terça-feira, abril 30, 2013

Pai,

Novamente estou muito cansada. Amanhã é feriado e eu pretendo colocar o meu sono em dia. É um sono de três semanas, longo, mas hoje, enfim, eu me sinto pronta para dormir. Eu me sinto capaz. Não sem a minha bengala em forma de comprimido, porém de forma plena. Com a sua ausência, o meu sono tornou-se tão débil que pouco surte efeito. Hoje, recuperá-lo faz parte dos meus planos.

O meu dia foi cheio e precisei diversas vezes parar por alguns minutos, sentar ao sol, acender um cigarro e contar até vinte. Sobre o cigarro, estou me acostumando com a ideia de deixá-lo. Preciso, ainda, de um tempo para o meu organismo reencontrar sua forma, seu prumo. Eu me dou, ao menos, este crédito. E não preciso que ninguém acredite na minha decisão para tomá-la, como nunca foi imprescindível que acreditassem em quem eu sou para que eu continuasse e insistisse em ser.

O engraçado é que te perder bruscamente fez com que eu modificasse minha forma de ver o mundo de forma tão brusca quanto. Descobri que, por mais absurda que esta frase possa parecer, eu era uma pessoa muito paciente. Ainda que eu gritasse e esperneasse, bater panela pelas ruas em alvoroço era a minha forma de tolerância. Porque quem não tolera, pai, não faz esporro. Quantas cabeças já foram decepadas no silêncio de uma prece?

Ainda hoje perguntaram, logo pela manhã: e de você, quem cuida? Ao que respondi, orgulhosa: meu pai.

É tão óbvio. Que pergunta besta.

Eu te amo.

Natasha

segunda-feira, abril 29, 2013

Pai,

Hoje estou muito cansada e não vou conseguir escrever muito.

Uma vez, no seu aniversário, eu te escrevi uma carta dizendo que o amor foi a coisa mais importante que você me ensinou. Entre nós, ao menos, nunca haverá a culpa pelo não dito.

Por isso, então, vez ou outra acendo uma fogueirinha no meu peito. Meu coração está congelando de frio e eu não posso, em hipótese alguma, desaprender a amar.

Decidi que no final de semana vou plantar um jardim. Quando as coisas bonitas nos faltam, a gente deve criá-las.

Olhe por nós. O general está morto, mas a guerra não tem fim.

Natasha

domingo, abril 28, 2013

Pai,

Um dia eu vou te dar tanto orgulho, mas tanto orgulho, que você não vai resistir e provavelmente vai dar um jeitinho de escapar daí por uns minutinhos só para olhar bem de perto.

Sei que vai ser rapidinho, mas talvez dê tempo de ir comigo no Vilamore para comer aquela coxinha e tomar um mate.

Você consegue, pai. Você sempre foi muito levado.

Daqui, te envio um amor que não cabe mais em mim.

Não solta minha mão, principalmente durante o sono. Não desligo o abajur e tenho medo dos maus sonhos. Sou boba. Nenhum pesadelo, afinal, pode ser mais assustador do que estar acordada.

Natasha

sábado, abril 27, 2013

Ouço que sou muito fechada. O tempo inteiro o mesmo discurso. Geralmente respondo com um "graças a deus", como quem finge que não entendeu a crítica. E lá se vai a mesma ladainha. Desistam. Vocês não vão me ver agonizando em praça pública. Deste susto eu garanto que vocês não morrem.

sexta-feira, abril 26, 2013

Pai,

Eu queria tanto perdoá-los por não saberem o que dizem. Ah, pai, eu queria tanto ser nobre o suficiente para perdoá-los. Não, não vai passar. Eu não caí da árvore e ralei o joelho. Eu não bati o dedinho na quina do móvel. Eu não cortei o dedo enquanto abria a latinha de coca-cola. A vida ruiu, desmoronou. Para completar, bem em cima das minhas costas. Não sobrou nada além de poeira.

O Tempo vai se encarregar de suavizar minha dor, eu confio Nele. As feridas o Tempo abranda. Mas não, eles não entendem nada que digo. Nunca entenderam. Falo da falta de sonhos, objetivos, de perspectiva de vida, de caminho. De esperança, de fé, de amor. Isso destrói um coração. Depois de desfeito, assim, um coração jamais retorna a sua forma original. É irreversível.

Sem nada, eu existo. Vago pelos corredores com o meu casaco do Coyote, aquele que te fazia rir, pego ônibus para trabalhar, descubro quanto custa o arroz, me certifico de que estão inteiros os que estão ao meu redor. E, ao me deitar, risco mais um dia do calendário. Menos um dia. E durmo sem sonhar, já que o remédio me faz essa gentileza.

É de uma solidão tão violenta. Nós dois sempre soubemos que essas companhias só pelo corpo a corpo, pelo tête-à-tête, não nos causam grandes efeitos. E, sempre que eu te falava em solidão, você me lembrava que nós tínhamos um ao outro.

Pai, nem mesmo quem perdeu o pai sabe o que eu estou sentindo.

Só sabe o que eu estou sentindo quem, sendo eu, perdeu você.

Natasha

quinta-feira, abril 25, 2013

Pai,

Eu nunca vi uma lua tão exposta como a de hoje. Usualmente, olhar para lua depende de certo esforço físico. Inclinar a cabeça, procurar céu afora, quem sabe atrás das nuvens, dos prédios, estar disposto a contemplá-la, encontrar uma ocasião oportuna, por um instante esquecer nossos afazeres cotidianos tão mesquinhos, etc.

Hoje, não. Todo e qualquer indivíduo foi obrigado a estacionar a vista no céu e constatar a presença da lua, ainda que não quisesse. Ela não nos deu opção de escolha. Os mais desrespeitosos logo regressaram aos seus botões, a estes minha mais profunda lástima, porém outros tantos compreenderam, cutucaram os amigos distraídos, apontaram o dedo, fotografaram. Foi muito bonito. Um daqueles momentos que eu te descrevia, quando por alguns breves minutos eu me sinto conectada ao Todo, ao Universo. Sei que você - e só você - entende.

Aproveito para pedir perdão pela última carta que lhe escrevi.

E justifico:

Hoje tornei a me olhar no espelho e, no lugar onde eu deveria estar refletida, havia uma mulher.

Nos últimos dias, eu fiz muitos aniversários.

Devo ter ficado confusa, então.

Te beijo, te abraço apertado. Te envio o maior amor que me cabe.

Natasha
"Ai, Dindi
Se um dia você for embora
Me leva contigo, Dindi"

Tom Jobim

quarta-feira, abril 24, 2013

Pai,

Eu estou morta. Muito mais morta que você, aliás, porque pior que o falecimento do corpo é o enterro da alma. Quando o físico ainda deve cumprir suas necessidades básicas, porém está oco.

Resisti dezesseis longos dias. Hoje, por volta de 18h, minha alma deu o último suspiro de vida. Imediatamente depois, no trânsito, olhei para os carros como quem usa apenas o globo ocular. Nunca, em toda minha história, passei por uma sensação parecida. Como uma câmera, eu era, que apenas registra a imagem por ser sua função programada.

Desde então, não sinto nada. Nem medo, nem dor, nem frio. As palavras entram por um ouvido meu e saem pelo próximo, não permanecem nem causam nenhum tipo de reação.

Olho para o espelho e não me vejo. Não tem ninguém ali. Exatamente como quando olhei seu corpo no caixão e não te vi.

Alma é coisa muito séria.

A gente sempre soube.

Natasha

terça-feira, abril 23, 2013

Para evitar o naufrágio já anunciado, remar. Como se tua própria vida dependesse dos teus braços. E, se fazes revelia a ti mesmo, como se a vida alheia dependesse ainda dos teus braços. Mesmo que mudemos a oração, permanece intacto o fato, a ordem, a solução.
Quando eu era pequena, minha mãe sempre dizia: boa noite, durma com Deus e os anjinhos do céu. Sabe-se lá por que lembrei disso agora. Sabe-se lá por que quis dizê-lo. Sabe-se lá, meu Deus, por que hoje tudo carece de porquês. Como dói a falta do chão.
Eu odeio rimas. Não preciso de bola de cristal para prever que as pessoas certamente responderão com o argumento: você não gosta de nada. Argumento falho. Gosto de uma série de coisas que infelizmente não inclui rimas. Não preciso me desculpar por isso porque estou no meu direito, enquanto indivíduo, de gostar ou desgostar de determinado recurso literário. Se você acha bonito rimar mar com luar com amar, bacana. Eu não acho.
Caminho pelas ruas escorada, sabe-se lá por Quem. Meus passos são amparados. Tenho certeza pelo simples fato de ser humanamente impossível um corpo manter de pé sua estrutura física carregando um coração tão pesado.

ouça-me bem, amor


Preste atenção, o mundo é um moinho.

Pai,

Hoje estive com aquele paciente de quem eu lhe contava. Descobri que o nome dele é Luíz. Luíz Amorim, se a minha memória não falha. Há muito tempo não nos víamos. Há muito tempo eu não o via, aliás, porque ele é cego e não pode me ver, então a frase não pode ser recíproca. Ele estava sozinho com todos aqueles envelopes grandes transbordando exames. Num determinado momento, tirou da carteira uma nota de dois reais pensando ser um papel com o número do telefone dele. Pediu que eu averiguasse. Meus olhos encheram de lágrimas.

Primeiro naturalmente. Meus olhos são sensíveis aos mais fracos, aos prejudicados pela Vida. É onde finalmente amoleço, o dito ponto fraco. Quero colocá-los no colo, niná-los. Creio, às vezes, ter nascido para sentir a dor dos outros. É inevitável. A humanidade é, para mim, um conceito muito forte. Mesmo sendo viciada em solidão, todas as minhas ideologias são baseadas no Todo, em todos nós.

Depois, então, lembrei que ao chegar em casa não poderia te contar sobre ele, como costumeiramente fazia. Doeu desesperadamente. Mas não chorei, não. Estou especialista em equilibrar minhas lágrimas. São adestradas e de sombrinha caminham na corda bamba com uma desenvoltura invejável.

Só dou folga a elas, às minhas lágrimas, quando estou de frente para o mar. Faço isso, então, toda vez que não há grandes obrigações em vista. Sinal para o ônibus, cumprimento ao motorista, R$2,75, trânsito lento, trajeto razoavelmente longo e deveras cansativo para poder, enfim, sentar na areia e chorar. De vez em quando sou abordada por um ambulante preocupado, o que me leva a crer que meu choro não é lá muito discreto. Não me importo, porém. Aos senhores transeuntes que porventura sintam-se incomodados com o peso da minha tristeza, convido a manter distância. E, se não for pedir muito, que também levem consigo os não-incomodados, os distraídos. Todos de uma vez, por gentileza, marchando para bem longe.

Eu e o mar precisamos ficar a sós.

Choro, talvez, porque a imensidão azul é incontestavelmente mais forte que eu. Eu, miúda, encontro no mar um colo que enfim pode segurar minha barra, passar a mão nos meus cabelos e acalentar minha dor. Sobre os outros ombros, são mais frágeis que os meus. Desmontariam com o peso insuportável do meu peito. Viraríamos, todos nós, pó.

Além das ondas, posso contar com: 1) todas as árvores, porque já eram mesmo minhas amigas de longa data, 2) os pardais, ainda que apenas os mais simpáticos, 3) o Tempo, com seus ponteiros majestosos, e 4) as joaninhas, que de tão delicadas têm feito cosquinha na minha alma. Não devo excluir borboletas, também, que embora não venham sempre, são plenamente capazes de me trazer um quase sorriso, como noutro dia mesmo.

Daqui a pouco devo parar de escrever porque meu calmante faz efeito com certa rapidez e já sinto dificuldade em encontrar as palavras que quero usar. Além do mais, mesmo contra minha vontade despertarei bem cedo por conta dos fogos de artifício. Já passa de meia noite, já é dia de São Jorge. Não sei se onde você está existe dia 23 de abril. Provavelmente, não. Para mim, então, a data torna-se irmã gêmea de qualquer outra do calendário.

Mais uma daquelas coisas que só faziam sentido com você, pai. Desconfio, aliás, que todas as coisas precisam de você para fazer algum sentido. Você deixou todas elas meio órfãs. Estão um pouco confusas. A mesa, os quadros, travesseiros, a cafeteira, a televisão, a churrasqueira. Até a escada não sabe o que fazer sem o som dos seus passos. Olham-se o dia inteiro, mas não sabem mais para que servem.

Te amo.

Te volto, um dia. Prometo.

Natasha

sábado, abril 20, 2013

domingo, abril 14, 2013

Deus, eu te perdôo.
Eu tenho vergonha de ser humana. Não tenho nada de semelhante com os meus semelhantes. Eu preferia ter nascido dinossauro ou barata voadora. Qualquer coisa menos imunda.
Ah, Tempo! Coloca meu coração nos Teus braços, que meu único remédio é o caminhar dos ponteiros.

sábado, abril 13, 2013

domingo, abril 07, 2013

Que a Vida me cubra de resignação para aceitar Seu desígnio sem brigar, berrar ou sair às ruas em protesto. E como soa estranha esta prece vinda da minha boca. Eu, que preciso parar de nadar contra meu próprio caminho, encontrei na resignação a única maneira possível.
Depois de você, inventar uma maneira de sobreviver a cada domingo. Pregar botões, contar estórias, mastigar amendoim, espantar mosquito. E, como esquecimento não se traz à força, lembrar do teu colo entre uma tarefa e outra. Aí, então, engolir o choro, driblar a memória, trocar os curativos. Antes você tivesse anunciado sua ausência! Eu logo trataria de eleger uma prótese, qualquer mínima artificialidade, qualquer bote salva vida que agora pudesse, enfim, salvar a minha.

quarta-feira, abril 03, 2013

os pingos nos is:

Aos que querem discutir comigo, acho válido avisar de início que eu gosto muito e seria um prazer, porém falo português. Não me venham, por favor, com "faz o que você quizer" nem com "eu fasso" porque esse não é o meu idioma. Eu não reconheço essas palavras. Peço perdão pela incomunicabilidade.

diagnóstico:

Meu coração é hiperativo e sofre de déficit de atenção. Nunca ouviu falar em foco. Não sabe nem do que se trata.
Todos os dias, ao acordar, me prometo dormir mais cedo. Não cumpro. Para amansar o meu humor, então, pela manhã me concedo vários mimos: digo que esta noite será diferente, que deitarei antes das 21hs, me dou um iogurte, um suco de laranja, passo a mão na minha cabeça. Eu me iludo todos os dias. Pobre de mim. Ainda estou acordada e sei que ao amanhecer terei muito trabalho para domar a pequena fera. Penso em me comprar um presente, um pequeno enfeite, me fazer uma surpresa - tudo, tudo em troca de perdão.