segunda-feira, setembro 30, 2013

Sobre os quandos, nada sabemos.
Você me pergunta como isso acontece assim, de repente, e usa a expressão do nada, que quer dizer sem circunstâncias antecedentes ou sinais prévios. E eu te respondo que se paramos e analisamos a vida, todas as Grandes Coisas, digo as que realmente pesam importância, estas acontecem assim, do nada, que quer dizer de forma arrebatadora e nunca antes imaginável. A vida, repentina por essência, acontece às quatro e quarenta e cinco de uma tarde morna, de supetão, enquanto você caminha por aí pensando que ordena os seus próprios passos. Aprende.
E que privilégio seu, plebeu, este de fazer parte das minhas notas, de se tornar personagem das minhas letras. Este de ser escolhido a esmo, sem precisar de esforços ou grandes feitos. E, de brinde, ainda ganhar todo esse livre acesso ao meu corpo, descobrir os meus ombros, tatear minha pele, me passear.
Eu te cismei. E não demora para que eu comece a lhe escrever todas essas mesmas coisas que um dia já escrevi para outros, mas que agora serão suas.

quinta-feira, setembro 26, 2013

Outra coisa é que, ao passo que desejo encontrar minha manicure, penso no quão desagradável será contar os eventos que justificam minha ausência. Talvez eu diga que sumi porque estou servindo ao exército, o que será uma meia verdade ou uma mentira poética. Além, pelo atual estado das minhas unhas, terei total credibilidade.
Tenho ouvido tanto que sou um doce um amor etc, que estou prestes a me candidatar ao Oscar. Grandes chances.
Para qualquer coisa sobre minha casa, conto com cinco pessoas. Até hoje não consegui entender que somos apenas quatro. Talvez nunca.

quarta-feira, setembro 25, 2013

Bored Couples:

Fotografia por Martin Parr, do ensaio Bored Couples (1993), onde a tão conhecida solidão a dois é explícita em retratos de casais desconectados. Vale a pena conferir o trabalho mais de perto. Arrisco dizer, aliás, que solidão a dois é o mal do nosso século. Tão comum. E, penso, talvez um dos maiores medos da minha vida esteja aí, nesta fotografia. Não sei meus porquês, só mil anos de análise explicarão minha repulsa ao boring. Sei que para mim, sem dúvida, a imagem é mais pavorosa que qualquer Diane Arbus.

terça-feira, setembro 24, 2013

Ainda sobre os ditos populares, posso discordá-los quando prefiro dizê-los, por exemplo: água mole em pedra dura, tanto bate até que esmurra. Também creio que quem tem boca pode ir tanto a Roma quanto à forca. E acho válido, sim, chorar e chorar pelo leite que por descuido se derramou, do contrário os poetas não teriam material de trabalho. Por último, devo dizer que se cada macaco permanecesse no seu galho, nós não seríamos sequer homo sapiens e viveríamos a descascar bananas ad eternum.

esmiuçando clichês:

"Nada como um dia após o outro" quer dizer, trocando em miúdos poéticos, que a melhor observação sobre os dias é que eles se sucedem continuamente. Portanto, ainda que hoje nossos corpos ameacem despencar em queda livre, o Amanhã é um trapezista circense que numa acrobacia nos pega a mão. Devo ressaltar, é claro, que facilitamos muito o trabalho deles se estamos levinhos.

segunda-feira, setembro 23, 2013

Quando suas mãos apertam minhas costas em uma massagem torta e seus ouvidos desobrigados compactuam com minhas frases extensas e despontuadas, com o meu tom pouco comedido, sem que seus lábios digam que deve-se ser assim assim assado.

você não existe, Dindi

"Ah, Dindi
Se um dia você for embora
Me leva contigo, Dindi
Olha, Dindi
Fica, Dindi"

Tom Jobim

domingo, setembro 22, 2013

E "eu também queria uma porrada de coisa" é o que tenho respondido aos milhões que me interpelam ao longo do dia para resolver os seus próprios quereres. Mas, infelizmente, não é por isso que a vida abre as pernas.
"Você é um homem ou é um rato?" é o que tenho perguntado em alto e bom som aos ratos, ainda que eu já saiba a resposta. Sou fã de perguntas retóricas.
aos navegantes aviso que nesta semana que se inicia talvez eu não disponha tanta energia para convencer os patos de que sou um pato, portanto a qualquer momento podem me descobrir infiltrada neste planeta que não é o meu, com essa fantasia que não parece comigo, e não me importo porque gosto mesmo de brincar com o perigo. quack
arrumar as malas é sempre bem mais que arrumar as malas, qualquer coisa é sempre bem mais que qualquer coisa se olharmos de perto
e o sol despretensioso atravessando a vidraça do jardim de inverno às cinco horas me lembra coisas bem Maiores
quem precisa de pontuação almofadinha
e que tu foste apenas um corpo dentre esses outros corpos que me mordem os lábios, me tocam a costela, me dão as mãos, e que tu mal soubeste onde mora a minha memória, esta que te lembra, que te traz de volta, que te redescobre em meio aos meus dias presentes, estes dias de paz abafada, de sossego ou de sufoco, estes dias que eu trocaria por um punhado de moedas, por um frio na barriga, por uma mensagem de ainda lembro (também descubro neste domingo de véspera, de pré mudanças, de pés fincados na terra, que eu reinvento certos sentimentos pelo prazer de escrevê-los, e de imediato fico rubra ao certificar a ilegitimidade do meu peito)

quarta-feira, setembro 18, 2013

Eu te amo há pouco mais de quinze horas.
Creio que as pessoas deveriam, de uma vez por todas, compreender que não existe a decisão certa. Escolher uma estrada é nunca tomar conhecimento do que as outras lhe renderiam. Nós, tão pequenos, nunca sabemos o que aconteceria se. Se seríamos mais felizes. Mais ricos. Menos amargos. O desenrolar dos fatos não é nada previsível, muito embora possa parecer. Não suponham as esquinas não percorridas, se estas não lhes pertencem. Salvo moralidades, não há opção correta, não há melhor escolha. O que nos torna, portanto, seres humanos inteiramente livres de quaisquer arrependimentos.

terça-feira, setembro 17, 2013

O que se ganha quando se perde pelo caminho todas as ilusões é a liberdade de viver sem nada por detrás. A vida se torna mais limpa. Mais precisa.
Constantemente me sinto falhar no propósito que eu mesma estabeleci. Minhas auto exigências exacerbadas. Por mais que eu faça, refaça, me doe, nunca estou satisfeita e sempre acho que eu poderia fazer mais. Mais e melhor. Com mais cuidado, mais atenta. Bebo minhas culpas.
Penso que nem os Céus estão livres de deslizes. De descuidos.
Todas as dores o Tempo tende abrandar, exceto a dor da morte física, da inexistência daquele corpo que outrora falava, sorria, dançava e hoje não está. Com o passar do calendário, a ausência torna-se mais pesada, mais real, mais convincente. É difícil duvidar de uma ausência quando ela teima em reafirmar-se todo tempo possível.
Sonhei que eu contava ao meu pai a dor de saber que ele não assiste eu me transformar numa mulher. E que jamais eu poderei fazer uma viagem e ligar para dizer: como aqui é bonito, pai! Que um dia eu conhecerei o amor, se até hoje nunca o soube, e não poderei apresentá-lo. Foi um sonho muito triste. Ele me dizia que, quando a tarde se põe, gosta de sentar na pedra mais alta para ficar me olhando lá de cima. Não nos dizíamos mais muita coisa porque, ao invés, eu chorava de olhar para ele e ele chorava de olhar para mim.

Liniers

segunda-feira, setembro 16, 2013

Muda-se, por vezes, uma vida inteira em cinco minutos e duas xícaras de café. Por outras vezes, entretanto, não. São possibilidades.

domingo, setembro 15, 2013

Muitas vezes, quando paro, lembro de como eu achava que seria o meu futuro. Um amor em cada porto. Ah, se eu fosse marinheira...

sábado, setembro 14, 2013

Outra coisa é que minhas palavras estão numa fase preguiçosa e não querem mover uma palha para que sejam compreendidas. E o meu bom humor responde que não tem problema porque não posso me culpar, afinal de contas, caso o raciocínio dos outros não queira mover uma palha para compreender minhas palavras. Maomé está balançando na rede, tomando chimarrão. E, se, a montanha que venha até ele. São questões.
Tudo na vida é contextual. Mera questão de enquadradamento. Inserido em contexto X, sounds good or not good. O que quer dizer, resumo, que nenhum conceito é totalitário. Agora não preciso mais falar nada porque já expus a sabedoria universal que, veja bem, descobri sozinha. Sorte de quem me lê.
Eu te amo há quinze horas foi uma frase que me ocorreu. Quero dizê-la. Sobretudo porque ficaria bonito num roteiro cinematográfico. O que eu digo sempre tem muito mais a ver com a cena do que com o outro. Não é nada pessoal.

terça-feira, setembro 10, 2013

- E você reza?
- Não.
- Por quê?
- Tenho lá minhas mágoas.
- Você quer falar sobre elas?
- Noutro dia, quem sabe.

segunda-feira, setembro 09, 2013

Como quem te percebe, deslizei os dedos por entre meus cabelos num gesto de denúncia própria. Também desviei os olhos e torci a boca como quem quer outra boca. Meu corpo é tão declarado que me enrubesce.
Penso em desde já costurar um vestido azul para não te receber nua quando você bater três vezes no meu portão.
Que o meu Caminho guie os meus passos. Amém.
Não existe uma única noite em que a minha mente não teime em repassar, quando as pálpebras recaem para encontrar o sono, todos os minutos do dia oito de abril. Todas as noites sou violentada pela minha própria memória.

Fellini


Não conheço sequer um homem mais macho que eu. Senta aqui, meu amigo, pede um café e eu te conto passo a passo dos meus dias, e eu te explico por que diabos você deve me respeitar.

quack quack

Amanhã pretendo voltar a usar minha fantasia de pato. Estou dando muita bandeira nestes últimos dias. Daqui a pouco descobrem que não sou um pato e estarei perdida neste incrível mundo de patos. Quack!
Um sonho recorrente que tenho com o meu pai é o de que ele volta a viver e sou tomada num susto - para depois, da mesma maneira, morrer novamente. É curioso porque eu digo a ele, em todos os sonhos, que da segunda morte é mais difícil ser salvo. Que nem sempre teremos a sorte da primeira vez, etc. Acordo atordoada.

domingo, setembro 08, 2013

fico besta quando:

"- Estou convencida de que o amor é a unica coisa a se viver. Minha infraestrutura é completamente amorosa. Eu queria viver sempre na paixão. Isso pode custar anos de vida, esse "viver" unicamente em função da paixão... Assim como uma corda esticada prestes a se romper... Enquanto a vida cotidiana, a vida doméstica, é uma coisa insuportável... Acho que só essa tensão, essa paixão, justifica o tempo que passamos a viver, e eu daria com muito prazer anos da minha vida para só conhecer esse estado... Mesmo que seja muito difícil de suportar, porque se acaba morrendo por isso, deixa-se a vida aí...
- No entanto, você diz que não conhece a fidelidade.
- É um pouco estranho, mas para mim existe um limite para a duração desse encantamento apaixonado. Um ano e três meses, acho que foi o máximo que conheci. E é terrível, porque, de repente - isso acontece de repente, de modo brusco -, eu não sinto mais nada... O encantamento acaba. O que o corpo procura é o encontro, essa descoberta inicial, esse olhar inaugural, o primeiro toque, a primeira carícia... E o que vem depois disso não passa de performances que, para mim, são um pouco tristes. Nunca mais vai ser a primeira, a segunda vez. O que eu sempre procurei foi esse encantamento: encher meus olhos com um rosto e pensar: meu Deus, nessa cabeça existem pensamentos que eu não conheço. Essa cabeça pensa de um modo desconhecido para mim. Há vinte anos eu já era assim. (...) Se eu sentisse vontade de amar um homem, eu falava para ele. Eu chegava até ele e dizia: "Escuta, gostei de você"; ou "Eu te adoro. Vamos sair juntos. Quero dormir com você". E as pessoas levavam isso a mal. Depois eu vi a mudança. A partir do momento em que, digamos, comecei a ter um nome, as coisas mudaram. Eu poderia me apaixonar por um leão e falar isso, proclamar: "Eu durmo com um leão, eu adoro esse leão"... E todo mundo ia achar incrível: "Você viu, a Hilda é extraordinária, ela gosta de um leão"... [risos]
- Você já foi casada?
- (...) E daí me casei com o homem com quem eu vivo agora. Tenho horror a expressão "meu marido". Ela me dá muita vergonha. Tive que empregá-la duas vezes em oito anos de casamento e, a cada vez eu me sinto enrubescer da cabeça aos pés. Acho abominável a situação de ter um marido. (...) Mas é terrível, porque a partir do momento em que o encantamento acaba, eu não suporto mais nada, nem que se aproximem de mim, nem mesmo que me olhem... O corpo morre, ele está morto diante do outro corpo, ele não está mais habilitado."

Hilda Hilst em Fico Besta Quando Me Entendem.
A reunião de vinte entrevistas com Hilda Hilst. Fico Besta Quando Me Entendem. Eu também fico, Hilda. E por isso hoje eu te trouxe para casa, para que a gente se entenda antes de dormir.

dos porquês

"É impossível capturar a vida se a gente não mantém diários"

Sylvia Plath, 1957, em Diários de Sylvia Plath.

quinta-feira, setembro 05, 2013

Que todas as noites ajeito os travesseiros sob minha cabeça, trago um pano molhado para as feridas, pergunto onde dói. Que me desdobrei por completo em duas para que uma cuidasse de mim mesma. Que temerosa me pergunto se vou embora de mim. Que me respondo Nunca. E que repito, quantas vezes necessárias, Nunca. Que suspiro aliviada. Que beijo minha testa. Que durmo, enfim.

que ao findar vai dar em nada

Gilberto Gil cantando Se Eu Quiser Falar com Deus. E ninguém, hoje, sabe mais do que eu sobre virar um cão e lamber o chão dos palácios suntuosos dos meus sonhos. Nem ele, talvez, quando escreveu, tenha lambido tanto o chão dos próprios castelos.
Meu pai não me mandou seu novo endereço para que eu envie as cartas que lhe escrevo. Eu fiquei esperando correspondências, que no dicionário quer dizer, também, relação mútua, reciprocidade. Neste mês são cinco meses. Eu fiquei esperando.

segunda-feira, setembro 02, 2013

Eu me fiz um cafuné até pegar no sono. Pedi que eu me acalmasse, é só um pesadelo, shhhh... Vai passar... Eu estou aqui... Eu não vou embora... Descansa...

domingo, setembro 01, 2013

"Aproveita enquanto eu quero" é o conselho que tenho distribuído a respeito de mim. Daqui a pouco é tempo demais.

O Segundo Sexo:

"Por isso mesmo não é o amor que o otimismo burguês promete à jovem esposa: o ideal que lhe acenam é o da felicidade, isto é, o de um tranqüilo equilíbrio no seio da imanência e da repetição. Em certas épocas de prosperidade e de segurança esse ideal foi o de toda burguesia e particularmente o dos proprietários fundiários que não visavam à conquista do futuro e do mundo, mas sim à manutenção tranqüila do passado, o status quo. Uma mediocridade dourada, sem ambição nem paixão, dias que não conduzem à parte alguma e que recomeçam indefinidamente, uma vida que desliza docemente para a morte sem procurar razões que a expliquem, eis o que propugna, por exemplo, o autor do Sonnet du bonheur. Essa pseudo-sabedoria, molemente inspirada em Epicuro e Zenon, carece hoje de crédito; conservar e repetir o mundo tal qual é, não parece nem desejável nem possível. A vocação do homem é a ação; ele precisa produzir, criar, progredir, ultrapassar-se em direção à totalidade do universo e à infinidade do futuro; (...) O ideal da felicidade sempre se materializou na casa, na choupana ou no castelo: encarna a permanência e a separação. É entre seus muros que a família se constitui numa célula isolada e afirma sua identidade para além da passagem das gerações; o passado conservado sob forma de móveis e retratos de antepassados prefigura um futuro sem riscos; no jardim, as estações inscrevem em legumes comestíveis seu ciclo tranqüilizador; cada ano a mesma primavera ornada das mesmas flores promete o retorno do imutável verão, do outono com seus frutos idênticos aos de todos os outonos: nem o tempo nem o espaço escapam para o infinito, ambos executam comportadamente o mesmo giro."

Simone de Beauvoir, por quem nutro uma eterna relação de amor e ódio, descrevendo como ninguém nosso pânico do cotidiano conjugal. O Segundo Sexo, volume dois, A Experiência Vivida. 1967.

One Art:

"The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster."

Elizabeth Bishop
Reagem todos com certa semelhança porque seres humanos são, por essência, farinha do mesmo saco.