991.

domingo, julho 07, 2013

Pai,

No sábado acordei e ouvi música, falatório em tom festivo. Ainda inconsciente pelo sono, meu primeiro pensamento foi "meu pai voltou". Durante uma fração de segundo fui invadida por uma felicidade indescritível. Imaginei que eu pudesse descer as escadas e encontrar você. Procurar esperançosa seu rosto no meio de tantos outros rostos é, sem dúvidas, a pior dor que eu já experimentei.

Entre trancos e mil barrancos, tenho buscado ser feliz porque essa era sua maior vontade. Você é tão bonito e nunca exigiu que eu fosse qualquer outra coisa além disso. Não tenho, então, qualquer objetivo além deste. Nenhum amanhã me pertence, eu não quero ter notícia deles. Hoje aqui, amanhã não sabemos. Permaneço viva para ser feliz. Com o pouco que os dias me oferecem, do jeito torto que muitas vezes é possível. Das minhas tripas eu faço coração. E, notei, também tenho feito coração de todo resto.

Eu te amo - e tenho passado muito amor adiante.

Natasha

sexta-feira, julho 05, 2013

e agora, José

Não existe escrever sem fumar. Eu suportaria até, veja bem, tomar café sem fumar. Escrever, não. Penso em qual dos dois vícios ficará pelo caminho. Nenhum.

mas

O meu pai queria ir pra Índia. O meu pai me falava sobre muitas coisas que gostaria de fazer, "mas não posso, não sou só eu". Como são cretinas as ligações humanas. O amor pode ser cretino, também.

eu quero outra coisa

Entupida de buzina, outdoor, fila do caixa, asfalto. Que grande merda. Lembro Dulce Veiga, personagem de Caio Fernando, que repetia insistentemente "eu quero outra coisa" antes de desaparecer.

sonhando baixinho

Todos os dias penso em acordar numa casinha branca perto da praia, lá no interior do Maranhão ou destino que o valha. Posso ter várias profissões: vendedora de empadas, fazedora de artesanato (caixinhas coloridas, porta jóias, souvenir) ou até mesmo auxiliar o meu marido com a venda dos peixes. Ele não é lá muito estudado. Penso muito também no nosso vira-lata, que já falei que se chama Osório. No final do tarde, depois de recolher as roupas do varal e coar o café, balanço na rede. À noite vou escrever poemas e namorar. Depois dormirei, enfim, o sono dos justos, já que nenhuma preocupação terá o meu endereço.

Não é fugir. É encontrar.

quinta-feira, julho 04, 2013

Querida Thaís,

Sobre ser alguém melhor: o que é exatamente isso? Quero dizer, entendo completamente quando leio que ao lado dele você é uma pessoa melhor. Já me senti assim, mas nunca foi o suficiente para sustentar uma relação. Na realidade, parecia mesmo um namoro diet. Soa como: não ingiro frituras, troquei a cerveja pelo suco de laranja, pratico exercícios físicos e nem pensar em carboidratos à noite. Estou cuidando de mim, etc. Válido. É uma sensação boa, sadia, nunca gostosa. O que acontece é que você sempre vai pensar em devorar uma pizza calabresa com ketchup enquanto ninguém estiver olhando. (Adoro minhas metáforas.) Com o tempo passei a me perguntar o que é, afinal, ser alguém melhor. Nos meus olhos, ao menos, não é para isso que a vida se propõe. Teimo: não quero ser alguém melhor, quero ser alguém feliz.

Sorri enquanto lia suas outras notícias. São tão bonitinhos esses embaraços sentimentais. Não saber o que dizer ou onde colocar as mãos. Esse acanhamento afetuoso é a sensação mais doce que alguém pode experimentar. Senti saudade de sentir. É linda essa insegurança, o esconde-esconde declarado de ambos corazóns. Conte mais vezes, gosto de relembrar se já não sinto.

Um beijo,

Natasha

terça-feira, julho 02, 2013

aliás...

"É um favor que você me faz" é o bordão debochado e tão sincero que tenho respondido sorrindo a quase todo mundo.

esta postagem não tem um título

Para Vida só se responde "sim senhora". Batam continência. Qualquer outra hipótese é uma loucura que, ao frigir dos ovos, vai resultar na mesmíssima coisa, exceto pelo fato de ter despendido energia em vão. O importante, e neste fazem confusão, é saber diferenciar o que é a Vida - a natureza dos fatos - do que é massinha de modelar.

esta postagem não tem um título

Sou contra qualquer mudança interna que exija esforço. Podem me chamar de comportamentalmente preguiçosa. Podem me chamar do que acharem devido. Que seja. Não sou a favor de nada que desperte uma batalha minha comigo mesma. Toda e qualquer mudança, ruptura de ciclo, deve acontecer com naturalidade. Não nado contra minhas próprias marés. Não emprego força contra mim mesma. Danço conforme o meu som. Seria uma tolice agir ao contrário.

esta postagem não tem um título

Cada dia que passa, estou mais perto de concluir minha tese de que o mundo é um grande circo. Não tenho chão e, ao passo que me desespero, também concluo que se abster de razão existencial concede uma liberdade enorme aos ditos desgraçados que, se observados sob um ponto de vista mais otimista, podem ser chamados de privilegiados. Quando não se tem nada a perder, a vida aos poucos se desarma. Os dias não têm o poder de te frustar caso você não exija sequer a existência deles. Os dias, por fim, assumem um tom bobo, quase risível.

título da postagem

O blogspot não permite mais que eu publique textos sem título. Estou profundamente incomodada em ter que nomear tudo que eu sinto. Além do mais, ele me conhece há cinco anos. Já existe tempo hábil para compreender que eu só faço o que eu quero. A concorrência cresce, a internet é um universo e eu bem que poderia, qualquer dia desses, mudar de espaço. Basta eu cismar.

sexta-feira, junho 28, 2013

quinta-feira, junho 27, 2013

Você me diz que não o ama mais. Sofre, porém. Eu te respondo que você ama o espaço que ele ocupou e ainda não foi novamente preenchido. É amor, creio eu, de qualquer forma. O que difere é o predicado. Quem ou o que é amado. O objeto. Acontece a todo momento, em todos nós. Tão normal confundir amor. Tão banal.
Hoje meu texto está muito duro. E não falo sobre a essência, que é sempre a mesma, sim sobre a forma. Existem dias, portanto cito o de hoje como exemplo, em que as palavras estão mais sólidas. Quase imponentes. São ditadas e marcham como soldados. Noutras vezes estão mais molinhas, mais mulheres. E não é verdade que ninguém repare. Sentem. Um texto é sempre sentido, ainda que não saibam discorrer a respeito do que foi lido. Não precisam, aliás. Só o faço porque tenho tara em metalinguagem. "Metalinguagem é dor de corno", já dizia Ana Cristina César cheia de razão.
Não quero escrever mais nada. E a frase anterior nem teria sido escrita caso isso fosse verdade. Existe um princípio humano, e para tanto eu sempre digo que certas reações são universais, que dita a seguinte norma: aquilo que é verdadeiramente decidido e acordado entre si e si mesmo, não sente necessidade de ser anunciado. Desconfio de tudo que é exposto. De todos os poetas, de todos os políticos. De todas as palavras que saíram das gargantas.

Pai,

Estou há muito tempo olhando para esta tela em branco, escolhendo palavras. Chorei três lágrimas, fumei dois cigarros e não encontrei nenhuma. Resolvi, então, começar deste jeito torto para que ao menos haja a primeira linha, a primordial. Depois dela, todas as outras se sentem mais seguras, mais acolhidas.

Espero que você me perdoe pelo que fiz às nossas lembranças. Eu as escondi em algum lugar terrivelmente fundo da minha mente e, hoje, não sei mais pensá-las. Sei que o meu corpo funciona num processo de defesa magnífico, a minha cabeça trabalha em prol da minha sobrevivência. E a verdade mesmo, que antes eu só expunha a você e hoje se tornou tão pública, é que eu estou morrendo de medo. Tenho consciência de que todo este decurso é irreversível e certamente acarretará, cedo ou tarde, um curto circuito psicológico.

O que eu tento dizer, pai, é que já nem parece que eu estou escrevendo para você. E que tudo isso me aterroriza.

Eu não sei onde você está. Não sei onde foi que eu te escondi. Eu não quero te perder, pai, e eu morro de medo de te encontrar.

Te amo como sempre. O amor é imutável por natureza.

Natasha

quarta-feira, junho 26, 2013

todo não trocará de camisa
ah! um dia 

Esperança significa, no dicionário, que haverá o dia em que cada não mudará de ideia. Chegarão a conclusão, por fim, tão tolos, que desde o principio estavam enganados.

domingo, junho 23, 2013

Um dia eu vou contar para todo mundo quem eu sou. As estradas inimagináveis por onde desde muito cedo andei. E vou contar para todo mundo de uma vez, para que não haja privilegiados. Mesmo que reajam incrédulos. Não quero morrer fazendo segredo da minha história. Não é para isso que eu estou aqui. Eu nasci para viver nua. No entanto, nunca tirei a roupa para ninguém.
Encontrei poesias que escrevi aos quinze anos. Não sei se choro de vergonha ou de carinho.
Para escrever, basta começar. Descarto esses rituais poéticos. Não sei de onde essa gente busca tanta inspiração. Meu único conselho é sempre: sente a bunda na cadeira, olhe para dentro e pronto. Inspiração é desculpa de vagabundo que não quer ter trabalho. Tem que esperar os pássaros cantarem, o sino bater, etc.

Pai,

Minha mente está sobrecarregada. O curioso é que não posso esvaziá-la porque, ironicamente, é isso que tem me salvado. Tenho agarrado com unhas e dentes cada mínima adversidade que a Vida me impõe e, só assim, não me lembro do fato maior. Cada vez alimento mais a minha cabeça. Até que um dia ela exploda. Amém.

Assim posso então continuar a viver pensando que você está ali, vendo televisão. Às vezes quase posso ouvir sua voz chamando "Nat" pelos corredores. E mentalmente respondo "oi, pai".

Noutro dia uma psicóloga informalmente me falou que estou estacionada na fase de negação, uma das etapas do luto. Que posso ficar aqui durante anos, inclusive. Lembro que nós dois sempre dizíamos "tinha que ser psicóloga!" quando ouvíamos qualquer bobagem. Desta vez, penso eu depois de ler a respeito, pode fazer certo sentido.

Sei mesmo é que hoje é o 76º dia em que sobrevivo sem chão. E só o fato de numerá-lo já é um forte indício de que o encaro como algo passageiro, como quem ignora a realidade e conta os dias para tudo isso terminar num passe de mágica. Esqueço o nunca mais. E estou de pé, entre mortos e feridos. São 76 flechas e eu ainda não caí. Todo dia é dia de vitória. O jeito que dou para isso é o de menos, afinal.

Eu te amo desesperadamente.

Natasha
E talvez estas páginas tenham perdido a razão.

sexta-feira, junho 21, 2013

Quanto índio sem cacique. O povo precisa ser conduzido. Isto é primário. O líder do movimento é o Facebook. Ou seja, vocês mesmos. Ou seja.

por mais zil anos

"Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Motos e fuscas avançam
Os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais"

Caetano

quinta-feira, junho 20, 2013

Tentei chegar a determinado estabelecimento sem sucesso, o mesmo fechou suas portas em razão dos protestos. Apesar do descontentamento por não cumprir meu objetivo, tentei ser compreensiva em prol de algo maior. Enquanto esperava o sinal abrir, observei de perto meia dúzia de manifestantes devidamente pintados e reunidos. Aos berros como um animal, um menino pulou nas costas do amigo e tirou a camisa para rodopiá-la no ar. Uma gordinha distraída mascava chiclete enquanto ajeitava a saia. Outras duas faziam pose para foto. O sinal abriu antes que eu pudesse encontrar a garrafa de vodka, que certamente devia estar por ali. Era o circo. O cordão do bola preta. A cena parecia qualquer coisa, menos uma manifestação política. Foi aí que tudo isso começou a me incomodar.

Eles publicaram hashtag vemprarua. E foram. Querem que o governo mude. Mude de quê? Mude pra onde? Não fazem a menor ideia. Por favor, às crianças saltitantes: brinquem com as máscaras V de Vingança no quintal de casa. Vocês vão acabar morrendo por um ideal QUE VOCÊS NÃO TÊM. Por uma foto no Instagram.

A polícia não vai querer saber se você está ali apenas para socializar. Você não vai poder responder ao BOPE: desculpa, vim só para dançar.

É preocupante.

quarta-feira, junho 19, 2013

Pai,

Não tenho sentido sua falta porque só sinto falta do que não está. Não é o caso. Nós sempre conversamos tanto sobre o que não pode ser visto a olho nu, você me ensinou que nem tudo é o que parece.

Eu não choro sua ausência porque ela não existe. Eu choro de vontades: vontade de passar a mão no seu rosto, vontade de ouvir sua voz. Eu choro de caprichos.

Natasha
Diariamente descubro que há mais gente me lendo do que eu supunha. Muito mais. Olhos inimagináveis os que eu descubro por aqui. Deixem os sapatos do lado de fora. Pisem com o pé descalço. Falem baixinho. Vocês estão dentro de mim.

Pai,

Eu nunca vi nada tão assustador quanto 2013. E desta vez não estou falando necessariamente do meu umbigo. Nem da nossa casa, nem da nossa família. Constato que sobreviver no meio de ruínas não tem sido uma exclusividade minha. Todas as manhãs escuto pessoas diferentes, as mesmas que antes levavam uma vida tão estável quanto a minha, me contarem sobre como tudo está desmoronando. Estou falando de doença, câncer terminal, morte, suicídio, tiro na cabeça. E eu os abraço - porque minhas palavras bonitas já se esgotaram faz tempo.

Ah, Dona Morte! Suas razões nos são tão desconhecidas. Ainda assim, eu te respeito. E peço aos outros que igualmente te respeitem. Há muitos anos digo que só respeito o que é maior que eu. Cumpro, então, meus preceitos.

Noutro lado, tento me distrair com a televisão e vejo milhões de pessoas tomando as ruas em resposta violenta à escravidão que nos é imposta ao longo de tantos anos. É o único assunto nas páginas da internet, no rádio, nas bocas. Acho muito justo. Porém, insisto, existe alguém que possa me contar levezas? Eu queria brincar de demora num lugar bem bonito, um lugar que eu nem conheço ainda. Ouvir coisas brancas, repousar meu caminho. Foi o que hoje eu disse aos outros, que concordaram por unanimidade. A paz está em extinção. Matéria rara.

Pai, eu me sinto no meio de uma guerra. Não saberia fazer outra comparação. E estou tão cansada, tão machucada. Eu preciso de fôlego, constantemente me sinto afogar.

Natasha

terça-feira, junho 18, 2013

segunda-feira, junho 17, 2013

Se porventura minha autoestima sofre um baque, venho até aqui e passo cinco minutos lendo quem eu sou. Num instante o problema tem fim.
Outra coisa imutável sobre mim mesma é o pânico do cotidiano, esse monstro que nos esmaga diariamente. É por tanta rotina que se desaprende a olhar para dentro. Vocês não sabem mais quem são - embora saibam o que devem fazer no dia seguinte. Como deve ser triste uma existência inteira sem saber de si.
A vida é muito rápida para que as pessoas sejam tão lentas. Há um desacordo temporal. Eu sempre fui urgente e pretendo manter o ritmo.

domingo, junho 16, 2013

Descobri que aqui estou muito mais pública do que supunha. Por uns instantes, desejei passar a escrever somente para as minhas gavetas. Estou nua. No entanto, prossigo.

Pai,

Este é o primeiro domingo em que não sinto dor. Sei da minha razão e te explico: noutro dia mesmo eu discursei aos que me cercam certas palavras que já existiam dentro de mim, porém só tomaram forma sólida depois de enfim expostas.

Explico ainda melhor: você sempre me falava que não compreendia o amor que as pessoas diziam sentir. Pois, você dizia, o amor é tudo menos egoísta. Quando se ama, então, o natural seria desejar o que há de melhor para o outro, ainda que o melhor para o outro não seja o melhor para si mesmo.

Foi então, enquanto eu repetia suas palavras, que pela primeira vez em toda minha vida eu entendi - porque senti - o que é o amor. Foi quando eu disse aos outros, e talvez minha afirmação possa ter causado certo desconforto, que eu teria consentido caso tivessem me pedido autorização para te levar. Eu teria dito que sim, que o levem de mim, que não te deixem agonizando num mundo tão frio, tão pobre. Você merece as coisas mais bonitas, pai. Se os que habitam este planeta não tiverem olhos para enxergar quem você é, que te levem para o próximo.

Eu não tenho o direito de querer você ao meu lado pelo simples fato de precisar de você. As minhas necessidades são só minhas. Mesmo que eu me sinta assustada, como um passarinho que ainda não tem asas suficientemente grandes para voar sozinho, hoje eu sei o que é o amor e me sinto feliz por sabê-lo.

Natasha
Não devo num gesto bruto matar todas as minhas esperanças, principalmente no caso de estarem frágeis e debilitadas. Isto se chamaria covardia. Abuso de poder. Caso eu queira mesmo destruí-las, que ao menos o faça com dignidade - quando elas estiverem de pé, suficientemente saudáveis, em condições de lutar para quem sabe por fim permanecerem.

sexta-feira, junho 14, 2013

Amanhã vou dizer uma porção de coisas que estão acumuladas. Estou ansiosa. Por sorte confio plenamente na minha memória, tendo em vista que não tenho nada documentado desde terça-feira. Não escrevo hoje porque estou muito cansada, não me sinto necessariamente hábil com as palavras e acabaria estragando todos os meus pensamentos por não saber contá-los. Não é assim que se escreve. Há de se respeitar.

terça-feira, junho 11, 2013

Deus - pois é assim que eles te chamam, Vida - obrigada por este dia brando. Que ele saiba permanecer, ainda que eu precise fechar os olhos agora para só abri-los novamente quando o sol nascer. Se o relógio não existe, é possível que se viva o dia anterior no próximo. Dormir não interfere no Tempo. É um ato dentre todos. Não tem, portanto, poder para terminar ou começar coisa alguma. Um dia pode durar dois, três. Um dia pode ser eterno.
"Se eu não tivesse escrito Amarelinha, provavelmente teria me jogado no Sena."

Julio Cortázar, extraído de Conversas com Cortázar.

segunda-feira, junho 10, 2013

"Hoje, não só entes queridos, esposa e filhos, mas a humanidade perde silenciosamente um guia(...) No exercício incansável de fazer o bem, Walter Pinto nos ensinou a sentir o gosto do azul, o bálsamo do verde e, sobretudo, a alegria do instante, a importância única do momento único repleto de alegrias que, somente ele, o pai, poderia nos proporcionar. Quem entre nós será capaz de esquecer a fartura de suas festas e a abundância de seus abraços. Para nós ficam não somente as lembranças, mas em principal os ensinamentos que nos foram passados com toda a paciência do sábio que tivemos o privilégio inegável de abraçar."

Fábio Mazzarella

domingo, junho 09, 2013

Hoje me disseram "não é o fim do mundo" e eu respondi "fale por si". Não afasto de ti esse cálice. Não mais. Cansei de ser condescendente com a falta de tato alheia. Eu não exijo que ninguém saiba o que me dizer, mas seria bom se soubessem ao menos o que não dizer.

sábado, junho 08, 2013

"Filha, Deus foi muito bom comigo quando resolveu te mandar ao mundo novamente ao meu lado."

Seus bilhetes, que sempre me doem mas nunca me matam.
Quando eu era criança, passava a mão no seu rosto e dizia: que barbinha confortável! Você ria porque, afinal, é engraçado adjetivar uma barba assim. E também porque eu ainda nem sabia ao certo o que significava confortável, mas criança tem mesmo o direito de ser irresponsável com as palavras. Fernando Pessoa dizia que as crianças são muito literárias porque dizem como sentem e não como deveriam dizer. E eu, na minha meninice, estava coberta de razão. Pai, você era muito confortável.

Pai,

Hoje pensei que sou uma mulher de muita sorte. Na grande maioria das casas onde eu entro, existe um pai - porém não existe a mais vaga ideia do que significa isso. Não existe um homem capaz de ser, de fato, um grande porto. Não existe um grande homem.

A nossa casa sempre foi casa de gente grande. Crescemos graças ao seu tamanho. A sua coragem me fez tão corajosa. A sua força me fez de aço.

Quando eu penso, então, que por azar poderia ter sido composta por qualquer outro, agradeço aos céus.

Que te levem cedo! Que seja. Antes breve do que nunca.

Natasha
É madrugada. O relógio faz tic, depois tac. Não sinto nada. Estou encolhidinha dentro de mim. Estou me pertencendo.

sexta-feira, junho 07, 2013

Hoje, por acaso, encontrei a palavra que tenho buscado: crível. Nada parece digno de credibilidade. O mundo é muito maquiado para que me faça gosto. Maquiagem barata, daquelas que mal resistem ao tempo. Vocês não são feios quando pecam, erram, tropeçam. Vocês não são feios quando acordam. Vocês são feios quando se fantasiam. Não convence. Quando, portanto, não se crê em nada do que se olha, a existência neste planeta onde por acaso nasci e vos observo, enxergo, escrevo - "Y me dijo: Escribe; porque estas palabras son fieles y verdaderas"¹ - carece totalmente de sentido.

¹Alejandra Pizarnik. El Infierno Musical, 1971.

quinta-feira, junho 06, 2013

wings of desire:

"Dedicated to all the former angels."

Wim Wenders, 1987. Meu imbatível.

Pai,

Hoje estou mais perto de te encontrar que ontem. E amanhã estarei mais perto ainda. Cada dia é menos um dia.

Aguenta que eu vou chegar!

Eu te amo.

Natasha
A minha única vontade é abrir o portão e sair correndo para tão longe quanto minhas pernas forem capazes. Mas, como dizem os mais rudes, vontade é coisa que dá e passa.
Detesto livro de historinha. O sol brilhava no céu, o âmbar do abajur na vidraça refletia doze tons distintos num brilhante arco-íris enquanto Fulaninho desamarrava o cadarço. E dá-lhe tinta, e toma-lhe página descrevendo a temperatura do solo. Pro inferno. Fico cansada. Tenho vontade de perguntar ao autor: vai mostrar logo pro que veio ou vai ficar de palhaçada? Literatura que me enche os olhos é pá, pum. Ou me vence de primeira ou nem adianta mais tentar.

quarta-feira, junho 05, 2013

Hoje eu não quero escrever nada e já tive, até o momento, duas discussões comigo mesma por conta disso. Existe sempre uma que diz o que eu tenho que fazer. E, na contramão, outra que nunca quer obedecer. Fico me olhando como uma terapeuta de casais. Ajeito o meu óculos, digo que é complicado, que alguém tem que ceder, etc.

segunda-feira, junho 03, 2013

Em letras miúdas, segue meu maior segredo: eu tenho um bicho de dormir. O nome dele é Bicho. Meu pai me deu quando eu era pequena e nunca mais consegui dormir sem. Quando viajo, mal consigo pegar no sono porque, ainda que eu encontre uma almofada substituta, não é o Bicho. Ele tem umas botinhas que estão rasgadas, já está muito velhinho e, digamos, bem prejudicado pelo tempo. O fato é que recentemente ganhei um hipopótamo, Rodolpho, e sem saber como agir acabei por permitir que ele também dormisse na minha cama. Minha mãe, ao me ver dormir abraçada com Bicho e Rodolpho, esmagada, encheu os pulmões de crueldade e falou referindo-se ao meu primogênito: está na hora de jogar isso fora, está velho e horroroso. Fiquei atônita. Nem deu tempo, veja bem, de cobrir os ouvidos do pobrezinho. Fui bem ríspida e perguntei se ela gostaria de ser jogada fora quando ficasse velha e horrorosa. Depois pedi desculpas ao Bicho, expliquei que ela havia falado da boca pra fora. Ainda bem que ele é muito compreensivo.

domingo, junho 02, 2013

Pai,

Ser pega chorando é como ser pega nua. Então me escondo, me cubro, me tapo e só encaro os outros com a minha máscara austera dizendo que está tudo bem, tudo em ordem, tudo certo e que não há o que temer. Digo que você está em paz, que temos que nos manter vivos uns pelos outros, que ainda somos uma família, que a guerra ainda não terminou e seremos vencedores como sempre nos foi prometido. Digo, às vezes, coisas que eu nem sei se ainda acredito. O importante é que acreditem.

Os domingos são especialmente pesados. A casa é fria, não ouço suas músicas, não vejo você dançando, bebendo, brincando. Senti cheiro de churrasco em algum vizinho próximo e, definitivamente, é um cheiro que eu gostaria de não sentir nunca mais.

Todos os conselhos que você me deu eram baseados em pura e simplesmente viver como se não houvesse amanhã. Foi você que me fez, pai. E, se hoje eu sinto orgulho de mim mesma, dos meus modos e da minha coragem, a culpa é toda sua.

Uma vez você me disse que, a cada flecha que me acertavam, eu curiosamente ficava mais bonita. Acho que devem ter ficado mesmo muito irritados conosco, que fazíamos piada das adversidades da vida, e mandaram uma quantidade bem razoável para ver se, quem sabe agora, minha alma escurece e começa a feder. Esqueceram apenas de atentar ao fato de que vivo exclusivamente do seu amor, onde quer que você esteja. E espada alguma é capaz de cortar ao meio quem vive coberta por um amor tão bonito. Envergo frente às ventanias, os que observam podem jurar que uma hora ou outra a haste arrebenta, mas do meio da tempestade hei de ressurgir maior que antes. Bem maior.

Eu te amo. Me ame de volta. É tudo que precisamos.

Natasha
Lembro do meu avô, que de tanta dor gemia que preferia morrer. Sedavam-no, então. Em dados momentos minha dor é tão física que num ápice de desespero também penso que prefiro morrer. Repito o procedimento que aprendi.
Às vezes eu também tenho vontade de sair pelas ruas perguntando aos desconhecidos se te viram por aí, eu te descrevo com detalhes e sei que alguém vai acabar me respondendo, afinal, onde você se meteu. Porque você estava aqui outro dia mesmo, não deve ter ido muito longe. Pai, eu nunca vou cansar de te procurar.
Em todos os meus anos, eu não havia conhecido nada tão doloroso quanto um domingo. Aos domingos eu não atravesso um dia, eu atravesso um deserto. Às vezes fico imaginando que você vai entrar pelo portão, dizer que voltou, e eu não vou estranhar nem lhe perguntar nada, só dizer que minha mãe está muito gripada, que preparamos um macarrão caso você esteja com fome, coisas assim.

sexta-feira, maio 31, 2013

Hoje estou com uma dificuldade tremenda para escrever. Não acho as palavras, se acho não casam com as outras. A pontuação é horrorosa, engasgada. As frases estão frágeis e desmancham se lidas muitas vezes. Dou um jeitinho. Fico irritada quando releio e percebo meu texto cheio de gambiarra, que nem uma favela. Há dias fáceis, outros assim. Espero melhorar em breve e poder contar um segredo.
Me aconselharam pintar, ao que logo respondi que não teria mesmo paciência nem vontade de aprender. "Não estou falando para você aprender a pintar, estou falando para você pintar", foi o que eu ouvi em resposta e achei tão bonito.

Pai,

As paredes do meu quarto estão feias e, já que tive uma boa ideia para elas, resolvi então começar uma arrumação em todo cômodo. Encontrei minha caixa de lembranças e sabia que não deveria abri-la, mas estava sentindo tanto a sua falta que precisava de qualquer palavra sua, mesmo que escrita há certo tempo. Não consegui terminar de ler sequer a primeira carta. Você me escrevia coisas tão bonitas, pai. Doeu pavorosamente. Fechei tudo bem rápido. Não foi uma boa ideia e logo perdi a disposição para as minhas reformas e tudo mais. Amanhã recomeço - e que outra maneira existe, afinal?

Há pouco tempo os meus projetos de vida consistiam em colocar uma mochila nas costas e virar o mundo de cabeça para baixo. Atravessar continentes, viver de arte, um amor em cada porto. Hoje eu só quero, além de decorar minhas paredes, plantar um jardim, aprender a fazer torta de limão e comprar uns dinossauros. Se não for pedir muito, uma cafeteira italiana. Não quero mais nada com o mundo a não ser que ele exploda.

E não falo pela sua morte, pai, afinal não cabe a mim determinar as leis do Universo. Falo por tudo que comecei a reparar minuciosamente depois da sua ausência. É tudo tão feio. Hoje parei durante uns minutos para observar um mendigo jogado na calçada. Todos continuam a atravessar as ruas sem olhar para baixo. É um ser humano jogado no chão. É um de nós.

Eu vejo uma guerra, pai. Acontece que ninguém está do lado de ninguém. Eu, que queria mudar o mundo, hoje só quero fechar minhas portas e cuidar do lado de dentro. Só permaneço viva para cuidar da minha tribo e o farei até o final dos meus dias. Vocês que são podres que se entendam. Eu me recuso a participar da vida.

Natasha

quinta-feira, maio 30, 2013

Ouvi na televisão um budista definir a vida como uma onda. Nasce, cresce, arrebenta e retorna para o oceano, para a sua origem. Quero olhar o mar pensando nisso. Deve ser bonito.

Pai,

Hoje no rádio Caetano começou a cantar "gosto muito de te ver, leãozinho, caminhando sob o sol...", aquela única música que você sabia tocar no teclado. Desliguei correndo antes que eu morresse.

Penso que fui burra. Deveria ter ouvido até o final para encurtar logo essas milhões de horas insuportáveis que chamam de existência.

A vida é, para mim, uma grande cadeia onde eu cumpro sentença. Como todo presidiário, não vejo a hora de me ver livre daqui. Minha alma está sufocada dentro do meu próprio corpo. No dia em que ela for embora vai ser tão bonito, um pássaro branco deixando a gaiola.

Natasha

quarta-feira, maio 29, 2013

Com o meu próximo salário, vou comprar um dinossauro. Está decidido.
Curioso sobre a humanidade é que, ainda que nos encontremos, não conseguimos nos ver. Mesmo que diariamente olhemos para o outro. Ando por aí carregando 101 flechas no peito. Ninguém diz.
Por favor, uma passagem só de ida para o mais distante dos destinos.

terça-feira, maio 28, 2013

"Neguinho não lê, neguinho não vê, não crê, pra quê
Neguinho nem quer saber
O que afinal define a vida de neguinho"

Caetano
Eu fui seu velocípede, sua hora do recreio, sua fantasia de Batman, seu carnaval. Você era o meu par de patins, meu álbum de figurinhas e na quarta-feira de cinzas nós ainda estávamos sujos de lama, cerveja, saliva e confete. É vã cada tentativa de recuperar nossa alegria insustentável - é tão bobo quanto a vontade de não ter crescido.
Que me perdoe Dalai Lama, Jesus Cristo e todos os avatares mais espiritualizados, mas não consigo olhar para as pessoas de igual pra igual. Na grande parte do tempo, penso: releva, é café com leite. Quem disse que somos todos iguais não observou atentamente.

Pai,

Não sei se o mundo é triste e, por conta disso, meus olhos acabam por entristecer, ou se meus olhos naturalmente tristes vêem então tristeza em todos os arredores. Como um espelho: não sei qual lado é matéria, qual é reflexo. Se quem nasceu primeiro foi, afinal, a galinha ou o ovo. Da vida não sei quase nada, como se pode perceber. E insisto em fazer tantas perguntas que nunca têm resposta, teimo em refazê-las incansavelmente, reformulá-las de todas as formas possíveis, para no final permanecer sem saída, sem solução, sem qualquer sombra de resultado. Não sei de onde tiro disposição para tantos porquês.

Penso que o lugar onde você está não é tão legal assim porque eles sequer deixam você falar comigo. Os habitantes desse seu planeta devem mesmo ser muito insensíveis e você vai acabar passando maus bocados porque não sabe fazer outra coisa além de amar. Eu espero que pelo menos eles providenciem um trono e uma coroa bem bonita - e nos perdoem por, enquanto meros mortais, termos sido incapazes de providenciar antes.

Agora não posso encerrar esta carta porque, em qualquer circunstância, quando choro não posso abandonar a causa. Tenho medo de ir embora e quem sabe ficar chorando pra sempre. Permaneço até o fim, até as lágrimas cederem, para não correr o risco. Sou feita de medos muito bobos, como este de chorar pra sempre, entretanto enfrento monstros que fariam qualquer um desmanchar. Sou toda ao contrário. Nasci do lado avesso.

Pai, às vezes eu tento escrever o quanto eu te amo e não consigo. Escrever é muito difícil porque deve-se retirar do peito, com todo cuidado, e repousar nas folhas tal qual a forma original, sem que haja nenhum acidente de percurso. Quando trata-se, então, de um sentimento muito grande, certas rupturas tornam-se inevitáveis por esse caminho tão longo. Não é por falta de esforço.

Natasha
Eu detesto que me digam que vai passar. Meu amigo, do dia para noite tudo explodiu, Big Bang, cada pedacinho de galáxia foi parar num canto. Não é o tipo de coisa que passa. Se você dissesse para o Universo, naquele momento, que vai passar, certamente Ele teria te mandado para o quinto dos infernos.

segunda-feira, maio 27, 2013

Pai,

Te escrevo agora para avisar que estou usando o seu edredom. Espero que você não se importe.

Acabei de assistir Nosso Lar e devo dizer que achei a coisa mais babaca do mundo. Mas, como você já sabe, eu tenho mesmo certa tendência a achar tudo a coisa mais babaca do mundo.

De resto, não estou sentindo nada. "Nem medo, nem calor, nem fogo / Não vai dar mais pra chorar / Nem pra rir", como já cantou Gal Costa. Fico imensamente grata. Dos males, o menor.

Natasha
Descobri que tenho tratado minha mente como uma criança de colo que, quando está prestes a chorar, a gente aponta pro céu e diz "olha lá, olha o avião! Vrum!". Pego aqueles brinquedinhos que acendem luz, tocam som. O único problema é que os artefatos se esgotam. Não quero estar aqui quando eu de fato começar a chorar.
É muito pesado viver contabilizando culpas por cada mísero minuto que, distraída, acabo dedicando a mim mesma.

domingo, maio 26, 2013

this photograph is my proof:

"This photograph is my proof. There was that afternoon, when things were still good between us, and she embraced me, and we were so happy. It did happen, she did love me. Look see for yourself!"
Duane Michals, 1974.

Entre outras tantas especialmente bonitas, a minha preferida. Nunca compreenderei como pode uma existência perdurar sem nunca ter acesso ao trabalho de Duane Michals. Deveria ser obrigatório.
Passa-se então a questionar as tais leis que regem a Vida quando pagamos pecados que não lembramos ter cometido.
Eu ia dizer que a saudade é insuportável. Aí lembro que não há outra alternativa além de suportar. Insisto em te ver em cada porta, cada corredor vazio de você. Os domingos são, de fato, os mais cruéis do dias. Olhar ao redor é constatar sua ausência. Saudade maltrata, esvazia, envelhece. Essas paredes costumavam ser um lar.

sábado, maio 25, 2013

Pai,

Hoje fiquei olhando para o leito 13 do CTI, onde meu avô estava até a manhã de hoje. Estava vazio. Puxei uma cadeira. Durante longos minutos, enquanto observava os enfermeiros limparem, pensei sobre a fragilidade da vida. A morte é tão fácil, pai. Nos movimentamos para lá e para cá, todos os dias, sem nos darmos conta. Num minuto estamos aqui, no próximo não. Parece um grande clichê até que se assista com os próprios olhos, até que a frase ganhe um sentido literal, que se diga: ele estava deitado ali ontem, hoje não mais. E a gente perde tanto tempo, meu Deus. Triste não é a morte. Triste é como tratamos nossas próprias vidas, como atropelamos nossos dias. A existência humana em sua maioria é tão vã que, quando o corpo falece, é apenas uma oficialização. A alma certamente já morreu de fome há muito tempo. Pobres de nós, tão pequenos, tão rasos, tão imbecis. Quando voltei a mim, meu café já havia esfriado.

Pai, eu te amo como eu nem sabia que uma pessoa podia amar outra pessoa. E queria tanto ter cuidado de você quando havia tempo, mas eu devia estar mesmo muito ocupada - com o quê?

Natasha
A razão berra nos meus ouvidos mais que nunca. Já avisei que não sou surda. Ela berra novamente: então por que você não me obedece? Quero explicar que não é o meu desejo me tornar uma samambaia, que apenas bebe água e assiste os dias nascerem sem um pingo desse sentimentalismo barato que todos nós, dentro da terrível e tão bela condição humana, carregamos no peito. A razão encontrou a oportunidade perfeita para, finalmente, me tomar por inteiro só para ela. Está esperançosa. Ainda vai ter que comer muito arroz e feijão antes de cantar vitória.
Lavando louça, me peguei cantarolando "eu sei e você sabe, já que a vida quis assim / que nada nesse mundo levará você de mim". Sorri, ignorando meus olhos que imediatamente enchiam de milhões de lágrimas não caídas.

quinta-feira, maio 23, 2013

Ainda que cada um de nós seja tão individual, ainda que cada mente seja um mundo distinto, há certas reações humanas universais. É tão curioso observar. Deve ter qualquer coisa a ver com instinto, creio eu, com o que herdamos dos nossos antepassados - que provavelmente já foram um só. Mesmo se tão diferentes, existe um ponto de intersecção entre todos nós. Coisa de raça.

quarta-feira, maio 22, 2013

Pai,

Você bem que poderia daí, de onde você está, conversar um pouquinho comigo. A única pessoa que pode conversar comigo é você. Eu não aguento mais bater papo! E fico pensando se nunca mais vou poder, de fato, conversar.

Lembro de ter perguntado muitas vezes o que será que acontecia depois da morte. A gente gostava de perguntar ao outro um monte de será. E íamos tão longe se ninguém nos puxasse de volta! Era tão bom, pai. Eu nunca mais fui longe assim. Penso que todo mundo gosta mesmo é de nadar na beirinha.

Às vezes, quando estou na fila do mercado, também fico lembrando de como a gente adorava olhar demoradamente para cada pessoa e criar a história delas. Geralmente nos baseávamos no que elas carregavam no carrinho. "E aquele ali, vive do que? Mora com quem? Tem cara de ser assim, tem cara de ser assado". Eu continuo brincando disso, ainda que não tenha mais tanta graça.

Agora eu não quero mais escrever nada porque sempre me faz chorar.

Natasha
Eu queria comprar uma passagem só de ida pro interior do interior do interior de algum Nordeste. Me chamar Helena, trabalhar numa vendinha ensacando batatas e me casar com um pescador que mora numa casinha muito pequenininha, perto da areia da praia. À tarde venta muito, as roupas se agitam no varal. Tem rede, coador de café e um vira-lata chamado Osório.
Na mitologia egípcia falam sobre uma deusa com cabeça de leão e corpo de mulher que uma vez resolveu dar uma castigadinha de leve na humanidade, mas acabou por não controlar sua fúria e precisaram urgentemente embebedá-la de vinho para que ela então adormecesse, fosse recolhida e não destruísse toda raça humana. Simpatizei.
Ainda que chova somente nas nossas cabeças, como se a vida aproveitasse cada oportunidade de nos dizer não, ainda que tudo tenha se perdido, que tantas vezes você tenha assinado nosso desfecho, que em tantas outras eu tenha ensaiado nossa última cena - o meu corpo teima em toda vez voltar para o seu corpo.

terça-feira, maio 21, 2013

Charles Bukowski:

"there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be sad.

then I put him back,
but he’s still singing a little
in there, I haven’t quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do
you?"

The Blue Bird, em The Last Night of the Earth Poems.

segunda-feira, maio 20, 2013

No domingo almocei com a minha avó e, na saída, ela me deu um terço branco, bem pequenininho. Disse que é para me proteger. Carrego na minha bolsa. Eu nem sei direito para que serve um terço, mas sei que o meu serve para me proteger.

Pai,

É tão curiosa a forma que a mente humana trabalha para auto sobrevivência. Para mim, por exemplo, é muito difícil entender que você morreu, o meu cérebro não concebe esta ideia, não processa esta informação. Talvez por isso eu tenha conseguido lidar com o fato melhor que os outros - porque eu simplesmente ainda não o absorvi. Não nego que passo por momentos desesperadores, onde a dor é extremamente física. Outro dia chorei tanto antes de dormir e fiquei lembrando de quando chorava por alguma bobagem e você sentava na minha cama, literalmente enxugava minhas lágrimas, me cobria e me explicava a vida. Essa cena não aconteceu uma nem duas, mas diversas vezes ao longo de todos esses anos.

Porém, apesar de tudo isso, na maior parte do tempo é como se você ainda estivesse aqui. Eu estou sentada na varanda e você na sala. Quando eu for para o meu quarto, você vai entrar e perguntar se eu preciso de dinheiro para trabalhar no dia seguinte, porque eu gastava o meu dinheiro com futilidades tão grandes quanto aquelas pelas quais eu chorava. Eu era uma ameba, em todos os sentidos da palavra. Depois você vai sair e esquecer de fechar a porta direito. Eu vou ter que levantar para fechá-la e resmungar um pouquinho para não perder o costume. Tudo como sempre foi. Eu não posso ver você sentado naquela poltrona, não posso ouvir você me perguntar nada, mas eu sinto você o tempo inteiro. Durante cada minuto do meu dia. Você, para mim, não foi embora. Só não tem me ligado ao longo da tarde. Nem me enviado torpedos. Nem me desejado boa noite.

Entre uma frase e outra, quase sempre tenho vontade de chorar quando estou te escrevendo. É quando encaro o fato. E é curioso, também, como administro minhas lágrimas. Mesmo quando ninguém está vendo, acho que me habituei a não deixá-las cair. Exceto em último caso, quando não há mesmo outra opção.

Hoje quase não fui ao CTI ver o meu avô porque estou com trauma daquele barulhinho. E também porque ele não pode me ver, nem me ouvir, nem me falar. Ninguém precisa de mais um trauma - em vão - quando já se tem uma coleção deles.

Eu te amo. E não preciso de dinheiro para amanhã porque com o meu salário tenho feito o milagre da multiplicação dos peixes. Jesus ficaria bobo. Pergunte-me como.

Natasha
Hoje estou com o riso tão solto que qualquer cosquinha me convence.

domingo, maio 19, 2013

Sou uma mulher grandinha, mais inteligente que a média e plenamente responsável por todos os meus passos. Detesto, então, ouvir qualquer frase que me vitimize. Tenho vontade de vomitar quando escuto "o que fazem com você (...)". Nossa. Coitadinha de mim. Tão indefesa, tão inocente. Com exceção das circunstâncias da Vida, e estas eu conheço bem a fundo, ninguém faz nada comigo sem o meu aval. Nenhum outro ser humano tem o poder de encostar em mim, me mover para direita ou para esquerda sem o meu consentimento, a menos que esteja armado. Os meus atos são meus. Não os transfiro a ninguém.
Minha mente está tão perturbada que, quando o silêncio reina, escuto o pi pi pi do monitor cardíaco do CTI. Preciso de férias, licença, adiós ou qualquer coisa que o valha.
“I am prepared to meet my Maker. Whether my Maker is prepared for the great ordeal of meeting me is another matter.”

Winston Churchill. Cada vez mais apaixonada.
Essa cara apreensiva dessa gente que me olha tentando adivinhar como está o terreno antes de pisar. É tão engraçado.