quinta-feira, outubro 31, 2013

Fico me perguntando quem foi a Ophélia que rejeitou Fernando Pessoa. E Dionísio para quem Hilda Hilst escrevia calorosamente seu amor mendigo, como deixá-la? Como dizer não a almas tão fundas, estas apenas exemplos rápidos entre zil que me ocorrem se me coloco a pensar, como escolher outra pessoa que não Pessoa, este em maiúsculo não à toa, como?

Eu me apaixonei por você num dia comum de uma semana que parecia com qualquer outra semana, enquanto você atendia uma ligação e, distraído, brincava o garfo em uma azeitona que sobrava dos seus restos de almoço. Eu fiquei te olhando e você franzia o canto da boca em nítida expressão de desagrado com o que falavam no outro lado da linha, ao passo que a azeitona teimosa escorregava dos dentes do garfo sujo e alguém me pedia licença para passar apertado entre a nossa mesa e a mesa de trás. Eu fiquei te olhando.

domingo, outubro 27, 2013

Memórias

Meu pai foi morto no dia oito de abril com uma flecha no meio do peito. Os médicos chamaram de infarto e eu os perdoei pelo diagnóstico falho, se estes não sabiam que estávamos atravessando uma guerra, se afinal os termos técnicos para causa mortis e a poeticidade da vida jamais poderão caminhar na mesma calçada. Eu não sou médica, nem poeta, mas pude assistir o momento em que ele foi atingido, colocou a mão sobre o peito e desfaleceu num semblante de dor, portanto posso opinar no óbito apenas como singela testemunha. 

Deram, depois, nas minhas mãos, um saco plástico com a roupa que ele vestia. E por esse pequeno gesto tudo começou, então, a tomar forma real. Pois se retiraram sua camisa, seus sapatos, se desnudaram seu corpo, era mesmo verdade que estavam tão certos do ocorrido a ponto de não nutrirem sequer uma mínima esperança infantil, como a que eu nutria, de que num arranco ele voltasse a tomar ar. E levantasse da maca. E viesse me dizer: ufa, foi por pouco.

Eu, que respeito as leis dos céus tanto como peito as leis dos homens, não cuspi inconformidades. Cuspi primeiro incompreensão, porque tenho o direito, e depois incompletude, essa prosa natural de todos os incompletos.

terça-feira, outubro 22, 2013

Disseram que eu tenho que escrever PARA FORA como se minhas palavras fossem o cento do salgadinho. Faço textos para fora. Campainha quebrada. Favor bater no portão.

que da noite pro dia você não vai crescer

Nas lutas contra o rei
Nas discussões com Deus

segunda-feira, outubro 21, 2013

vinte um de outubro

Parabéns para mim. Que eu continue sendo tão assim como eu sou. Que os céus digam amém quando meus desejos forem dignos de améns. Que estes meus anos sejam pouco perto de tantos outros que ainda viverei, se tenho muito a fazer por estas bandas de cá. E que um dia, quando o meu tempo por bem esgotar, que eu possa voltar cantando vitória aos braços do homem que me fez.
Sempre sou mais apaixonada quando chego em casa do que pessoalmente. E isso diz muita coisa, afinal.

terça-feira, outubro 08, 2013

Como é gostoso o que acontece a cada um desses que, por audácia, embarcam na loucura de ser quem se é.
Hoje só peço da Vida o que é meu. Não desejo nada além do meu caminho. Pois, se for de pedras, que seja. Minha prece não se baseia em quereres. Que chegue até mim o que melhor me cabe. Comerei de bom grado, se este for meu prato. Foi quando frente ao destino aprendi a ser pequena. Foi quando virei gente grande.

segunda-feira, outubro 07, 2013

Nada é demora quando descobrimos o prazer de todas as horas. Cada passo nos situa. Cada momento nos faz.
"Amor fati (do latim amor, nominativo singular de amor,óris: 'amor a algo' e fati genitivo singular de fatum,i, 'destino') é uma expressão latina que significa 'amor ao destino', 'amor ao fado'."
Nada é estranho aos olhos do mundo de hoje. Nada é chocante. Toda sorte de absurdo é dita e encarada com naturalidade. Neste tempo, tudo é normal. Matar a mãe, os filhos, o vizinho. Sentar-se durante um almoço a conversar com desconhecidos sobre seus estímulos anais preferidos. Normal.

quinta-feira, outubro 03, 2013

“No puede ser que estemos aquí para no poder ser.”

Cortázar, sempre pontual, em Rayuela (1963)