quarta-feira, agosto 28, 2013

"Em mim todas as afeições se passam à superfície, mas sinceramente. Tenho sido ator sempre, e a valer. Sempre que amei, fingi que amei, e para mim mesmo o finjo."

Fernando Pessoa, com quem esta noite troco prosas antes dos sonhos, em O Livro do Desassossego.
Há muito mais escrito na minha testa do que aqui.
Meu passatempo preferido é ficar sentada ao sol, esteja ele - esteja eu - onde estiver. Por horas a fio, se possível for, como uma árvore criando raízes.
Ora, eu é que não quero descrever cotidianos, porque a verdade é que estes têm me feito menos bonita e menos saudável. Também não quero resumir minhas palavras a queixumes brabos, pois 1) não quero ser injusta com o Todo; 2) falar em broncas não transformaria em vinho toda essa água podre; e 3) o que se há de fazer. Prefiro, muito esperta, me abster de realidades e fazer destas páginas uma leveza que a Vida não me dá, um sopro, uns pincéis, tinta guache, massinha de modelar.
Nunca diria que, um dia, esta que se ocupa a publicar uma postagem pelo celular, fosse capaz de tal proeza. O papel e a caneta, órfãos, certamente sentirão tamanho abandono, se antes era eu uma das últimas defensoras. Daqui a pouco esqueço, triste, como desenhar minha própria letra. Ela é redondinha e espaçosa, com certo vão entre uma letrinha e outra letrinha, um cuidado para que possam respirar sem esforço. Sempre tive medo que as palavras morressem sufocadas. Sou uma preocupada.
A grama do passado é sempre mais verde. Os primórdios sempre são tempos heroicos de glória, talvez justamente por, de tão longínquos, tornarem impossível à memória constatação real da suposta bonança. O dia de hoje será aplaudido, sim, nos próximos futuros. Quando, enfim, relembrarmos imaginativos - e suspirarmos: ah, naquele tempo!

segunda-feira, agosto 26, 2013

Todas as noites eu me ponho no colo, troco meus band-aids, lavo minhas camisetas suadas, meus pés sujos, e digo pela manhã: vá lá, faz tuas brincadeiras! Eu me permito.

domingo, agosto 25, 2013

Noutra época, quando sabia ainda menos, fatalmente diria que estou me contentando com muito pouco. Hoje me respondo: e quem foi que te disse, mulher, que isso tudo é muito pouco? Olhe de novo. Mais devagar. Mais de perto. Mais atenta.
E quando eu nasci, Deus, ou nomenclatura que o valha, perguntou se eu de fato prometeria ser fiel a mim mesma na alegria e na tristeza, na saúde de na doença, e que nem a morte com todos os seus ilusórios fins nos separasse, amém. Aceitei o fardo. Eu me cumpro.
Quando se voa muito alto, quase sempre aterrissar em terra firme significa destruir os joelhos, tombar e ralar os cotovelos, salvo quando, devido a prática dos anos, o sujeito virou passarinho. E aprendeu a pousar tão bonito como se dissesse, enfim, isto faz parte da minha natureza.

Querida Thaís,

Há muito não recebo notícias suas. Espero que você esteja sendo generosa com os dias. Sobretudo porque eles são bem educados e, de tal maneira, costumam retribuir.

Estou tão cansada que mal consigo lhe escrever. Mas estou viva. Radiosamente viva. A vida é um playground e eu escorrego, balanço, trepo-trepo, caio de boca no chão e choro mamãe, soluço mamãe, mas não foi nada, já passou. Falo muito rápido, eufórica, tropeço nas frases porque as palavras não acompanham meu raciocínio, acho muita graça. Rio escandalosamente. Poucas vezes estive tão vibrante. E meu corpo vezes pede bis, vezes pede socorro dessa descarga emocional.

Ainda agora tomei um banho muito quente e deitei para ler Pessoa, O Livro do Desassossego, um dos meus preferidos. Começo a sentir algo parecido com a paz, este tão ilustre prêmio destinado aos plenos de si. Enfim me sinto acolhida e lembro Ana Cristina César, que uma vez escreveu "a gente sempre acha que é Fernando Pessoa". Como é grande esse nosso ímpeto de ser grande.

Amanhã recomeço. E não é, pois, para isso que servem os amanhãs?

Com saudades suas,

Natasha

domingo, agosto 18, 2013


"Como tudo, as palavras têm os seus quês, os seus comos e os seus porquês. Algumas, solenes, interpelam-nos com ar pomposo, dando-se importância, como se estivessem destinadas a grandes coisas, e, vai-se ver, não eram mais que uma brisa leve que não conseguiria mover uma vela de moinho, outras, das comuns, das habituais, das de todos os dias, viriam a ter, afinal, consequências que ninguém se atreveria a prever, não tinham nascido para isso, e contudo abalaram o mundo."

José Saramago em Caim, 2009.
Enfim reparo que você me repara de tal maneira que nem eu mesma, que descuido, havia reparado.
"Bom, é o que tem pra hoje" é o que repito com humor e cada vez mais frequência, quando ousam iniciar o blá-blá-blá insatisfeito. A maior lição de humildade que um ser humano pode experimentar é trabalhar com o que a vida oferece, sem maiores anseios quando estes são meras impossibilidades, sonhos longínquos, suspiros de nada. Isto é o que se tem. Queira o além, mas não baseie toda sua existência em hipotéticos aléns porque, é com muito pesar que sou obrigada a confessar, talvez não haja o pote de ouro no final do arco-íris. Ainda assim, vale a caminhada. Para bom entendedor, minhas palavras bastam.
"I know I have but the body of a weak and feeble woman, but I have the heart and stomach of a king."

Queen Elizabeth I

quinta-feira, agosto 15, 2013

Finalmente gostei de Caetano mandando um abraçaço.
Eu sou a pessoa mais engraçada que eu conheço e, somente no dia em que eu perder a capacidade de rir de mim mesma, é que de fato constatarei que está tudo perdido.

terça-feira, agosto 13, 2013

"Mas o tema da cegueira tem muito mais que ver com uma convicção minha, que nós, no que toca a razão, estamos cegos. Uma vez que decidimos que somos os únicos seres racionais na face da Terra, o que foi uma decisão nossa, ninguém veio cá de fora, vindo de outro planeta ou de outro sistema, dizer que nós somos racionais."

José Saramago, com quem tenho me deitado todas as noites e por quem tenho me apaixonado irremediavelmente, em entrevista a Folha de S.Paulo, 1995.
Hoje eu gostaria de ter a mente descansada, bem dormida, para me colocar à disposição das palavras durante horas a fio. E fazê-lo seria nada mais que me colocar à disposição de mim mesma. Escrever é, em mim, a única maneira de me dar ouvidos. E eu tenho tanto a me dizer!

segunda-feira, agosto 12, 2013

Neste agosto estas páginas completam cinco breves e inflamáveis anos. Reli muita coisa. Sorri muita coisa. A graça da vida deve estar justamente em não poder voltar e explicar para gente o que a gente só aprende depois.

domingo, agosto 11, 2013

Às adversidades é que tenho dito: cá entre nós, coleguinhas, já escalei muros mais altos.
Me perguntaram por que diabos construo tantas barreiras por vezes intransponíveis para o meu coração, e eu respondo que, para se chegar até um rei, há de se enfrentar um batalhão de soldados.
Feliz dia dos pais ao homem que pode se mudar de Casa, mas nunca de mim. "Obrigada por ser você" é o que eu costumava te escrever, é o que eu ainda te escreverei pelo resto dos meus dias. Voa longe, pai. Voa alto que os desta terra não merecem o seu peito tão bonito.

sábado, agosto 10, 2013

Esmurrando ponta de faca enquanto a Vida calmamente me observa e pergunta, vez ou outra, se minha mão já sangrou o suficiente para que eu enfim me convença a juntar meus paninhos de bunda ou se ainda quero mais.

segunda-feira, agosto 05, 2013

Teu amor é do teu tamanho.
Teu amor é do teu tamanho.
Teu amor é do teu tamanho.
Teu amor é do teu tamanho.

domingo, agosto 04, 2013


Frida Kahlo, 1946.

Notícias ao meu pai:

Eu tenho mil e uma ausências que me fazem companhia.
Excesso de paciência é resignação. Eu sempre tive medo de me tornar paciente e acabar resignada. É temerosa, e por não ter outra escolha, que rogo paciência.

II

Que a minha alma esteja presente durante todos os meus presentes - e se livre da mania torpe de vagar pelo passado ou ansiar eufórica pelos minutos que ainda sequer existem. Que eu saiba estar.

I

Que os meus olhos, cansados de muito olhar para dentro, passem a enxergar uma árvore tal como uma árvore (pois se há tanta beleza em ser árvore!), uma xícara de café não como um mar de reflexões enfumaçadas e sim como uma xícara de café. E, só assim, meus mesmos olhos fartos possam descobrir uma nova maneira de olhar: com os olhos, pois, não mais com o cérebro.

I've been to sea before


Do fundo do fundo do fundo da Alma.
Todas as minhas preces entram, enfim, em comum acordo.