sexta-feira, junho 28, 2013

quinta-feira, junho 27, 2013

Você me diz que não o ama mais. Sofre, porém. Eu te respondo que você ama o espaço que ele ocupou e ainda não foi novamente preenchido. É amor, creio eu, de qualquer forma. O que difere é o predicado. Quem ou o que é amado. O objeto. Acontece a todo momento, em todos nós. Tão normal confundir amor. Tão banal.
Hoje meu texto está muito duro. E não falo sobre a essência, que é sempre a mesma, sim sobre a forma. Existem dias, portanto cito o de hoje como exemplo, em que as palavras estão mais sólidas. Quase imponentes. São ditadas e marcham como soldados. Noutras vezes estão mais molinhas, mais mulheres. E não é verdade que ninguém repare. Sentem. Um texto é sempre sentido, ainda que não saibam discorrer a respeito do que foi lido. Não precisam, aliás. Só o faço porque tenho tara em metalinguagem. "Metalinguagem é dor de corno", já dizia Ana Cristina César cheia de razão.
Não quero escrever mais nada. E a frase anterior nem teria sido escrita caso isso fosse verdade. Existe um princípio humano, e para tanto eu sempre digo que certas reações são universais, que dita a seguinte norma: aquilo que é verdadeiramente decidido e acordado entre si e si mesmo, não sente necessidade de ser anunciado. Desconfio de tudo que é exposto. De todos os poetas, de todos os políticos. De todas as palavras que saíram das gargantas.

Pai,

Estou há muito tempo olhando para esta tela em branco, escolhendo palavras. Chorei três lágrimas, fumei dois cigarros e não encontrei nenhuma. Resolvi, então, começar deste jeito torto para que ao menos haja a primeira linha, a primordial. Depois dela, todas as outras se sentem mais seguras, mais acolhidas.

Espero que você me perdoe pelo que fiz às nossas lembranças. Eu as escondi em algum lugar terrivelmente fundo da minha mente e, hoje, não sei mais pensá-las. Sei que o meu corpo funciona num processo de defesa magnífico, a minha cabeça trabalha em prol da minha sobrevivência. E a verdade mesmo, que antes eu só expunha a você e hoje se tornou tão pública, é que eu estou morrendo de medo. Tenho consciência de que todo este decurso é irreversível e certamente acarretará, cedo ou tarde, um curto circuito psicológico.

O que eu tento dizer, pai, é que já nem parece que eu estou escrevendo para você. E que tudo isso me aterroriza.

Eu não sei onde você está. Não sei onde foi que eu te escondi. Eu não quero te perder, pai, e eu morro de medo de te encontrar.

Te amo como sempre. O amor é imutável por natureza.

Natasha

quarta-feira, junho 26, 2013

todo não trocará de camisa
ah! um dia 

Esperança significa, no dicionário, que haverá o dia em que cada não mudará de ideia. Chegarão a conclusão, por fim, tão tolos, que desde o principio estavam enganados.

domingo, junho 23, 2013

Um dia eu vou contar para todo mundo quem eu sou. As estradas inimagináveis por onde desde muito cedo andei. E vou contar para todo mundo de uma vez, para que não haja privilegiados. Mesmo que reajam incrédulos. Não quero morrer fazendo segredo da minha história. Não é para isso que eu estou aqui. Eu nasci para viver nua. No entanto, nunca tirei a roupa para ninguém.
Encontrei poesias que escrevi aos quinze anos. Não sei se choro de vergonha ou de carinho.
Para escrever, basta começar. Descarto esses rituais poéticos. Não sei de onde essa gente busca tanta inspiração. Meu único conselho é sempre: sente a bunda na cadeira, olhe para dentro e pronto. Inspiração é desculpa de vagabundo que não quer ter trabalho. Tem que esperar os pássaros cantarem, o sino bater, etc.

Pai,

Minha mente está sobrecarregada. O curioso é que não posso esvaziá-la porque, ironicamente, é isso que tem me salvado. Tenho agarrado com unhas e dentes cada mínima adversidade que a Vida me impõe e, só assim, não me lembro do fato maior. Cada vez alimento mais a minha cabeça. Até que um dia ela exploda. Amém.

Assim posso então continuar a viver pensando que você está ali, vendo televisão. Às vezes quase posso ouvir sua voz chamando "Nat" pelos corredores. E mentalmente respondo "oi, pai".

Noutro dia uma psicóloga informalmente me falou que estou estacionada na fase de negação, uma das etapas do luto. Que posso ficar aqui durante anos, inclusive. Lembro que nós dois sempre dizíamos "tinha que ser psicóloga!" quando ouvíamos qualquer bobagem. Desta vez, penso eu depois de ler a respeito, pode fazer certo sentido.

Sei mesmo é que hoje é o 76º dia em que sobrevivo sem chão. E só o fato de numerá-lo já é um forte indício de que o encaro como algo passageiro, como quem ignora a realidade e conta os dias para tudo isso terminar num passe de mágica. Esqueço o nunca mais. E estou de pé, entre mortos e feridos. São 76 flechas e eu ainda não caí. Todo dia é dia de vitória. O jeito que dou para isso é o de menos, afinal.

Eu te amo desesperadamente.

Natasha
E talvez estas páginas tenham perdido a razão.

sexta-feira, junho 21, 2013

Quanto índio sem cacique. O povo precisa ser conduzido. Isto é primário. O líder do movimento é o Facebook. Ou seja, vocês mesmos. Ou seja.

por mais zil anos

"Enquanto os homens exercem
Seus podres poderes
Motos e fuscas avançam
Os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais"

Caetano

quinta-feira, junho 20, 2013

Tentei chegar a determinado estabelecimento sem sucesso, o mesmo fechou suas portas em razão dos protestos. Apesar do descontentamento por não cumprir meu objetivo, tentei ser compreensiva em prol de algo maior. Enquanto esperava o sinal abrir, observei de perto meia dúzia de manifestantes devidamente pintados e reunidos. Aos berros como um animal, um menino pulou nas costas do amigo e tirou a camisa para rodopiá-la no ar. Uma gordinha distraída mascava chiclete enquanto ajeitava a saia. Outras duas faziam pose para foto. O sinal abriu antes que eu pudesse encontrar a garrafa de vodka, que certamente devia estar por ali. Era o circo. O cordão do bola preta. A cena parecia qualquer coisa, menos uma manifestação política. Foi aí que tudo isso começou a me incomodar.

Eles publicaram hashtag vemprarua. E foram. Querem que o governo mude. Mude de quê? Mude pra onde? Não fazem a menor ideia. Por favor, às crianças saltitantes: brinquem com as máscaras V de Vingança no quintal de casa. Vocês vão acabar morrendo por um ideal QUE VOCÊS NÃO TÊM. Por uma foto no Instagram.

A polícia não vai querer saber se você está ali apenas para socializar. Você não vai poder responder ao BOPE: desculpa, vim só para dançar.

É preocupante.

quarta-feira, junho 19, 2013

Pai,

Não tenho sentido sua falta porque só sinto falta do que não está. Não é o caso. Nós sempre conversamos tanto sobre o que não pode ser visto a olho nu, você me ensinou que nem tudo é o que parece.

Eu não choro sua ausência porque ela não existe. Eu choro de vontades: vontade de passar a mão no seu rosto, vontade de ouvir sua voz. Eu choro de caprichos.

Natasha
Diariamente descubro que há mais gente me lendo do que eu supunha. Muito mais. Olhos inimagináveis os que eu descubro por aqui. Deixem os sapatos do lado de fora. Pisem com o pé descalço. Falem baixinho. Vocês estão dentro de mim.

Pai,

Eu nunca vi nada tão assustador quanto 2013. E desta vez não estou falando necessariamente do meu umbigo. Nem da nossa casa, nem da nossa família. Constato que sobreviver no meio de ruínas não tem sido uma exclusividade minha. Todas as manhãs escuto pessoas diferentes, as mesmas que antes levavam uma vida tão estável quanto a minha, me contarem sobre como tudo está desmoronando. Estou falando de doença, câncer terminal, morte, suicídio, tiro na cabeça. E eu os abraço - porque minhas palavras bonitas já se esgotaram faz tempo.

Ah, Dona Morte! Suas razões nos são tão desconhecidas. Ainda assim, eu te respeito. E peço aos outros que igualmente te respeitem. Há muitos anos digo que só respeito o que é maior que eu. Cumpro, então, meus preceitos.

Noutro lado, tento me distrair com a televisão e vejo milhões de pessoas tomando as ruas em resposta violenta à escravidão que nos é imposta ao longo de tantos anos. É o único assunto nas páginas da internet, no rádio, nas bocas. Acho muito justo. Porém, insisto, existe alguém que possa me contar levezas? Eu queria brincar de demora num lugar bem bonito, um lugar que eu nem conheço ainda. Ouvir coisas brancas, repousar meu caminho. Foi o que hoje eu disse aos outros, que concordaram por unanimidade. A paz está em extinção. Matéria rara.

Pai, eu me sinto no meio de uma guerra. Não saberia fazer outra comparação. E estou tão cansada, tão machucada. Eu preciso de fôlego, constantemente me sinto afogar.

Natasha

terça-feira, junho 18, 2013

segunda-feira, junho 17, 2013

Se porventura minha autoestima sofre um baque, venho até aqui e passo cinco minutos lendo quem eu sou. Num instante o problema tem fim.
Outra coisa imutável sobre mim mesma é o pânico do cotidiano, esse monstro que nos esmaga diariamente. É por tanta rotina que se desaprende a olhar para dentro. Vocês não sabem mais quem são - embora saibam o que devem fazer no dia seguinte. Como deve ser triste uma existência inteira sem saber de si.
A vida é muito rápida para que as pessoas sejam tão lentas. Há um desacordo temporal. Eu sempre fui urgente e pretendo manter o ritmo.

domingo, junho 16, 2013

Descobri que aqui estou muito mais pública do que supunha. Por uns instantes, desejei passar a escrever somente para as minhas gavetas. Estou nua. No entanto, prossigo.

Pai,

Este é o primeiro domingo em que não sinto dor. Sei da minha razão e te explico: noutro dia mesmo eu discursei aos que me cercam certas palavras que já existiam dentro de mim, porém só tomaram forma sólida depois de enfim expostas.

Explico ainda melhor: você sempre me falava que não compreendia o amor que as pessoas diziam sentir. Pois, você dizia, o amor é tudo menos egoísta. Quando se ama, então, o natural seria desejar o que há de melhor para o outro, ainda que o melhor para o outro não seja o melhor para si mesmo.

Foi então, enquanto eu repetia suas palavras, que pela primeira vez em toda minha vida eu entendi - porque senti - o que é o amor. Foi quando eu disse aos outros, e talvez minha afirmação possa ter causado certo desconforto, que eu teria consentido caso tivessem me pedido autorização para te levar. Eu teria dito que sim, que o levem de mim, que não te deixem agonizando num mundo tão frio, tão pobre. Você merece as coisas mais bonitas, pai. Se os que habitam este planeta não tiverem olhos para enxergar quem você é, que te levem para o próximo.

Eu não tenho o direito de querer você ao meu lado pelo simples fato de precisar de você. As minhas necessidades são só minhas. Mesmo que eu me sinta assustada, como um passarinho que ainda não tem asas suficientemente grandes para voar sozinho, hoje eu sei o que é o amor e me sinto feliz por sabê-lo.

Natasha
Não devo num gesto bruto matar todas as minhas esperanças, principalmente no caso de estarem frágeis e debilitadas. Isto se chamaria covardia. Abuso de poder. Caso eu queira mesmo destruí-las, que ao menos o faça com dignidade - quando elas estiverem de pé, suficientemente saudáveis, em condições de lutar para quem sabe por fim permanecerem.

sexta-feira, junho 14, 2013

Amanhã vou dizer uma porção de coisas que estão acumuladas. Estou ansiosa. Por sorte confio plenamente na minha memória, tendo em vista que não tenho nada documentado desde terça-feira. Não escrevo hoje porque estou muito cansada, não me sinto necessariamente hábil com as palavras e acabaria estragando todos os meus pensamentos por não saber contá-los. Não é assim que se escreve. Há de se respeitar.

terça-feira, junho 11, 2013

Deus - pois é assim que eles te chamam, Vida - obrigada por este dia brando. Que ele saiba permanecer, ainda que eu precise fechar os olhos agora para só abri-los novamente quando o sol nascer. Se o relógio não existe, é possível que se viva o dia anterior no próximo. Dormir não interfere no Tempo. É um ato dentre todos. Não tem, portanto, poder para terminar ou começar coisa alguma. Um dia pode durar dois, três. Um dia pode ser eterno.
"Se eu não tivesse escrito Amarelinha, provavelmente teria me jogado no Sena."

Julio Cortázar, extraído de Conversas com Cortázar.

segunda-feira, junho 10, 2013

"Hoje, não só entes queridos, esposa e filhos, mas a humanidade perde silenciosamente um guia(...) No exercício incansável de fazer o bem, Walter Pinto nos ensinou a sentir o gosto do azul, o bálsamo do verde e, sobretudo, a alegria do instante, a importância única do momento único repleto de alegrias que, somente ele, o pai, poderia nos proporcionar. Quem entre nós será capaz de esquecer a fartura de suas festas e a abundância de seus abraços. Para nós ficam não somente as lembranças, mas em principal os ensinamentos que nos foram passados com toda a paciência do sábio que tivemos o privilégio inegável de abraçar."

Fábio Mazzarella

domingo, junho 09, 2013

Hoje me disseram "não é o fim do mundo" e eu respondi "fale por si". Não afasto de ti esse cálice. Não mais. Cansei de ser condescendente com a falta de tato alheia. Eu não exijo que ninguém saiba o que me dizer, mas seria bom se soubessem ao menos o que não dizer.

sábado, junho 08, 2013

"Filha, Deus foi muito bom comigo quando resolveu te mandar ao mundo novamente ao meu lado."

Seus bilhetes, que sempre me doem mas nunca me matam.
Quando eu era criança, passava a mão no seu rosto e dizia: que barbinha confortável! Você ria porque, afinal, é engraçado adjetivar uma barba assim. E também porque eu ainda nem sabia ao certo o que significava confortável, mas criança tem mesmo o direito de ser irresponsável com as palavras. Fernando Pessoa dizia que as crianças são muito literárias porque dizem como sentem e não como deveriam dizer. E eu, na minha meninice, estava coberta de razão. Pai, você era muito confortável.

Pai,

Hoje pensei que sou uma mulher de muita sorte. Na grande maioria das casas onde eu entro, existe um pai - porém não existe a mais vaga ideia do que significa isso. Não existe um homem capaz de ser, de fato, um grande porto. Não existe um grande homem.

A nossa casa sempre foi casa de gente grande. Crescemos graças ao seu tamanho. A sua coragem me fez tão corajosa. A sua força me fez de aço.

Quando eu penso, então, que por azar poderia ter sido composta por qualquer outro, agradeço aos céus.

Que te levem cedo! Que seja. Antes breve do que nunca.

Natasha
É madrugada. O relógio faz tic, depois tac. Não sinto nada. Estou encolhidinha dentro de mim. Estou me pertencendo.

sexta-feira, junho 07, 2013

Hoje, por acaso, encontrei a palavra que tenho buscado: crível. Nada parece digno de credibilidade. O mundo é muito maquiado para que me faça gosto. Maquiagem barata, daquelas que mal resistem ao tempo. Vocês não são feios quando pecam, erram, tropeçam. Vocês não são feios quando acordam. Vocês são feios quando se fantasiam. Não convence. Quando, portanto, não se crê em nada do que se olha, a existência neste planeta onde por acaso nasci e vos observo, enxergo, escrevo - "Y me dijo: Escribe; porque estas palabras son fieles y verdaderas"¹ - carece totalmente de sentido.

¹Alejandra Pizarnik. El Infierno Musical, 1971.

quinta-feira, junho 06, 2013

wings of desire:

"Dedicated to all the former angels."

Wim Wenders, 1987. Meu imbatível.

Pai,

Hoje estou mais perto de te encontrar que ontem. E amanhã estarei mais perto ainda. Cada dia é menos um dia.

Aguenta que eu vou chegar!

Eu te amo.

Natasha
A minha única vontade é abrir o portão e sair correndo para tão longe quanto minhas pernas forem capazes. Mas, como dizem os mais rudes, vontade é coisa que dá e passa.
Detesto livro de historinha. O sol brilhava no céu, o âmbar do abajur na vidraça refletia doze tons distintos num brilhante arco-íris enquanto Fulaninho desamarrava o cadarço. E dá-lhe tinta, e toma-lhe página descrevendo a temperatura do solo. Pro inferno. Fico cansada. Tenho vontade de perguntar ao autor: vai mostrar logo pro que veio ou vai ficar de palhaçada? Literatura que me enche os olhos é pá, pum. Ou me vence de primeira ou nem adianta mais tentar.

quarta-feira, junho 05, 2013

Hoje eu não quero escrever nada e já tive, até o momento, duas discussões comigo mesma por conta disso. Existe sempre uma que diz o que eu tenho que fazer. E, na contramão, outra que nunca quer obedecer. Fico me olhando como uma terapeuta de casais. Ajeito o meu óculos, digo que é complicado, que alguém tem que ceder, etc.

segunda-feira, junho 03, 2013

Em letras miúdas, segue meu maior segredo: eu tenho um bicho de dormir. O nome dele é Bicho. Meu pai me deu quando eu era pequena e nunca mais consegui dormir sem. Quando viajo, mal consigo pegar no sono porque, ainda que eu encontre uma almofada substituta, não é o Bicho. Ele tem umas botinhas que estão rasgadas, já está muito velhinho e, digamos, bem prejudicado pelo tempo. O fato é que recentemente ganhei um hipopótamo, Rodolpho, e sem saber como agir acabei por permitir que ele também dormisse na minha cama. Minha mãe, ao me ver dormir abraçada com Bicho e Rodolpho, esmagada, encheu os pulmões de crueldade e falou referindo-se ao meu primogênito: está na hora de jogar isso fora, está velho e horroroso. Fiquei atônita. Nem deu tempo, veja bem, de cobrir os ouvidos do pobrezinho. Fui bem ríspida e perguntei se ela gostaria de ser jogada fora quando ficasse velha e horrorosa. Depois pedi desculpas ao Bicho, expliquei que ela havia falado da boca pra fora. Ainda bem que ele é muito compreensivo.

domingo, junho 02, 2013

Pai,

Ser pega chorando é como ser pega nua. Então me escondo, me cubro, me tapo e só encaro os outros com a minha máscara austera dizendo que está tudo bem, tudo em ordem, tudo certo e que não há o que temer. Digo que você está em paz, que temos que nos manter vivos uns pelos outros, que ainda somos uma família, que a guerra ainda não terminou e seremos vencedores como sempre nos foi prometido. Digo, às vezes, coisas que eu nem sei se ainda acredito. O importante é que acreditem.

Os domingos são especialmente pesados. A casa é fria, não ouço suas músicas, não vejo você dançando, bebendo, brincando. Senti cheiro de churrasco em algum vizinho próximo e, definitivamente, é um cheiro que eu gostaria de não sentir nunca mais.

Todos os conselhos que você me deu eram baseados em pura e simplesmente viver como se não houvesse amanhã. Foi você que me fez, pai. E, se hoje eu sinto orgulho de mim mesma, dos meus modos e da minha coragem, a culpa é toda sua.

Uma vez você me disse que, a cada flecha que me acertavam, eu curiosamente ficava mais bonita. Acho que devem ter ficado mesmo muito irritados conosco, que fazíamos piada das adversidades da vida, e mandaram uma quantidade bem razoável para ver se, quem sabe agora, minha alma escurece e começa a feder. Esqueceram apenas de atentar ao fato de que vivo exclusivamente do seu amor, onde quer que você esteja. E espada alguma é capaz de cortar ao meio quem vive coberta por um amor tão bonito. Envergo frente às ventanias, os que observam podem jurar que uma hora ou outra a haste arrebenta, mas do meio da tempestade hei de ressurgir maior que antes. Bem maior.

Eu te amo. Me ame de volta. É tudo que precisamos.

Natasha
Lembro do meu avô, que de tanta dor gemia que preferia morrer. Sedavam-no, então. Em dados momentos minha dor é tão física que num ápice de desespero também penso que prefiro morrer. Repito o procedimento que aprendi.
Às vezes eu também tenho vontade de sair pelas ruas perguntando aos desconhecidos se te viram por aí, eu te descrevo com detalhes e sei que alguém vai acabar me respondendo, afinal, onde você se meteu. Porque você estava aqui outro dia mesmo, não deve ter ido muito longe. Pai, eu nunca vou cansar de te procurar.
Em todos os meus anos, eu não havia conhecido nada tão doloroso quanto um domingo. Aos domingos eu não atravesso um dia, eu atravesso um deserto. Às vezes fico imaginando que você vai entrar pelo portão, dizer que voltou, e eu não vou estranhar nem lhe perguntar nada, só dizer que minha mãe está muito gripada, que preparamos um macarrão caso você esteja com fome, coisas assim.