quinta-feira, janeiro 31, 2013

Querida Thaís,

Gosto de saber dos seus livros, mesmo que eles sejam antigos e se esfarelem em suas mãos. Sinto falta de ler e não sei exatamente o que me impede. É engraçado porque outro dia ouvi uma pessoa próxima usar como justificativa a falta de tempo e fico pensando que jamais, em hipótese alguma, eu seria tão canalha com a literatura. Porque é preciso ser muito cafajeste para dizer, com a cara lavada, que não sobra tempo para ler.

No Rio de Janeiro a chuva se estende por dias. Gostou daqui e está com preguiça de ir embora, creio eu. Fico esperando o momento em que a mulher do tempo, no jornal, anunciará: em suma, não vai parar de chover nunca mais. Ando reclamando muito dessas nuvens cinzas. Tenho o direito. Não sou obrigada a aturar calada os caprichos do céu.

No mais, outro dia conheci uma mulher que passou sete anos sem andar e um homem que faz sexo com cabras. Como de praxe, eu quis saber mais, indaguei cada informação, questionei cada detalhe, etc. A mulher, hoje, anda melhor que eu. Ela passou sete anos deitada, sem ao menos se mexer. Veja bem, sete anos. Já o homem jura que as cabras já ficam assanhadas quando o vêem. Perguntei se ele já se apaixonou por alguma delas ou se é só sexo. Meu esporte predileto é bater palma para que os malucos possam dançar.

Compreendo perfeitamente quando você me diz que está ficando seca. Faz tempo que nada me comove. Porque eu me protegi tanto e me guardei num lugar tão fundo que nem eu sei mais onde fica. Perdi de vista.

Dia desses te escrevi um e-mail contando as coisas de dentro. Aqui, não me sinto mais tão confortável para isso.

Um beijo,

Natasha

Em resposta a: http://www.simplescomplexibilidade.blogspot.com.br/2013/01/querida-natasha.html

Presságio (1950):

"Não sabem de nada os meus amigos.
E não vou explicar porque podem ficar sentidos.
São puros, vão morrer como anjos.
Vão morrer sem nada saber daqueles dias perdidos.
Vão morrer sem saber que estão morrendo."

Hilda Hilst, deusa.

quinta-feira, janeiro 24, 2013

"Porque eu não quero" ou "porque eu quero" têm sido, para mim, frases bastante usuais. Aprendi que poucas coisas nessa vida merecem ser argumentadas. Não dá para sair por aí concedendo esse mérito para todas as questões. Justificativa é coisa muito séria para virar rotina.

O que você não vai ouvir do Diego Maia:

Você é um profissional. Você não é a Casas Bahia. "Quer pagar quanto? E quando?" serve para financiamento de guarda-roupa duplex, não para definir o seu salário. Pare de agir como se a empresa estivesse fazendo o favor de te contratar. Um emprego não é um presente com uma fita vermelha, hoje não é Natal e você não precisa sorrir amarelo e agradecer a sua tia pelas cuecas. Um emprego é uma troca. E, honestamente, enquanto você continuar achando que o seu trabalho e a sua capacidade equivalem a uma coxinha e um refresco, ninguém tem motivo para depositar sequer uma bananada a mais na sua conta.

Como mandar alguém tomar no cu por eufemismo:

Eu deveria abrir uma empresa chamada Trocando em Miúdos com foco em resolução de pendências aleatórias aos que gostariam de mandar o próximo para o inferno mas precisam usar outras letras.

Segue primeira página do portfólio:

"Prezado,

Crendo que a comunicação entre a universidade e o aluno é um fator primário e imprescindível para o funcionamento normal de qualquer instituição, gostaria de saber qual foi o motivo exato que impediu a tesouraria de deixar claro o procedimento correto quanto ao trancamento da minha matrícula.

Preenchi a solicitação de trancamento e não fui informada sobre posteriores medidas. Além do mais, não fui cobrada durante os meses seguintes, portanto não poderia adivinhar qualquer tipo de pendência em relação ao pagamento.

Tendo em vista que não seria justo arcar com a falta de preparo do profissional que deveria ter me orientado, peço uma solução para o ocorrido.

Como expliquei anteriormente, estarei viajando durante o carnaval e preciso resolver este caso o mais rápido possível. Estou disposta a tomar as medidas cabíveis, já que é um direito meu prosseguir com os meus estudos no próximo período.

Att,

Jurema*"

*nome fictício para preservar a identidade da minha cliente

quarta-feira, janeiro 16, 2013

Registro:

Três opções, sendo elas 1) ler em ordem horária decrescente, a ordem que foi escrita originalmente; 2) ler em ordem horária crescente, a ordem real dos acontecimentos; ou 3) embaralhar antes de ler.

20:26h: Acabou a luz. A verdade é que eu só escrevo porque não tenho outra atividade para me ocupar. Sempre fui sincera, não seria agora que. Sou honesta com o meu texto, digo para ele: você está em último lugar na minha lista de prioridades.

20:00h: Nós, que estamos vivos, acabamos por criar certos rituais de sobrevivência. De uns tempos para cá, por exemplo, tomo banho sempre que estou prestes a cometer um impulso indevido. E, devo dizer, como estou sempre à beira de cometer impulsos indevidos, creio que minha pele deva estar tinindo. Em relação ao banho, tenho um sabonete para o corpo, outro para o rosto. Os espelhos sempre embaçam por conta da fumaça. Faço do box minha camisa de força - só saio quando me sentir segura ou demasiadamente cansada para cometer alguma loucura. Um dia acabo morando lá.

19:14h: Eu tenho uma porção de coisas para te dizer. Não sei por que tenho pensado tanto nelas, nas coisas, hoje. Antes eram só frases que surgiam isoladamente ao longo do dia, por conta de alguma lembrança boba, e desapareciam com a mesma facilidade. Hoje todas as coisas se organizaram em marcha, tomaram forma definida e certamente sairiam da minha boca com uma desenvoltura invejável. Estavam prontas. Antes de te remeter qualquer palavra, liguei o chuveiro.

16:45h: Chove muito. Eu e dezenas de rostos desconhecidos aguardamos embaixo de uma marquise que não foi previamente escolhida, já que o temporal não deu sinais de que desabaria. Meu guarda chuva estampado de bolinhas e meu par de botas não são o suficiente para enfrentar tanta chuva. Entre nós, tecemos os comentários mais triviais e imagináveis: será que vai passar logo; é muita água; agora parece que deu uma trégua; mas que droga; etc. Mesmo desconfortável, acho bonito quando a Natureza se impõe. Quem manda por aqui, afinal de contas?

16:18h: Os minutos se arrastam enquanto a sós dividimos a mesma sala sem dizer uma palavra. Ouço apenas dois sons: minhas unhas no teclado do computador e seus dedos no teclado do celular. Duas bengalas. Digo bengalas porque não seríamos capazes de encarar a situação sem nos apoiar em qualquer coisa. Estou muito velha para usar bengalas. Deito no sofá. Não quero falar com ninguém. Nem com você. Nem com Jesus Cristo, se fosse o caso. Você, então, se deita ao meu lado - e embora não haja mais teclados, o silêncio ainda é grande e lá de longe já consigo ouvir a chuva.

15:00h: Fico sabendo da morte de alguém querido. Ele me disse, anteontem: o astral deste lugar está tão pesado, parece que está todo mundo morto. Ninguém poderia imaginar. Não sei lidar com o fim, com a morte, menos ainda com essas que chegam sem avisar. O meu cérebro não assimila a ideia de que alguém não existe mais. Sou muito burra para isso.

13:35h: (...)

(A luz voltou e tenho mais o que fazer. Reaprender a dormir, por exemplo. Você me diz, pela manhã, que eu só presto mesmo para escrever. É engraçado porque, se me falta vontade, o que me sobra?)

terça-feira, janeiro 08, 2013

"Só tenho uma vida sexual, e é com você, e, para mim, isso é algo infinitamente precioso, e sério, e importante, e apaixonante. Eu não seria capaz de lhe ser infiel porque isso o transformaria num episódio dessa vida, ao passo que você é essa vida. Não quero outra. Estou totalmente engajada nela, profundamente, e com muita alegria."

Simone de Beauvoir em correspondência a Jacques-Laurent Bost
8 de junho de 1939

segunda-feira, janeiro 07, 2013