terça-feira, dezembro 31, 2013

Se os calendários já nada me dizem, eu me desejo um bonito amanhã, um bonito depois de amanhã, e que todos os amanhãs posteriores me deem razões para continuar a sorrir fundo apesar de qualquer pesar.

segunda-feira, dezembro 02, 2013

José e Pilar (2010)

Saramago, meu mal humorado preferido.

terceira lei de Newton:

Digam, pois, todos vocês, o que acharem devido. E então respondo, ora!, da maneira que melhor lhes cabe.
Como é bom encontrar quem fale a nossa língua, reconhecer nossos conterrâneos. Dizer, enfim, ao outro: tu não precisas fazer grandes explicações, eu te sei logo assim que tu começas o discurso.

domingo, dezembro 01, 2013

Estão falando muito sobre a chegada de Dezembro, o final de 2013, e o fato é que tenho me sentido inábil para prosseguir o assunto, se para mim as mudanças não acontecem em função dos calendários. Se, como digo, pode-se mudar uma vida inteira em dois minutos e duas xícaras de café. Se, como sei, os verdadeiros amanhãs não têm nome, nem número, nem avisam quando vão chegar.
Outro dia escrevi despretensiosa, no meio de tantas outras palavras, "o que se há de fazer quando cada um é que sabe o que faz seu coração bater" e achei bonito. Nossa falta de controle sobre o peito dos outros. Nossa inaptidão humana de criar reciprocidades.
E assim nós dois fomos nos desacontecendo. Até o dia em que poderemos jurar, de fato, que nunca acontecemos.

would you love me 'til i'm dead

Amigo,

Como estão as coisas?

Desculpe a demora. Não foi falta de tempo, porque tempo a gente é quem faz. Foi falta de vontade de olhar para dentro. E escrever, até um e-mail despretensioso como este para dar notícias sobre as bandas de cá, exige uma grande lupa bem no meio do próprio peito. Assusta. A gente faz preguiça, finge que não vê. Tapa os Sóis (se são vários) com peneiras fajutas. Tudo para não constatar a bagunça dos interiores.

Você está sozinho, sim. Sobretudo porque todos nós estamos. Acontece que são poucos os que pensam a respeito disso. Creio que compartilhamos momentos, opiniões, gargalhadas, colo, cama, saliva. Até teto, se existem os casais e as famílias. Mas, no fundo, estamos sozinhos. Sempre acreditei nisso, em mim sempre foi uma verdade absoluta. Essa é a sua vida. Somente sua. Somente.

Acho, sim, que a solidão é mais palpável conforme ficamos mais fundos. Quando se nada no rasinho, compartilhar é coisa fácil. A cada esquina se encontra. Difícil mesmo é encontrar alguém vibrando na mesma frequência quando se está além. Mas, eu juro, acontece. Eu estou aqui - e te leio, te compreendo. Entendo até essa sua preguiça de mostrar a alma. A gente vai ficando meio pessimista quando adivinha os próximos capítulos. Só que, eu juro de novo, a gente pode se surpreender. Nunca se sabe quando. Amanhã, quem sabe. Não perca a esperança nos amanhãs.

Torne a acordar, insistir, jogar nessa grande loteria que chamam de vida. E, eu por último te juro, qualquer dia ela acaba. Tudo fica mais gostoso quando sabemos que tem fim.

Tenho vivido na pele esse grande paradoxo. Vivo pensando que morte de fato chega. Eu vi. Com esses mesmos olhos que a terra também há de comer. E, por incrível que pareça, nunca fui tão livre.

(...) e o mundo está tão feio. Hoje é feio demonstrar afeto, interesse, carinho. As pessoas mais admiradas são corações de pedra, estátuas mudas, que não se movem em direção ao outro. Está tudo errado. E não é porque está tudo errado que eu tenho que estar errada, também. Me expus. Com o perdão da palavra, tenho cu para isso.

Mande notícias! São 23:17h. Tenho sono e não quero dormir.

Beijos,

Eu

Amélia,

Li seu e-mail enquanto fumava dois cigarros. Estava tentando me controlar a respeito dos cigarros, mas nos últimos dias larguei de mão. Larguei tudo de mão, aliás.

Vamos lá:

Sempre achei que amor é um conceito muito pessoal, portanto muito relativo. Cada um aprendeu ao longo da vida (durante experiências, palavras, contatos, filmes água com açúcar) o que, afinal, significa o tal do amor. "Essa palavra de luxo", como diria Adélia Prado. E cada um o entende da sua forma particular, o que seria muito natural caso todas essas formas tão (e, acredite, TÃO) distintas não atendesse pelo mesmo nome: amor. Gosta-se ou não de determinada pessoa. Fulano faz meu coração acelerar. Quero estar perto dele. Tudo bem. Creio que não há, nem carece de, muita lógica nessas escolhas passionais que o nosso corpo faz. Entretanto, acredita-se que o amor é muito mais, é bem maior, que tudo isso. E, penso, talvez essa ideia tão grandiosa, quase colossal, esteja um pouco equivocada. Talvez esteja fora dos padrões de realidade. O amor, ao menos a minha concepção de amor, não é surreal. Não é uma quimera. O amor, creio, é um gostar que vai sendo praticado. E toma forma, e cresce - como naturalmente acontece com o que se alimenta.

Te digo tudo isso, e peço perdão pela delonga, para opinar levianamente na sua história: não existe amor perfeito, amor completo, único, eterno, insubstituível. Acredito que você o ama. Acredito piamente. Mas não se cobre tanto por isso, não exija tanto do seu sentimento. Não espere que isto vá te preencher de todas as formas. Talvez eu seja a única pessoa que vá te dizer isso, mas: é só amor. Há, ainda, todo resto. E todo resto é o que você (também) está vivendo. Sei que não é tão simples assim. Mas não é tão complicado quanto parece. É uma situação delicada, sei que tudo se confunde, passamos a questionar o que afinal estamos sentindo. Fomos criados para um ideal romântico que, no frigir dos ovos, nunca se cumpre. Que grande confusão é a humanidade.

Juro que te entendo. E, ainda assim, o único conselho que posso te dar é: não se cobre dessa forma. Solte um pouco as rédeas da Vida. Deixe que os acontecimentos se desdobrem sozinhos. Eles têm força suficiente para isso, eu te juro. Largue-se. Você não vai se afogar. A maré sabe onde vai dar. Não demora muito e o tempo clareia.

Deite hoje a cabeça no travesseiro e durma o sono dos reis. É este o sono que deve acompanhar os que têm coragem de fazer o que desejam. Eu gosto dos seus modos confusos, dos seus pensamentos tortos, porque eles me soam Reais (em ambos os sentidos).

Me escreva mais. Te escrevo mais! Tenho muito para contar, está na minha vez.

Muitos beijos,

Eu