sexta-feira, maio 31, 2013

Hoje estou com uma dificuldade tremenda para escrever. Não acho as palavras, se acho não casam com as outras. A pontuação é horrorosa, engasgada. As frases estão frágeis e desmancham se lidas muitas vezes. Dou um jeitinho. Fico irritada quando releio e percebo meu texto cheio de gambiarra, que nem uma favela. Há dias fáceis, outros assim. Espero melhorar em breve e poder contar um segredo.
Me aconselharam pintar, ao que logo respondi que não teria mesmo paciência nem vontade de aprender. "Não estou falando para você aprender a pintar, estou falando para você pintar", foi o que eu ouvi em resposta e achei tão bonito.

Pai,

As paredes do meu quarto estão feias e, já que tive uma boa ideia para elas, resolvi então começar uma arrumação em todo cômodo. Encontrei minha caixa de lembranças e sabia que não deveria abri-la, mas estava sentindo tanto a sua falta que precisava de qualquer palavra sua, mesmo que escrita há certo tempo. Não consegui terminar de ler sequer a primeira carta. Você me escrevia coisas tão bonitas, pai. Doeu pavorosamente. Fechei tudo bem rápido. Não foi uma boa ideia e logo perdi a disposição para as minhas reformas e tudo mais. Amanhã recomeço - e que outra maneira existe, afinal?

Há pouco tempo os meus projetos de vida consistiam em colocar uma mochila nas costas e virar o mundo de cabeça para baixo. Atravessar continentes, viver de arte, um amor em cada porto. Hoje eu só quero, além de decorar minhas paredes, plantar um jardim, aprender a fazer torta de limão e comprar uns dinossauros. Se não for pedir muito, uma cafeteira italiana. Não quero mais nada com o mundo a não ser que ele exploda.

E não falo pela sua morte, pai, afinal não cabe a mim determinar as leis do Universo. Falo por tudo que comecei a reparar minuciosamente depois da sua ausência. É tudo tão feio. Hoje parei durante uns minutos para observar um mendigo jogado na calçada. Todos continuam a atravessar as ruas sem olhar para baixo. É um ser humano jogado no chão. É um de nós.

Eu vejo uma guerra, pai. Acontece que ninguém está do lado de ninguém. Eu, que queria mudar o mundo, hoje só quero fechar minhas portas e cuidar do lado de dentro. Só permaneço viva para cuidar da minha tribo e o farei até o final dos meus dias. Vocês que são podres que se entendam. Eu me recuso a participar da vida.

Natasha

quinta-feira, maio 30, 2013

Ouvi na televisão um budista definir a vida como uma onda. Nasce, cresce, arrebenta e retorna para o oceano, para a sua origem. Quero olhar o mar pensando nisso. Deve ser bonito.

Pai,

Hoje no rádio Caetano começou a cantar "gosto muito de te ver, leãozinho, caminhando sob o sol...", aquela única música que você sabia tocar no teclado. Desliguei correndo antes que eu morresse.

Penso que fui burra. Deveria ter ouvido até o final para encurtar logo essas milhões de horas insuportáveis que chamam de existência.

A vida é, para mim, uma grande cadeia onde eu cumpro sentença. Como todo presidiário, não vejo a hora de me ver livre daqui. Minha alma está sufocada dentro do meu próprio corpo. No dia em que ela for embora vai ser tão bonito, um pássaro branco deixando a gaiola.

Natasha

quarta-feira, maio 29, 2013

Com o meu próximo salário, vou comprar um dinossauro. Está decidido.
Curioso sobre a humanidade é que, ainda que nos encontremos, não conseguimos nos ver. Mesmo que diariamente olhemos para o outro. Ando por aí carregando 101 flechas no peito. Ninguém diz.
Por favor, uma passagem só de ida para o mais distante dos destinos.

terça-feira, maio 28, 2013

"Neguinho não lê, neguinho não vê, não crê, pra quê
Neguinho nem quer saber
O que afinal define a vida de neguinho"

Caetano
Eu fui seu velocípede, sua hora do recreio, sua fantasia de Batman, seu carnaval. Você era o meu par de patins, meu álbum de figurinhas e na quarta-feira de cinzas nós ainda estávamos sujos de lama, cerveja, saliva e confete. É vã cada tentativa de recuperar nossa alegria insustentável - é tão bobo quanto a vontade de não ter crescido.
Que me perdoe Dalai Lama, Jesus Cristo e todos os avatares mais espiritualizados, mas não consigo olhar para as pessoas de igual pra igual. Na grande parte do tempo, penso: releva, é café com leite. Quem disse que somos todos iguais não observou atentamente.

Pai,

Não sei se o mundo é triste e, por conta disso, meus olhos acabam por entristecer, ou se meus olhos naturalmente tristes vêem então tristeza em todos os arredores. Como um espelho: não sei qual lado é matéria, qual é reflexo. Se quem nasceu primeiro foi, afinal, a galinha ou o ovo. Da vida não sei quase nada, como se pode perceber. E insisto em fazer tantas perguntas que nunca têm resposta, teimo em refazê-las incansavelmente, reformulá-las de todas as formas possíveis, para no final permanecer sem saída, sem solução, sem qualquer sombra de resultado. Não sei de onde tiro disposição para tantos porquês.

Penso que o lugar onde você está não é tão legal assim porque eles sequer deixam você falar comigo. Os habitantes desse seu planeta devem mesmo ser muito insensíveis e você vai acabar passando maus bocados porque não sabe fazer outra coisa além de amar. Eu espero que pelo menos eles providenciem um trono e uma coroa bem bonita - e nos perdoem por, enquanto meros mortais, termos sido incapazes de providenciar antes.

Agora não posso encerrar esta carta porque, em qualquer circunstância, quando choro não posso abandonar a causa. Tenho medo de ir embora e quem sabe ficar chorando pra sempre. Permaneço até o fim, até as lágrimas cederem, para não correr o risco. Sou feita de medos muito bobos, como este de chorar pra sempre, entretanto enfrento monstros que fariam qualquer um desmanchar. Sou toda ao contrário. Nasci do lado avesso.

Pai, às vezes eu tento escrever o quanto eu te amo e não consigo. Escrever é muito difícil porque deve-se retirar do peito, com todo cuidado, e repousar nas folhas tal qual a forma original, sem que haja nenhum acidente de percurso. Quando trata-se, então, de um sentimento muito grande, certas rupturas tornam-se inevitáveis por esse caminho tão longo. Não é por falta de esforço.

Natasha
Eu detesto que me digam que vai passar. Meu amigo, do dia para noite tudo explodiu, Big Bang, cada pedacinho de galáxia foi parar num canto. Não é o tipo de coisa que passa. Se você dissesse para o Universo, naquele momento, que vai passar, certamente Ele teria te mandado para o quinto dos infernos.

segunda-feira, maio 27, 2013

Pai,

Te escrevo agora para avisar que estou usando o seu edredom. Espero que você não se importe.

Acabei de assistir Nosso Lar e devo dizer que achei a coisa mais babaca do mundo. Mas, como você já sabe, eu tenho mesmo certa tendência a achar tudo a coisa mais babaca do mundo.

De resto, não estou sentindo nada. "Nem medo, nem calor, nem fogo / Não vai dar mais pra chorar / Nem pra rir", como já cantou Gal Costa. Fico imensamente grata. Dos males, o menor.

Natasha
Descobri que tenho tratado minha mente como uma criança de colo que, quando está prestes a chorar, a gente aponta pro céu e diz "olha lá, olha o avião! Vrum!". Pego aqueles brinquedinhos que acendem luz, tocam som. O único problema é que os artefatos se esgotam. Não quero estar aqui quando eu de fato começar a chorar.
É muito pesado viver contabilizando culpas por cada mísero minuto que, distraída, acabo dedicando a mim mesma.

domingo, maio 26, 2013

this photograph is my proof:

"This photograph is my proof. There was that afternoon, when things were still good between us, and she embraced me, and we were so happy. It did happen, she did love me. Look see for yourself!"
Duane Michals, 1974.

Entre outras tantas especialmente bonitas, a minha preferida. Nunca compreenderei como pode uma existência perdurar sem nunca ter acesso ao trabalho de Duane Michals. Deveria ser obrigatório.
Passa-se então a questionar as tais leis que regem a Vida quando pagamos pecados que não lembramos ter cometido.
Eu ia dizer que a saudade é insuportável. Aí lembro que não há outra alternativa além de suportar. Insisto em te ver em cada porta, cada corredor vazio de você. Os domingos são, de fato, os mais cruéis do dias. Olhar ao redor é constatar sua ausência. Saudade maltrata, esvazia, envelhece. Essas paredes costumavam ser um lar.

sábado, maio 25, 2013

Pai,

Hoje fiquei olhando para o leito 13 do CTI, onde meu avô estava até a manhã de hoje. Estava vazio. Puxei uma cadeira. Durante longos minutos, enquanto observava os enfermeiros limparem, pensei sobre a fragilidade da vida. A morte é tão fácil, pai. Nos movimentamos para lá e para cá, todos os dias, sem nos darmos conta. Num minuto estamos aqui, no próximo não. Parece um grande clichê até que se assista com os próprios olhos, até que a frase ganhe um sentido literal, que se diga: ele estava deitado ali ontem, hoje não mais. E a gente perde tanto tempo, meu Deus. Triste não é a morte. Triste é como tratamos nossas próprias vidas, como atropelamos nossos dias. A existência humana em sua maioria é tão vã que, quando o corpo falece, é apenas uma oficialização. A alma certamente já morreu de fome há muito tempo. Pobres de nós, tão pequenos, tão rasos, tão imbecis. Quando voltei a mim, meu café já havia esfriado.

Pai, eu te amo como eu nem sabia que uma pessoa podia amar outra pessoa. E queria tanto ter cuidado de você quando havia tempo, mas eu devia estar mesmo muito ocupada - com o quê?

Natasha
A razão berra nos meus ouvidos mais que nunca. Já avisei que não sou surda. Ela berra novamente: então por que você não me obedece? Quero explicar que não é o meu desejo me tornar uma samambaia, que apenas bebe água e assiste os dias nascerem sem um pingo desse sentimentalismo barato que todos nós, dentro da terrível e tão bela condição humana, carregamos no peito. A razão encontrou a oportunidade perfeita para, finalmente, me tomar por inteiro só para ela. Está esperançosa. Ainda vai ter que comer muito arroz e feijão antes de cantar vitória.
Lavando louça, me peguei cantarolando "eu sei e você sabe, já que a vida quis assim / que nada nesse mundo levará você de mim". Sorri, ignorando meus olhos que imediatamente enchiam de milhões de lágrimas não caídas.

quinta-feira, maio 23, 2013

Ainda que cada um de nós seja tão individual, ainda que cada mente seja um mundo distinto, há certas reações humanas universais. É tão curioso observar. Deve ter qualquer coisa a ver com instinto, creio eu, com o que herdamos dos nossos antepassados - que provavelmente já foram um só. Mesmo se tão diferentes, existe um ponto de intersecção entre todos nós. Coisa de raça.

quarta-feira, maio 22, 2013

Pai,

Você bem que poderia daí, de onde você está, conversar um pouquinho comigo. A única pessoa que pode conversar comigo é você. Eu não aguento mais bater papo! E fico pensando se nunca mais vou poder, de fato, conversar.

Lembro de ter perguntado muitas vezes o que será que acontecia depois da morte. A gente gostava de perguntar ao outro um monte de será. E íamos tão longe se ninguém nos puxasse de volta! Era tão bom, pai. Eu nunca mais fui longe assim. Penso que todo mundo gosta mesmo é de nadar na beirinha.

Às vezes, quando estou na fila do mercado, também fico lembrando de como a gente adorava olhar demoradamente para cada pessoa e criar a história delas. Geralmente nos baseávamos no que elas carregavam no carrinho. "E aquele ali, vive do que? Mora com quem? Tem cara de ser assim, tem cara de ser assado". Eu continuo brincando disso, ainda que não tenha mais tanta graça.

Agora eu não quero mais escrever nada porque sempre me faz chorar.

Natasha
Eu queria comprar uma passagem só de ida pro interior do interior do interior de algum Nordeste. Me chamar Helena, trabalhar numa vendinha ensacando batatas e me casar com um pescador que mora numa casinha muito pequenininha, perto da areia da praia. À tarde venta muito, as roupas se agitam no varal. Tem rede, coador de café e um vira-lata chamado Osório.
Na mitologia egípcia falam sobre uma deusa com cabeça de leão e corpo de mulher que uma vez resolveu dar uma castigadinha de leve na humanidade, mas acabou por não controlar sua fúria e precisaram urgentemente embebedá-la de vinho para que ela então adormecesse, fosse recolhida e não destruísse toda raça humana. Simpatizei.
Ainda que chova somente nas nossas cabeças, como se a vida aproveitasse cada oportunidade de nos dizer não, ainda que tudo tenha se perdido, que tantas vezes você tenha assinado nosso desfecho, que em tantas outras eu tenha ensaiado nossa última cena - o meu corpo teima em toda vez voltar para o seu corpo.

terça-feira, maio 21, 2013

Charles Bukowski:

"there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say, stay in there, I’m not going
to let anybody see
you.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I pour whiskey on him and inhale
cigarette smoke
and the whores and the bartenders
and the grocery clerks
never know that
he’s
in there.

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too tough for him,
I say,
stay down, do you want to mess
me up?
you want to screw up the
works?
you want to blow my book sales in
Europe?

there’s a bluebird in my heart that
wants to get out
but I’m too clever, I only let him out
at night sometimes
when everybody’s asleep.
I say, I know that you’re there,
so don’t be sad.

then I put him back,
but he’s still singing a little
in there, I haven’t quite let him
die
and we sleep together like
that
with our
secret pact
and it’s nice enough to
make a man
weep, but I don’t
weep, do
you?"

The Blue Bird, em The Last Night of the Earth Poems.

segunda-feira, maio 20, 2013

No domingo almocei com a minha avó e, na saída, ela me deu um terço branco, bem pequenininho. Disse que é para me proteger. Carrego na minha bolsa. Eu nem sei direito para que serve um terço, mas sei que o meu serve para me proteger.

Pai,

É tão curiosa a forma que a mente humana trabalha para auto sobrevivência. Para mim, por exemplo, é muito difícil entender que você morreu, o meu cérebro não concebe esta ideia, não processa esta informação. Talvez por isso eu tenha conseguido lidar com o fato melhor que os outros - porque eu simplesmente ainda não o absorvi. Não nego que passo por momentos desesperadores, onde a dor é extremamente física. Outro dia chorei tanto antes de dormir e fiquei lembrando de quando chorava por alguma bobagem e você sentava na minha cama, literalmente enxugava minhas lágrimas, me cobria e me explicava a vida. Essa cena não aconteceu uma nem duas, mas diversas vezes ao longo de todos esses anos.

Porém, apesar de tudo isso, na maior parte do tempo é como se você ainda estivesse aqui. Eu estou sentada na varanda e você na sala. Quando eu for para o meu quarto, você vai entrar e perguntar se eu preciso de dinheiro para trabalhar no dia seguinte, porque eu gastava o meu dinheiro com futilidades tão grandes quanto aquelas pelas quais eu chorava. Eu era uma ameba, em todos os sentidos da palavra. Depois você vai sair e esquecer de fechar a porta direito. Eu vou ter que levantar para fechá-la e resmungar um pouquinho para não perder o costume. Tudo como sempre foi. Eu não posso ver você sentado naquela poltrona, não posso ouvir você me perguntar nada, mas eu sinto você o tempo inteiro. Durante cada minuto do meu dia. Você, para mim, não foi embora. Só não tem me ligado ao longo da tarde. Nem me enviado torpedos. Nem me desejado boa noite.

Entre uma frase e outra, quase sempre tenho vontade de chorar quando estou te escrevendo. É quando encaro o fato. E é curioso, também, como administro minhas lágrimas. Mesmo quando ninguém está vendo, acho que me habituei a não deixá-las cair. Exceto em último caso, quando não há mesmo outra opção.

Hoje quase não fui ao CTI ver o meu avô porque estou com trauma daquele barulhinho. E também porque ele não pode me ver, nem me ouvir, nem me falar. Ninguém precisa de mais um trauma - em vão - quando já se tem uma coleção deles.

Eu te amo. E não preciso de dinheiro para amanhã porque com o meu salário tenho feito o milagre da multiplicação dos peixes. Jesus ficaria bobo. Pergunte-me como.

Natasha
Hoje estou com o riso tão solto que qualquer cosquinha me convence.

domingo, maio 19, 2013

Sou uma mulher grandinha, mais inteligente que a média e plenamente responsável por todos os meus passos. Detesto, então, ouvir qualquer frase que me vitimize. Tenho vontade de vomitar quando escuto "o que fazem com você (...)". Nossa. Coitadinha de mim. Tão indefesa, tão inocente. Com exceção das circunstâncias da Vida, e estas eu conheço bem a fundo, ninguém faz nada comigo sem o meu aval. Nenhum outro ser humano tem o poder de encostar em mim, me mover para direita ou para esquerda sem o meu consentimento, a menos que esteja armado. Os meus atos são meus. Não os transfiro a ninguém.
Minha mente está tão perturbada que, quando o silêncio reina, escuto o pi pi pi do monitor cardíaco do CTI. Preciso de férias, licença, adiós ou qualquer coisa que o valha.
“I am prepared to meet my Maker. Whether my Maker is prepared for the great ordeal of meeting me is another matter.”

Winston Churchill. Cada vez mais apaixonada.
Essa cara apreensiva dessa gente que me olha tentando adivinhar como está o terreno antes de pisar. É tão engraçado.

sábado, maio 18, 2013

Pai,

Estou muito preocupada, muito além das coisas práticas, com a debilidade emocional que tenho assistido. É muito triste vê-los nesse estado. Todas as vezes, desejo sumir por me sentir tão impotente. Sou meramente espectadora de cenas horrorosas, pesadas, sei que nunca mais vou esquecê-las. É extremamente destrutivo se sentir inútil frente a dor de quem se ama. É uma covardia muito grande o que a Vida tem reservado, diariamente, a quem não merece. Às vezes me revolto tanto. Peço a Deus que faça comigo o que tem feito aos outros. Esqueço que já foi feito, afinal. Digo: mira direito, amigo. Deixa ele em paz. Vem brincar comigo. Eu prefiro, sem dúvidas, sentir a assistir sem encontrar remédio.

Estou com tanto ódio que hoje num impulso soquei o caixa eletrônico porque ele não realizava saques. Não adiantou nada. O único resultado foi ter machucado minha mão. Tudo é inútil, nada adianta, nada tem saída nem solução. Estou dando muito mais do que posso dar - e ainda assim não é o suficiente. Já ultrapassei todos os meus limites. Meu corpo deve ser elástico para não ter arrebentado ainda.

Hoje também consegui cortar o cabelo. Agora estou bem parecida com uma mulher normal. E acertei três números na megasena. Todo mundo falou que é difícil, mas não ganhei nada. Exatamente como minha vida: é difícil acertar três mas, se acerta, não acontece nada.

Por que você me deixou, pai? Onde você estava com a cabeça?

Natasha

sexta-feira, maio 17, 2013

Cortázar:

"Y después de hacer todo lo que hacen, se levantan, se bañan, se entalcan, se perfuman, se peinan, se visten, y así progresivamente van volviendo a ser lo que no son."

'Amor 77' em Um Tal de Lucas.
Julio Cortázar, sempre tão debochado, me fazendo sorrir muitas vezes durante uma madrugada gelada. Um Tal de Lucas é um dos livros mais gostosos que já passaram pelos meus dedos nos últimos tempos. Não desejo estar em nenhum outro lugar além deste. Que alívio meu quarto, que alívio minha cama, que alívio não precisar responder a nenhuma pergunta. Que alívio, sobretudo, redescobrir meu sorriso.

Lucas, sus críticas de la realidad:

"Jekyll sabe muy bien quién es Hyde, pero el conocimiento no es recíproco. A Lucas le parece que casi todo el mundo comparte la ignorancia de Hyde, lo que ayuda a la ciudad del hombre a guardar su orden. El mismo opta habitualmente por una versión unívoca, Lucas a secas, pero sólo por razones de higiene pragmática. Esta planta es esta planta, Dorita = Dorita, así. Sólo que no se engaña y esta planta vaya a saber lo que es en otro contexto, y no hablemos de Dorita porque."

Cortázar, Um Tal de Lucas.

quinta-feira, maio 16, 2013

Companheiro de trabalho. Meu sonho mesmo é ter um dinossauro de estimação.
Adoro quando me procuram com "sua sumida!" porque, se antes eu tinha que fugir, hoje eu despejo uma palinha da minha atual conjuntura numa frase só, sem vírgulas nem nada, e sei que me livrei da pessoa por uns longos e bons meses.

Pai,

Paguei as contas na loteria e, com o troco, fiz uns jogos. Você acharia estranho porque eu sempre fui tão cética e achava graça dos seus jogos, te explicava que era pura perda de tempo e de dinheiro. Confesso que precisei ler as instruções no verso do bilhete e entreguei na mão do caixa um pouco tímida, temendo que ele me dissesse que eu marquei tudo errado. Ou me oferecesse um jogo espelho. Quem sabe uma aposta surpresinha.

Na saída, esbarrei com o Betinho. Sorri para que ele entendesse que, caso quisesse, não teria problema se aproximar. Desejou força. Já sabia, então, que você não estava mais aqui. Demos um abraço longo, senti um carinho muito grande e fiquei feliz por não restado nenhuma mágoa, nenhum resquício de mal querer. Foi tão feia, afinal, a forma que nos dissemos adeus. Fiquei pensando sobre o tempo. Não acho que seja verdade que o tempo modifique os sentimentos. Estes, uma vez existentes, ecoam eternidade afora. O tempo modifica as pessoas. E, sendo outros, não nos cabia nenhum tipo de impasse. Você, certamente, teria ficado feliz.

Pai, estou com saudade. Lembro de uma determinada situação recente em que estava viajando e te mandei uma mensagem escrito o mesmo. Escrevi também que só conseguia estar bem de verdade quando estava sozinha. Você, que sempre sabia o que me dizer, respondeu: "Sozinha não, quando está comigo. Sozinha você nunca vai estar. Filha, saudade é uma coisa normal. Nada acontece por acaso, você foi até aí por um motivo, então o cumpra."

Tento lembrar disso o tempo inteiro. Tento cumprir.

Talvez demore um pouquinho, mas um dia você vai vir me buscar no aeroporto. Exatamente como da última vez.

Eu te amo.

Natasha
"Marvin, agora é só você."

quarta-feira, maio 15, 2013

Gostaria de entender por que o meu corpo insiste em lutar diariamente contra o meu sono. Ficam, os dois, se engalfinhando. Quero dormir. Já existe tanta luta aqui dentro. Já é o suficiente. Chega.

Pai,

Hoje estou tão irritada. Notei que disfarçadamente tenho estapeado minha própria perna quando chego no meu auge, para que ao invés da minha perna não seja a cara de alguém. Ao mesmo tempo, descobri que minha irritação é, em partes, engraçada. Já respondo "o que é?" quando chamam meu nome e digo "você não está no quintal da sua casa" quando alguém fala um pouco mais alto. Foi quando disseram que não conseguiam executar determinada função e eu respondi "vai conseguir sim porque você não é retardado" que reparei a graça. Tive vontade de rir de mim mesma. Deve ser um bom sinal.

No mais, quem abre minha mochila pensa, minimamente, que eu estou de mudança para terceira guerra mundial. Hoje organizei, por exemplo, uma pastinha para casa e uma pastinha para hospital. Estava tudo muito confuso. Lista de compras é lista de compras. Ecocardiograma é ecocardiograma. Tenho também sabonete, calcinhas, muda de roupa, porque nunca se sabe onde eu posso acordar, e uma farmácia inteira em forma de comprimidos, porque nunca se sabe quem pode passar mal. Com a minha mochila, posso até descer de paraquedas na África que o sufoco não me alcançará.

Caso aconteça, aliás, o paraquedas na África, serei facilmente confundida com os macacos porque estou tentando me depilar há uma semana e não existe tempo.

É a vida. É bonita e é bonita.

Você sempre ria do meu estado de nervos. Se for proporcional, você deve estar gargalhando.

Natasha

terça-feira, maio 14, 2013

Eu sempre fui duas. Sempre até hoje. Hoje me dei um beijo na testa. Disse: você é uma gracinha, mas não tenho mais condições de te sustentar. Vaya con Diós. Virei as costas, fui embora. Ficou lá, chorando na estrada. Sinto muito, mas o que se há de fazer?

segunda-feira, maio 13, 2013

Pai,

Encho a boca quando falo a palavra "pai". Eu tenho vontade de colocá-la em toda frase, pai. Para fingir que eu estou falando com você. E que eu ainda posso te chamar. E a qualquer momento perguntar "pai, 'tá vendo que filme?" ou "pai, posso ir com você?" quando você for ao mercado.

Pai, por ora o meu desespero fez as malas. O corpo não aguenta mais se debater em vão. Seria fisiologicamente impossível continuar. Como um animal, eu era, que depois de ferido se agita violentamente de um lado para o outro. Fui sedada. Tudo se transformou numa tristeza tão funda, tão grande e tão sólida. Evito olhar para minha imagem refletida no espelho porque me sinto feia, maltratada. Parece que cem anos passaram por mim. A minha dor está escrita no meu rosto, na minha sobrancelha, no meu cabelo, nos meus olhos. Eu, que não quero que me vejam, todos os dias tenho que encarar as ruas. E, se é verdade que não temo mais nada, também não sinto outra coisa qualquer. Às vezes me sento ao sol, peço que me falem sobre as coisas bobas, sobre as coisas boas que devem haver nalgum lugar. Tomo muito café. Fumo ainda. Escuto estórias. Esqueço que você foi embora.

Meu corpo está muito cansado.

Por favor, me ajude a dormir. Eu preciso dormir.

Natasha

domingo, maio 12, 2013

Procurei minha fragilidade e não a encontrei. Estou preocupada. Tenho medo de tê-la matado, sem querer. Ter sufocado a pobrezinha ou pisado nela distraidamente. O que sei é que ela é muito tímida e se esconde dos outros, se camufla para fingir que não existe. Porém, quando preciso, sei pegá-la pelo rabo e trazer a tona. Conheço cada estrada minha, cada esconderijo que eu mesma criei. Contudo, hoje me varri de ponta a ponta e não achei nem vestígios. Não ouviu sequer o comando da minha voz. Fraca como é, logo aparecia cabisbaixa assim que eu chamava. Minha fragilidade saiu para comprar cigarro e até agora não voltou.

sábado, maio 11, 2013

Pai,

Às vezes sinto alívio por você não estar aqui presenciando o que eu estou. Meu avô piora consideravelmente a cada dia e eu não posso fazer nada além de dar a mão e mentir que vai passar. Sei que não vai passar. É angustiante vê-lo definhar, gemer, pedir ajuda. Acompanho tudo de muito perto e só me sobra angústia. Hoje ele foi transferido para o CTI e já quase não conseguia responder o que eu falava. Fez que sim com a cabeça quando eu perguntei se ele ainda estava sentindo dor. Penso que seria muito triste se você estivesse assistindo tudo isso. São os únicos momentos em que, mesmo destruída, eu me sinto aliviada.

Amanhã é dia das mães. Vou abraçar tanto minha mãe que vou quebrá-la ao meio.

Te amo, pai.

Natasha
"A morte não é nada.
Apenas passei para o outro mundo.
Eu sou eu. Tu és tu.
O que fomos um para o outro, ainda somos.
Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom a triste ou solene.
Continues a rir do que ríamos juntos.
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que meu nome se pronuncie em casa como sempre se pronunciou.
Sem nenhum exagero, sem rosto de sombra.
A vida continua significando o que significou.
Continua sendo o que era.
O cordão da união não se quebrou.
Por que eu estaria fora do teu pensamento, apenas porque estou fora de tua vista?
Não estou longe, somente estou do outro lado do caminho.
Seca tuas lágrimas e, se me amas, não chores mais."

Não sei a autoria. Recebi e achei bonito.
Por que todas as minhas preces acontecem ao contrário? Será que eu não sei rezar? O que eu estou fazendo de errado, meu Deus?

sexta-feira, maio 10, 2013

Independente de qualquer coisa, no dia 10 de maio eu sorrio e agradeço a Vida por, há 22 anos, ter enviado ao mundo o meu maior companheiro. Não à toa nós dois, quando éramos pequenos, dormíamos de mãos dadas. Era nossa forma de dizer que de mãos dadas vamos permanecer pelo resto dos nossos dias. Meu irmão, que a Vida te trate exatamente da forma que você merece ser tratado e te cubra com o que há de mais bonito. Por você eu mato, por você eu morro. Eu te amo muito mais que a mim mesma.

quinta-feira, maio 09, 2013

"Enfia no cu, então" é a resposta mais nobre, madura e pacifista do universo. Se todo mundo abrisse mão do que visivelmente não é para ser, economizaríamos tempo e a vida se tornaria mais prática. Mas neguinho quer guerrear, neguinho que bater pézinho, neguinho quer conquistar a Ásia, a África e um terceiro continente a escolha. Cansei de brincar de War. O meu suor vale muito. Podem enfiar tudo no cu.

quarta-feira, maio 08, 2013

Querer é muito luxo. Eu não me lembro qual foi a última vez que eu fiz o que eu quis. Faço o que precisa ser feito para que o calendário continue a caminhar. Os quereres nascem e morrem dentro de mim. E é exatamente assim, por toda essa desumanização do próprio ser, que a longo prazo um indivíduo torna-se medíocre. É exatamente dessa forma, vivendo do que precisa ser feito, que tantos corpos tristes e frios vagam pelos corredores da vida. Sei que não nasci para entrar nessa estatística e, com os minutos que me sobram para olhar para dentro, fico me perguntando como fazer para sair dessa fila.

Pai,

Hoje meu avô aceitou beber água de coco para ajudar na colonoscopia. Perguntei se ele beberia três litros, ele respondeu: assim eu vou me afogar!

Você teria rido muito.

Olhe por ele. Se for a hora, faça com que tudo seja o mais rápido e menos doloroso possível.

Mais que a sua morte, porque contra esta eu não tenho o direito de me pronunciar, me dói ter que assistir impotentemente, ao vivo e a cores, o sofrimento dos que eu amo, dos que vivem na minha tribo, dos que carregam o meu sangue. Digo impotentemente porque não posso pegar o coração deles para mim. Dói me sentir inútil frente ao sentimento dos outros. E você bem conhece a minha forma de lidar com a dor, a minha autodefesa é muito agressiva.

Eu te amo. E sei que pelo menos você está seguro e não sofre mais. Pensar nisso me cobre de alívio.

O maior orgulho da minha vida sempre foi e continua sendo dizer que sou sua filha. Fico toda prosa quando tenho que explicar que você era meu pai. Que você é o meu pai.

De longe, não solto sua mão.

Natasha
Eu gosto de vir aqui conversar comigo. É uma praça, um banquinho onde eu me sento ao meu lado e pergunto como estou me sentindo. Geralmente estes encontros só podem acontecer no final da noite, então é natural que eu esteja muito cansada para responder em longas palavras. Mas não faz mal. O que eu consigo, eu falo. Sou educada. Jamais me deixaria falando sozinha.
Estou tão alheia ao mundo exterior que, por exemplo, não sei do que se trata o assassinato do traficante matemático e perguntei "que atentado?" quando na ocasião me contaram que o suspeito do atentado em Boston havia sido preso. Sei que alguém foi estuprada no ônibus outro dia desses e é o máximo de informação que eu tenho sobre o caso. Para mais, não tenho tempo nem o menor interesse. Só me avisem quando um meteoro estiver vindo em direção ao planeta Terra para que eu possa providenciar os fogos de artifício.

terça-feira, maio 07, 2013

Tantas vezes eu poderia jurar estar cansada quando não tinha a mais vaga ideia do que significava cansaço. Quando lembro do meu suposto cansaço, porém, não me julgo. Sinto, aliás, a mesma ternura que se sente por uma criança. Eu queria mesmo é poder me colocar no colo e me explicar tanta coisa. Estou muito calma agora. O cansaço físico às vezes é maior que o desespero. Derruba. É provável que hoje eu consiga dormir.

segunda-feira, maio 06, 2013

Eu só existia para você ver.

Pai,

Cada dia é pior que o anterior. É como cair. E, na mísera fração de segundos antes do tombo, tentar se segurar na louça, na toalha, na mesa, nas paredes. E, conforme agarrar, sentir que tudo está vindo junto. A louça, a toalha, a mesa. Até as paredes. E que nada vai te segurar. E que a queda é inevitável. A mísera fração de segundos, neste caso, não é uma mísera fração de segundos. É um mês. E todos os próximos. O desespero de estar caindo gradativamente, dia após dia, é inenarrável.

Pelo amor de Deus, pai, segure o meu corpo.

De agonia, hoje eu me debato.

Natasha
ah! e eu que não sabia
que tanta coisa cabia
num peito só

prece

Que, para os meus ombros, esta semana seja menos pesada que a anterior. Que os meus demônios concedam trégua durante os próximos dias. Tenho certeza de que não estou pedindo muito. Amém.

domingo, maio 05, 2013

Oi, Vida!

Ao menos uma vez por semana eu digo, para quem quiser ouvir, que você é uma merda. Ultimamente, devo admitir, mais que o habitual.

É porque você, de fato, é mesmo uma merda. Você sabe que é, vamos lá, sem xurumelas. Sejamos francos. Você não é justa, não é limpa nem complacente.

Acontece que mesmo assim eu te amo. E sei que você me ama de volta. Que o nosso amor é assim, meio confuso, descabido, tumultuoso, como no fundo são todos os meus amores.

O que eu quero dizer com tudo isso, preste bem atenção porque às vezes você é meio lentinha, é que eu ainda estou aqui e ainda não desisti de você, de nós duas. Eu quero mesmo que a gente dê certo, eu estou me empenhando de corpo e alma para tal proeza. Porém, obviamente, eu preciso da sua ajuda. Quando um não quer, você sabe, dois não brigam. Dois não casam.

Então, vamos lá, mexa essa sua bunda da cadeira e colabore.

Você já provou para todo mundo que você é ruim, que você é má, que não vale nada. Ninguém tem mais dúvidas. Parabéns. Depois eu te dou um troféu. Agora vamos parar, por favor, com a palhaçada e cooperar um pouquinho.

Porque eu ainda insisto em você. Eu ainda acredito que, um dia, nós duas seremos mutuamente felizes.

Insista comigo. Acredite comigo. É a única coisa que eu peço.

Já estou perdendo a paciência, que fique claro.

Com amor,

Da sua,

Natasha
Eu adoro os dinossauros. Tenho a maior simpatia. E hoje parei pra pensar que, além de tudo, eles foram muito sortudos porque morreram todos juntos. Os bichanos não sofreram. Graças a Deus.

lava os olhos meus


"Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu"

Chico Buarque

Pai,

Todos os dias me sento para te escrever. O que acontece é que ultimamente tenho escrito coisas tão feias que, com todo bom senso que me resta, julgo preferível apagá-las, não transformá-las em verdade.

Porque você sabe, e eu bem já te disse, que quando eu escrevo as coisas tomam forma. Se eu escrevo, por exemplo, que eu quero morrer, isto torna-se um fato real e incontestável. É diferente quando só passa pela minha cabeça e não está devidamente documentado. É diferente, também, se as palavras saem pela minha boca e o vento leva embora. Tudo, para mim, é mais facilmente perdoável quando não está escrito, pois na minha concepção as palavras escritas têm outro peso.

Por tudo isso, nos últimos dias me privei desta nossa forma de contato. E falo "nossa" sem perceber que a forma de contato talvez seja somente minha. Não sei, afinal, se isso tem qualquer tipo de relevância. Escrever cartas para você me faz bem e sei que você iria consentir, acenar a cabeça como quem diz sim para toda e qualquer coisa que me fizesse bem.

As coisas por aqui não estão nada bonitas. A sua ausência me desespera e a minha nova vida real exige que eu engula o desespero, as lágrimas, a falta, o peso, e tudo mais que eu puder sentir, para me dedicar a questões práticas. Dormi por 24 horas. Dormiria mais 24, mas sei que seria um caminho sem volta e consegui levantar da cama para pedir ajuda, ao que fui prontamente atendida. Nessas horas, então, me comovo com o amor, com o carinho e o cuidado que ainda existe ao meu redor. Passei o dia fora e lembrei de você em cada rua, em cada rosto, em cada minuto que passava por mim. Mesmo assim, sorri várias vezes. Falei sobre coisas fúteis, outras nem tanto, distraí o relógio para que ele passasse sem dor.

Vejo muita gente chegando perto para me contar o quanto você se orgulhava de mim. Respondo: eu sei, ele sempre me falou.

Acho que ninguém mesmo sabe o que a gente era.

Te beijo muito, te dou a mão e te peço força.

Natasha