domingo, julho 28, 2013

Eu me sinto tão covarde quando, aos domingos, adio a hora de dormir como quem cruza os braços e se recusa a iniciar uma nova semana. Ora, se tantos milagres podem morar nos próximos dias! Se tanta beleza escondida pode estar esperando que eu chegue, enfim, no amanhã. Deixa de ser frouxa, mulher.
Ultimamente tenho sentido repulsa por sofredores. Exceto, óbvio, dores existencialistas porque a estas faço muito gosto.
Dia desses uma pessoa próxima suspirou duas vezes e disse, cansada, que gostaria de desistir da vida. Respondi que não é preciso se dar ao trabalho porque a vida, de tão breve, daqui a pouco acaba por si só. Num piscar de olhos. Relaxem.

quinta-feira, julho 25, 2013

quarta-feira, julho 24, 2013

quinta-feira, julho 18, 2013

Todo não dito está escrito em nossos semblantes. Ah, se os outros olhos fossem espelhos! E pudéssemos, por um instante, olhar para nós mesmos, constatar cada auto-denúncia que mora numa sobrancelha levantada, uma boca torcida, um olhar desviado.

segunda-feira, julho 15, 2013

Hoje mandei duas pessoas para o inferno. Mentalmente, porque minhas palavras são muito bonitas para que eu faça uso o tempo inteiro. Não quero gastá-las. E também porque se mandamos para determinado endereço, o essencial é que sejam devidamente enviados. A maneira é desimportante.

ah!

"Até que, de dor e cansaço, ambos cochilam, no ninho da resignação. E eu não aguento a resignação. Ah, como devoro com fome e prazer a revolta."

Clarice Lispector, que recordo pois desde os primórdios me faz companhia, em A Descoberta do Mundo.

Pai,

Outro dia, enquanto eu estava sentada ao sol com o meu café, um homem saiu da emergência urrando eu quero o meu pai. Provavelmente o pai dele havia acabado de falecer. Terminei o meu cigarro e, em seguida, passei direto por ele para voltar ao trabalho. A normalidade é enfim atingida pela quantidade de vezes que uma cena se desenrola frente aos seus olhos.

Lembrei que na sexta-feira anterior a sua morte, sentada ao sol naquele mesmo lugar, te enviei uma mensagem contando os meus maus pressentimentos. Eu te disse, ainda que inexplicavelmente, estar com medo de que alguma coisa ruim acontecesse. Foi a última mensagem que trocamos. Você, talvez o único que levasse a sério minhas palavras, ficou preocupado e pediu que eu viesse para casa.

Eu vim. Na segunda-feira você é quem foi para sua Casa. E eu fico triste porque a gente bem que poderia, de vez em quando, visitar a casa do outro.

Não quero mais te escrever, se toda vez me faz chorar, entretanto eu preciso te falar. Durmo e acordo precisando te falar.

Natasha

domingo, julho 14, 2013

quarta-feira, julho 10, 2013

Porque tão repentina quanto a morte é a própria vida. De repente, numa próxima esquina, a gente encontra, desencontra. De repente a gente ama. De repente a gente deixa de amar.
Quando toda gota é gota d'água, vive-se a transbordar.
Eu não conheço nenhuma outra pele tão à flor de si quanto esta que me reveste. Nasci em carne viva.

terça-feira, julho 09, 2013

Traduções literárias são tão necessárias quanto criminosas. As palavras precisam dançar balé e então, se você as substitui por outros sons, ainda que com sorte o significado seja mantido, o texto se transforma num espetáculo completamente distinto do original. Quase sempre desordenado, diga-se de passagem, e feio, pobre, já que o objetivo de uma tradução consiste apenas em conservar o sentido. Julgar um autor sem tê-lo conhecido no idioma de origem é julgar um autor que não existe. Linguagem é intraduzível.

segunda-feira, julho 08, 2013

quack

E beira o ridículo minha fantasia de pato. Ora, se não sou pato!
Quase sempre me envergonho por ser grande. Chego a corar se por descuido enxergam o meu tamanho. Fico nervosa quando me vêem.
Solidão só existe para provar que compartilhar é coisa muito séria.
No dia oito de abril, há exatos três meses, o meu pai ficou invisível a olho nu. A minha sorte é que ao longo dos anos ele teve tempo suficiente para me explicar que isso não quer dizer quase nada.

Pai,

Se é verdade que sou, dentre tantas, uma privilegiada por ter nascido sua filha, também sou obrigada a aceitar, neste silêncio de prece, minha dor descomedida.

Porque nós dois conversávamos vezes e vezes sobre todas as coisas e já havíamos concordado, por fim, que não se pode escapar a dualidade da Vida. Quanto maior a benção, maior a sombra que lhe acompanhará. Tão grande a coroa, tal qual a cara.

Minha garganta arde em nó. E eu, que desde cedo tomei ensino pelas suas palavras, aceito até o insuportável.

Natasha
"E se fores tu a primeira a morrer, Bendito seja quem te trouxe a este mundo quando eu ainda estava nele"

Saramago
"Levei dezoito anos para chegar aqui, Alguns dias mais não te farão diferença"

José Saramago, que descubro tão bonito a ponto de encher meus olhos cascudos, em O Evangelho Segundo Jesus Cristo. 1991.

domingo, julho 07, 2013

Pai,

No sábado acordei e ouvi música, falatório em tom festivo. Ainda inconsciente pelo sono, meu primeiro pensamento foi "meu pai voltou". Durante uma fração de segundo fui invadida por uma felicidade indescritível. Imaginei que eu pudesse descer as escadas e encontrar você. Procurar esperançosa seu rosto no meio de tantos outros rostos é, sem dúvidas, a pior dor que eu já experimentei.

Entre trancos e mil barrancos, tenho buscado ser feliz porque essa era sua maior vontade. Você é tão bonito e nunca exigiu que eu fosse qualquer outra coisa além disso. Não tenho, então, qualquer objetivo além deste. Nenhum amanhã me pertence, eu não quero ter notícia deles. Hoje aqui, amanhã não sabemos. Permaneço viva para ser feliz. Com o pouco que os dias me oferecem, do jeito torto que muitas vezes é possível. Das minhas tripas eu faço coração. E, notei, também tenho feito coração de todo resto.

Eu te amo - e tenho passado muito amor adiante.

Natasha

sexta-feira, julho 05, 2013

e agora, José

Não existe escrever sem fumar. Eu suportaria até, veja bem, tomar café sem fumar. Escrever, não. Penso em qual dos dois vícios ficará pelo caminho. Nenhum.

mas

O meu pai queria ir pra Índia. O meu pai me falava sobre muitas coisas que gostaria de fazer, "mas não posso, não sou só eu". Como são cretinas as ligações humanas. O amor pode ser cretino, também.

eu quero outra coisa

Entupida de buzina, outdoor, fila do caixa, asfalto. Que grande merda. Lembro Dulce Veiga, personagem de Caio Fernando, que repetia insistentemente "eu quero outra coisa" antes de desaparecer.

sonhando baixinho

Todos os dias penso em acordar numa casinha branca perto da praia, lá no interior do Maranhão ou destino que o valha. Posso ter várias profissões: vendedora de empadas, fazedora de artesanato (caixinhas coloridas, porta jóias, souvenir) ou até mesmo auxiliar o meu marido com a venda dos peixes. Ele não é lá muito estudado. Penso muito também no nosso vira-lata, que já falei que se chama Osório. No final do tarde, depois de recolher as roupas do varal e coar o café, balanço na rede. À noite vou escrever poemas e namorar. Depois dormirei, enfim, o sono dos justos, já que nenhuma preocupação terá o meu endereço.

Não é fugir. É encontrar.

quinta-feira, julho 04, 2013

Querida Thaís,

Sobre ser alguém melhor: o que é exatamente isso? Quero dizer, entendo completamente quando leio que ao lado dele você é uma pessoa melhor. Já me senti assim, mas nunca foi o suficiente para sustentar uma relação. Na realidade, parecia mesmo um namoro diet. Soa como: não ingiro frituras, troquei a cerveja pelo suco de laranja, pratico exercícios físicos e nem pensar em carboidratos à noite. Estou cuidando de mim, etc. Válido. É uma sensação boa, sadia, nunca gostosa. O que acontece é que você sempre vai pensar em devorar uma pizza calabresa com ketchup enquanto ninguém estiver olhando. (Adoro minhas metáforas.) Com o tempo passei a me perguntar o que é, afinal, ser alguém melhor. Nos meus olhos, ao menos, não é para isso que a vida se propõe. Teimo: não quero ser alguém melhor, quero ser alguém feliz.

Sorri enquanto lia suas outras notícias. São tão bonitinhos esses embaraços sentimentais. Não saber o que dizer ou onde colocar as mãos. Esse acanhamento afetuoso é a sensação mais doce que alguém pode experimentar. Senti saudade de sentir. É linda essa insegurança, o esconde-esconde declarado de ambos corazóns. Conte mais vezes, gosto de relembrar se já não sinto.

Um beijo,

Natasha

terça-feira, julho 02, 2013

aliás...

"É um favor que você me faz" é o bordão debochado e tão sincero que tenho respondido sorrindo a quase todo mundo.

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Para Vida só se responde "sim senhora". Batam continência. Qualquer outra hipótese é uma loucura que, ao frigir dos ovos, vai resultar na mesmíssima coisa, exceto pelo fato de ter despendido energia em vão. O importante, e neste fazem confusão, é saber diferenciar o que é a Vida - a natureza dos fatos - do que é massinha de modelar.

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Sou contra qualquer mudança interna que exija esforço. Podem me chamar de comportamentalmente preguiçosa. Podem me chamar do que acharem devido. Que seja. Não sou a favor de nada que desperte uma batalha minha comigo mesma. Toda e qualquer mudança, ruptura de ciclo, deve acontecer com naturalidade. Não nado contra minhas próprias marés. Não emprego força contra mim mesma. Danço conforme o meu som. Seria uma tolice agir ao contrário.

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Cada dia que passa, estou mais perto de concluir minha tese de que o mundo é um grande circo. Não tenho chão e, ao passo que me desespero, também concluo que se abster de razão existencial concede uma liberdade enorme aos ditos desgraçados que, se observados sob um ponto de vista mais otimista, podem ser chamados de privilegiados. Quando não se tem nada a perder, a vida aos poucos se desarma. Os dias não têm o poder de te frustar caso você não exija sequer a existência deles. Os dias, por fim, assumem um tom bobo, quase risível.

título da postagem

O blogspot não permite mais que eu publique textos sem título. Estou profundamente incomodada em ter que nomear tudo que eu sinto. Além do mais, ele me conhece há cinco anos. Já existe tempo hábil para compreender que eu só faço o que eu quero. A concorrência cresce, a internet é um universo e eu bem que poderia, qualquer dia desses, mudar de espaço. Basta eu cismar.